A pátria que o Euro construiu

We all know what to do, but we don’t know how to get reelected once we have done it.

Jean-Claude Junker

 

Uma teoria muito em voga sobre o resgate grego andava à volta do ganho de tempo para que os bancos alemães e franceses, e as respectivas economias, se pudessem proteger devidamente contra o inevitável default da Grécia. Face à irracionalidade do que foi imposto a esse país, era uma teoria válida, uma explicação possível. Dois anos depois, com esse tempo decorrido e a Grécia a uma eleição desse mesmo default, o pânico e o desespero parecem instalado por todo o lado, desde Berlim aos mercados. Temos a chanceler alemã a tentar influenciar directamente resultados propondo um referendo que tinha rejeitado ainda há poucos meses, ameaças várias de quase todos os responsáveis europeus, juras de que vão agora tratar, finalmente, de um plano de crescimento para a desgraçada economia grega, e um muito irritado Jean-Claude Trichet a sugerir, quase directamente, a invasão do país. O desespero é palpável. E não devia ser, porque os principais prejudicados com o default seriam os próprios cidadãos gregos. Se acham que a austeridade é má agora, esperem até terem que decidir entre importar gasolina ou medicamentos. Portanto, porquê este pânico à escala europeia, e estas reacções que, à primeira vista, parecem perfeitamente disparatadas? Em dois anos, não tiveram tempo para se proteger?

Agora , graças à crise, já sei bastante mais de economia do que gostaria, obrigado, mas não sou economista e não vou oferecer explicações detalhadas sobre a arquitectura do Euro ou o papel do BCE. E não vou andar aqui a defender os gregos. Vamos ser claros: os gregos têm muitas, muitas culpas pela situação em que se meteram. Não vamos tratá-los como crianças que não sabem o que fazem, não vamos culpar “os políticos gregos”, ou a corrupção generalizada, ou quem recebeu, durante anos, milhares de milhões em fundos estruturais dos parceiros e desperdiçou grande parte em esquemas. Em democracia, o povo é o ultimo responsável pelo comportamento dos políticos, pela sociedade que se constrói e pelos caminhos que se percorrem. Se os gregos estão nesta situação, a eles se deve. Tal como se estamos nós nesta situação, só nos podemos culpar a nós próprios. Mal ou bem informados, escolhemos o nosso caminho, tal como os gregos.

Dito isto, está a tornar-se cristalino que se as escolhas são da responsabilidade dos cidadãos dos vários países, as consequências afectam todos na união monetária onde estamos, e mais além. Lembram-se de assinarem alguma coisa que vos co-responsabilizasse pelo comportamento dos gregos, espanhóis ou franceses? Eu também não. E no entanto, torna-se claro que é exactamente o ponto onde estamos. Um cai, e caem todos como dominós. Estamos juntos neste lindo sarilho, e sem grande escapatória senão ajudar a limpar a merda que os outros fazem e ver se evitamos que façam outra vez. Isso foi o que não disseram a ninguém quando foi introduzida a moeda única, sobretudo aos eleitores alemães. E é compreensível, de um ponto de vista político, que não o queiram dizer na Alemanha antes das eleições de 2013. Deixam cair a Grécia depois de esta mandar a troika às malvas, abrem um precedente e libertam um vendaval que acaba com o Euro em alguns meses e lança o mundo para outra depressão. Salvam a Grécia depois de estes decidirem mandar a troika às malvas, e toda a gente percebe que os gregos são tão donos da economia alemã como os próprios alemães. O dinheiro, afinal, construiu uma pátria.

Bem-vindos por isso, cidadãos, aos Estados Unidos da Europa, construída laboriosamente tratado a tratado sem dizer nada a ninguém. O Alex Tsipras está ansioso por ser o vosso anfitrião.

