SNS, espírito de Abril

Esta tomada de posição – 41 médicos em defesa do SNS [PDF oferta de Rosalvo Almeida] – envergonha-nos. Porque não estamos ao lado deles, assistimos alienados aos ataques constantes dos que pretendem lucrar financeira e ideologicamente com a diminuição da qualidade e da extensão dos serviços prestados pelo Estado no âmbito da saúde, uma das mais decisivas conquistas do 25 de Abril; e dimensão fundamental da segurança dos cidadãos mais pobres e mais isolados, mas também de uma classe média portuguesa endemicamente periclitante, a custo sobrevivendo na fímbria de uma ilusão de conforto consumista, e sempre a resvalar para a pobreza.

Por razões familiares, a partir do Verão de 2018 estive muitas vezes em contacto com os profisisonais do SNS, a começar pelas idas às urgências. Entre Outubro e Janeiro de 2019, fui duas vezes por dia a Santa Maria nos dias úteis, e também uma vez por dia ao fim-de-semana, visitar um doente. O espectáculo dos pacientes em macas nos corredores era constante, onde ficam até haver vaga nos quartos ou terem alta. E constante o espectáculo do profissionalismo com que aquele aparente caos das necessidades e crises dos acamados, das actividades dos auxiliares, enfermeiros e médicos, e das vagas de confusão e conflitos provocados pelas visitas, era gerido. O meu intenso convívio ensinou-me que há variedade de atitude no pessoal que corporiza o SNS, como seria inevitável, mas havendo uma enorme maioria que se orgulha da excelência médica e da missão de serviço público que o SNS representa e concretiza. É para o SNS que os privados mandam os seus doentes quando as coisas correm mal por azar, inépcia ou falta de equipamentos. E uma evidência se impõe, pelo menos a respeito do Santa Maria que fiquei a conhecer com essa intimidade diária: trabalhar sempre no limite da resistência exige capacidades extraordinárias e gera competências únicas face a outros profissionais de saúde que não estejam sujeitos àquela pressão.

Como se lê no texto, há uma “estrutura” e há um “espírito” no SNS. Os nossos impostos pagam a estrutura, o espírito vem da liberdade de cada um. Os ataques a Marta Temido e ao Governo por causa disto e daquilo relativo ao SNS estão sempre ligados a agentes com grandes interesses em jogo, sejam corporações ou investidores. Não aconselho a minha experiência a ninguém, por razões óbvias, mas desconfio que para muitos só algo parecido os despertaria para o que está em causa nas jogadas públicas e subterrâneas a respeito do que queremos – ou do que vamos deixar que queiram por nós – para a Saúde de todos os que habitem em Portugal, portugueses e estrangeiros.

12 thoughts on “SNS, espírito de Abril”

  1. Caro Valupi:
    Como médico há mais de 37 anos, em exclusividade no SNS (Mateus,6:24), ler esta resposta de alguns meus colegas à carta aberta dos ex-bastonários, foi um bálsamo. Há muito que deixamos de ser uma classe! Hoje, não somos mais do que uma corja.

  2. a diferença entre o SNS de há 20 anos e o de agora é abissal. a começar nos médico , cada vez mais burros focados na sua única especialidade, safam-se os enfermeiros , cada vez melhores.

  3. o doente vai ao médico de família em Outubro , está de férias , vai a um colega : sinusite , antibiótico , não passa , mais antibiótico , mês e meio a antibiótico ; acho esquisito , vais ao hospital , tac , um tumor maligno naso sinusal , visível pelo nariz , era só enfiar um aparelhinho ; uns 15 dias à espera de um papel para fazer ressonância , no meio disto tudo uma única pessoa impecável , a otorrino do Hospital local; lá vai para Santa Maria , Dezembro , biopsias e tal , Janeiro :ai ai , a biopsia ? perderam a biopsia no ST. Maria ! , resultado , um pólipo de poucos mm tornou-se num tumor inoperável , tinha de ir tudo , olho , maxilar ; bom , radio , quimio , tudo em Lisboa e arredores , uma alminha de velhota , frágil e doente tem de se levantar ás 6 da manhã e chegar a casa às 9 pq é tudo centralizado em Lisboa. às tantas morre.
    e é isto o que penso do sns actual : uns imbecis que confundem um cancro com sinusite , uns palermas que perdem biopsia , que demoram 5 meses a iniciar um tratamento oncológico s e que torturam os doentes com viagens para quimio que poderia ser feita na sua cidade. isto em 2015.

  4. Vai ser muito difícil a Ministra da Saúde e o Governo serem vitoriosos nesta luta. Os interesses corporativos, estão instalados e sedimentados há dezenas de anos. Quebrar esta cadeia é um trabalho ciclópico. O negócio da saúde, é um dos mais lucrativos e os seus utentes são facilmente instrumentalizados, contra o SNS.
    Além do mais, ao PS, ou muito me engano ou uma vez mais vai ser o PSD e acólitos a gerirem os apoios da UE, negociados pelo Parido Socialista. Vem aí um cavaquistão 2 . Cuidem-se…..

  5. Só os mais distraídos não perceberam que a razão do manifesto é, mesmo, a principal razão apresentada pelo BE para o voto contra o OE proposto pelo PS. O post anterior é apenas Valupi a fintar a sua “dissonância cognitiva”.

