Ser ou parecer (parvo), eis a questão

Ignorância ou indiferença?

Pedro Passos Coelho ficou ontem várias vezes sem resposta no Parlamento. Não soube ou não quis responder sobre as condições especiais do empréstimo europeu a Espanha. Mostrou superficialidade na resposta sobre as rendas excessivas no sector energético. E afirmou desconhecer o que o ministro da Saúde decidiu sobre o destino da maior maternidade do país. Poderia dizer-se que é sinceridade, que Passos Coelho diz a verdade e, se não sabe, diz que não sabe. Ou o contrário, que usa a ignorância como estratégia de debate, mas sabe mais do que diz saber.

Seja qual for o caso, o que incomoda é que o primeiro-ministro não se incomode em passar uma imagem de ignorância sobre assuntos fundamentais para o país. Não se incomoda o primeiro-ministro por não saber se Portugal pode melhorar as condições do seu resgate financeiro, beneficiando do empréstimo a Espanha? Não sabe o primeiro-ministro explicar como vai ser feita a renegociação das rendas excessivas, um assunto que lhe custou a única “baixa” no Governo? E tanto lhe faz se uma superstrutura da Saúde fecha num ano ou noutro, desde que cumpra o que está previsto?

Estranha forma de ser primeiro-ministro, que não se incomoda em deixar que pensem que pouco lhe importa o que se passa no país, desde que o resultado seja o cumprimento à risca do plano que lhe foi imposto. E nem se estranha que o debate acabe com o anúncio de uma moção de censura à qual também se mostrou indiferente. Ao menos o PCP é coerente. Ainda que inconsequente.

Leonete Botelho
edição-papel do Público, 16 de Junho (gracias, Penélope!)

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A exploração do valor verdade, feita pela direita portuguesa contra o PS desde 2008, exibiu a decadência intelectual e falência política das actuais elites partidárias do PSD e CDS – mas, especialmente, do Cavaquismo, pois a estratégia nasceu em Belém e foi por Belém dirigida até às suas últimas consequências: derrube do Governo por abertura de crise política imediatamente após a reeleição de Cavaco e a meio da legislatura, fosse qual fosse a situação económica nacional e internacional. Era um plano ganhador por convocar automaticamente a praxis da extrema-esquerda, com décadas da mesma cassete: os socialistas são uns vendidos, uns mentirosos. Juntando a esta retórica o caudal avassalador das campanhas de assassinato de carácter, servidas pelo conluio magistrados-jornalistas, não custa reconhecer a inevitabilidade dos acontecimentos.

Foi assim que pudemos assistir a espectáculos memoráveis, como esses de Cavaco, envolvido com a família em negócios escuros num banco de escroques, a enganar a opinião pública enquanto exigia que o Governo falasse verdade aos portugueses. Ou esses de Ferreira Leite, numa ida a Aveiro em Maio de 2009, a lançar o alarme de poder estar a ser escutada no telemóvel quando por essa altura, e nos meses seguintes, era o primeiro-ministro que andava a ser escutado ilicitamente a partir da capital do ensopado de enguias. Ou esses de Pacheco Pereira a poucos dias das eleições de 2009, quando o DN desmontou a inventona de Belém, a avisar que chegariam em breve revelações tremendas sobre um rol infindo de crimes que Sócrates e muchachos andavam a cometer. Toda esta gente chafurdava nas fugas ao segredo de Justiça, aproveitando até ao limite da hipocrisia para difamar e caluniar os governantes socialistas, e ainda tinham o supremo gozo de se apropriarem da verdade. Velhos hábitos de velhos velhacos.

Veio Passos e continuamos nesse aproveitamento degradante. Leonete Botelho, com a complacência serena de quem está a passar um responso a um dos seus, não deixa de assinalar mais um espectáculo da decadência, agora em versão nonchalant. O nosso Primeiro-Ministro, com a confiança juvenil de quem ainda não percebeu que milagre o levou ao topo da política nacional, repete a encenação da verdade como suposta transparência mental de que fez imagem de marca para surfar o moralismo anti-socrático. Trata-se de uma redução da potestas ao psicologismo, o que resulta num sortido de falácias para distribuição avulsa. E, tal como outros comentadores se têm interrogado desde que Passos se tornou Presidente do PSD, a Leonete não sabe se o seu ar de parvo é artifício ou candura.

16 thoughts on “Ser ou parecer (parvo), eis a questão”

  1. Obrigado pela função que desempenha a parecer um tipo razoavelmente inteligente vai fazendo aquelas expressões que parecem treinadas, dias a fio, num espelho flipado de Massamá. Se temos a impressão de descortinar um ligeiro ar de parvo nas ensaiadas caras, isso deve-se ao vácuo quase absoluto que tem entre as orelhas. Candura, portanto.

