Portugueses com defeito

É a maior praga da estupidificação nacional através da fala. A repetição da expressão “por defeito” como tradução do inglês “default“.

Ao contrário do que se escreve no Ciberdúvidas, e sendo suficiente para desconfiar de tudo o resto que lá esteja escarrapachado tal a gravidade da calinada, não estamos perante uma tradução literal por aquela que devia ser uma óbvia razão: “defeito” não é sinónimo de “falta” – “falta” é que pode ser sinónimo de “defeito”.

Quando se começou a usar “default” no contexto informático de língua inglesa, a situação descrita remetia para uma ausência de alteração num dado estado de um dado sistema, geralmente considerado inicial do ponto de vista da utilização. Não consta que a definição tenha mudado entretanto. Essa “falta” não tem nada de errado, pelo contrário. É apenas a circunstancial privação da mudança. Logo, carimbar uma condição bondosa, nascida da alta inteligência dos magníficos engenheiros informáticos, com o selo de “defeito” é uma prática curiosa, até exótica, mas a qual devia preocupar os que ainda não desistiram de falar português.

Claro, para falar português é preciso pensar. Para traduzir “default” apenas de ouvido, acabando por usar uma palavra que transmite o seu oposto, já não é preciso nem é recomendável. Mas talvez a explicação do fenómeno seja a de que, por defeito de origem, os portugueses estão demasiado ocupados com os seus problemas e não conseguem arranjar tempo para pensar.

80 thoughts on “Portugueses com defeito”

  1. Post Valupi “pur jus”.

    Não sabe ler, ou não sabe o que significa “literal”. Isso não o impede de atirar bojardas em tom pedante e agressivo, normalmente para acabar por dizer a mesma coisa do que o texto que pretende criticar. De caminho, aproveita para insultar um ser misterioso que ele acredita estar atras do espelho.

    Finalmente, por força de não fazer o mais pequeno esforço para procurar entender aquilo de que esta a falar, deita os foguetes da festa, convencido que ganhou uma longa guerra feita de batalhas épicas, quando na realidade apenas se trata de “falta de comparência”. O que, por falar nisso, é uma das modalidades do “default”.

    Boas

  2. em outra perspectiva, que vai dar à mesma do título, o defeito é sempre um custo da não qualidade. ora tal não significa que esta não exista – não está é a ser utilizada (ou bem utilizada). se assim fosse, por exemplo na indústria, se o defeito significasse falta, estaríamos reduzidos à mediocridade – o que não é, de todo, verdade-, isto porque a não qualidade pode bem ser pontual ou condicionada.

  3. Já ouvi muitas vezes que deveria de utilizar os “valores por defeito” em diversas circunstâncias, que o meu cérebro traduzia para valores de origem, de fábrica, padrão.
    O que nunca me passou pela cabeça é que, por defeito, essa expressão tivesse resultado de uma má tradução.
    Obrigado, aprendi mais qualquer coisa.

  4. prontes ficámos a saber o que não é default e o que significa, mas continuamos sem saber qual é a tradução para português. deve ser por isso que não sabemos, nem nunca chegaremos a saber porque é que o bes faliu, se calhar foi incumprimento de ciberdívidas.

  5. Parece-me que um das maiores pragas da estupidificação nacional através da fala é a repetição de que a expressão “por defeito” não traduz correctamente o inglês “by default“.

    Em português, tanto no uso erudito como no uso vulgar e despretensioso da língua, é perfeitamente correcto dizer «por defeito» no sentido de «faltar», de «ficar aquém» como é correcto dizer «por excesso» no sentido de «sobrar», de «ficar além». Nenhum desses dois usos pressupõe necessariamente que o «defeito» ou «excesso» implique o sentido de imperfeição.

    E não só o sentido não é novo, como os seus pergaminhos são exactamente os mesmos do “default” inglês, que tanto pode querer dizer, no uso correcto e corrente, «falta» (no sentido de ausência) como «imperfeição». A origem etimológica de «defeito» indica isso mesmo: «deficere» no latim tem precisamente o sentido de falta, de ausência.

    Em inglês diz-se frequentemente “by default” para referir o estado original de alguma coisa na ausência (cá está ela, sem implicação de imperfeição) de alterações a esse estado original. A mesmíssima coisa pode e deve ser feita em português. Nada de mais correcto, erudito, prático e depretensioso.

  6. @ Assis: Em português «cometer suicídio» é perfeitamente correcto. Tão correcto como, por exemplo, «cometer um homícidio» (claro que não está lá «um» porque cada um de nós só pode suicidar uma pessoa).

  7. Correcções aos meus dois últimos comentários: «deSpretensioso» e «homicÍdio», é claro. Como o post original era linguístico, convém proteger o flanco…

  8. assis, aí estamos no campo da perífrase.
    __

    joão viegas, tens ido às consultas?
    __

    ignatz, é pensares um bocadinho no assunto.
    __

    Gungunhana Meirelles, costumas reler o que escreves? Desconfio que não. Se for o caso, aconselho-te a releitura antes de carregares no botão.

  9. Exactamente Meireles. E se o Valupi tivesse dedicado 2 segundos para aprofundar o significado de falha/falta (que se ouve em defeito), em vez de se armar em bom desatando a insultar o autor de um texto que esta bastante correcto, teria descoberto isso mesmo.

    Mas deixa estar, ele ja aparece ai para nos explicar que tudo isto não passava de ironia e que o post dele, afinal de contas, é o perfeito exemplo de como, por vezes, a virtude esta na falta, na falha, no não agir (nem falar)…

    Boas

  10. Exemplo típico de utilização técnica (e correctíssima no seu uso do português): em análise numérica (matemática) , como nas contas da mercearia, um arredondamento numérico faz-se «por excesso» ou por que mais? «Por defeito», pois claro.

  11. Eu uso “por omissão”.
    Outro disparate é o “salvar” referido a trabalho, ficheiros, etc.. Nem sequer é uma tradução, pois “to save” em inglês é guardar, poupar. Eu uso guardar.

  12. @ Jorge:

    «Por omissão» pode ter os mesmos dois sentidos de «por defeito», i.e. o simplesmente descritivo e o que transmite a noção de imperfeição. Por exemplo: «omitir o supérfluo» e «devolver por omissão de endereço».

    É aceitável dizer, por exemplo, «por omissão, o aparelho está desligado», mas é melhor dizer «por defeito, o aparelho está desligado». No primeiro caso veicula-se mais facilmente a noção errada de que o aparelho deve estar ligado e só não está por desleixo ou esquecimento de alguém, enquanto no segundo é mais imediato que o aparelho se mantém desligado até alguém o ligar.

    Não existe qualquer razão para se evitar o «por defeito» — que, de resto, até tem a vantagem de facilitar a livre-circulação entre a literacia e a numeracia.

  13. o poeta da benedita é que tinha a mania destas cretinices e costumava dedicar umas críticas literárias às páginas amarelas e guias turísticos. bolta xico, tás perdoado.

  14. Já agora, um comentário adicional. A entrada do Ciberdúvidas que o Valupi cita é muito fraca e facilita confusões como a que ele fez.

    Primeiro, porque se deixa contagiar pela forma em que a pergunta a que pretende responder é colocada («o nosso “defeito” nada tem a ver com “default”») e complica imenso uma questão absolutamente simples e linear, até do ponto de vista etimológico.

    E segundo, porque mostra também não perceber muito de francês, uma vez que, na sua demanda de resposta para este mistério tão pouco misterioso, vai procurar um hipotético francês «par défaut» em vez do «à défaut» (i.e. na ausência de) que, esse sim, traduz literal e perfeitamente o “by default” inglês, tal como o “por defeito” o traduz em português.

    Que me desculpem os senhores linguistas complicados que ignoram que «defeito» em português (e latim, e francês…) não é só aleijão, mas isto é «branco é, galinha o põe»…

  15. Meireles,

    Julgo que estas a confundir : a pergunta que citas não é da responsabilidade da Ciberduvidas, mas a expressão de uma duvida, neste caso até esta la o nome do autor e tudo. Ele é que, tal como o Valupi, faz confusão, limitando-se a ouvir um dos sentidos da palavra “defeito”.

