Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep11)

«“Quem mais ganha com a comissão de inquérito são os concorrentes da Caixa — esses são os maiores entusiastas, além de alguns ressabiados“, diz o presidente da Caixa, garantindo que a Caixa tirou muitas lições do que a aconteceu e que não só a Caixa mas toda a banca rege-se, hoje, por práticas muito diferentes, incluindo na área do crédito e do risco.

A Caixa está diferente hoje, ou não, do que eram aquelas práticas? Está de certeza muito diferente, porque a banca toda está diferente: a supervisão é outra, a regulação é outra, as práticas de risco são outras, as tecnologias, a governance”, diz Paulo Macedo. “As lições que temos de retirar do passado levam-nos a que hoje em dia tenhamos, por força da supervisão e da regulação, uma ação concreta e sistemática em termos de governance. Além disso, a Caixa hoje tem rácios de capital mais fortes” e aprendeu a lição de que não pode voltar a ser a “última a ajustar os seus custos à redução de negócio”, diz o presidente-executivo.»


Fonte

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O PCP era contra a realização de mais uma peixeirada à pala da CGD. Estávamos em finais de Janeiro de 2019, os comunistas pareciam querer cumprir com zelo o mote da “política patriótica e de esquerda” pois alegavam que aquela que viria a ser a terceira comissão de inquérito parlamentar dedicada às venturas e desventuras da Caixa numa única legislatura só servia os interesses da direita e da banca privada. Daí, o plano ser o de lavar as mãos abstendo-se no plenário, deixar para os outros o trabalho de montarem o circo, e aproveitar as sessões para dar uns pontapés nos inimigos do povo e dos trabalhadores.

Paulo Macedo também era contra a realização de mais um festival de bombarda à reputação da Caixa. O CEO da instituição financeira lamentou, antes de a comissão começar os seus trabalhos, que se estivesse outra vez a discutir o passado em vez de se estar a ganhar o futuro. Depois da palhaçada terminar, veio expor detalhadamente o mal que tinha feito ao seu negócio – portanto, a um negócio que dá dinheiro aos portugueses quando há lucros. As suas palavras, citadas acima, são à prova de estúpidos mas não de ressabiados. Elas resumem a questão ao que é objectivamente essencial: até à crise económica de 2008-11 as regras eram outras para toda a banca, onde a CGD tentava ser competitiva por missão pública. Vir agora julgar o passado com as regras do presente pode servir para encher a indústria da calúnia de tráfego, e a direita e a esquerda sectárias de cagança demagógica, mas não puxa a carroça do interesse do banco público.

Comunistas, a esquerda pura e sem mistura, a esquerda da revolução e da felicidade marxista, estavam de braço dado com o responsável pela sujeição da CGD à gula do imperialismo capitalista, abraçados a uma estrambólica figura que tinha sido um ás da fiscalidade do barrosismo e do ferreira-leitismo, para depois dar por si a participar no “Assalto ao BCP” colaborando com o gangster Vara, só para, logo a seguir, receber o prémio de ser um dos mais prestigiados ministros do saudoso Passos Coelho. Malhas narrativas que fanáticos e pulhas tecem, onde a racionalidade e a decência jazem mortas e arrefecem.

A comissão gerou-se no (e para o) charivari eleitoral de 2019. PSD e CDS garantiram que era desta, à terceira tentativa em 4 anos, que iam finalmente expor os podres do socratismo bancário, muito provavelmente conseguindo enfiar em Évora mais uma meia dúzia de socialistas do piorio (ou do ainda pior). Isto porque iam poder vasculhar tudo e mais alguma coisa, os gatunos não tinham por onde escapar. Pois bem, que aconteceu ao aprovarem o relatório final? Aconteceu que o PSD nem sequer lá conseguiu enfiar a expressão “indícios de gestão danosa“. Teve de se contentar com “a CGD não foi gerida de forma sã e prudente“. É o equivalente a estarmos no Ticão a sermos espancados pelo Calex e, de repente, sermos teletransportados para uma consulta com um nutricionista distraído. Para quem perder (ou ganhar) o seu rico tempo a tomar conhecimento das negociações semânticas com que os deputados despacharam 36 audições (com duração total de 136 horas e 32 minutos), depoimentos escritos de várias personalidades e entidades (como o de José Sócrates ou da Comissão de Ética do Banco de Portugal) e milhares de documentos, só há uma conclusão: a retórica com que entraram foi a retórica com que saíram. Um festival de pescada, antes de o ser já o era.

