Viva a “blogosfera política”!

A notícia do fim do Arrastão convida-me a uma reflexão à volta do que ficou carimbado como “blogosfera política”. Como se pode ver na lista de autores que já escreveram no Aspirina B, lá estão os nomes Daniel Oliveira e Rui Tavares, então em trânsito depois do fim do Barnabé e já consagrados como as duas novas estrelas no campo da política-espectáculo, correspondendo ao começo de um ciclo de intenso protagonismo de comentadores com a marca Bloco de Esquerda na comunicação social profissional que foi especialmente importante para o desgaste da maioria socialista e para os resultados eleitorais de 2009. Estávamos no princípio de 2006, este blogue tinha 3 meses (fundado a 25 de Novembro de 2005) e esteve logo para acabar. Essa foi a primeira lição que tive a respeito da fragilidade dos blogues políticos colectivos, imprevisibilidade elevada a uma potência desconhecida quando se juntavam pessoas cujos narcisismos disfuncionais e diferenças ideológicas necessariamente provocariam – mais cedo ou mais tarde mas quase sempre muito mais cedo – conflitos insanáveis. Mas a segunda lição, que na ordem do tempo até foi a primeira, era a de que logo em 2005 se podia dar como acabada a blogosfera política. O que assinalava tal óbito era o fim do Blog de Esquerda (das cinzas do qual se fez o Aspirina B). Os fundadores, após três anos, estavam cansados do serviço, tinham mais e melhor para fazer. Era a evidência de que nada de politicamente importante jamais sairia dos teclados dos foliões que se divertiam nos blogues como outros se divertiam na televisão ou nos jogos. Isto da “blogosfera política” não passava de um passatempo inconsequente.

Claro, pode dizer-se que a blogosfera política nasceu precisamente nessa altura, com a continuação de blogues de referência que já vinham de 2003 como o Abrupto ou o Blasfémias desde 2004, a que se juntou uma nova fornada que viria a manter-se em formação até ao presente com poucas alterações e com diferentes graus de actividade. A História de tal fenómeno, se algum dia viesse a ser feita, teria de incluir dezenas e dezenas de exemplos, e não apenas a dúzia dos que recolheram mais notoriedade. Tal calendário, de resto, acompanhou a progressiva e crescente democratização da Internet, a qual começou por ser ocupada pelos nichos mais social e intelectualmente privilegiados. Para aqueles que iam entrando no hábito de consumirem conteúdos digitais populares, tudo era uma novidade – enquanto que para os autores maturos, alguns que já tinham começado a viver freneticamente a comunicação digital desde os anos 90, tudo já estava visto e/ou gasto.

O que me importa realçar é a irrelevância eleitoral desta produção de anos e anos de imparável escrita e conversas. Mesmo no pico das audiências, antes da migração em massa para o Facebook e Twitter, os blogues eram uma gota no oceano mediático nacional. Uma gota com a sua importância, sim, mas por via lateral. Serviu de trampolim para alguns acederam aos lugares no palco que ambicionavam (como o genial Fernando Moreira de Sá nos fez o favor de explicar com nomes, números e datas) e continua a servir como alimento mental para políticos e jornalistas. Quanto ao resto, e acompanhando a degradação do espaço público que a actual direita promoveu desde 2008 com a entusiasmada colaboração da esquerda, nem sequer para o debate a blogosfera política serve. A regra é a excepção, servindo a escrita para marcar territórios e para catarses de variada origem e tipologia. Isto na montra, já na cave, no mundo dos comentários, é muito provável o aparecimento de patologias depressivas e paranóicas que conseguem intoxicar os ambientes onde permanecem livremente. A “blogosfera política”, perdido o encanto da novidade e sendo como uma carroça perante um automóvel na comparação com os novos canais e meios da actual paisagem digital, tem um destino parecido com o da rádio: ligamos-lhe quando estamos ensonados, ao volante a pensar na morte da bezerra ou se há um jogo importante e não o conseguimos ver na televisão.

O que fica? O prazer de nos expressarmos. Seja lá onde e como for. Viva, mas só por essa única e alegre razão, a “blogosfera política”!

19 thoughts on “Viva a “blogosfera política”!”

  1. deixa lá, aquilo renasce e multiplica-se caso socras voltar a depender do favor popular. agora é tempo de facturar os serviços de intoxicação prestados à democracia e não há tempo a perder com merdices pro-boné.

