Quem tem medo dos idos de Março?

Na passada sexta-feira, a SIC Notícias ofereceu uma imprevista emissão especial sobre o futuro partido Livre, ou, talvez melhor, sobre o presente Rui Tavares. Começou na rubrica Tabu, Edição da Noite, onde Louçã fez questão de lembrar que considera a antiga estrelinha do bloquismo como um ser fedífrago. Não contente, carimbou o projecto em marcha com o título “primeiro partido unipessoal em Portugal“; matéria em que Louçã, reconheça-se, será uma das maiores autoridades nacionais após décadas de investigação e prática nessa mesmíssima área. Se o Rui escutou estas calorosas palavras, então ficou com a certeza de ser melhor esperar enterrado para voltar a falar com Louçã sobre os mútuos e megalómanos projectos de reengenharia da esquerda, não sendo previsível que sequer consigam ir beber um abatanado juntos nos próximos mil anos.

Seguiu-se o Expresso da Meia-noite, com as presenças de João Oliveira, Pedro Silva Pereira, Vítor Ramalho e o Rui. Lá pelo meio, o Pedro e o João entraram numa disputa de cuja memória serei eu o único guardião em toda a galáxia. É um diálogo que tem tanto de banal como de extraordinário, tanto de inútil como de decisivo. Resume-se a isto: Pedro Silva Pereira frisava que o actual Governo nasceu de uma burla eleitoral, por se ter prometido exactamente o oposto do que veio a fazer, e que o Governo tinha destruído o País na demência de ir além das medidas de austeridade acordadas com a Troika em Maio de 2011 – João Oliveira dizia que o PS era igual ao PSD e CDS porque no PEC IV os socialistas também se propunham tomar medidas de austeridade.

Esta discussão, de que não será possível encontrar qualquer eco seja onde for fora deste texto, é um microcosmo perfeito do bloqueio político à esquerda. De um lado, temos o relato de uma situação que se oferece objectivamente à avaliação de qualquer um. Qualquer um pode confirmar que Pedro Silva Pereira se limita a coligir factos indiscutíveis na sua factualidade. Claro, o valor que cada qual dará a esses mesmos acontecimentos varia consoante os interesses do avaliador. E, por isso mesmo, os direitolas calam-se perante as evidências e pisam e repisam as deturpações. Do outro lado, temos a cristalização de uma posição radical – aliás, maniqueísta – onde o critério da avaliação não admite gradações, é binário. João Oliveira mostra ser indiferente às consequências de se ter trocado quem tomaria o mínimo de medidas de austeridade que fosse possível na conjuntura por quem se se propôs tomar o máximo de medidas de austeridade que fosse possível, em modo “custe o que custar“. Estes, pois, são dois mundos sem nenhum contacto entre eles. Nada há para negociar com quem só admite uma solução política, a própria. Qualquer desvio ao que o PCP considere ser o seu entendimento será fatalmente uma brecha intolerável na muralha de aço do seu sectarismo soviético.

Nisto salta para a arena o Rui. Era a sua grande oportunidade de mostrar ao que vinha e o que valia. E eis o que começa por dizer: “A mim não me interessa nada o PEC IV, e o PEC III, e o PEC II…“, indo por aí leve como uma flor. Estava noutra. O que ele tinha para propor era um varrimento da História, onde tanto o PS como o PCP iam a correr apagar as suas diferenças e se juntariam a seguir para se abraçarem nas suas parecenças. Porquê? Porque ele estava a dizer. E disse-o várias vezes, especialmente para o João Oliveira, o qual lhe retribuía exibindo aquela cara que fazemos se calhar ouvirmos chinês falado por um turco. O discurso do Rui era análogo ao que se aplica quando dois tipos desatam ao estalo num aniversário ou casamento e há sempre alguém que se sai com um “Vá lá, sejam amigos, não estraguem a festa.” É que não se estava apenas perante um tentativa falha de sofisticação psicológica; era mais do que isso, era uma tentativa de infantilização dos interlocutores vinda da incônscia puerilidade do mediador.

O desespero do Pedro Silva Pereira perante o granítico fundamentalismo do João Oliveira foi uma visão comovente. Nem o seu apelo à razão, muito menos o apelo à moral do Tavares, produziu a mínima vacilação no estupor ideológico de que o Oliveira é um magnífico exemplo. Pura e simplesmente, os comunistas portugueses são imunes ao bem comum, nisso sendo uma cópia da actual direita decadente que tomou o poder. Se o fundador do Livre quiser continuar com a rábula de ser possível levar os comunistas a aceitarem contaminar-se nas águas da democracia liberal, esse regime onde 90% do eleitorado quer viver, para dialogar com socialistas que têm levado este modelo de sociedade às costas perante o boicote sistemático da esquerda pura e verdadeira, então talvez deva começar por se convencer a si próprio que pretender apagar o que aconteceu em Março de 2011 só interessa aos cúmplices dessa traição.

