Tancos? A imprensa de referência (ahahahahah!) explica

Era uma vez um ministro da Defesa que qualificou a discriminação contra alunos no Colégio Militar por razões de orientação sexual, discriminação assumida publicamente pelo subdirector do estabelecimento de ensino, como “absolutamente inaceitável”, pedindo explicações e exigindo medidas concretas para evitar casos desses. Perante a ausência de medidas concretas, Azeredo Lopes exigiu a demissão do subdiretor – o que o então chefe do Exército, general Carlos Jerónimo, considerou uma intromissão abusiva na cadeia de comando militar e, por isso, demitiu-se. Estávamos em 2016, e a partir daí esse ministro da Defesa passou a sair à rua com alvos pintados nas costas, no peito e na cabeça. Os magníficos generais portugueses não iriam perdoar a afronta do civil armado aos cágados.

Em Maio de 2017, deu na veneta ao ministro da Defesa encomendar material para reforçar a segurança no paiol de Tancos, algo que os seus antecessores no cargo não fizeram, talvez por falta de tempo ou lembrança. Porém, este ministro da Defesa de que falamos não teve a presença de espírito para, concomitantemente, mudar as instalações do seu Ministério para Tancos, em ordem a ele próprio poder levantar os olhinhos, entre um papel e outro que tem de assinar, para ir vigiando a cerca por onde os meliantes ameaçavam entrar. Errou gravemente, pois alguém terá percebido que o ministro da Defesa não ia mesmo conseguir defender o perímetro do paiol de Tancos a partir da sua escrivaninha em Lisboa, pelo que fizeram o óbvio: gamaram o que quiseram e puderam antes que chegasse o tal material de segurança encomendado pelo tal ministro da Defesa.

Assim que a imprensa de referência (ahahahahah!) soube do episódio, de imediato exigiu a cabeça do ministro da Defesa. Porquê? Porque se a imprensa de referência (ahahahahah!) não servir para dar cabo de ministros da Defesa já marcados para abate pelos valentes generais do exemplar Exército português, então servirá para quê? Só para pagar aos directores-pavões e aos caluniadores profissionais que contrata para encher o chouriço? Pois. Entretanto, a rapaziada da Polícia Judiciária Militar organizou uma cegada com a rapaziada da GNR de Loulé e com um rapaz tímido que só pedia para o deixarem em paz, número artístico esse que vai entrar para a História. Nesse entusiasmo todo, alguém se lembrou que era muita fixe envolver o ministro da Defesa. Se não para a diversão na Chamusca, seguramente para o after party. Vai daí, foram falar com o chefe de gabinete do ministro ao tempo, o general Martins Pereira, e até lhe entregaram uma folha com uma história. Consta que esses valentes testemunharam um telefonema do general chefe de gabinete para o ministro que não estava no gabinete nessa memorável ocasião.

Estes são os factos conhecidos publicamente e a imprensa de referência (ahahahahah!) está em êxtase porque, garante, é desta que o ministro da Defesa vai pelos ares. E porquê? Porque se insinua à boca cheia que o ministro da Defesa mentiu ao negar ter tido conhecimento do memorando e de ilegalidades nele inscritas. O que, portanto, implica que o primeiro-ministro também mentiu, e logo na Assembleia da República. E se o primeiro-ministro mentiu e tem tido a cobertura do Presidente da República enquanto os cães ladram e tentam abocanhar um pedacinho do Governo, então o Chefe de Estado, que acumula com ser o Comandante Supremo das Forças Armadas, também nos está a tourear. É esta a tese da imprensa de referência (ahahahahah!).

Quanto à hipótese de os militares terem querido resolver a coisa só entre eles e, de caminho, terem aproveitado para queimar irremediavelmente o ministro da Defesa, isso já são ideias muito rebuscadas, completamente loucas, que a terem alguma veracidade teriam de ser primeiro validadas pela imprensa de referência (ahahahahah!). Fiquemo-nos pelo bom senso, sentido de Estado e respeito pela Lei que os factos conhecidos permitem constatar, então.

14 thoughts on “Tancos? A imprensa de referência (ahahahahah!) explica”

  1. O meu pai foi militar toda a vida profissional. É um gosto vé-lo esquecer os achaques da velhice e rir-se perdidamente com esta tanga sobre Tancos. Então ele havia um assalto a um paiol do exército e no dia seguinte a lista do MG em falta estava nos jornais ?! Então a PJM montava uma cena marada para fazer de conta que tinha recuperado o MG roubado ( será que houve mesmo roubo ? ) e dá conta dela, por escrito, aos superiores hierárquicos ?! Por escrito ?! O velhote não tem memória de comédia assim . E ri-se que é um gosto. Não pela cegada em si, que dessas e piores viu o bastante. Mas pela ingenuidade com que a tal CS “de referência” engoliu a estória. Mas, e aqui já é dúvida minha, será que “engoliu” mesmo, ou faz parte dela desde o inicio ? Lembram-se do “Freeport”? Lembram-se das “escutas a Belém ” ?