    Na resposta, estão considerações proximas daquilo que dizes. Teria sido mais simples referir-se a expressões bem conhecidas, como as que tu citaste (“por excesso”/”por defeito”). Mas enfim, o sentido geral esta la, tal como o apelo às outras linguas latinas (e a palavra inglesa vem do francês).

    Boas

  16. Explicando-me melhor: é interessante que o redactor do Ciberdúvidas tenha ido buscar um «dicionário de terminologia francesa» do Quebeque (onde a influência anglo-saxónica é forte) para considerar o «par défaut»; e tenha esquecido a expressão francesa de gema «à défaut», que quer dizer exactamente «na ausência» de alguma coisa e ajudaria a perceber o sentido português do «defeito» que se opõe a «excesso» e nada tem a ver com aleijões ou imperfeições.

    E depois, como lhe escapa esse sentido, anda às voltas com as «normas» e os «padrões», sem registar de forma nítida que a ausência que o inglês nos está a comunicar é ausência de acção por parte dos destinatários das instruções onde a expressão é usada…

    é perfeitamente possível que em manuais quebefrancês se costume traduzir o inglês by7 defilet

  17. João Viegas escreveu: “Julgo que estas a confundir : a pergunta que citas não é da responsabilidade da Ciberduvidas, mas a expressão de uma duvida, neste caso até esta la o nome do autor e tudo.”

    O que escrevi foi o seguinte (acrescentando agora comentários em itálico entre parêntesis):

    “Primeiro, porque [o redactor do Ciberdúvidas que responde à pergunta] se deixa contagiar pela forma em que a pergunta a que pretende responder é colocada («o nosso “defeito” nada tem a ver com “default”») [i.e. uma citação directa da pergunta do perguntador] e complica imenso uma questão absolutamente simples e linear, até do ponto de vista etimológico.”

    Não creio ter havido confusão alguma.

  18. No final de um post anterior meu aparecem os seguintes macacos: “é perfeitamente possível que em manuais quebefrancês se costume traduzir o inglês by7 defilet.”

    São acidentais. Favor não fazer caso. Lá mais para cima o Valupi aconselha-me a reler o que escrevo antes de carregar no botão. E é o que costumo fazer, mas também existe um problema inerente a este blogue que é de não ter um botãozito de visionamento, antes do botão definitivo.

    De qq modo, como abundam os improvisos…

  19. OK, então a confusão sera minha. Mas não acho a resposta da Ciberduvidas incorrecta, nem completamente disparatada. Poderia ser mais clara, mais completa e mais pertinente, concordo. Tanto no Inglês como no Francês (no qual o Inglês se inspirou) o “défault/défaut” evoca o facto de uma pessoa não comparecer. Por exemplo ha julgamentos “par défaut” ou “by default” (em português, diriamos antes “na ausência”). Em francês “à défaut” equivale ao nosso “à falta de” (e é sinonimo de “faute de”)…

    Boas

  20. No fundo é uma questão de matizes que palavras com étimos e significados comuns vão ganhando ou perdendo nas diversas línguas que atravessam. Estou em crer que o sentido puramente descritivo de «defeito», em português, é capaz de se ter mantido com mais acuidade para quem lida com números e terminologias científicas, o que pode explicar a estranheza (de sinais contrários) tanto dos literatos como dos mais versados em números.

    Em português, duas palavras como «defeito» e «deficiência», com uma origem etimológica comum, divergem nos seus matizes de significação. Nunca se diria, por exemplo, «arredondar por deficiência» (a não ser para exprimir um erro), mas diz-se «por defeito» sem problema nenhum.

    Em inglês não se usa “default” no sentido exacto de “defficiency” ou “failing”, mas pode usar-se no sentido de deficiência por ausência de alguma coisa, e até traduz a palavra portuguesa «falência» (é escusado dizer o que é que falta nesse caso…).

  21. Todas as contas feitas, acho que a irritação que esta coisa provoca é reminiscente daquela batalha que o Karel Capek descreve na Fábrica de Absoluto, quando as faculdades de letras e ciências, ébrias de absoluto divino, se defrontam a golpes de calhamaços.

  22. Gungunhana Meirelles, ao aconselhar-te a releres o que escreves não estava a referir-me a eventuais erros ortográficos ou dislexias, mas sim ao teu pensamento. Aliás, nem sequer tinha lido o teu comentário que entretanto apareceu antes do meu.

    Que em inglês, e precisamente por razões etimológicas, “default” acabou por ser usado na informática para designar algum tipo de ausência é precisamente o ponto da questão. Uma ausência, falta ou omissão não é um “defeito” no seu primeiro sentido. Só em contexto é que tal poderá ser associado. Um defeito é um elemento errado numa dada realidade para a fala em Portugal. Não é esse, obviamente, o significado de “default” no terreno informático, daí ser contraditório que em português se traduza como “defeito” o que é norma inicial.

    Os teus considerandos sobre o “uso vulgar e despretensioso da língua”, de que és um duvidoso juiz, apenas expõem um sofisma primário que nem merece comentário.

  23. O caramelo, a etimologia de “default” é exactamente a mesma do que a de “defeito” (tirando a passagem pelo francês). Ambos radicam no latim defectus (falha).

    Nas ocorrências mencionadas pelo Meireles “Por excesso/por defeito” onde é que esta o tal “elemento errado numa dada realidade” ? Ou achas que estas expressões nasceram apenas com a informatica ?

    A tua teimosia em fazer figuras tristes é impressionante…

    Boas

  24. Tenho ido regularmente às consultas mas o médico é precisamente quem me manda vir para aqui. Portanto se estas com dinheiro a mais, o melhor sera manda-lo directamente ao médico…

    Abraço

  25. Valupi em negrito: “Gungunhana Meirelles, ao aconselhar-te a releres o que escreves não estava a referir-me a eventuais erros ortográficos ou dislexias, mas sim ao teu pensamento. Aliás, nem sequer tinha lido o teu comentário que entretanto apareceu antes do meu.”

    É sempre boa ideia ler antes de aconselhar a reler, embora nem sempre seja possível.

    Que em inglês, e precisamente por razões etimológicas, “default” acabou por ser usado na informática para designar algum tipo de ausência é precisamente o ponto da questão.

    Não «acabou por ser usado na informática». É usado com o mesmíssimo sentido há muito tempo e em todos os domínios para exprimir o mesmo. O uso na informática não sai da normalidade mais normal que se podia conceber muito antes do advento da informática.

    Uma ausência, falta ou omissão não é um “defeito” no seu primeiro sentido. Só em contexto é que tal poderá ser associado.

    Por outras palavras, um determinado sentido deduz-se a partir do contexto associado, de onde se segue que outro sentido só se poderá deduzir a partir de outro contexto. Mas como para ti um sentido que se deduz a partir de um contexto não é um sentido, segue-se que «defeito» não pode ter sentido nenhum. Boa bola (é nisto que dá o excesso).

    Um defeito é um elemento errado numa dada realidade para a fala em Portugal.

    Calculo que, na tua fala, dizer que «3,14 (três vírgula catorze) é uma aproximação a Pi por defeito» é tão correcto como dizer que «3,15 (três vírgula quinze) é uma aproximação a Pi por defeito», uma vez que em ambos os casos estamos perante um valor de Pi defeituoso. Como «defeito» quer dizer «deficiência», estamos portanto simplesmente a dizer que uma aproximação não é um valor exacto.

    Que será então, para ti, uma aproximação a Pi por excesso? Isto aqui?

  26. Ora aqui é que vou introduzir uma correcção ao que escrevi.

    O inglês “default” num sentido neutro de ausência é mais recente do que eu supunha. Em finanças data de meados do séc. XIX; no contexto informático aparece na década de 60 (como a própria informática), mas, por exemplo, em contextos matemáticos e técnicos, é usado há mais tempo, e hoje em dia tão aplicável a um aspirador ou uma torradeira (coisas do tipo “adaptable, 220 V by default”) como a um valor de uma variável num programa de computador…

    Não ha razão alguma para evitar o mesmo em português.