  2. de facto, podermos expressar-nos livremente é o que ainda vai contando. e ainda bem que não são todos amantes da rádio – ou a sobrecarga faria ansiedade ao gozo. :-)

  3. Pela minha parte, considero este e outros blogs, um meio de informação fundamental para ir percebendo o que se passa no ambiente profundamente pantanoso em que se tornou o espaço mediático. Nos blogs ninguém se arroga em independente, todos sabemos que são opiniões parciais. É do mais intelectualmente honesto que podemos encontrar e cada um decide o que para si faz mais sentido. Toda a comunicação social deveria ser assim, sem subterfúgios, sem pretenções fraudulentas de isenção. Visito este e outros blogs religiosamente todos os dias. Podemos ser uma minoria. Mas gosto de pensar que me ajuda a manter os olhos abertos e isso, neste momento, não tem preço.

  4. Este seu texto, val, cai um pouco para os lados do depressivo! Os blogs têm muitos defeitos, mas têm uma grande virtude: não sofrem da censura editorial. O autor (e os comentadores) dizem, sem constrangimentos que não sejam os da sua própria alma, o que pensam; quem quer, lê, quem não quer, passa adiante ou protesta. Torna-se, por isso, num espaço muito mais dialéctico; no sentido discursivo da palavra, mas não só.

  5. joaopft, com certeza, isso é indiscutível. E podemos estender os benefícios dos blogues a muitas outras dimensões para além da liberdade de expressão. Mas o meu texto não versa sobre “os blogues”, mas sim sobre a “blogosfera política” – a qual, na sua origem, prometia ser um espaço de renovação do debate político. Ora, nada disso aconteceu, bem pelo contrário…

  6. “blogosfera política” – a qual, na sua origem, prometia ser um espaço de renovação do debate político. Ora, nada disso aconteceu, bem pelo contrário…”

    Estás a morder na mão que te dá de comer, Val. Nunca o debate político foi tão plural, intenso e esclarecido. Mais uma vez, pareces o Pacheco Pereira a dizer que a blogosfera política estava arrumada pouco antes de meio parlamento e meio governo ter sido ocupado por crias da blogosfera, de todos os partidos. Acho que muito dificilmente alguém voltará a ser eleito sem um registo público regular das suas ideias e propostas, seja em blog, facebook, twitter ou site, que é tudo mais ou menos a mesma coisa.

  7. Lucas Galuxo, estás a falar da dimensão digital das personalidades que entrem em disputas políticas. Essa é uma outra conversa, distinta daquilo que tem uma tipologia específica e um tempo próprio, a blogosfera política.

    O facto de hoje em dia qualquer político se expressar no Facebook, Twitter ou onde lhe der na mona adentro da Internet não corresponde ao fenómeno de organização social do debate político que a blogosfera representou em diferentes fases da sua existência.

  8. meter no mesmo saco blogues com FB e Tw é o mesmo que dizer que laboratórios de ideias são a mesma coisa que campanhas de MKT. e se forem muitos a escolher o saco é sinal que, de facto, escasseiam cada vez mais os laboratórios de ideias políticas. mas isso não quer dizer que não os haja, porque há, por exemplo aqui. talvez seja o conceito de debate e de matéria política que faça ruído – ruído no debate porque as elites dispersaram e há povo que só comenta para desestabilizar; ruído nas matérias por conta de comentadores e comentados considerarem que histórias ou apontamentos ou curiosidades não fazem parte daquilo que é ser política. ora o estado apolítico começa exactamente na desestabilização e na ausência de humanismo. e é por isso que daqui não saio e tem vezes, poucas, que, ruído em bicos de pé, apenas me retiro.

  9. ” fenómeno de organização social do debate político que a blogosfera representou em diferentes fases da sua existência.”

    O que raio é isso, pá?

  10. Discordo totalmente do Val. Se alguma coisa o golpe de Março de 2011 trouxe de bom para a sociedade portuguesa foi uma requalificação superior do debate político. Seja em blogues, colunas de opinião nos jornais, comentaristas e debates na TV, FB, Twitter, … acho que nunca houve tanta gente a sentir-se desafiada e ter oportunidade de partilhar abertamente as suas ideias e tanta possibilidade de réplica pública e registo para memória futura. Nem tanta gente a esforçar-se para elevar a categoria da sua intervenção. Há muito lixo? Há. Sempre houve e há-de haver.

  11. Lucas Galuxo, o raio que isso foi consistiu na reunião de pessoas dentro de canais (os blogues) onde se produziam reflexões à volta de diferenças ideológicas e de projecto político. Esses grupos tinham interesse em dialogar uns com os outros, tendo havido variadas experiências de muito civilizado e frutuoso resultado.

