Um país inculto na arte da negociação

Anda boa (e outrora boa) gente a dizer que a entrevista de Santos Silva significa o fim da renovação do acordo entre PS, BE e PCP para a próxima legislatura – Acordo para nova “geringonça” deve incluir política externa e europeia

Acontece que, como acontece sempre quando o jornalismo está agendado ou cede à tabloidização, que se está tão-só a reagir a um título que deturpa o discurso do entrevistado (tal qual como se fez no DN a respeito de uma entrevista de Azeredo Lopes no ano passado). Santos Silva farta-se de repetir que é fã do acordo com a esquerda, admitindo inclusive que é um dos convertidos. Santos Silva farta-se de repetir que tem esperança na sua renovação, que está optimista a respeito dessa possibilidade após as eleições. E responde a uma bateria de perguntas sobre o mesmo ponto que só pararam quando os entrevistadores consideraram que tinham conseguido uma declaração que dava para deturpar e encher o chouriço da guerrilha política através do “jornalismo de referência”.

Há mais nisto do que apenas o oportunismo mediático e a decadência da direita. Há também a constatação de que o catolicismo, o salazarismo e a cultura corporativa, a que se veio juntar como símile o sindicalismo dominado pelo PCP e a probreza financeira e cultural da classe média portuguesa, são factores que atrofiam a inteligência dialógica e dialéctica inerente à prática de chegar a acordo com competidores e adversários. Aliás, o atrofio é tal que em Portugal até para se chegar a acordo com potenciais parceiros há obstáculos antropológicos de monta. A paupérrima qualidade do patronato e o deserto que é o envolvimento cívico e político da maior parte da população são manifestações desta deficiência de base. A atitude sociológica correspondente é a desconfiança, e a desconfiança provoca uma poderosa inércia intelectual e económica na comunidade.

Não sei se precisamos de um museu dos Descobrimentos. Sei é que esses bravos que se enfiavam em cascas de noz e se lançavam contra os vagalhos teriam muito a ensinar aos contemporâneos sobre o que é e como se faz uma negociação.

2 thoughts on “Um país inculto na arte da negociação”

  1. Ninguém é perfeito, mas o incontestável é que o nível intelectual e cultural do ministro dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva, está muito acima do dos seus entrevistadores e do da maior parte da população, e, só por si, a seriedade, coerência, e clareza de tudo o que explicou na entrevista, justificou a compra e leitura do jornal Público, de hoje, o que raramente está, há muito, a acontecer.

  2. O que é que estas para ai a dizer, ? Achas mesmo que ele não calculou que este ponto seria o principal retido pelos jornalistas e que daria titulo à noticia ? Claro que calculou !

    Pessoalmente, gostei do “principalmente o PS aprendeu que o engodo do acordo com os partidos do chamado “arco da governação” era mesmo um engodo”. Seria bom que a descoberta do engodo fosse também a descoberta do isco…

    Boas

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