17 thoughts on “Quem tem medo dos idos de Março?”

  1. Val
    Gostava de saber qual é o estudo onde se baseia para afirmar que 90% do eleitorado quer viver numa democracia liberal?

  2. Muito bem, Val. Ontem, lá estava o Rui Tavares outra vez na SIC N a explicar a verdadeira liberdade que será aderir ao LIVRE.

  3. “Esta discussão, de que não será possível encontrar qualquer eco seja onde for fora deste texto, é um microcosmo perfeito do bloqueio político à esquerda.”

    Tu nunca te relês, pois não ? E fazes disso uma questão de principio…

    Quanto ao resto, mais um post como este e vou acabar por ir ler com mais atenção as propostas do Rui Tavares, que julgava até agora pouco crediveis.

    Boas

  4. “… mais um post como este e vou acabar por ir ler com mais atenção as propostas do Rui Tavares, que julgava até agora pouco crediveis.”

    a nsa deveria estar atenta a estas ameaças, o viegas ainda destabiliza esta merda toda se alguma vez pensar em votar no rui tavares, não pelo voto, mas pelo facto de pensar. phónix! este alterna com a obimba em matéria de parvoeira, caralhos fodam os umbigos deslumbrados dos abéques.

    ps – tamém gosto bués da boina à comandante do aspirante valupi.

  5. o rui tavares e tudo o que possa servir para tirar um voto ao ps terá todo o apoio e publicidade da direita. uma convergência de esquerda acabaria com o bloco de esquerda e o partido comunista abria a mão para uma expressão resídual, isto só interessaria ao partido socialista e o folclore do tavares aparece agora para segurar o desastre do louçã.

  6. Como não conheço aquele que por Valupi se identifica, mas sendo alguém que se esforça por ser justo e tolerante, resta-me pedir-lhe que, nem por mera casualidade, nunca morda a própria língua. Seria fatal, não mais Valupi!
    José Luís Moreira dos Santos

  7. O João Oliveira fez o seu número de cãozinho amestrado do Ricardo Costa, que, na parte final do programa, exibia o sorriso rasgado de quem confiadamente anunciava ao povo do «Expresso» que – podem estar descansados! – aquilo da Aula Magna vai dar em nada.
    Quanto ao Rui Tavares – ou melhor: a propósito de -, penso que, num momento em que, se calhar, a maior parte dos portugueses hoje vivos estava, em 25 de abril de 1974, no berço, na creche, na primária ou à espera de vez, é chegada a altura de começar a perguntar: «Onde estavas tu em 23 de março de 2011?»

  8. é o pau, é a pedra, é o fim do caminho, é o resto do João, é o Tavares sozinho … plim, plim, tarari, tarari…plim. plim!

  9. Em contrapartida, não consigo arranjar explicação para so agora teres visto as possibilidades retoricas dos idos de Março. Estavas distraido até hoje ? Ou encontrar formas de usar a referência em relação à tragédia do divo J.S. é mais complicado do que parece ?

    Boas

  10. Que fastio…

    O Rui Tavares quer agora fazer sózinho o que o amigo Lopes Cardoso (UEDS), a simpática parelha Carmelinda Pereira/Aires Rodrigues (POUS) e os próprios PSR/LCI sempre tentaram sem qualquer sucesso ao longo dos últimos trinta e cinco anos, pelo menos: unir as “bases” do PS e do PC em torno de um “programa comum” de Esquerda! Que lunáticos.

    É um filme tão velho e com tantos “remakes”, todos falhados, que esta nova investida – sem novidade nem convicção algumas -, em nada abona a suposta inteligência deste cromo Rui Tavares, agora finalmente LIVRE…

  11. denunciei,do dia seguinte o comportamento do social fascista joao oliveira no expresso da meia noite.retenho até ver as palavras de rui tavares na tsf: “o livre será um partido posicionado entre o bloco e o ps”.se vem para criar uma maioria de governo na area da esquerda democratica terá certamente votos do povo.é no meio da desgraça que aparecem os ditadores e o pcp e a extrema esquerda precisam destes momentos para se afirmarem.armenio santos e os seus soldados andam feliz da vida com esta azáfama.ontem fiquie a saber que o movimento qu se lixe a troika é controlado pelo pcp,como se viu nos pros e contras.

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