Teologia graciana

A grande figura, o triunfador, no Debate entre os sete candidatos à Câmara de Lisboa chama-se Nuno Graciano. Não oferece discussão. Tratando-se de alguém que (para recorrer a linguagem técnica) está todo queimadinho, conseguiu envergonhar a concorrência ao aparecer com textos para ler, enquanto os outros falavam de improviso como irresponsáveis que são. Este Graciano teve o cuidado de consultar um advogado, talvez mais do que um, para conseguir perceber o que dava ou não dava para dizer no debate. E depois, em coerência, andou aos papéis sempre que era chamado a intervir. Isto revela prudência e até sageza.

Mas foi em parelha com o candidato da IL que teve o seu contributo mais valioso, marcando profundamente o que o distingue da corrupta classe política. Está registado para a História, uma hora e dez minutos corridos:

NGAté hoje ainda só não houve um acidente [de aviação], graças a Deus, por mero acaso.

BHSEu não acho que foi graças a Deus, foi graças ao avanço tecnológico, um avanço que é permanente.

NGEu acho que foi graças a Deus, também.

Inteligências apressadas limitar-se-ão a constatar que Nuno Graciano é um homem de fé, como aliás é público há muito e muito tempo. E que, seja pela sua experiência da oração ou pelo afincado estudo da exegese bíblica, conseguiu aceder a um conhecimento espiritual que relaciona o tráfego aéreo do aeroporto da Portela com as preocupações diárias de Deus. Tudo isso é verdade mas quase que se torna irrelevante perante o que nos revela ao ter juntado na mesma frase, no mesmo nexo lógico, as noções do divino e do aleatório: “graças a Deus, por mero acaso.” Ou seja, na teologia graciana o acaso é uma vontade de Deus, por um lado, e, simetricamente, Deus é ele próprio uma substância ocasional, pelo outro. Isto é revolucionário e lindo.

Não se pense, contudo, que a utilidade do candidato do Chega em Lisboa se esgota nos seus dotes místicos e proféticos, ele igualmente deu uma grande ajuda ao candidato do PSD quando trouxe para o debate a capa que o esgoto a céu aberto tinha preparado com tanto carinho para isso mesmo. Oferta que Moedas não desperdiçou, assim demonstrando que um pulha é um pulha é um pulha.

Ocasião para perguntar: Moedas, és pulha graças a Deus ou por mero acaso?

19 thoughts on “Teologia graciana”

  1. Eu, na qualidade de pessoa que viu o Challenger rebentar em directo, acho que o candidato da IL é um bocado parvo, Deus lhe perdoe.

  2. Einstein dizia que o acaso é Deus a manifestar-se.
    E matematicamente penso ser possível demonstrá-lo. Imaginem um eixo com três rodas, e cada uma delas com diâmetros diferentes. Acelerem o eixo, ou seja ponham as rodas a andar. Elas nunca ficarão na exata posição do momento inicial. Não me perguntem para que comprimentos tem que ser para demonstrarmos.
    O que quero dizer é, se por acaso as rodas coincidirem nas posições, terá sido Deus o autor desse acaso.

    Eu não vi o debate..

  3. Mas já que estamos no ano da graça de 2021, e enquanto pasto a couve que está a minha frente, vou-vos contar uma história que passou há muitos anos.
    Estava com o meu pai num centro comercial e o Nuno Graciano que estava lá a vender qql coisa, já não sei o quê, vem acompanhado com uma rapariga ter connosco.
    A menina perguntou ao meu pai se conhecia este senhor; o meu pai respondeu-lhe que não (embora conhecesse vagamente o Graciano, da televisão) com um sorriso genuíno por achar graça à pergunta. Ela, meia incrédula, volta a carregar na pergunta:
    — Não sabe quem é este senhor?
    O meu pai voltou a responder que não sabia.
    O Nuno Graciano interrompe o “teatro” e vira-se para a “Mariana” (não me lembro do nome) dizendo-lhe:
    — Não faz mal, deixa estar o senhor.

    O engraçado é que ele também ficou tão admirado quanto ela.

  4. O teu pai devia ter logo perguntado quanto era a multa, pagando-a na hora. Agora, quando o homem chegar a presidente da cãibra, vai pagar a multa atrasada e juros de mora.

  5. gostei muito dessas experiências com o einstein e garciano que partilhaste connosco. vai mandando mais testos.