  6. Caro Américo Costa, muito obrigado pelo teu testemunho.
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    yo, não és o centro do mundo.
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    José Manuel Silva, sem dúvida, é muito fácil diabolizar o SNS por causa dos processos psicológicos em acção nos doentes e sua rede de família e amigos. É um combate feroz o da defesa da saúde pública.
    __

    f, acho que tens razão, e também acho que não tens a razão toda. Porque a tal “principal razão apresentada pelo BE para o voto contra o OE proposto pelo PS” é um sofisma. Tu próprio estás mergulhado nele, por isto:

    – A proposta de OE não é do PS, é do Governo.
    – Não sendo da responsabilidade dos partidos com assento na Assembleia da República apresentarem OE, são inúmeros os casos em que os partidos que apoiam os Governos introduzem alterações nas propostas dos “seus” Governos.
    – O BE alega que o Governo, formado pelo PS e com o seu apoio, não incluiu uma verba suficiente para o que o BE diz que faria calhando ser o BE a formar Governo e dar-lhe o seu apoio. Ora, tal omite que o Governo, em 2021, poderá deslocar para a Saúde verbas actualmente não orçamentadas e que se venham a considerar necessárias para os objectivos da governação à luz das circunstâncias (sendo estas relativas às carências detectadas e ao volume de dinheiro à disposição do Estado para tal).

    – Em suma, o BE está contra o OE porque se acha no direito de substituir o Governo na gestão da coisa pública. É uma posição legítima, e é uma posição que merece a opinião que cada um tirar a seu respeito.

  7. Ainda no dia 23/1020 fui operado no HEM (na Junqueira) .
    Após esperar 3 meses pela cirurgia, fui muito bem tratado pelo médico, enfermeiros e restante pessoal.
    Tudo dentro dos horários previstos que até fiquei super bem impressionado.
    Portanto, não compreendo como se pode dizer mal (mesmo no meio da COVID) do SNS.

  8. Claro que o argumento de que o OE “não garante” as necessidades do SNS é em si mesmo uma subjectividade tal que se topa logo racionalmente que se trata de uma desculpa esfarrapada para ocultar um preconceito concebido pelos DO bloquistas conta o “chantagista Costa” e o anti-revolucionário PS.
    Como em todos os países do mundo nenhum SNS respectivo dá garantias de resolver os problemas da pandemia que por sua vez ninguém sabe como vai evoluir nem tem ainda uma ciência exacta para a combater; as garantias à priori são despejar dinheiro no SNS no escuro.
    E estranho é o BE, à última hora, vir com o mesmo argumento dos ex-bastonários e actual que lutam nitidamente por uma saúde entregue a privados.
    O mal menor é próprio dos moderados o quanto pior melhor é próprio dos revolucionários.
    A oposição anda febril pelos milhares de milhões que vêm a caminho e não concebem que não sejam eles a distribuir pelos amigos privados; o contributo do BE, mais uma vez, chega no momento certo. Coincidências que fazem pensar.

  9. AQUI NA ESQUERDA SÓ FAZ FALTA QUEM CÁ ESTÁ!
    A direita,louca por imaginar que não presidirá à partilha dos milhões que a esquerda promete,arregimenta forças,chama toda a família,primos de Gaspar e tudo, mostrando uma força que não basta. O Chega já faz parte da família,afinal não será tão azougado como a Esquerda insinua……
    Os trastes mestres na arte de desertar ,veja-se o ocorrido em 25 de Abril, resolveram tocar a reunir e até algumas e alguns com que contávamos a eles se juntaram,seguindo esta flauta de Hamellin. Queremos que lhe aconteça quase o mesmo que aos outros ratos: um banho gelado e que não se afoguem! Os inimigos vencem-se em campo aberto e a boa gente não sonha com a morte de ninguém !!!

  10. Foi triste assistir ao debate antes da votação do OE2021, o espernear das direitas
    muito esquecidas das atrocidades a que, submeteram os portugueses invocando
    a troika e, pondo em prática medidas que não constavam do memorando negocia-
    do pelo Governo do PS … usando o TINA como argumento justificativo!
    Não foi de admirar a deserção do BE (mix caviar) escudado no argumentário das
    direitas, esquecendo as reposições feitas na legislatura anterior, como a tão criti-
    cada reposição das 35 horas, conforme assinalou o Rio, bem como, os aumentos
    escandalosos do SMN, de tudo isto o BE fez tábua rasa … talvez arrependido de
    ter entrado no “arco da governação” e, saudades da “guerrilha” sem ter aprendido
    algo com a “coerente” posição de 2011 … na altura perdeu metade dos deputados!

  11. Há alguns meses, ainda não sonhávamos com pandemia, perguntei ironicamente a uma amiga, que trabalha num hospital, quando chegaria o tempo em que o bastonário da Ordem dos Médicos não apareceria DIARIAMENTE em todos os noticiários de televisão, opinando sobre tudo e mais um par de botas. Respondeu-me ela, também com algum grau de ironia: “Quando o Serviço Nacional de Saúde deixar de existir.”

    Arrepiante realismo, que me atrevo a ajustar com uma variação em ré menor mais realista ainda: “O bastonário da Ordem dos Médicos deixará de aparecer diariamente nos noticiários de televisão quando o Serviço Nacional de Saúde estiver reduzido à condição de gabinete “coordenador” da distribuição de verbas públicas aos magníficos e altruístas “empreendedores” do sector privado.”

    Last but not least, nessa gloriosa e promissora época, 90% dos funcionários do dito gabinete “coordenador” serão escolhidos pelos (nunca é de mais dizê-lo) magníficos e altruístas “empreendedores” do sector privado.

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