  27. Gungunhana Meirelles, quero que saibas que isto dos blogues nasceu para dizer disparates praticamente à borla e copiosamente. Portanto, estamos a cumprir com galhardia a função.

    O que dizes acerca do uso de “default” em inglês, como tu próprio te encarregas de mostrar, apenas ocorre na tua imaginação. Conhecimento tens zero. Pelo que o teu grande argumento está reduzido ao uso de “por defeito” no discurso aritmético. Vamos a ele, compadre.

    Começamos pelo facto de a expressão não existir isoladamente mas como parelha com “por excesso”. Defeito e excesso, portanto, formam um binómio cujas semânticas, no contexto aritmético, remetem para operações onde está em causa encontrar “aproximações”. Neste sentido, “defeito” e “excesso” são referências inexactas. O que as distingue é o vector de “mais” ou “menos” face a um referente.

    Ora, tal uso de “por defeito” na aritmética conserva uma aproximação com o significado corrente da palavra “defeito” na fala quotidiana e genérica, que é o de não se confundir com o valor “exacto”. Há um defeito ou um excesso – ou seja, algum grau de erro – no cálculo efectuado.

    Qual a relação de “por defeito” na aritmética com “por defeito” na computação? Nenhuma de nenhuma. Ao invocares que um uso justifica o outro só estás a exibir a tua alergia ao raciocínio.

  28. Valupi em bold: Gungunhana Meirelles, quero que saibas que isto dos blogues nasceu para dizer disparates praticamente à borla e copiosamente. Portanto, estamos a cumprir com galhardia a função.

    Concordo com a profusão, mas não há disparates gratuitos, são como os almoços. Alguém os está a pagar: no caso dos teus, são os palestinianos e a riqueza da língua pátria.

    Conhecimento tens zero. Pelo que o teu grande argumento está reduzido ao uso de “por defeito” no discurso aritmético. Vamos a ele, compadre.

    «Sucederia na capitania em defeito de D. Álvaro» (Diogo do Couto, Décadas, VII, 7, cap.9) quer dizer se D. Álvaro ficar de repente marreco ou simplesmente se D. Álvaro não estiver disponível por essa ou qualquer outra razão? Se segunda hipótese, onde está o contexto aritmético?

    Começamos pelo facto de a expressão não existir isoladamente mas como parelha com “por excesso”.

    Favor consultar D. Álvaro.

    Defeito e excesso, portanto, formam um binómio cujas semânticas, no contexto aritmético, remetem para operações onde está em causa encontrar “aproximações”. Neste sentido, “defeito” e “excesso” são referências inexactas. O que as distingue é o vector de “mais” ou “menos” face a um referente.

    Em que consiste a aproximação vectorial a D. Álvaro? Alguma causa fracturante que o torne marreco?

  29. Gungunhana Meirelles, folgo em ver da tua agilidade – uma agilidade por defeito, estou certo – em juntares palestinianos com o D. Álvaro. São raros, e todos eles bravos, os que o conseguem com a tua fluidez. Mas isso significa que a aritmética, portanto, bá lá ber… pois. Ok.

    Ora, aqui entre nós que ninguém nos lê, serás capaz de transcrever a frase seguinte a essa que trouxeste com defeito de Décadas? Como até referes o capítulo e tudo, não te estou a pedir um grande esforço, com certeza.

  30. Contexto: “Morreram dos nossos setenta, em que entraram […] e o capitão-mor D. Álvaro da Silveira que era um fidalgo mui valoroso, e já tinha acabado seus serviços, pelo que estava despachado com a capitania de Ormuz […]. Desbaratada a batalha, abriu Pero Peixoto um regimento do vice-rei, em que vinha ele nomeado por capitão-mor daquela armada, em defeito de dom Álvaro da Silveira, de que tomou logo posse por conselho dos capitáes e Guazil…”

    Ora quem está morto está em defeito (i.e. ausente) dos negócios humanos, mas não se pode dizer que um morto — ainda por cima em condições heróicas — esteja «defeituoso» no sentido único de «deficiente» que pretendes.

  31. Gungunhana Meirelles, que beleza. Com que então, estás a defender o uso de “por defeito” como tradução de “default” para uma situação informática a partir de uma frase de um texto do século XVI.

    Estabelecido o teu domínio do português falado no tempo de Camões, que outros exemplos mais recentes, com a mesma semântica, consegues arranjar?

  32. Valupi em bold: Gungunhana Meirelles, que beleza. Com que então, estás a defender o uso de “por defeito” como tradução de “default” para uma situação informática a partir de uma frase de um texto do século XVI.

    Bom, se o uso é antigo, é porque é antigo. Se o uso é moderno, é porque é ignorante e está errado. Em que é que ficamos? Serve a década de 1950 de publicação do volume relevante da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira? Se sim, adiante.

    Estabelecido o teu domínio do português falado no tempo de Camões, que outros exemplos mais recentes, com a mesma semântica, consegues arranjar?

    Como deves calcular, o método para encontrar um exemplo de um determinado uso linguístico não é ler ou reler toda a literatura ao nosso alcance, e muito menos em tempo útil a uma discussão como esta. O método é procurar num dicionário um exemplo desse uso (no caso presente a G.E.P. e B. que tenho à mão e regista em primeiro lugar o sentido (não quer dizer que seja o mais frequente, mas quer dizer que é actual; e o exemplo antigo quer dizer que tem pergaminhos, não diz nem quer dizer que é arcaico) do vocábulo «defeito» do seguinte modo: «Defeito s.m. Falta de alguma coisa ou alguém» (seguido da citação literária).

    Valupi (num post anterior): Qual a relação de “por defeito” na aritmética com “por defeito” na computação? Nenhuma de nenhuma.

    Toda. Repara que computar quer dizer justamente calcular, e a expressão «by default / por defeito» é frequentemente aplicada a valores iniciais de determinados parâmetros em programas que o utilizador pode alterar a seu gosto. Por extensão, aplica-se com legitimidade histórica e pertinência etimológica, a todos os valores «de fábrica», por assim dizer.

    Exemplos do uso corrente (mas, é claro, já me mandaste prender por ter um cão demasiado velho, agora vais mandar prender estes por, em tua opinião, não terem cão nenhum):
    http://www.linguee.pt/portugues-ingles/search?source=auto&query=por+defeito

    Ao invocares que um uso justifica o outro só estás a exibir a tua alergia ao raciocínio.

    Pelo contrário. «Raciocinar» quer dizer usar a razão. E que pode haver de mais razoável do que usar uma expressão que, embora em relativo desuso — entenda-se desuso fora do âmbito alargado que lhe é restituído, embora em frequentíssimo uso no âmbito restrito mais relevante — recupera a língua culta de sempre numa época de barbarismos incultos, evita confusões desnecessárias, e facilita a vida dos tradutores e o entendimento global dos povos?

  33. Valupi (num post anterior): Qual a relação de “por defeito” na aritmética com “por defeito” na computação? Nenhuma de nenhuma.

    Alto aí, que concordo que tens alguma razão neste particular, na medida em que o «por defeito» de um determinado parâmetro significa que o que está ausente é a sua alteração, não é uma determinada alteração ou sentido de alteração. Já me estavas a levar à certa, mas não me parece que a questão se possa pôr nos termos em que a pões. Digamos que «por defeito» é bom porque é linguisticamente correcto, compreensível e familiar ao ouvido. Não é preciso mais nada. A utilidade do recurso que fiz ao uso de defeito (falta) como contrário de excesso (sobra) era linguistica, não era calculista.

  34. Valupi,

    OK. Não vas bruscamente, mas devagar, progressivamente.

    Por exemplo, na semana que vem, todos os dias de manhã, à frente do espelho, diz “olha, não estou muito bem penteado”. Todos os dias. Na semana seguinte, “olha, se calhar aquela opinião que me pareceu boa ha seis meses, de repente, ja não a acho tão convincente”. E assim sucessivamente, até seres capaz de dizer coisa como “fui precipitado” ou mesmo, sei-la, “estou enganado”.