  6. Antes dos Apanhados, Nuno Graciano teve em Lisboa uma tasca, chamada Tasca, mesmo em frente a S. Bento. Nessa época, os apanhados eram os que lá iam comer inadvertidamente. À porta da Tasca, como chamariz, estacionava um burro de papelão cinzento em tamanho natural. Um burro para atrair outros burros é mesma ideia que presidiu à sua candidatura à câmara de Lisboa.

  7. […]

    Não se pense, contudo, que a utilidade do candidato do Chega em Lisboa se esgota nos seus dotes místicos e proféticos, ele igualmente deu uma grande ajuda ao candidato do PSD quando trouxe para o debate a capa que o esgoto a céu aberto tinha preparado com tanto carinho para isso mesmo. Oferta que Moedas não desperdiçou, assim demonstrando que um pulha é um pulha é um pulha.

    Ocasião para perguntar: Moedas, és pulha graças a Deus ou por mero acaso?

    Valupro: deixa de ser estúpido, atina, o que o Carlos Moedas referiu é que a questão da corrupção não poderia ter sido colocada da forma como o fez o Nuno Graciano. TEM INTEIRA RAZÃO, é por aqui que deveriam ir os outros partidos… Ora, só um gajo assarapantado como o Fernando Medina que não tem unhas nem quer pois não está na sua natureza impedir o polvo sociaista em todo o seu esplendor (onde é que foram apanhar essa peregrina ideia de que os autarcas e governantes do PS estão nos lugares para fechar as portas à corrupção?; antes e muito pelo contrário fazem-no e/ou abrem as portas institucionais às escancaradas!), que foi secretário de Estado do cabrão do José Sócrates, herdou a presidência da CM de Lisboa do camarada António Costa e perdeu a maioria absoluta em troca de um duplex dourado e assim, como tudo na vida, anda flirtando as ondas sem que se lhe conheça nadinha que tenha conseguido com o seu suor!, pode ter reagido da mesma forma desorientada estúpida como agora tu também o fazes… Está atolado em obscuras negociatas o pelouro do Urbanismo do primo do primo Manuel Salgado e seus sucessores, diz isto mil vezes ao ouvidos do Júlinho que tem os cornos duros e não entende. O Carlos Moedas não é matador: se o fosse aproveitaria aqueles 30 segundos para demonstrar a diferença abissal entre a lista do PS (Fernand Medina, uma gaija que negociou por fora com a CM e que ele foi buscar para n.º 2, o discípulo vereador que é estrela na manchete do CM…). E não havendo nada a esperar dos tipos do PS, tanto o BE, como o PCP aliás, que não têm a temer neste decisivo capítulo que há meses preenche os dias do Ministério Público, deveriam ter um discurso sobre a multiplicação de casos de corrupção endémica do PS nas autarquias. Não o fazerem, vá-se lá entender, é que abre as portas ao Chega agora sob a careca do Nuno Graciano (entretanto e à falta de melhor que os democratas de Esquerda e de Direta agradeçam ao CM, mais uma vez).

    https://cdn.cmjornal.pt/images/2021-09/img_400x516$2021_09_02_00_54_20_1076454.jpg

    Atina, pá.

  8. “… neste decisivo capítulo que há meses preenche os dias do Ministério Público…”

    portanto o ministério público anda há meses ocupado a ver se consegue uma corrupçãozinha do medina para o correio da manhã oferecer à candidatura do medina. até ver só conseguiram títulos para as capas que não correspondem ao miolo e um desgraciano que leu com receio de ser processado um papel que um advogado xungoso lhe deu para cumprir a missão.

  9. O trajeto reto das rodas significa a infinidade do tempo, cada uma das rodas eventos ou fenómenos independentes entre si que nunca se irão combinar novamente sob a forma que tomaram no início. Achas que o Graciano estava a falar disso?
    O barão de Montesquieu, precursor da sociologia, homem cultíssimo (aconselho para tomarem consciência da sua eloquência lerem uma carta que escreveu num dos seus livros que completa a obra “espírito das nações ” que se chama “Muito humilde admoestação aos inquisidores de Espanha e Portugal”) antes de classificar os tipos de regimes, falou exatamente disso, da fatalidade determinista.
    Mas será que Deus manifesta-Se?

  10. O Moedinhas é, politicamente falando, um aldrabão e um vigarista e até a vozinha dele me faz comichão nos berlindes, mas seria incapaz de votar no Merdina. Depois do debate de ontem, que vi na íntegra, continuo indeciso entre João Ferreira e Beatriz Gomes Dias (talvez um pouco mais virado para o primeiro), mas o melhor momento da noite foi, para mim, quando a candidata do PAN se virou para o ordinário do fascistazeco de aviário e lhe ordenou, sem qualquer possibilidade de apelo: “NÃO ME INTERROMPA!” Ver o herói a enfiar-se pela cadeira abaixo, subitamente mudo e quedo, foi uma delícia.