Tal circularidade esgota a segunda oportunidade dada a Paulo Sá para interrogar Vara (Ep10), em que assistimos ao seu crescendo emocional até ficar à beira de um ataque de nervos por não conseguir que o interlocutor aceite, que meramente verbalize nem que fosse para o consolar, uma avaliação subjectiva que o deputado tinha cristalizado na cachimónia e perante a qual toda a alteridade circundante tinha de se anular. Não contente, conseguiu gastar uns inacreditáveis quase três minutos do reduzido tempo disponível para colocar a segunda e última questão – inacreditavelmente sobre Vale do Lobo e com uma inacreditável estupidez inquiridora. O retrato de inutilidade que o deputado deixou é de uma transparência patética. Símile exacto da sórdida inutilidade desta comissão de inquérito.

4 thoughts on “Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep11)”

  1. As comissões de inquérito nos últimos anos em Portugal decorreram todas sobre o mesmo signo. A maioria dos portugueses e os seus representantes na AR nunca aceitaram a crise financeira, quanto mais as implicações dela decorrentes. No caso da do Vara ainda se lhe juntou um preconceito social muito próprio da nação.

    O Face Oculta foi mais do mesmo. Processos que passarão à história como muitos datados. Retratos de uma época em que o CM foi ao mesmo tempo o principal órgão de polícia criminal e de acção penal assim como o principal Tribunal do país. E quando assim é… Mais uma vez foi um acto de fé.

    O Ministério Público de Aveiro “acreditou” que Manuel José Godinho pagou 25 mil euros a Armando Vara. A convicção, ao que parece, teve por base duas escutas telefónicas. O juiz de instrução de Aveiro não afastou as suspeitas. E o coletivo de juízes do Tribunal de Aveiro também acreditou. O que foi suficiente para dar como provado que o antigo ministro e ex-vice-presidente do BCP recebeu 25 mil euros do sucateiro Manuel Godinho e lavrar uma sentença completamente inédita em Portugal. E pela primeira vez um ex-ministro foi condenado a uma pena de prisão efetiva por tráfico de influências. Foi a melhor forma de contornar a falta de provas para o crime de corrupção como dizia o auto de fé do MP.

    Portanto só um céptico como o Valupi para vir agora reclamar por provas efectivas e desconfiar de tanta gente que acredita. Um acto de fé é um acto de fé. O Lula também foi condenado no Brasil por factos indeterminados. Como consta aliás na sentença.

    O próprio acórdão da relação não podia ser mais claro na intenção de condenar alguém como exemplo: “As condutas de pessoas com responsabilidades públicas que se aproveitem da sua posição para tirarem benefícios para si ou para terceiros, não são toleradas pela comunidade. São comportamentos que se afastam da exigível matriz de honestidade e ferem os princípios democráticos denegrindo sentimentos nobres de solidariedade social.”

    Tudo embrulhado é muito mais digno da barbárie em que se queimavam pessoas na fogueira por actos de fé para servirem de exemplo à comunidade do que de um verdadeiro Estado de Direito. E o mais importante é que a turba voltou a rejubilar como rejubilava nos tempos da Stª Inquisição.

    P.S. E a saga do Alex continua na EDP. Passados oito anos é que se lembrou do perigo de destruir documentos. Numa empresa privada. Se isto não é insanidade…

  2. P, esses 25 mil euros nunca foram descobertos. E o suposto agente público corrompido, o então ministro Mário Lino, negou a acusação contra Vara, o que, portanto, teria de o ter feito cúmplice do acusado e condenado posto que a tese do Ministério Público dependia desse nexo de causalidade para ter alguma verosimilhança. Porém, Lino nem arguido foi.

    O que se entende muito bem. Ter Lino como arguido e não acusado despertaria suspeitas para a acusação a Vara. Ter Lino arguido e acusado, arriscava levar o tribunal a não condenar Vara por não poder condenar Lino, já que não se poderia fazer a Lino o que acabou por ser feito a Vara.

    Todo o processo está suportado num testemunho de Ana Paula Vitorino, a qual alega ter sofrido pressões de… Lino.

    Dito isto, não faço ideia se Vara é inocente ou culpado. Fiquei foi a fazer uma claríssima ideia do que é a utilização da Justiça para a perseguição política e vingança pessoal.

  3. Concordo. E claro que os 25 000 nunca apareceram. Por isso é que caiu a corrupção. E também concordo que só o Lino nunca ter sido constituído arguido… Ainda faz lembrar a Feroostal que também foi condenada por corrupção activa na Alemanha e cá… arquivou-se.

    P.S. O tom do meu comentário era irónico. Nem vejo como poderia ser outro neste caso.

  4. Ó P, desculpe a franqueza, é P de prolixo e também P de Pinóquio nao é, anda aqui como um doido a correr à rédea solta dum lado para o outro armado em especialista a pela abundância de material escrito que você debita para aqui (prolixo) e então nem sequer sabe qual é a diferença entre uma sentença e um acórdão e anda para aqui arvorado em tudólogo, diz que um juiz proferiu um acórdão, nem sabe a diferença entre uma sentença e um acórdão e anda pra aqui arvorado em expert, vá-se informar primeiro, dasse …

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