A vitória completa da direita

A narrativa de direita sobre esta crise é simples e pronta a ser digerida por qualquer idiota. Reza assim, resumidamente: Portugal vivia há anos em despesismo descontrolado, um regabofe que vem desde o 25 de Abril, quando tirámos do poder uma gente que embora desagradável era poupada e de boas contas (ninguém lhes tira isso) e torrámos o dinheiro que tínhamos e não tínhamos – sobretudo o que não tínhamos – em brutas obras públicas, rotundas, fundações por tudo e por nada, escolas de luxo para formar jovens em sociologia da literatura arqueológica, piscinas em todas as aldeolas que tivessem um presidente da junta a querer ser eleito, e principalmente a satisfazer o estilo de vida dos vários grupos de interesse que entretanto se instalaram e se regalaram a viver no luxo às custas do estado e do dinheiro que este pedia emprestado aos prudentes bancos do norte sem cuidar se podíamos pagar tantos direitos que escrevemos na constituição.

Isto, em escrita assumidamente populista, é o que nos andam a vender desde 2009, quando se percebeu que a crise das dívidas soberanas era uma das maiores oportunidades para alcançar o poder e desfazer o odioso estado social para o qual a gente séria está farta de pagar impostos.

Veja-se então, a título de exemplo, este naco de prosa exemplar (bolds meus):

Portugal não pode regressar ao passado de dez anos, 20 ou 30 anos (…)

todas as opções políticas devem passar pelo crivo da sustentabilidade, seja na Saúde, na Educação, na Segurança Social ou nos investimentos (…)

Precisamos de um compromisso entre gerações e entre políticas públicas. Os direitos são fundamentais numa democracia, mas esses direitos têm de corresponder a uma sustentabilidade das políticas públicas. Não podemos pôr de lado o rigor e a disciplina a que deve obedecer a gestão dos dinheiros públicos. Propomos um limite para a despesa corrente primária, porque é fundamental, sobretudo no período de ajustamento

 

Nada teria de especial, estando perfeitamente integrado na narrativa que acabei de descrever, não fora um facto, digamos, desconcertante: o autor destas ideias é António José Seguro, o Secretário-Geral do PS, e supostamente adversário do governo que as implementa.

Temos então uma situação peculiar em Portugal: tirando protestos políticos e acusações espúriuas, ou seja, teatro político à parte, o líder da oposição concorda, ponto por ponto, com o líder do governo tanto nas causas da crise, como no diagnóstico das medidas, e finalmente na estratégia para o futuro. As diferenças, a existirem, serão pontuais e provavelmente completamente esbatidas por exigências externas. O que nos leva à conclusão de que nas próximas legislativas, um cidadão apoiante dos moderados do chamado bloco central tem à sua escolha a continuação das políticas do governo pelo actual governo, ou a continuação das politicas do governo por alguém que fará uma cara mais solene.

O que leva, finalmente, à seguinte interrogação: será António José Seguro de direita, estando infiltrado no PS (o que daria pelo menos uma explicação semi-plausível para o seu desaparecimento quando todos discutiam o OE2014)? Ou será António José Seguro um cobarde político que acha simplesmente mais fácil alinhar com ideias já enraizadas na sociedade, até por falta de oposição, para se fazer eleger Primeiro-Ministro pela via de menor desgaste e confronto possível?

Eu, pelo menos, sei a resposta. A narrativa de direita venceu. E neste caso, por falta de adversário.

16 thoughts on “A vitória completa da direita”

  1. António José Seguro, embora aparentemente menos prepotente, é feito do mesmo barro que Pedro Passos Coelho: é educado desde novo para achar que o chegar ao poder é em si mesmo um fim e que as medidas a tomar são um meio para garantir o continuar da sua ascensão. É de esquerda, de direita, de cima e de baixo e às vezes violentamente abstencionista (que imagino que seja algo como “EU NÃO TENHO OPINIÃO ACERCA DESTE ASSUNTO E VOU ÁS FUÇAS DE QUEM DISSER QUE TENHO”, só que traduzido através da linguagem asséptica e sem résteas de carisma de Seguro).
    E o que não têm faltado é vitórias absolutas da direita (mesmo, e até principalmente, na derrota): já a Terceira Via nada mais era do que o Thatcherismo em pele de cordeiro, e é confrangedor assistir à viragem à extrema-direita em termos de política de emigração do PSF.