    Vais ver, com calma, método, e perseverança, vais acabar por chager la.

    Boas

  35. Gungunhana Meirelles, julgo que já podemos fazer uma síntese final da tua tese:

    – Tens à mão um volume de 1950 da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

    – Nesse volume aparece o único uso de “defeito” como “ausência” que conheces no uso da língua portuguesa anterior ao advento de “por defeito” como tradução do inglês “default” para o domínio informático.

    – O único uso que conheces, portanto, aparece numa frase num texto do século XVI.

    – Ainda acrescentas chalaças sobre usos dos vocábulos na aritmética.

    – E terminas despejando exemplos avulsos onde se utiliza “por defeito” tanto para a referência aritmética como para a computacional.

    Creio que te entendo. És um pândego sem defeitos.

  36. ai que riso! juro que esta conversa do Gungunhanha me remete para o livro de ouro do carnaval brasileiro, aquele capítulo que fala do fanar da sofisticação para convertê-la em pândega de rua – é o oficializar do pagodinho. :-)

  37. Gungunhana Meirelles, julgo que já podemos fazer uma síntese final da tua tese:

    Certo. Mas qual é a tua tese, se alguma? Ainda não consegui perceber.

    Queres tu dizer que o ignorante do Diogo do Couto se lançou numa aventura única, sem precedentes nem consequentes (mostra lá outro exemplo, anda, vá…), inventando um sentido (falta/ausência) para a palavra «defeito» que nunca tinha existido nem voltou a existir; que já os ignorantes dos antigos latinos tinham inventado mas que nunca mais existiu; e que depois as ignorantes das línguas estrangeiras aparentadas ao português adoptaram para sua maior vergonha; e que os ignorantes dos dicionários modernos de português voltaram a inventar sem que alguma vez tivesse existido; e que agora os ignorantes dos informáticos estão a querer reinventar esse sentido ignorante que nunca existiu, a partir dos usos quantitativos ignorantes inventados pelos ignorantes dos matemáticos?

    É isso? Não achas que é ignorância a mais?

    – Tens à mão um volume de 1950 da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
    – Nesse volume aparece o único uso de “defeito” como “ausência” que conheces no uso da língua portuguesa anterior ao advento de “por defeito” como tradução do inglês “default” para o domínio informático.

    Vou tentar explicar outra vez, porque a paciência é a virtude dos justos, e sei que um belo dia a recompensa do céu chegará.

    Como já disse e imaginei que estivesse ao teu alcance perceber, o método para encontrar um exemplo de um determinado uso linguístico (perfeitamente correcto, mas suficientemente culto para não estar incluído na bagagem cultural de todo o falante dessa língua sem excepção), não é ler ou reler toda a literatura ao nosso alcance, e muito menos em tempo útil a uma discussão como esta. É procurá-lo num dicionário. E como é possível que saibas, os dicionários mais enciclopédicos procuram ilustrar um ou outro uso, mas não são repositórios de exemplos.

    Pediste um exemplo culto que provasse que o uso de «defeito» como falta/ausência não é uma trafulhice moderna. Dei-me ao trabalho de te arranjar um a partir de um dicionário. Não serve porque não é moderno e o autor devia ser um excêntrico isolado. Pediste exemplos modernos do mesmo uso. Não servem porque ou são ignorantes da sabedoria antiga (embora por acaso acertem) ou são delírios quantitativos aritméticos em oposição a «excesso», formando um binómio único e extravagante inventado a partir do nada pelos marcianos, uma espécie de ornirotorrinco vocabular que só pode ser remetido para um par de poças linguísticas estagnadas nos antípodas da Europa culta (seria interessante descobrir uma utlização de «defeito» no sentido de falta/ausência, conforme exiges, que não fosse antónima de sobra/presença, como também exiges).

    Não podes, nem deves, aspirar a que sejam os outros a fazer o teu trabalho por ti, o que te deixa apenas dois caminhos de ultrapassagem da tua dificuldade com o uso da palavra «defeito» como falta/ausência. São eles os seguintes:

    1) Ler bastante para aumentar a familiarização com a língua, de molde a facilitar a sua compreensão e uso instintivos, sem recurso constante a «exemplos». Ou seja o equivalente a aprender a calcular mentalmente sem recurso aos dedos.

    2) Aprender a procurar nos dicionários, tendo presente que não existe o Dicionário Perfeito que tudo regista com pelo menos uma dúzia de exemplos para cada registo, mas sim uma vasta gama de repositórios do conhecimento da língua, ela própria, se viva, em permanente mudança. Nota que até para isso tens de exercer algum julgamento. Por exemplo (repara na continuidade do latim para o primeiro significado):

    DEFEITO (Lat. defectu, falta), s. m. falta; imperfeição; deformidade; mancha; vício; (pop.) embaraço; estorvo (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, 4ª ed., 1998).

    – O único uso que conheces, portanto, aparece numa frase num texto do século XVI.

    Acho que a tua dificuldade principal é não perceberes que o conhecimento de uma língua é uma actividade cerebral, não é um arquivo inerte de fichas.

  38. iupi, “supletivamente” não me parece indicado como sugestão de tradução de “default”, caso seja isso que estejas a propor, porque não está em causa identificar uma eventual acção seguinte, mas sim a acção original. No caso do “por defeito” para software e hardware, pretende-se indicar o estado original num dado sistema passível de eventual alteração pelo seu utilizador.
    __

    Gungunhana Meirelles, o teu gosto pela escrita é manifesto, e a perícia com que fazes os negritos e os itálicos admirável. Vieste parar ao sítio certo, é de pessoal como tu que os blogues se alimentam.

    Concordo muito contigo quando admites que ainda não conseguiste perceber a minha tese. Vou até mais longe, aposto que tu ainda nem sequer leste o texto que dá origem a este conciliábulo. Na tua ânsia de escrever, a leitura das minhas palavras só te atrapalharia a fluência. Tu já sabes tudo, faltam-te é ocasiões para o mostrares ao mundo.

    Fundo esta opinião a partir da observação da quantidade e qualidade dos disparates que tens a generosidade de vir partilhar. Os quais vou enunciar para tua comodidade e proveito:

    – É um disparate confundires a etimologia com a filologia.
    – É um disparate confundires arcaísmo com uso culto da língua.
    – É um disparate defenderes um erro semântico com a remissão para um uso distinto do vocábulo.

    Mas, antes e acima de tudo, é um disparate não pensares. Contudo, bastaria pensares no seguinte: não conheces nenhum exemplo, antigo, moderno ou contemporâneo, onde a forma adjectiva – “defeituoso” – ainda conserve o valor do étimo. Em português, a evolução de “defeito” levou à perda gradual e inexorável dessa origem por substituição com o significado de “imperfeição” ou “erro”. Ou seja, a “falta” transformou-se em “falha”.

    Já na língua inglesa foi ao contrário. “Fault” tem hoje um marcado significado de “defeito”, moral ou legal. E “default” evoluiu para “ausência” ou “falta”, num modo crescentemente inócuo, ao ponto de ter sido adoptada no contexto informático para designar algo que já nada tinha a ver com erros, imperfeições, falhas – ou seja, como diríamos em português, nada a ver com defeitos.

    Admitindo que consegues pensar, e pegando no teu querido mas efémero exemplo da aritmética, talvez um dia possas gastar uns minutos a reflectir sobre a curiosa ausência do adjectivo “defeituoso” no discurso sobre o cálculo. Por que raio é que não se ensinam as crianças a fazer aproximações defeituosas? Por que censurável casmurrice não se diz às crianças que o cálculo, por vezes, deve ser defeituoso para estar correcto? Por que gasto irresponsável de palavras se teve de recorrer a uma expressão adverbial, o famoso “por defeito”, e estando esta na dependência do seu simétrico?

    Pensa nisso. Não digo hoje, nem sequer neste mês. Lá para o tempo das férias. Quando não tiveres mais nada para fazer.

