Tenho 180 euros para dar ao Pedro Santos Guerreiro

Poucos políticos têm posto os interesses do país à frente dos seus. Desde 2008 que tem sido uma demência. Teixeira dos Santos aumentou então os funcionários públicos para ganhar as eleições em 2009. Cavaco Silva devia ter obrigado a um Governo de coligação depois dessas eleições. José Sócrates jamais deveria ter negociado o PEC IV sem incluir o PSD. O PSD não devia ter tombado o Governo. E assim se sucedem os erros em que sacrificam o país para não perderem a face, as eleições ou a briga de ocasião.

Pedro Santos Guerreiro

__

Eis uma apresentação desta conhecida e cada vez mais popular figura do comentário político:

Jornalista, 39 anos, é director do Jornal de Negócios, de que foi um dos fundadores em 1997. MBA pela Universidade Nova e licenciado em Gestão pelo Instituto Superior de Gestão, publica diariamente artigos noticiosos e de opinião no Jornal de Negócios, é colunista da revista “Sábado” e dos jornais “Correio da Manhã” e “Record”. Comentador da RTP e da Antena 1, participando regularmente em programas e comentário de TV e rádio. Publicou em dezenas de títulos de imprensa, em Portugal, Espanha e Inglaterra, bem como em livros de gestão, economia e política.

Como se lê, é um cromo. Um cromo do universo da gestão, das empresas, da economia, das finanças. Um cromo do jornalismo, da produção intelectual, do comentarismo ubíquo. Ou seja, faz parte da elite portuguesa. Faz parte daqueles raros felizardos que estão munidos das capacidades cognitivas e disciplinares para entenderem o que se passa em Portugal e no Mundo, e em Portugal por causa do Mundo, e no Mundo apesar de Portugal. É muita informação junta, muito saber acumulado. Eis, pois, alguém a quem devemos dar atenção. Ou não?

A citação acima vem de um texto escrito a quente, na ressaca do nosso fatídico 11 de Setembro, dia em que o Governo caiu pelo monocórdico e delico-doce paleio de Vítor Gaspar. PSG conseguiu nessa peça sintonizar-se com a revolta que irrompeu desvairada por toda a sociedade ao darmos conta de que não havia ninguém no Governo que agisse em nossa defesa. O fartar vilanagem a coberto da Troika tinha conhecido o seu mais obsceno momento e o caldo estava finalmente entornado depois de um ano de consecutivas violações do contrato eleitoral. No meio do espancamento do seu homónimo, com soqueira, o preclaro autor passou um atestado de demência a quatro responsáveis políticos, dois do PS e dois do PSD: Teixeira dos Santos, Cavaco Silva, Sócrates e Passos Coelho. Distribuiu o mal pelas aldeias, assim contribuindo para reforçar o coro que berra “eles são todos iguais”. Mas será que são?

Tenho aqui uma nota de 10 euros num dos bolsos que graciosamente poria na mão do PSG se ele demonstrasse de que modo o aumento dos funcionários públicos exibiu demência. Que tinha propósitos eleitoralistas isso é inegável, pois nunca constou que Sócrates se estivesse a lixar para as eleições. Porém, simultaneamente esse aumento era passível de outras leituras igualmente legítimas como essa que vem do cinismo. Por exemplo, os sindicatos da Função Pública consideraram o aumento insuficiente, ao tempo. Lembraram que os funcionários públicos tinham vindo a perder poder de compra todos os anos desde 2000, para além de terem visto a progressão nas suas carreiras congeladas por esse mesmo Governo socialista. Assim, e numa conjuntura de grande imprevisibilidade internacional que apontava para uma inflação de 2,5% em 2009, o aumento proposto corresponderia a um ganho previsto de 0,4%. Pasmai perante o valor da demência, só estando aqui a faltar as continhas do PSG para podermos carimbar a guia de marcha em direcção ao hospício. Curiosamente, quanto a números que o articulista tivesse disponibilizado, nicles batatóides. Ficou-se pelo 31 de boca.

Tenho aqui uma nota de 20 euros num dos bolsos que animadamente poria na mão do PSG se ele explicasse como é que Sócrates conseguiria ter negociado com o PSD o PEC IV se para o PSD era instrumental que os socialistas falhassem a execução do Orçamento para 2011, posto que Cavaco ia ser reeleito e a golpada do derrube do Governo estava em marcha. PSG talvez não se lembre, atendendo a que tem tantas responsabilidades e não pode estar em todo o lado, mas o PSD começou a atacar o Orçamento que viabilizou só para efeitos de farsa presidencial logo a partir do dia 1 de Janeiro de 2011. O clima era de afrontamento, insultos e ofensas permanentes, raiando os confrontos físicos. Que devia ter feito Sócrates, então? Pedir à Europa para esperarem um bocadinho enquanto ele ia ali tentar convencer o Ângelo Correia, o Menezes e o Dias Loureiro a porem rédea curta na rapaziada ou avançar com o que lhe competia, negociar o melhor possível com Merkel e chamar o PSD à sua responsabilidade para com os portugueses? Adorava que o PSG nos ajudasse a perceber a demência de quem fez o que lhe competia adentro do seu mandato legislativo, pois não há nada melhor do que aprender com quem domina estas difíceis questões.