  11. Camacho, vou falar com franqueza. Não vi o debate, mas vi a figura do candidato da iniciativa liberal. Que homem feio. Feio dos pés à cabeça literalmente. A bainha das calças, a mostrar o tornozelo é uma coisa arrepiante, muito feia mesmo (num homem). A barba é também ela feia. O fato é feio. Ou seja, é pedante, é grosseiro, é bruto e arma se em rico. Péssimo

  12. a necessidade que o idiota tem de se justificar com um voto que é secreto. achas que alguém está interessado em saber em quem votas ou aceitaria o teu voto caso a votação fosse nominal. cá pra mim vais votar no azeiteiro e fizeste essa declaração de voto para lixar o ferreira e a beatrix.
    com a manuela gonzaga não cagavas basófia e ias entubar erretês para um asilo geriátrico.

  13. Eduardo Ricardo, és injusto com o homem, que é lindo, extremamente bem preparado e ainda mais bem informado. Impressionou-me especialmente o conhecimento profundo e pormenorizado que tem dos problemas de Lisboa, quando lembrou que, “durante o covid, os sem-abrigo foram alojados no VALE MIOSO”. Qual Lucky Luke a disparar mais rápido que a própria sombra, referia-se o muito despachado e belo Adónis ao Casal Vistoso. Maravilhôsico!

  14. Fiquei também deveras impressionado com o acrobático domínio da língua pátria exibido pelo senhor Moedinhas quando, a propósito dos dados pessoais de manifestantes comunicados a embaixadas, declarou que, “em qualquer câmara municipal da Europa, o presidente da câmara TERIA-SE DEMITIDO”. Sonho já, antecipadamente, com o maravilhoso e estiloso empenho que o engenheiro Moedinhas certamente dedicará a um programa de alfabetização dos alfacinhas por ele mesmo dirigido. Estou excitadíssimo, a salivar abundantemente, a encher a mula à Kleenex. Pois é, Eduardo Ricardo, o que tu terias aprendido se tivesses visto o debate! O extraordinário enriquecimento literário que perdeste! Uma lástima.

  15. Eu já sabia mas a cabeça deste Camacho não presta para quase nada, talvez para servir de ferramenta a um calceteiro?

    Entretanto

    Depois dos Provedores dos Animais, das Assembleias Municipais de Juventude, da importância dos mediadores culturais para entrarem no habitat das minorias, do Provedor do Munícipe, dos Conselhos Económico-Sociais, &etc., graças aos períodos pré-histórico, durante o consulado e no pós-José Sócrates, alguém deveria ter coragem de dizer na cara aos jovens candidatos do PS a carregarem o cadáver do Costismo que devera ser obrigatório pronunciarem-se sobre a existência de um PROVEDOR DA CORRUPÇÃO! Ora bem, apesar de o PS ter mudado de figura em Castelo Branco na tentativa de limpar o cadastro, a par da CM de Lisboa com o assarapantado Fernando Medina minoritário (e portanto se ganhar, sublinho…), ambo, assim de repente são dois dos casos mais evidentes em que essa higiénica medida de largo alcance deveria ser exigida.

    Além do mais, também aos jovens candidatos ao cargo de secretário-geral no PS deveriam ser obrigados a manifestarem-se sobre o/s interdito/s processo/s de CORRUPÇÃO. Esta é uma oportunidade que não se pode perder pois, caso contrário, que o assunto passará em branco por mais vinte longos anos. A não ser, é claro, que o BE e o PCP e a Iniciativa Liberal, nomeadamente, queiram ser cúmplices das coisas tal como estão e que, também eles, fiquem à espera de que o sistema democrático rebente por si… Para já conseguem estilizar o debate, digamos assim, quando se mexerem já uns Cheganos de inspiração autoritária, ou pior, tomaram conta disto tudo.

    E uma boa maneira é começar pela Capital do Império, basta ver.

  16. higénico… higiénico era correr com a escumalha do psd e cds residente na câmara de lisboa desde os tempos do abacaxis. acabavam com a corrupção real e reduzia substancialmente a inventada.
    a co-produção cm/pj está com dificuldade em arranjar pessoal para os arranjos vocais do filme arq. salgado e a estreia fica para depois das eleições.

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