  2. a leonete bem que trabalhou para ter o ignorante à frente da nação. agora que percebeu como trabalha o relvas, interroga-se.
    quanto à verdade, à justiça justiceira e jornais associados, ver o post da estrela serrano.

  3. Estamos a contemplar um processo Darwiniano inverso.
    Os piores e menos capazes prevalecem e mandam embora os mais capazes.
    Isto conduz a quê?

  4. Caro Val,
    sobre a Leonete nem me pronuncio, pois não me dedico à escatologia; sobre o promissor de Massamá, creio ser duma indigência atroz o discurso que habitualmente debita, que raia a incompetência, para não lhe chamar coisa pior.
    Admira-me, no entanto, que este paquidérmico povo continue adormecido à sombra de campeonatos de futebol, ladainhas produzidas por escribas a soldo de interesses obscuros, sebastianismos recorrentes, políticos que parecem brindes da farinha Amparo ou de bolo-rei natalício, sindicalistas da justiça ou de apenas comentadores de cordel.
    Talvez um dia acordem, pois já não é sem tempo.

  5. o Darwin tem uma excepção que confirma a regra :já se descobriu que organismos inferiores cooperando entre eles conseguem bater os “superiores” . e parece que os mais capazes não têm tendência para ajuntamentos (uma idiossincrasia lixada neste sistema ), e fogem como o diabo da cruz da “cooperação ” lambe botas partidária. não se adaptaram à “democracia representativa” , que é que se há-de fazer ?

  6. Val: parabéns! A sua capacidade de inverter as coisas é espantosa. Justificou malfeitorias do PS de nível 99 e agora crucifica os amadores do PSD que, pelo menos por enquanto, ainda lá pelos 30 e poucos. Não é que o PSD mereça grande consideração. O facto óbvio é que o PS foi, e ainda é, muito pior. Mas na pena do Val esses factos valem pouco.

  7. Sara, aceito os parabéns, e confirmo que são merecidos. Mas está-me a saber a pouco, e pedia-te a gentileza de me ajudares: a que malfeitorias do PS de nível 99, que terei justificado, te referes?

  8. mas não se diz que em política, o que parece, é?
    O homem parece ignorante? É.
    O homem mostra estar desinteressado dos assuntos fulcrais do país que governa? Está.
    O homem parece ter um QI abaixo de 30? Tem.
    O homem está-se cagando para tudo o que não seja pote? Está.
    O homem é de uma inépcia que faz parecer o Santana Lopes um político digno do nome? É.
    O homem foi o chosen one by the people? Foi.
    Vamos entao discutir o sexo dos anjos, para quê?

    “Que é que se há-de fazer” (há uma cantiga que tinha uma resposta que rima)
    http://www.youtube.com/watch?v=GVrbxkwM9cM

  9. (já agora, se me é permitido, gostava de saber qual é a escala que dá classificação de malfeitorias do PSD a nível dos trinta e tal)

  10. muito bem “esgalhado” Val, ainda há muito boa gente que não entende que não está ao serviço do PS (partido) mas sim do Sócrates, e não é desinteressadamente que o faz.

    quanto aos piranhas de serviço não tenha ilusões, as crias que foram eleitas para novos mandatos no PS são do mesmo barro ou muito pior.

    o futuro é como o dos gregos só que mais tarde como de costume.

    a grande noticia vem do G20 “tratem lá dessa merda que já cheira mal” manda quem pode obedece que deve, sempre assim será.

    a anedota do costume foi o “portuga” do Durão, não há mesmo pachorra para tanta cretinice.

  11. parece qua a Sara é professora e a avaliação de desempenho e evolução não automática de carreira caiu mal – 99% mal. Com o Crato, a coisa parece ter melhorado substancialmente- para pessoas como a Sara, lá está.

    É que estas coisas fazem-me espécie e fiz a pesquisita lá no blogue. Fiquei mais preocupada com o facto de ser professora de filosofia, aparentemente. (glup)

  12. Ui, se isto está bom para os profs do quadro…já para os idiotas que foram na cantiga do sindicato (e que não faziam parte do quadro , mas gostavam de fazer) está ainda melhor : agora têm a oportunidade das suas vidas , saindo da sua zona de conforto directamente para o desemprego!
    Com o socrates ,estas oportunidades de uma vida nunca chegariam!
    E escusavam de ter levado com o triste espectaculo que é perceberem, no fim de tudo, que foram instrumentalizados e magistralmente apunhalados pelas costas pelos colegas do quadro.
    A Sara têm razão, melhor melhor não poderia ser…

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