Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep7)

Acaba-se o 12º ano – portanto, após 12 anos contínuos no sistema de educação em Portugal – já a poder exercer o direito de voto, ou na iminência disso, mas, para a enormíssima maioria dos que chegam a completar a escolaridade obrigatória, sai-se da escola sem qualquer noção do que seja o Estado de direito democrático e os pilares civilizacionais onde se sustém: história e evolução do conceito de Estado, história e evolução do conceito de democracia, história e evolução do conceito de monarquia, história e evolução do conceito de república, história e evolução do conceito de liberdade, história e evolução da Constituição da República Portuguesa de 1976. Se saltarmos para a também enormíssima maioria dos que completam licenciaturas, mestrados e doutoramentos, o panorama não será diferente; exceptuando as áreas académicas que versam disciplinarmente sobre essas matérias e os percursos individuais que tenham civilizado ou politizado mais uns poucos em práticas e epistemologias díspares.

A Cofina domina o espaço mediático por causa do tanto que devemos a Eduardo Dâmaso no combate à corrupção e do tanto mais que devemos a Octávio Ribeiro no respeito e defesa da deontologia jornalística? Outra é a explicação. O sensacionalismo não alimenta a inteligência e a indústria da calúnia não trabalha para a edificação moral da Grei. Perante uma população que entrou no século XXI com baixa literacia política, baixa cidadania, baixa produtividade e alta desigualdade económica, o pão e o circo funcionam tão melhor quão mais graves sejam as inevitavelmente cíclicas crises económicas. No caso da Cofina, como nas forças fácticas que moldam a estrutura dominante na comunicação social nacional, para além do projecto económico existe um projecto político assumido com desplante e provocação. Talvez não tenha existido um único número do Correio da Manhã, desde a sua fundação, onde o PS se tenha livrado de ser apontado como o inimigo a abater. Não custa perceber porquê nem para quê. Custa é ver uma sociedade inteira envenenada pela cultura da calúnia, custa é ver um regime conivente e adaptado aos profissionais da violação do Estado de direito da República Portuguesa.

A prestação de Inês Domingos na sessão em que interrogou Armando Vara (Ep6) arrisca-se a estar já esquecida até da própria. Os raros que a irão observar do princípio ao fim vão deparar, no entanto, com 20 minutos luminosos. A deputada do PSD limita-se a ler, com evidentes dificuldades, perguntas escritas por terceiros – enquanto ao seu lado o folclórico Virgílio Macedo vigia o desempenho da fêmea e o assombroso Duarte Marques serve de ponto e complemento. As perguntas feitas, notável e até escandalosamente tendo em conta a exploração que o PSD fez da ida de Vara para administrador da Caixa e para o BCP, são inanes. Não há vestígio nelas de ligação tangível com matérias objectivas e concretas de potencial interesse judicial. A intenção das mesmas é única e exclusivamente a de insultar e ofender Vara, tratando-o como um reles criminoso a quem não se reconhece o direito à honra e à palavra própria. Isso fica patente, logo de início e ao longo da inquirição, pela linguagem corporal da deputada, pelas suas interjeições enfáticas e teatralmente enfastiadas e desdenhosas, e ainda pela postura de arruaceiro de Duarte Marques ao mandar bocas chulas por cima das declarações de Vara.

Recapitulemos. O “dream team” enviado pelo PSD para uma comissão de inquérito dedicada a voltar a emporcalhar o espaço público com difamações e calúnias contra Sócrates, contra Vara e contra o PS, no seu segundo momento de ataque directo e presencial ao gigante do crime chamado Vara, dedica-se à boataria acéfala e ao holiganismo. Tal só é possível porque não existe qualquer penalidade para tamanha decadência. Os jornalistas nem sequer o denunciam, e o público jamais o conseguiria criticar mesmo que fosse forçado a tal. Vemos, assim, como o círculo se fecha: a ignorância civilizacional da população é usada na redução da política ao poder pelo poder. O poder de quem tiver mais meios de assassinato de carácter e menos escrúpulos, ao ponto de se transformar a Assembleia da República numa capa do esgoto a céu aberto.