  39. Lupi: supletivamente?

    Supletivamente é difícil arranjar melhor e mais prático do que «por defeito» para traduzir os equivalentes inglês, francês, castelhano, etc., todos na linhagem do latim. E latim correcto, para quem quiser verter “by default” para essa língua será “in defectu”.

    Logo, se se quisesse inventar alguma alternativa ao português «por defeito», a minha sugestão, para poupar à língua portuguesa a humilhação de rejeitar o óptimo em favor do medíocre por exigência da falta de cultura, seria precisamente essa: o latim “in defectu”.

  40. [Valupi em negrito:] Gungunhana Meirelles, o teu gosto pela escrita é manifesto, e a perícia com que fazes os negritos e os itálicos admirável. […] Fundo esta opinião a partir da observação da quantidade e qualidade dos disparates que tens a generosidade de vir partilhar. Os quais vou enunciar para tua comodidade e proveito:
    – É um disparate confundires a etimologia com a filologia.

    Ora cá está uma crítica que prova, já não direi a minha perícia, mas que o simples uso dos negritos e itálicos é recomendável. Deixa-me explicar com um exemplo:
    _________
    Valupi, fundo a minha opinião a partir da observação da quantidade e qualidade dos disparates que tens partilhado, que passo a enunciar para tua comodidade e proveito:
    — É um disparate confundires cães e gatos.

    _________

    Não sei se me faço perceber. É possível que não. Estou a referir-me a uma perícia tua, simétrica da minha, para não te ficar atrás em vénias.

    – É um disparate confundires arcaísmo com uso culto da língua.

    Vamos então esquecer o resto (que não é pouco), para responder apenas ao quesito do arcaísmo.

    Apesar de achares que, por exemplo, o dicionário de 1998 que citei é arcaico, concordas, se bem percebo, que é actual e universalmente reconhecido o uso da expressão «por defeito» no contexto simétrico de «por excesso». Ponto assente.

    De que é que precisamos a seguir? Precisamos perceber que se a expressão «por defeito» exprime uma antinomia é porque a palavra «defeito» exprime uma ausência (no caso do arredondamento numérico, a da quantidade que falta para o valor exacto). Se dissermos, por exemplo, que «o português tem, por defeito da vogal grega, as mesmas vogais do francês», não estamos a dizer que tem 5 por oposição a 7 ou 8, estamos a dizer que lhe falta, que está ausente do alfabeto, a sexta, o «y».

    E que procuramos nós? Procuramos uma expressão portuguesa que traduza a inglesa “by default” que quer dizer exactamente o mesmo que a expressão «por defeito».

    A dificuldade da escolha é de facto monumental, mesmo que admitamos que o último português capaz de entender o hoje temível arcaísmo (que continua a assombrar a língua apesar dos esforços dos extintores de arcaísmos) foi o D. Fuas Roupinho…

    Mas, antes e acima de tudo, é um disparate não pensares […]
    bastaria pensares no seguinte […]
    Admitindo que consegues pensar […]
    talvez um dia possas gastar uns minutos a reflectir […]

    Valupi, não te limites a pregar, à laia de argumento. Pratica.

    Por que raio é que não se ensinam as crianças a fazer aproximações defeituosas? Por que censurável casmurrice não se diz às crianças que o cálculo, por vezes, deve ser defeituoso para estar correcto?

    Neste caso, porque a adjectivação transmitiria o sentido que não se pretende. Pela mesma razão, uma falta não é necessariamente faltosa. A língua está cheia de subtilezas, não é uma tabuada como tu julgas.

    Por que gasto irresponsável de palavras se teve de recorrer a uma expressão adverbial, o famoso “por defeito”, e estando esta na dependência do seu simétrico?

    Deixa-me cá pensar, pensar. [2 horas depois] Okay. Já pensei. Vamos lá ver se percebi:

    1) Estamos à procura de uma expressão adverbial actual que tenha o mesmo sentido do inglês “by default”.

    2) «Por defeito» é uma expressão adverbial actual que tem o mesmo sentido do inglês (por ausência, por falta).

    3) Mas não serve porque, embora a expressão adverbial tenha as quotas linguísticas em dia, consideras que a palavra «defeito» no sentido de «falta» (verificado, sem trabalho nenhum, pelo menos em dicionário de 1998) é um arcaísmo, ou seja uma coisa pior que a lepra, susceptível de zombificar a língua.

    É isto?

    Pensa bem. Mas não te canses.

  41. «Por defeito» tem tudo, é perfeito. Tem história e actualidade, tem lógica e precisão, tem ciência e tem arte, alegra os justos e amofina os patarecos. Uma maravilha.

  42. Foda-se, a lata deste gajo é infinita…

    “Em português, a evolução de “defeito” levou à perda gradual e inexorável dessa origem por substituição com o significado de “imperfeição” ou “erro”. Ou seja, a “falta” transformou-se em “falha””.

    Por isso mesmo os alunos que não vão às aulas, falham, e não faltam. O despedimento é por falha, e não por falta, etc., etc.

    Valupi, vê se ganhas juizo e se aprendes a admitir quando das calinadas. A verdadeira cultura e a genuina inteligência reconhecem-se nisso, e não na teimosia parola e pedante que caracteriza o teu estilo merdoso.

    Meireles. Gabo-te a paciência, mas vai por mim. Por experiência propria posso dizer-te que o Valupi NUNCA admite que esta errado, ainsi que se lhe ponham à frente as evidências mais gritantes. E’ proprio de quem não discute (nem pensa) para aprender algo sobre o universo, mas apenas e exclusivamente para mostrar que sabe (quando sabe pouco, e mal), e para dizer aos outros que ele é o maior.

    Portanto é escusado perderes tempo. Ja aprendeste tudo o que havia para aprender com esta conversa. De caminho, ensinaste algumas coisas a excêntricos como eu (que te agradecem), leitores deste blogue por puro vicio, parecidos com as pessoas que não conseguem deixar de carregar com a lingua num dente doente, apenas para ver até onde o Valupi é capaz de ir na desonestidade intelectual. Apesar de sabermos de antemão que é até ao infinito.

    Boas

  43. João Viegas, não é caso para tanta irritação. Pelo contrário. Os teimosos perigosos são os que revelam inclinações censórias, coisa frequentíssima tanto em blogues de esquerda como de direita, mas singularmente ausente deste.

    Por exemplo, experimenta, ainda que inteiramente a propósito de alguma discussão em curso, mostrar, debaixo dos dislates da Flumser Pimentel, um par de modestos links da actualidade abafada como os que se seguem e verás o que quero dizer:

    La beauté de la langue por Robert le diable (7m54)

    Outro mais longo (39m46)

  44. Gungunhana Meirelles, lenta mas pacientemente, vejo-te mais perto de poderes finalmente descansar. Conta comigo para te ajudar.

    A propósito da tua confusão entre um arcaísmo e o uso culto da língua, que lá para cima agitaste com fervor, quero lembrar-te que não é o ano da edição de um qualquer dicionário ou livro a respeito que define o que seja um arcaísmo. Tu podes, em 2014 ou 2015, publicar um livro de arcaísmos sem medo de passares vergonhas. O arcaísmo apenas remete para uma forma ou significado que outrora teve prática corrente e depois deixou de ter.

    É esse, e precisamente, o caso da palavra “defeito”, a qual pelo seu étimo latino permite o uso que trouxeste do Diogo de Couto, mas o qual uso se torna uma raridade até que deixa de ter esse significado na fala corrente. Daí, não ser válida a equiparação de “por defeito” na aritmética com um uso corrente porque nesse contexto o uso é técnico e não exactamente igual a uma falta absoluta, antes a uma aproximação de um referente.

    E ainda menos legítima, por maioria de razão, é a justificação de “por defeito” como tradução válida de “default” na computação invocando-se o uso na aritmética. É que, a ir por aí, estaremos a usar duas expressões iguais que não têm qualquer relação semântica, dessa forma aumentando a confusão. O que se faz na aritmética sob a égide dessa expressão em nada compara com o “default” usado na informática.