    Quanto ao que dizes do que aconteceu após Março de 2011, tal só revela que desconheces por completo o que aconteceu antes.

  12. “Quanto ao que dizes do que aconteceu após Março de 2011, tal só revela que desconheces por completo o que aconteceu antes.”

    Bom, diz lá o que acontecia de tão especial que agora já não se consegue encontrar. Se fosses de direita ainda podias ter alguma razão de queixa, agora, na esquerda, quase todos os dias aparece gente a dar o corpo ao manifesto com propostas e alternativas de representação.

  13. Desculpa lá caro Val, mas que o Arrastão descanse em paz e a terra lhe seja leve…
    Lá se amesendavam algumas das luminárias que contribuíram para este Estado, ou melhor, para o estado a que isto chegou.
    Não nos podemos esquecer. Não nos devemos esquecer que a situação que vivemos é fruto de dois experimentalismos sociais de sinais contrários. Um, o de esquerda radical, que apostou numa nova realidade, pensando que da miséria que ela geraria, iria saír o homem novo que montando um cavalinho de pau, armado de espada e barrete de papel, assaltaria o palácio de inverno onde instalaria a sociedade sem classes…ou pelo menos…tentaria. Ideia tão abstrusa, sabendo nós os eminentes historiadores académicos do tempo presente que por lá habitam e por isso tinham o dever de saber o que vinha a seguir. Entretanto, voltaram às cátedras, ao comentário político e às “conferênciazitas”, sobretudo na estranja, que isto está mal e a vida custa a todos…mas mais eles.
    O outro experimentalismo, o de direita, sabia- o . E por saber, agiu.
    Agiu com a colaboração activa dos idiotas úteis e sobre ruínas, escombros e cadáveres (não tenhamos medo da palavra) está a construir o seu homem novo.
    E por mais que os colaboracionistas de ontem se arrependam, rasguem as vestes e chorem lágrimas de crocodilo, o mal está feito.
    Perguntas tu: E o Arrastão? O que é que ele tem a ver com isto tudo?
    Respondo eu: Tudo! Foi uma peça do sistema…deles. Nada!Porque por mais lágrimas de crocodilo que chorem e por mais “alternativas de poder que apresentem”, é tarde, muito tarde. Acabarão sempre por dizer, como todas as
    vanguardas iluminadas, que o povo não os compreendeu. No fundo não os mereceu.
    Mas junto a minha à tua voz, VIVA A BLOGOSFERA POLÍTICA!!!

  14. Lucas Galuxo, estás a falar de bugalhos a respeito de um texto que faz uma recordação dos alhos. Não há hoje, e podes meter neste hoje o período que te apetecer, qualquer limitação à livre expressão de indivíduos e organizações. Mas, para quem participou desde 2004 naquilo que se chamou a “blogosfera política”, as diferenças são mais que muitas. Só que não me queixo de nada, pois as alterações ocorridas são todas naturais, legítimas. Apenas realço que a degradação da qualidade do que acontecia nesse tal grupo de pessoas que interagia através dos blogues corresponde à degradação do debate político profissional e do espaço público que a direita, com o apoio da esquerda, levou a cabo na luta contra os Governos PS e, especialmente, na perseguição a Sócrates.
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    jafonso, repara que eu não verti qualquer lágrima pelo fim do Arrastão, apenas mais um blogue, entre tantos, que acaba como todos acabarão. Aliás, os blogues tendem a ser de curta duração por razões intrínsecas ao meio e à categoria respectiva, e ainda mais os blogues colectivos. Até ensaiei aquando da escrita deste texto o prognóstico sobre o regresso do Daniel Oliveira à blogosfera assim que entrarmos num qualquer ciclo eleitoral, por ser algo absolutamente lógico e banal. Depois desisti dessa linha de reflexão e preferi falar da irrelevância disto que não passa de um exercício diletante, um passatempo para pessoas que dispõem do conforto suficiente para o desfrutar.

    Quanto ao resto, não posso concordar mais contigo.

  15. Fechar? nem sonhar sequer! o DS das 22.07 disse tudo!
    Intervenho raramente por aqui, mas venho cá muitas vezes, vocês são para mim uma boa fonte de informação, assim como o câmara corporativa, o Viriato, Aventar, jugular, ladrões de bicicletas etc! gosto muito de vocês!
    Portanto… AGUENTEM!

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