6 thoughts on “Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep7)”

  1. E o mais estúpido destas inquirições já de si estúpidas dado o falso objectivo invocado de averiguar o comportamento de Vara como banqueiro ao serviço de um “atentado contra o Estado de Direito” e afinal tudo gira à volta de questionar decisões tomadas normal e legitimamente naquele tempo de normalidade económica e financeira acerca de créditos decididos em concelho de administração de bancos dirigidos por um Presidente e mais 10 ou 12 administradores, dizia, o mais estúpido e confrangedor desta porca miséria é ver os designados do PS embarcarem enlevados na lógica vingativa-fraudulenta dos Duarte e Duartas Marques sem pestanejarem sequer.
    Donde vieram e por onde andaram e estudaram filosofia e acção política esta gente que nem uma pinga de exemplo de Soares lhes ocorre ao cérebro e à mente!
    Que arrojo indecente de políticos mal preparados lhes foi induzido que não sabem distinguir a prática e herança política de um partido de valores morais e de justiça feita segundo Leis e defesa dos princípios e direitos humanos que são timbre dum partido que sempre se bateu pela Democracia contra os anti-democratas!
    Tão indecentes e ceguetas que não se apercebem que ao insultarem, apoucarem e ridicularizarem Vara por meio de insinuações, encenações e dramatizações de opereta sem qualquer consistência real para além desse teatro de sombras e canto de falsete estão, simultaneamente, a insultar o próprio partido a que pertencem.
    Afinal, porque razão lógica, alinham na destruição gratuita de carácter de um antigo quadro superior do partido o qual defendeu sempre com igual espírito de dedicação e entusiasmo a que eles próprios estão obrigados moralmente a defender!
    Afinal o que aprenderam com a vida inteira de combate de Soares pela liberdade e a verdade contra as manobras e inventonas da Pide!
    Vara, neste inquérito, quando derivou para o assunto “atentado contra o Estado de Direito” e até se riu de tal elaboração, sem o mínimo nexo factual-causal, inventada pelo Vidal, imão da Vidal e filho de Vidal velho esbirro salazarista especializado em ciladas, mostrou um saudável carácter democrático a léguas dos imbecis que em nome do partido o enterram mais que o alevantam.

  2. “… o mais estúpido e confrangedor desta porca miséria é ver os designados do PS embarcarem enlevados na lógica vingativa-fraudulenta dos Duarte e Duartas Marques sem pestanejarem sequer.”

    as lêndeas & marrativas da acusação deveriam ter sido desmontadas pelo ps no início do filme em vez de andarem com pruridos “à justiça o que é da justiça, à política o que é da política” num processo evidentemente político, mascarado de caça “aos ladrões do ps”. o principal culpado desta cobardia política foi antónio costa que vai sendo primeiro-ministro enquanto não enfrentar o partido justicialista, entretanto vão ardendo varas até chegarem os bombeiros da frente de salvação nacional para dar a machadada final na democracia.

  3. «…entretanto vão ardendo varas até chegarem os bombeiros da frente de salvação nacional para dar a machadada final na democracia.»

    nem mais ! entretanto a esquerda manifesta-se pelo Floyd, pois, como bem sabemos, nós por cá nunca tivemos “floydas” a serem algemadas contra o asfalto e à frente da filha apenas por não sei o quê que tinha a ver com o passe do autocarro. mas claro que um negro amaricano é uma vitima internacional, i.é, tem outro estatuto, é uma racismo de colidade, sei lá….

  4. Ok. Armando Vara é um odre de virtudes! Os PPD são naturalmente defensores do capitalismo. E o PS não tem pactuado com o capitalismo? Ñ tem posto social democracia em “retraite”? Ñ tem mantido o escândalo das PPP’s com as cláusulas leoninas a favor dos sanguessugas dos impostos dos portugueses? Veja-se o António Vitorino presidente da AG da Brisa a manobrar para o PS anular a dívida de 156 milhões de euros ao fisco. Fala -se aqui em Estado de Direito. Mas há algum Estado sem ser de Direito? De k direitos estamos a falar? Sejamos intelectualmente honestos ! Militante do PS, social democrata, com as quotas em dia.

  5. Quem bate, assim, levemente,
    com tão estranha leveza,
    que mal se ouve, mal se sente?
    Não é chuva, nem é gente,
    nem é vento com certeza.

    Fui ver. A neve caía
    e não há nenhum Silvino Dias Ruivo, militante do PS
    com as quotas em dia.

  6. Mais vale escolher uma vara
    que eleger um politico :
    sempre se sabe quanto mede
    todos sabem pró que serve .

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