    Poderás entreter-te a pensar neste raciocínio de 1997, um entre tantos e de há tanto tempo:

    http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=1077

  45. [Valupi em negrito] Gungunhana Meirelles, lenta mas pacientemente, vejo-te mais perto de poderes finalmente descansar. Conta comigo para te ajudar.

    Valupi, só os broncos é que ambicionam descansar de discussões interessantes, e não penso que seja o caso de algum de nós. Mas se estiver enganado, não te sacrifiques por mim, descansa se e quando quiseres.

    A propósito da tua confusão entre um arcaísmo e o uso culto da língua, que lá para cima agitaste com fervor, quero lembrar-te que não é o ano da edição de um qualquer dicionário ou livro a respeito que define o que seja um arcaísmo. Tu podes, em 2014 ou 2015, publicar um livro de arcaísmos sem medo de passares vergonhas. O arcaísmo apenas remete para uma forma ou significado que outrora teve prática corrente e depois deixou de ter.

    A confusão entre arcaísmo e uso culto da língua, e nomeadamente no que diz respeito ao uso de dicionários, é tua. Passo a explicar porquê (e a voltar a sublinhar o uso sistemático de citações em negrito que recomendo e a que foges como o diabo da cruz).

    Um dicionário de vocabulário de uma língua não é, para empregar a tua expressão, «um livro de arcaísmos». Claro que há dicionários específicos de muitos aspectos da língua, bem como de sinónimos, de ideias afins («tesauros», aportuguesando o latim «thesaurus» sob a batuta anglo-saxónica, ou «tesouros» se se preferir o literalismo patriótico indiferencialista), históricos, etimológicos etc., e claro que os critérios de um dicionário do tipo não especializado a que, por defeito (não aritmético), estou a fazer alusão quando uso a palavra «dicionário» sem qualificativos, pode obedecer a critérios algo diferentes de outro do mesmo tipo genérico (por isso é que se pode dizer que se gosta mais deste ou daquele dicionário).

    Ora o que um dicionário genérico que inclui um arcaísmo (por exemplo para ilustração do significado de uma determinada palavra) especificamente faz é acompanhar essa menção de uma datação do seu uso ou de uma simple menção («arc», por exemplo). Se nenhuma menção desse tipo existe é porque o dicionário considera essa palavra como integrando o vocabulário corrente, seja o culto ou o popular (é o popular, não é o culto, que geralmente se faz acompanhar de uma menção; vê, no exemplo que te dei, as acepções «pop» de embaraço, estorvo, para «defeito», e nenhuma indicação para a acepção falta).

    Ora bem, o que é que pode explicar que um dicionário inclua ou deixe de incluir o sentido de falta, ausência, que estamos a debater para a palavra «defeito», eu como perfeitamente legítimo, tu como uma abencerragem desprezível, que obviamente não consideras nada desprezável, senão o teu post original não teria tido o seu tom de cruzada indignada?

    [Espero, aliás, que as diversas subtilezas adjectivas derivadas do mesmo substantivo «desprezo» — morais ou simplesmente quantitativas — não vão lançar ainda mais falsas dicotomias aritmético-verbais nessa cabeça: não é só a malta dos números que está autorizada pelo português a desprezar quantitativamente].

    É simples e passo a explicar.

    O critério do dicionário que considera o sentido substantivo de falta, ausência, para a palavra «defeito» suficientemente raro para a transportar das fronteiras indefinidas da língua culta para o repositório dos arcaísmos, não a inclui. Mas, obviamente, se não quiser ser um dicionário incompleto, não deixará de incluir esse seu sentido na expressão (culta, actual, difundida e indiscutível) «por defeito» (e «em defeito», e outras no seu prolongamento, se quiser ser completo, preciosista e complicativo na sua interpretação expansionista das fronteiras do arcaíco).

    Quanto ao dicionário que considera muito simplesmente que o sentido de falta, ausência, para a palavra «defeito» na língua portuguesa continua a existir, independemente da frequência (ou até ausência!) do seu uso substantivo em isolamento, inclui-a pura e simplesmente, cumprindo dessa forma diferente o seu mesmo dever de informar com correcção.

    É esse, e precisamente, o caso da palavra “defeito”, a qual pelo seu étimo latino permite o uso que trouxeste do Diogo de Couto, mas o qual uso se torna uma raridade até que deixa de ter esse significado na fala corrente.

    Irrelevante (nota o meu cuidado de fazer preceder acusações de citações em negrito, para se perceber a que estou a aludir, uma boa prática que recomendo sempre que posso).

    Daí, não ser válida a equiparação de “por defeito” na aritmética com um uso corrente porque nesse contexto o uso é técnico e não exactamente igual a uma falta absoluta, antes a uma aproximação de um referente.

    Acho que esta é uma das chaves para se perceber a tua oposição ideológica ao uso de «por defeito» para traduzir “by default”.

    Achas que a «aritmética» fala em aritmetiquês, não fala em português, mas não percebes que os técnicos da aritmética falam e explicam a sua aritmética em português, e que o «defeito» da aritmética (ou da matemática mais geralmente, ou da física, ou da engenharia de pontes e calçadas, ou de tudo aquilo a que quiseres estender a tua tolerância generosa) não é unicamente técnico e do domínio dos números, como, por exemplo, «mantissa» (que vem do latim, em que indica um ganho, um lucro, mas indica apenas, em português actual, a parte decimal de um logaritmo).

    «Por defeito» não é vocabulário técnico. «Por defeito» é como «por adição» ou «por subtração». É português, não é aritmetiquês técnico, não é uma expressão puramente técnica do domínio dos números. Talvez se pensares em quantidades em vez de números possas afastar esse fantasma da aritmética que te assombra o raciocínio.

    Observa, por exemplo, a frase que utilizei mais acima: «os critérios de um dicionário do tipo não-especializado a que, por defeito, estou a fazer alusão quando uso a palavra sem qualificativos». Isto é português actual perfeitamente correcto e compreensível, não tem nada a ver com aritmética, e não é pedantismo aceitá-lo e promovê-lo. O que é pedantismo é recusá-lo em nome dos superiores interesses da cultura, como se a cultura tivesse sido inventada quando alguém, em data e parte incerta ou desconhecida, decretou a ostracisação do defeito como ausência.

    E ainda menos legítima, por maioria de razão, é a justificação de “por defeito” como tradução válida de “default” na computação invocando-se o uso na aritmética. É que, a ir por aí, estaremos a usar duas expressões iguais que não têm qualquer relação semântica, dessa forma aumentando a confusão. O que se faz na aritmética sob a égide dessa expressão em nada compara com o “default” usado na informática.
    Poderás entreter-te a pensar neste raciocínio de 1997, um entre tantos e de há tanto tempo:
    http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=1077

    Achas portanto que o uso da expressão portuguesa «por defeito», no sentido vulgar de «por defeito», aumenta a confusão, mas que o uso de «por padrão» recomendado pela ligação que indicas, a eslareceria.

    Não te ocorre, é claro, que «by default» não quer dizer por padrão, quer dizer por defeito. Imagina, para perceberes melhor isto, um questionário electrónico em que a língua do inquirido assume o valor “by default” de “English”. Calculo que queiras evitar a todo o custo a confusão com uma classificação da língua portuguesa como imperfeita, mas não percebo porque não te preocuparia a sua classificação como anormal. «Por padrão», em português, não quer dizer «por falta», quer dizer «por norma». O que quer dizer «por falta» (de intervenção) é «por defeito».

    Nota que no caso «digite o valor de defeito do código postal» que a tua ligação considera (evitando habilmente indicar o que se está a traduzir) não se está a traduzir “by default”, e sim “default value”, ou seja, «valor por defeito». Presumivelmente, a frase a traduzir seria: “enter the postal code default value” ou “enter the default post code”. Que sentido faz isto? Se o que se está a pedir é que se digite o que já lá está, o pedido é absurdo e confusionista, e a tradução «digite o código postal por defeito» só pode transmitir o mesmo. Tradução correcta e portanto susceptível de manter a confusão original, mas não de criar alguma confusão nova.