Tenho aqui uma nota de 50 euros num dos bolsos que rapidamente poria na mão do PSG se ele medisse as responsabilidades de Cavaco ao ter deixado o País – no meio da maior crise económica global dos últimos 80 anos – com um Governo minoritário que estava condenado a ser queimado pela santa aliança até ao dia em que a direita achasse que tinha chegado a hora do ataque final. Será que compara com o aumento dos funcionários públicos? Será algo da ordem de uma negociação de alterações ao PEC para posteriormente serem apresentadas no Parlamento? Como é que PSG com as suas magníficas máquinas de calcular a demência descobriu que o peso da decisão de Cavaco é equivalente à dos dois socialistas metidos nesse saco? Enigmas avassaladores.

E estou disposto a cravar a alguém uma nota de 100 euros para a ir esperançosamente colocar na mão do PSG caso ele prometa esclarecer as razões pelas quais Passos Coelho não devia ter chumbado o PEC IV. Tenho a certeza absoluta de que a demência da decisão ficará mais do que provada, comprovada e aprovada.

Pedro, estamos a falar de 180 euros. Mãos à obra!

16 thoughts on “Tenho 180 euros para dar ao Pedro Santos Guerreiro”

  1. Eu, se acreditasse na boa fé do gajo, dava o mesmo prémio. Mas sendo as coisas o que são, e lendo diariamente duas vezes os escritos do senhor (uma para a incredulidade, outra para o meu índex de filhadaputice guardado com particular cuidado) ofeteço cem vezes os 180 euros.

  2. eu gosto de ler o santos guerreiro pois o tipo escreve bem. o conteúdo é que deixa algo a desejar mesmo considerando que não partilhamos as mesmas ideias. andar anos a fio a cascar na mota-engil e no coelhone, sugerindo tratar-se da cabeça de um polvo, para depois pedir desculpa pelo erro numa linha de um editorial não fica bem a ninguém. depois falou 20 vezes mais no face oculta do que no bpn quando tem 20mil vezes mais razões para falar no bpn do que no face oculta (ainda para mais sendo director de um jornal económico).
    aquilo que o val descreve vem nesta senda: o tipo pode fazer 100 editoriais só a cascar no governo do socras mas quando se atreve a dizer mal do passos tem que aparecer alguém do outro lado para contrabalançar. de qualquer forma está longe de ser um idiota do tipo camilo lourenço.

  3. excelente ironia. Este e outros aldrabões sairam-nos demasiado caros. De mim nem um chavo. É ele – saõ eles- que estão em incumprimento de dívida perante a sociedade portuguesa – pelo menos aquela que nunca foi na conversa.

    A que foi na conversa, sendo ainda por cima figura pública, é a mais agressiva,agora. Ver caso do José Gomes Ferreira, SIC, que deu a cara por estes abortos e que se viu agora, envergonhado, na obrigação de fazer a entrevista mais agressiva que se viu a um ministro das finanças e a chamar, hoje, “adiantado mental” ao Borges. O esforço de demarcação é notável. Too late, though.
    “yesterday, all my troubles seemed so far away…”

  4. Muito bem, Val!

    Santos Guerreiro repete aí vários dos estribilhos da propaganda que a direita fabricou para denegrir e tentar deitar abaixo o governo de Sócrates.

    Mas também é preciso avisar o director do jornal dos negócios, que anda visivelmente distraído, que não foi o PSD sozinho que derrubou o governo de José Sócrates, como ele pretende (não acertou uma!). O PSD nunca o teria conseguido sem a ajuda decisiva de Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, para eterna vergonha desses alegados políticos de “esquerda”, que não passam de reles serventuários da laranja.

    E de intelectual é que o Santos Guerreiro não tem nada, mesmo sabendo que há intelectuais de todas as estaturas e para todos os gostos.