  2. Ola,

    Pessoalmente, acho o Seguro fracote e considero bastante infeliz que o PS não consiga encontrar melhor. Agora também não é por isso que devemos deixar de prestar atenção ao que é dito.

    Explica la, caro Vega 9000, com que parte do texto é que discordas ao certo…

    E’ que eu, que sou geralmente visto aqui como um lunatico esquerdista aprendiz de Che Guevara, estou bastante proximo de acreditar no extremo OPOSTO daquilo que dizes.

    O que é profundamente de direita, a meu ver, e que infelizmente é um discurso aceite hoje por quase toda a gente de forma acritica, é pensar que o que é dito no texto que citas é um discurso de direita…

    Desculpa la…

    Boas

    PS : Isto para não te perguntar com que parte desse discurso o Socrates (o teorico ou o pratico) discordaria. Porque quando se toca aqui no menino jesus, caem varios carmos e varias trindades…

  3. As campanhas de intoxicação criadas nos vários laboratórios, conseguiram atingir vastas
    camadas populacionais, os distraídos fácilmente acreditam nas tretas, não se compreende
    que o mesmo possa ter acontecido aos muitos militantes do PS, como já foi dito isto é
    tudo farinha do mesmo saco!!!

  4. O julgamento que fazes do TóZé parece-me demasiado exagerado. Isto é mais do mesmo, umas banalidades sem substância nenhuma. E isso é que é mais dramático.

  5. O que o PS, agora, deveria ser? Ou melhor, o que a triste realidade do país exige, todos os dias, que o PS seja?

    Fazer política em alturas de profunda crise da nossa nacionalidade — que rivaliza em severidade com as de 1383-85, 1578-1640 e 1807-1814 — exige audácia.

    Em primeiro lugar, audácia na busca do conhecimento; o “saber audaz” de que nos falava o iluminismo.

    Em segundo lugar, audácia na acção, com a solidez que lhe advém do esclarecimento.

  6. kamarada,como te compreendo! andas há anos a ser controlado por um partido de bandalhos e depois descarregas a tua bilis, em quem nunca a ti ou ao teu partido se referiu,ou beliscou! cuidado! se cagares na sede do pcp,vê e cheira o que obras, por que se suspeitam de ti,até a tua merda vão analisar,para ver se andas metido com os indignados que não são socialfascistas!

  7. Penso que a coisa é mais grave. Não foi o Seguro eleito no partido pelos mesmos que tinham elegido Sócrates uns anos antes? Bom, se foi assim (e foi assim), então é o PS que há muito deixou de ser de esquerda, mas apenas conquistar o poder, um objectivo que não o distingue particularmente do PSD. Parece-me cada vez mais óbvio.

  8. não quero dizer que josé suguro é cobarde como já foi dito por outro ,mas para mim e olhando para o pantano em que estamos mergulhados escolher entre Coelho e Seguro é uma Lotaria que não vai ser premiada vai ser a continuação mais do mesmo, a não ser que o Ps apresente um outrop candidato e o mesmo no Psd que tambem poderá apresentar outro candidato pois o descontamento interno é comum quer no PS quer no PSD agora só falta ter coragem em ambos romper com as Copulas e se isso acontecer que poderia ser bom para a democracia teriamos que analisar bem as pessoas candidatos

  9. Para justificarem o roubo feito aos funcionários públicos e aos aposentados dizem que vivemos acima das nossas possibilidades.
    A Troika que nada sabe sobre Portugal descarrega sua fúria sobre os portugueses com menor defesa em protesto.
    Ao poder chegou e tem chegado uma corja para encher os bolsos e o dos amigalhaços, de um polvo que começa na Assembleia da República, apadrinhado na PR e por um sistema judiciário comprometido a apodrecer lentamente, por que tem o garrote das benesses que não o deixa agir na salvaguarda dos portugueses em geral.
    Vejam um pequeno exemplo publicado pelo jornal O Correio do Minho, no dia 14 de Novembro, do jornalista Costa Guimarães.
    Até quando será possível suportar a corja?! E meter os responsáveis na prisão?
    Para quando a vassourada que tarda?!