    No outro exemplo que ele vai buscar diz que «por defeito o despertador toca às 7 horas» faz parecer que o despertador está avariado e não deixa ninguém dormir. E sugere então que deveria ser «o despertador foi programado para tocar às 7 horas, como é padrão de fábrica», o que, em matéria de traduções correctas, simples e curtas, não acrescenta nada à discussão, para além de poder fazer parecer que Portugal se transformou numa espécie de distopia estakanovista.

    É espantosa a falta de senso comum destes linguistas do anti-defeitismo patenteado. Fazem-me lembrar aqueles velhinhos que andam à procura dos óculos com eles na mão…

  46. ERRATA: leia-se «arcaico» onde está «arcaíco» e «ostracização» (e até, de preferência, «ostracismo») onde está «ostracisação».

  47. ERRATA (cont.): e, já agora, «subtracção» onde está «subtração» porque ainda não me converti à reforma, nem vejo necessidade premente de o fazer…

  48. Muito bem Meireles, estas a conseguir tornar este debate interessante, coisa que me parecia ja impossivel.

    A discussão sobre a questão linguistica ja permitiu, julgo eu, esclarecer qualquer pessoa que esteja minimamente de boa fé. Mas estou a ficar viciado na contenda por outro motivo, porque a julgo emblematica e caracteristica de uma oposição secular em Portugal. Por um lado, as pessoas que têm uma relação sã e inteligente ao saber, generosa, optimista, construtiva, que acreditam que, numa discussão, todos podemos e devemos ficar a saber mais. Por outro, a prosapia do provinciano bacharel de Coimbra, para quem a miseravel sebenta que decorou mal e porcamente, as mais das vezes sem perceber patavina do assunto, serve de bengala, essencialmente para assegurar o seu lugar de autoridade no café central e para justificar o ar de importância com que agracia os pacovios com as suas sentenças, enquanto lhe engraixam os sapatos.

    Estou a ficar viciado nesta conversa.

    O outro animal ja ai aparece para explicar que ele é que esta certo desde o inicio, e que apenas usou do seu direito divino de chamar ignorante a qualquer pessoa, a começar por aquelas que lhe poderiam ensinar algo que manifestamente desconhece. Não sabe, não quer saber, tem raiva a quem sabe.

    Boas

  49. João Viegas, tenho mesmo de te dizer isto: foi desde que a Fernanda Câncio te fez uma festinha que não paras de abanar o rabo com as orelhitas em pé. estás carente mas não te fies quando te quiserem convencer de que usarem-te é amarem-te. essa é uma falha de ambos e, sim, neste caso, um defeito. :-)

  50. João Viegas, a tradução em informática de “by default” por «por defeito» não é nova como alguns julgam. Pelo contrário, é vulgar desde a origem. O que me parece recente é a relutância em continuá-la, e esse súbito purismo mal informado parece-me uma espécie de compensação, bem intencionada mas “misguided” (para empregar uma palavra inglesa), dos complexos de culpa de cada um por perder cada vez mais tempo a ver o tele-futebol e menos a pegar em livros.

  51. Mais uma emenda ao meu último post dirigido ao Valupi: onde escrevi «a língua do inquirido assume o valor “by default” de “English”. Calculo que queiras evitar a todo o custo a confusão com uma classificação da língua portuguesa como imperfeita» queria dizer, como é óbvio, «língua inglesa».

  52. Já agora, cá vai outro:

    Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ed. de 1998 (meu negrito):

    DEFEITO, s.m. imperfeição física ou moral; deformidade; vício; mancha; inconveniente; falta de alguma coisa (do latim defectu, falta).

    Procurando a versão em linha, que penso corresponder à edição impressa de 2014, ou pelo menos não andar muito longe disso:

    DEFEITO de.fei.to [dəˈfɐjtu]

    nome masculino
    1. falta de alguma coisa; falha
    2. marca, mancha ou outra imperfeição que estraga objecto ou substância
    3. aspecto negativo de uma obra ou actividade
    4. falha ou fraqueza no carácter de uma pessoa
    5. imperfeição física; deficiência

    por defeito
    1. definido previamente; por norma
    2. diz-se de um valor ou número aproximado e menor do que aquele que é tomado como referência

  53. Gungunhana Meirelles, ficou claro que és um especialista em dicionários. Talvez mesmo um dos maiores especialistas da actualidade, se não for de todo o sempre e para sempre. Saberás por isso, e muito melhor do que eu, que para a língua portuguesa as duas obras mais reputadas são o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa e o Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, um páreo entre Portugal e o Brasil. Saberás também que os dicionários não funcionam como a Constituição e os códigos legais, antes resultam de propostas científicas inevitavelmente polémicas dada a complexidade do seu objecto. Mas vejamos o que cada um deles nos diz a respeito do verbete “defeito”.

    O DLPC dá como primeiro sentido “1. Falta de alguma coisa; falta do que é necessário ou desejável. = FALHA”. Os seguintes sentidos são os usados na linguagem corrente, significando “imperfeição” e congéneres. Há dois aspectos notáveis para a nossa discussão no DPLC: o primeiro é a sinonímia entre a ideia de “falta” com a de “falha”, logo no registo mais próximo do étimo; o segundo é a ausência de exemplo ou citação para a utilização da palavra nesse primeiro significado, ao contrário do que se faz nos significados restantes onde “defeito” já perdeu a ligação com uma “falta” tomada inocuamente. Também neste dicionário, saído em 2001, não aparece a expressão “por defeito” relativa à computação.

    No Houaiss, na 4ª significação, pode ler-se: “ant. falta de algo necessário; carência, deficiência.” Este “ant.” é abreviatura de “antigo”, mas mesmo marcada como arcaica a significação continua a transmitir mais a falha do que a mera falta. Também não aparece “por defeito” ligado à computação e dá-se como antónimo tanto “perfeição” como “virtude”.

    Que podem estas duas obras contra o Dicionário da Porto Editora e sua cedência à estupidez reinante? Fica para cada um decidir. E talvez um dia, com o apoio fervoroso de inteligências como a tua, tenhamos mesmo de aceitar que a expressão “por defeito” para descrever o que não tem defeito algum se instituiu, de facto, por defeito generalizado da comunidade dos falantes da língua portuguesa.

  54. [Valupi em negrito] Gungunhana Meirelles, ficou claro que és um especialista em dicionários. Talvez mesmo um dos maiores especialistas da actualidade, se não for de todo o sempre e para sempre.

    Obrigado, bom homem, mas não se curve tanto que não é preciso. Esteja á vontade.

    Saberás por isso, e muito melhor do que eu, que para a língua portuguesa as duas obras mais reputadas são o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa e o Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, um páreo entre Portugal e o Brasil. Saberás também que os dicionários não funcionam como a Constituição e os códigos legais, antes resultam de propostas científicas inevitavelmente polémicas dada a complexidade do seu objecto. Mas vejamos o que cada um deles nos diz a respeito do verbete “defeito”.
    O DLPC dá como primeiro sentido “1. Falta de alguma coisa; falta do que é necessário ou desejável. = FALHA”.

    Repara no ponto e vírgula que, na tua transcrição, separa os dois primeiros sentidos como falta, primeiro simplesmente como falta de alguma coisa, depois como falta do que é necessário ou desejável. Se apenas a segunda acepção fosse legítima para que lá estaria a primeira? Para enganar ou estabelecer a confusão?

    Agradeço a tua lealdade em confirmares através de mais um dicionário que efectivamente o sentido de defeito como falta/ausência está longe de ser um barbarismo copiado do inglês e desconhecido do português, como inicialmente pensavas.

    Também neste dicionário, saído em 2001, não aparece a expressão “por defeito” relativa à computação.

    Claro que não, porque já lá está. É o primeiro sentido de todos: «falta de alguma coisa». O que «por defeito» quer dizer é «por falta de alguma coisa».