  5. Valupi,
    A estratégia dos tipos PSG é mesmo essa, ocultarem-se. Distribuindo, mais ou menos equilibradamente, uma a ti outra a ele. Assim, como lhe compete o PSG nunca se compromete.
    Como o PSG há muitos e, desde os últimos dias, parecem moscas peganhentas. Contudo alguns velhos manhosos já usam essa velha estratégia: VPV, MST, PP, etc. É a escola do PP vaca louca, sendo que neste caso do vaca louca as equiparações, ao contrário do elegante Plutarco, são sempre piores para Sócrates mesmo quando comparadas com um cretino como Relvas.
    O PP anda tão atrapalhado e apanhado com o vazio e a falta de credibilidade política-intelectual de Passos e sus muchachos que, nas suas comparações malévolas, tem de fazer malabarismos e contorcionismos puros para que a coisa não saia ao contrário, ou seja num elogio das políticas de Sócrates. Ainda assim, treslendo as suas prosas comparativas, o elogio ao seu ódio-amor de estimação subjazem na sombra.
    Nesse aspecto, o parasita-mor do reino, VGM não faz equiparações e vai logo directo à sua sebenta de adjectivos de escárneo-e-vilipendia e saca os piores que lá encontra ou, como parasita político por artifícios intelectuais, emprega os mais rebuscados e arcaicos, para parecer que insulta e injuria filosoficamente.
    Perante a rasca actualidade acerca de seus pares, também as suas antigas rascas actualidades então tomadas, se vão, cada vez mais, desmascarando face à rápida alteração de vida entre o ontem e o hoje, a qual os portugueses vão compreendendo e tomando consciência.

  6. Gostei Valupi.

    Mas, se não se importam, deixem-me desabafar em relação à manifestação de sábado:

    Bem sei que é melhor do que nada. Agora, que estou c’uma pulguinha atrás da orelha, estou.
    Os mesmos filhos da puta (jornalistas e comentadores) que andaram a encobrir e branquear a vigarice e incompetencia destes cabrões durante um ano, critica os estarolas enquanto anuncia generosamente adesões de 500 mil macacos? (eu estive lá).Espero estar enganado, mas cheira-me a esturro.
    Acham mesmo que este povão de borregos se manifestaria desta forma por iniciativa própria, sem o aval da comunicação social e respetivos panditas?
    E isto quase do dia para a noite.
    Alguma coisa se passa.
    Será que não vem aí um primeiro ministro eurocrata para liderar um governo de salvação nacional de iniciativa presidencial?
    O Seguro era menino para alinhar nisso, não?
    Agora a sério, acham que ’tou maluquinho? Muito Teoria da conspiração?

  7. Val,
    a gajos como esse dou, com muita vontade, um valente pontapé no dito!
    Este serventuário da Cofina, é apenas mais um que, pelos vistos, desconhece o “pai do monstro”, o negociador da paridade do escudo=>euro que desabou em cima do Guterres ou quem começou a brincar às PPP’s.
    Também não se deve lembrar da máquina do estado recheada de recibos verdes e contratos a termo certo que os socialistas tiveram de engolir e que acabaram por arcar com as culpas, pois pelos vistos só passaram a ser excessivos nos seus consulados, nos dos outros eram apenas votos.
    Há muita coisa que os socialistas fizeram mal, olá se há, mas branqear-se a hecatombe produzida pela direita sempre que chega ao pote e que depois lá vem austeridade nos governos ditos de esquerda é apenas música celestial.
    Escreveste bem sobre muitas coisas mas há que escrever mais ainda, pois está na hora de remar forte contra a maré com números e recordações.

  8. tocou inteligentemente no ponto… esta dita elite jornaleira (não só por cá…) está hoje largamente inundada de trampa «yupi»… desenvolveram uma técnica que consiste em saber sempre onde paira a voz do povão e dar-lhe depois um certo spin para (o mais importante) acomodar a voz do dono… tem que se ser um trafulha intelectual pois só assim se chega ao topo…partem das suas conclusões pré-estabelecidas (a mais indefensável possível serve…) para nos educarem com explicações em ziguezague aos sss em caranguejo camaleão ou ao estilo fdp (fora do porto..claro)… daí se explica o estado calamitoso a que chegaram os meios de comunicação de massas neste país…ou mostram mamas e fazem fofoca de alcova para vender… ou estão de facto ao serviço do dono… claro que jornalismo já era mas o seu clone tem contribuído largamente para o actual estado de desgraça…

  9. porra, agora que o representante dos funcionários tão fortemente espoliados por Sócrates, exige que a sociedade civil, a “república”, que representam e para a qual trabalham, lhes aumente os ordenados, o que é que faço? O governo encontrará uma solução, com o apoio do funcionalismo parlamentar, encontrará uma solução. Por mim, é igual: pagar-lhes as reformas antecipadas mais os aumentos é-me igual. Desde que sobre para mim um quinto do ordenado (contas por alto). Pensei, no dia 15 de Setembro, que a causa era comum….ingénua que eu sou.

  10. Não Vieira. Infelizmente o povo, mais uma vez deixou-se manipular. Veio para a rua para criar uma “autoestrada” para sairmos todos desta grande trapalhada onde estamos metidos. Desde logo, esta convergência de opinião entre, vamos chamar-lhe, patrões e trabalhadores” é em si mesmo insólita. E o povo só saiu à rua da forma que o fez porque a CS fez apelos nesse sentido durante 5 dias, já que sempre que podiam falavam da dita manif.
    Não sabemos como é que isto vai acabar. Mas não deve andar muito longe da tua ideia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.