  2. Ainda ontem, no Jornal da Noite da RTP 2 de ontem. Manuel Carvalho, perorando sobre “Tancos”, começou por referir que não estava confirmada a autenticidade do “memorando” que anda em circulação na tal imprensa de referência. Mas para ele isso deve ser um “detalhe”, uma vez que não o coibiu de comentar sobre um cenário em que dava por assente a autenticidade do documento que tinha acabado de questionar. Brilhante!

  3. Ontem, no debate quinzenal na AR, ACosta acusou directamente FNegrão de saber muito mais sobre Tancos do que aquilo que revelava. Trata-se de uma acusação grave em qualquer cenário. É curioso que nenhum jornal tenha pegado no assunto. O que para mim só tem uma explicação: sabem exactamente o mesmo que Negrão – e não contam.

  4. Será um problema de falta de conhecimento do passado recente com ligação ao facto novo ou será que os nossos jornalistas pensam que os factos nascem sem causas por obra e graça do espírito santo?
    Assim, se um facto é dado ter acontecido sem causas ou fundamentos lógicos precedentes apenas há responsáveis visados e culpados e respectivas consequências sobre responsáveis imediatos.
    Ou será, antes, porque conhecem e estão envolvidos neles e, portanto, apontam logo ao alvo pré-determinado? O caso das “escutas” é paradigmático.
    O facto novo é que já não há jornalismo mas engajamento e jogo político, já não há busca da verdade lógica fundamentada em causas mas notícias falsas e já não há acontecimentos mas factos fabricados.
    No caso, onde o PM e o Presidente esperam até ao desenrolar total dos factos, para desespero dos acusadores apressados, faz suspeitar que eles sabem mais acerca do caso do que a narrativa simplista e imediatista que nos é vendida à pressão pelos media e opinadores do costume.

  5. ainda não percebi o que levou o ladrão a denunciar-se e a devolver o material. nem o recruta zero e o sargento tainha inventavam uma novela tão sem pés nem cabeça. o ócio em que vive a tropa está-lhe a fazer muito mal.

  6. «Quanto à hipótese de os militares terem querido resolver a coisa só entre eles …»

    A questão é que é esta a prática habitual: o que se passa nos quartéis, fica nos quartéis. Dai a estranheza pela vinda a público do episódio inicial, já com listagem disponivel e tudo. Mais: também se soube logo na hora que o “roubo” só tinha sido possivel porque “havia um buraco na rede”. Coincidência do caralho: a reparação do dito buraco estava pendente, imagine-se, de autorização do MD! E a avaliar pelo que foi divulgado sobre as sanções internas aos responsáveis directos pela segurança dos paióis, fica-se com a ideia de que não havia vontade de punir ninguém excepto o MD. Tudo isto é pueril. Mas para consumo dos leitores do CM, sobra. Portanto, sim, não me admirava nada se tudo isto tivesse sido uma inventona em toda a linha.

  7. A tropa quer manter privilégios corporativos, do qual é exemplo uma polícia dita judiciária, justiça própria, etc., no caso, quer que “ o que sucede na caserna, fique na caserna “, a Igreja quer que o que sucede na sacristia, fique na sacristia ( exemplo, a pedofilia, quando praticada por eclesiásticos, é pecado, não é crime ) o futebol quer que o que sucede nos clubes, fique no “balneário”, etc., neste país é impossivel fazer qualquer reforma que atinja poderes antigos, fortes, e estabelecidos ( por vezes, apodados de direitos adquiridos ) lembro-me de ter lido que o general comandante do Colégio Militar, disse ao juiz mais ou menos isto “ senhor doutor juiz, eu não mandava nada, quem mandava era a máfia da associação dos antigos alunos, a mim até já me tiraram as medidas aos sapatos “ .
    O actual ministro da defesa, nao dá para o cargo, desde logo, teria que ter uma pele elefantina, depois não pode deixar que lhe tomem o pulso . Ora …

  8. Sobre a noticia que o Ricardo linka escreve o DN que, apesar do que diz oPJM, o ex chefe de gabinete do MD já tinha “admitido” à RTP que tinha “recebido” o memorando. Rotunda fake. O que o fulano disse foi que tinha recebido os cromos em causa e que nada na dita oportunidade o tinha levado a pensar ter havido cegada. O Ferreira Fernandes ou anda a dormir ou tb já se rendeu ao novo normal da “mprensa de referência”.

  9. Aqui no País vivem-se estes dramas:
    – drama de Tancos
    – drama Ronaldo mais a Putefia ou senhora
    – drama Bolsocoiso (assim pode ser q.ele não perceba q.estou a falar dele)
    Sao estes dramas que o País e a imprensa de referencia (ahahahah) comentam por estes dias.

    Para contrariar a barafunda das redes sociais e respectivas opinioes temos os poetas que poetisam estando a cagar-se pró cagarim geral.

  10. Mais um empreendimento bem sórdido…

    A juntar à longa lista de patifarias, que um belo dia terão finalmente tudo aquilo que merecem.

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