    “Agradeço a quem tem disponibilidade psicológica para ler os
    relatórios do Tribunal de Contas – essa força de bloqueio – que
    os autarcas, secretários de Estado e ministros toleram.
    De facto, essa força de bloqueio proporciona-nos momentos hilariantes,
    porque as tristezas não pagam dívidas…
    Vejam só que a ARS do Alentejo decidiu adquirir um armário
    persiana, duas mesas de computador e três cadeiras de costas altas
    e rodinhas que custaram noventa e sete mil euros… quase cem
    mil euros. Estas peças devem ser de ouro.
    Em Matosinhos, a empresa municipal de habitação gastou 142
    mil euros para reparar uma porta de entrada do edifício. Alguém
    sabe de que é feita esta porta? O Tribunal de Contas não sabe.
    A Universidade do Algarve gastou numa viagem aérea até Zagreb,
    capital da Croácia, durante quatro dias, 33 mil euros. A
    TAP revelou ao Tribunal de Contas que a viagem de ida e volta
    custa 1700 euros. Em que foram gastos os 32 mil euros? O Tribunal
    de Contas também não conseguiu perceber. A câmara de Ílhavo
    comprou três computadores, uma impressora, dois leitores
    ópticos e pagou quase 400 mil euros, trezentos e oitenta mil,
    mais rigorosamente. O Tribunal de Contas ficou bloqueado.
    Completamente embriagados ficaram os relatores do Tribunal
    de Contas quando viram que a Câmara de Loures gastou mais de
    652 mil euros em vinho tinto e branco. Certamente não era para
    distribuir nas escolas.
    Mas vá que não vá, porque Loures é uma câmara rica, agora o
    que se passou na câmara de Sabugal, não dá para entender. O
    município gastou um milhão e duzentos mil euros para comprar
    uma viatura ligeira de mercadorias (uma carrinha Renault).
    Há coisas fantásticas, não há? Ah, pois há. A câmara de Sines
    pagou a mesma quantia – um milhão e duzentos mil euros — pelo
    aluguer de uma tenda para a inauguração do Museu do Castelo.
    O Tribunal de Contas ficou embasbacado ao perceber que o
    aluguer de uma tenda custa mais que a carrinha de Sabugal e
    uma boa casa.
    Finalmente, mas em primeiro lugar: a câmara de Beja abriu um
    concurso para uma fotocopiadora multifuncional e pagou seis
    milhões e meio de euros. Repito, seis milhões e meio de euros.
    Este contrato público é um dos mais vergonhosos que se encontra
    no site do Tribunal de Contas. E ninguém vai preso por obscenidades
    como esta?
    Nós, limitamo-nos todos a ser o bobo da corte, sim, esse mesmo
    que “… divertia o rei e os áulicos. Declamava poesias, dançava,
    tocava algum instrumento e animava as festas. De maneira geral
    era inteligente, atrevido e sagaz. Dizia o que o povo gostaria de
    dizer ao rei e zombava da corte”. É o que nos sobra fazer.”
    .

  10. Essa narrativa é tanto de direita como a narrativa da esquerda resumir-se a “o problema disto é os privados fazerem tudo, quando o estado é o único que consegue fornecer algo sem prejudicar. Daí o que temos de fazer é simplesmente gastar mais e garantir que é o meu partido aquele que decide quem contrata quem”

    Este artigo é uma espécie de atlas shrugged à portuguesa. E tem tanta validade como o livro para servir de base de discussão sobre a realidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.