Serviço público

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Como sabemos, graças aos avanços da medicina, uma proporção cada vez maior de nós viverá uma vida longa em que um período cada vez mais extenso nos imporá algum tipo de dependência de terceiros, algum tipo de sofrimento físico e a necessidade de assistência e cuidados.

Bastará falar com qualquer assistente social que trabalhe em contexto hospitalar para saber que quando um idoso tem "alta clínica" depois de ter sido alvo de cuidados diferenciados e não está nem totalmente restabelecido nem referenciado para cuidados continuados é frequentemente o cabo dos trabalhos encontrar uma solução adequada com a sua família, quando ela existe, ou com as instituições que o possam acolher para garantir que ele tem o cuidado e o apoio necessários. Se, por força dessa dependência, necessita de cuidados domiciliários mais complexos ou de ser acolhido a um equipamento como uma residência assistida ou um lar, as respostas sociais que temos no papel são de acesso universal, co-financiadas razoavelmente - embora de modo considerado muito deficitário pelas instituições de solidariedade social - mas na realidade a rede disponível é largamente insuficiente e o "não há vagas" alimenta uma espiral de perda de dignidade que acaba no isolamento do idoso, no seu internamento num lar, muitas vezes ilegal, a troco da sua magra pensão ou em custos incomportáveis para a maior parte das famílias, com equipamentos de qualidade mínima, caros, sem qualquer co-financiamento ou ajuda, seguro, modalidades de poupança que prevejam essa eventualidade ou inserção nas eventualidades de segurança social de respostas a esta necessidade.

Esse sofrimento poderia ser mitigado, melhorando a saúde física e mental do idoso que necessita de cuidados. Mas nunca é o seu ângulo que ocupa o centro das preocupações políticas. Não estudamos o défice de cuidados acessíveis no setor social (o setor público simplesmente não existe) para as necessidades reais da população idosa nem o real custo para eles (ou os dependentes de qualquer idade) e as suas famílias dos que estão acessíveis através do mercado. Mesmo quando, mais uma vez à esquerda, se tomaram iniciativas para melhorar as condições em que é prestado cuidado informal, foi para o cuidador, para a sua vida de dádiva e sacrifício até hoje não reconhecido pelo Estado que se olhou, não para a pessoa que carece de cuidado, por exemplo poder escolher o seu cuidador, não para os seus direitos ou dignidade.


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Paulo Pedroso

7 thoughts on “Serviço público”

  1. Ora aí está …à pergunta deste blog sobre as prioridades deste governo , eu respondi o que o senhor Paulo Pedroso diz….lares públicos , dar atenção , primeiro que nada , aos idosos.
    Penso que foi , na altura ministro, Paulo Pedroso , quem recebeu os resultados do “Plano avô” , um estudo feito com idosos institucionalizados , no ano 2000, e todos esses problemas já existiam , ainda que em menor escala.
    No ano 2000 …e tudo continua igual ou pior.

  2. Ora aqui estão questões de grande pertinência. Não obstante estar de acordo com a lei ontem votada no Parlamento, a realidade da maioria dos idosos em Portugal não é a de verem abreviada a sua existência. O contemplado pela nova lei poderá, eventualmente, vir a ser utilizado por uma escassa minoria, não indo contemplar a grande maioria cujo enorme sofrimento resulta, tão só, duma velhice miserável, sem apoios dignos desse nome, com dificuldades financeiras e isolados por uma enorme solidão, mesmo os que têm familiares próximos, mas que, para lhe darem esse apoio não têm meios nem disponibilidades em tempo. E, perante este quadro não vejo o Estado, nem tão pouco os partidos agora envolvidos na aprovação desta lei, com grande preocupação, afirmada veementemente a todos os momentos, em procurar melhorar esta situação de forma a proporcionar dignidade, na velhice e na morte, a estes seres humanos.

  3. o que está em discussão é a eutanásia, se somos a favor ou contra, o resto é conversa para empatar o processo. o pedroso poderia ter orçamentado e explicado como é que pretende pagar aquilo que propõe, mas dá bués de trabalho e não entrando em detalhes pode reclamar sempre mais e nunca estar de acordo com o que for feito, é o que faz a justiça, forças de segurança, bombeiros, saúde, sindicatos & restante cambada, desviar a conversa para condições utópicas, não concordar com nada e reclamar direitos de autor em tudo o que for ganho.

  4. Ó tabagista, o dinheiro arranja-se ( Fernando Gomes lançou o metro e Porto e quando questionado quanto ao dinheiro para o projecto que cada vez ia ficando maior e mais caro, respondeu mais ou menos, “ o projecto está feito, agora que avançe a intendência “Jorge Coelho farta-se de dizer, “ o dinheiro arranja-se “ e há muitos mais exemplos ) .
    Dinheiro para injectar em bancos mais que falidos é às toneladas . Portanto …

  5. “Dinheiro para injectar em bancos mais que falidos é às toneladas . Portanto …”

    … a direita leva os bancos à falência e os socialistas arranjam dinheiro para tapar os buracos. é isso?

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