13 thoughts on “A pátria que o Euro construiu”

  1. “Lembram-se de assinarem alguma coisa que vos co-responsabilizasse pelo comportamento dos gregos, espanhóis ou franceses?”
    Não, mas também não me lembro que os portugueses tenham sido consultados sobre a sua responsabilidade em entrar para o Euro, ou aprovar qualquer tratado sobre a UE.
    E quem é que nunca quis referendar os Tratados, Euro inclusive?
    Não foram os portugueses com certeza, da mesma maneira que os gregos nunca se pronunciaram sobre a compra dos submarinos aos alemães, dos helicópteros aos franceses e da dívida privada (odiosa) feita em seu nome.
    Portanto, essa coisa de “temos todos culpa, logo a culpa não é de ninguém”, não é verdade. Há uns mais culpados que outros. No caso grego as “famílias habituais” que controlam o Nova Democracia e o PASOK. No caso português, as “famílias habituais” que controlam o PSD e o PS.

  2. pois é, oh mota! comuna quando cheira a lagosta é o primeiro a sentar-se à mesa e a pirar-se para não pagar a conta. foi o portas que comprou os sumarinos e que eu saiba não é psd e muito menos ps. tá descansadinho que o pessoal sabe quem fez e faz a merda.

  3. rui mota, tens razão sobre os referendos. Mas tens alguma dúvida sobre o sentido de voto, em Portugal, de um referendo sobre a entrada no Euro? Eu, que me lembro do entusiasmo, não tenho.
    Quanto ao resto, discordo. Os povos, em democracia, são responsáveis pelas acções dos seus governos. Foram, afinal, eles que elegeram as “famílias” do PS e PSD. Livremente, se bem me lembro.

  4. Ignatz,

    Continuas desléxico, pá.
    Eu falei em consultas (referendos). Os submarinos de que falei, foram os gregos. Que o Portas encomendou 2 submarinos, também sei. Também sei que o Guterres queria encomendar 4. Vê lá se estudas, pá!

  5. tá bém oh mota! marca lá uma consulta (referendo) prá “desléxia” que já topei que és bom no diagnóstico e na prescrição.

  6. Os gregos estão-se nas tintas para o euro e a Merkel. Tanto os políticos como o povo. Estão n’outra: Rússia, Síria, Israel, Chipre, etc. e não querem vir a ter que pagar as dívidas com o dinheiro do petróleo que descobriram lá prós lados de Chipre.

    De resto a Alemanha sempre esteve nas tintas para os países balcânicos, dos quais a Grécia faz parte… ela sabe…

  7. vocês desculpem a ignorância, mas pensava que os kamikaze eram uma cena japonesa e por motivos de honra , agora parece que é uma cena alemã (velhos aliados dos japoneses) mas por uma questão de contabilidade rasca…Que culpa têm os gregos que a Alemanha tenha investido a Banca em força no seu território. Temos de levar sempre os boches às costas e eles a nós? E que tal uma Europa sem Alemanha?
    http://www.youtube.com/watch?v=gY86ADsJvcY

  8. mota,

    as supostas intenções do Guterres e os termos em que o negócio não foi feito….são uma coisa. Outra, é o facto de os responsáveis do lado alemão já terem sido condenados, e os responsáveis do lado português não, porque temos o face oculta. Parece que os boches fizeram a falcatrua sem parceiros. É que os parceiros são agora altos representantes do Estado portguês e não convém. Quanto a isto, o melhor seria acusar o Guterres…ou o ´cartes. mas que se encontre um parceiro, caramba.

  9. temos, edie, temos sempre que levar os boches às costas e eles a nós, e uma União sem a Alemanha não me parece viável ou desejável e, para todos os efeitos, não é possível nesta altura voltar para trás sem dar cabo disto tudo. Lindo casamento, não é? E nós a pensar que estávamos só a viver juntos…

  10. é por isso que não adiro ao papel… Mas não diz lá na cerimónia que é para o bem e para o mal? E respeitar sempre, e tal, ora aqui parece que o marido está sempre a dar porrada na mulher, que, por isso mesmo, cada vez mais o engana, que por sua vez mais lhe bate.

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