    No Houaiss, na 4ª significação, pode ler-se: “ant. falta de algo necessário; carência, deficiência.” Este “ant.” é abreviatura de “antigo”, mas mesmo marcada como arcaica a significação continua a transmitir mais a falha do que a mera falta. Também não aparece “por defeito” ligado à computação e dá-se como antónimo tanto “perfeição” como “virtude”.

    Quanto ao Houaiss na sua versão portuguesa (18 volumes editados pela Temas & Debates), também o tenho por cá e tenho a seguinte opinião sobre ele: por um lado é um dicionário muito amplo no que toca ao aspecto da etimologia/datação, e ao espectro das terminologias incluídas (científica e tecnológica, como nenhum outro não especializado, por exemplo). Mas, por outro lado, já tenho deparado com omissões gritantes, e esta é uma delas. Gosto muito do Houaiss, mas por razões diferentes das que me levam, por exemplo, a preferir o para mim quase milagrosamente infalível Chambers aos restantes dicionários da língua inglesa de tamanho equivalente que conheço.

    Ora repara, já que te interessas por dicionários: como é que se explica que um dicionário como o Houaiss, que até inclui como poucos outros abundantes léxicos científicos, ignore não só o significado de falta/ausência para «defeito», como até a própria expressão «por defeito» que até tu aceitas?

    Trata-se obviamente de uma omisão do dicionário e de uma omissão que é um defeito no sentido que tu gostas.

    Que podem estas duas obras contra o Dicionário da Porto Editora e sua cedência à estupidez reinante? Fica para cada um decidir. E talvez um dia, com o apoio fervoroso de inteligências como a tua, tenhamos mesmo de aceitar que a expressão “por defeito” para descrever o que não tem defeito algum se instituiu, de facto, por defeito generalizado da comunidade dos falantes da língua portuguesa.

    Em matéria de dicionários e dicionários enciclopédicos, temos até agora temos 4 a 1 a favor do defeito/ausência. Mas, é claro, num caso como este uma ausência não prova nada; o que prova é a presença, e melhor ainda a presença largamente maioritária.

    Acho que para te convencer que «por defeito» não é uma tradução bárbara do inglês já devia chegar…

  55. Esta discussão até podia levar a uma reflexão sobre a forma como as linguas evoluem, mostrando por exemplo como é que um étimo latino da origem a formas diversas, embora não completamente divergentes, entre as diversas linguas que o acolhem, como é que opera a sepração, etc. Ou então poderia levar-nos a reflectir sobre a relação que fazemos inconscientemente entre “falta” e “falha”, e o que é que ela pode pressuõe em termos de representações éticas.

    Mas isto so aconteceria se não estivéssemos a falar com o Valupi, absolutamente impermeavel à noção de que é possivel debater sem ter a preocupação principal de medir pilinhas.

    “O Valupi ficou a saber alguma coisa” faz parte daquelas proposições puramente ideiais e abstratas. Não contem nenhuma contradicção, não esta inquinada de nenhuma impossibilidade intrinseca. No entanto, nunca foi verificada experimentalmente…

    Boas

  56. Gungunhana Meirelles, já tinha ficado claro que ainda não leste o texto que encima esta página, começaste logo a comentá-lo sem precisares de perder tempo com minudências. Agora também já podemos concluir que não lês os meus comentários. Creio que o bizarro fenómeno deva estar a ser causado pela aplicação intensiva do negrito, o qual te estará a enegrecer o bestunto.

    Se tivesses lido, saberias que (i) o sentido do étimo não é alvo de questionamento, bem pelo contrário, e que (ii) é precisamente por causa do étimo que se está a cometer um erro crasso ao traduzir-se “default” como “defeito”. Pensa: se em “default” se está a respeitar a noção de “falta”, por que raio é que foi preciso ir buscar “defeito” para o traduzir quando o que teria sido mais fácil e mais lógico era traduzi-lo por “falta” ou análogos? Explica lá: quais as vantagens para os falantes de língua portuguesa ao se referirem ao estado original, ou inactivo, de um sistema informático tendo para isso de o incluir na semântica corrente de “defeito”? Ou será que tu, calhando vender automóveis ou electrodomésticos, verias as vendas a subir assim que dissesses aos clientes que os popós e os televisores estavam ali parados e sem funcionar “por defeito”?

    Eu compreendo o teu problema. Tu és uma estrela mundial no estudo de dicionários. Passas o ano em digressão a dar conferências, pelo que ainda não tiveste tempo para perceber qual a diferença entre a etimologia e a filologia. Tu nem sequer és capaz de perceber o que é um verbete, por isso achas que um ponto e vírgula se sobrepõe à informação de que ambas as frases estão a ser catalogadas como sinónimo de “falha” – donde, a tal “falta de alguma coisa” está a ser entendida por esse dicionário como sendo relativa a algo que consiste num qualquer dano.

    Mas no meio de tudo o que agora escreveste, talvez o que tenha apreciado mais seja a referência aos 18 volumes do Houaiss. É que eu só tenho 8, incluindo nesse grupo o de sinónimos e antónimos. Aposto que és tu quem anda a aumentá-lo todos os dias com o labor incansável da tua inteligência.

  57. Extraordinario. A alimaria ainda não percebeu que ha em inglês duas palavras distintas – fault e default – e que a transposição imediata, “literal” como diz o texto citado, resulta em fautl ->falta e default ->defeito.

    Mas isso não o impede de falar de alto e de continuar com sobranceria a achar que os outros é que não sabem ler…

    Valupi, o que estas a tentar fazer ainda era possivel no século XIX, no café central de Carrazeda. Hoje, ja não é assim. Agora, a maioria das pessoas sabe ler e consegue perceber rapidamente quando é que um cromo como tu se esta a ridiculizar. Então para quem tem o treino de ler este blogue…

    Boas

  58. é por módulos de 8 gigas como os ifones da maçã, o topo de gama é o houaissão 32, com simóninos, antóminos, heteróminos & caralhadas. se comprares no olx, é muito provável que esteja recheado de ginas, páginas amarelas ou do espesso guilhotinadas ao formato. conheço um gajo que herdou uma biblioteca recheada de lixo e encadernada a pelica vermelha com doirados.

  59. [Valupi em negrito] Gungunhana Meirelles, já tinha ficado claro que ainda não leste o texto que encima esta página

    Citação do teu texto: «É a maior praga da estupidificação nacional através da fala. A repetição da expressão “por defeito” como tradução do inglês “default“. […] Claro, para falar português é preciso pensar. Para traduzir “default” apenas de ouvido, acabando por usar uma palavra que transmite o seu oposto, já não é preciso nem é recomendável.»

    Se tivesses lido, saberias que (i) o sentido do étimo não é alvo de questionamento, bem pelo contrário, e que (ii) é precisamente por causa do étimo que se está a cometer um erro crasso ao traduzir-se “default” como “defeito”.

    E se deixasses de te armar em vítima? O que estamos a discutir não é se conheces ou não o sentido do étimo latino. O que estamos a discutir é se conheces ou não o sentido da expressão portuguesa «por defeito» que queres discutir como ilegítima; e não só, mas também como calinada ridícula própria de ignorantes imbecis que querem corrromper a língua transformando-a «de ouvido» por influência de outras línguas. Mais uma vez aconselho-te a praticar o que pregas e a ler pelo menos o que escreves.

    Pensa: se em “default” se está a respeitar a noção de “falta”, por que raio é que foi preciso ir buscar “defeito” para o traduzir quando o que teria sido mais fácil e mais lógico era traduzi-lo por “falta” ou análogos?

    Tens toda a razão quando assumes que a língua viva tem razões instintivas que podem espantar os linguistas bacocos, menos ocupados em pensar do que em apelar à cruzada para a amarrar. Neste caso, a língua apercebeu-se de que a expressão “por falta” poderia ser entendida pelos seus súbditos mais ignorantes como “se não estiver aqui nada”, ao passo que a interpretação de “por defeito” como “se estiver aqui alguma coisa defeituosa” é mais improvável, e o sentido exacto da expressão, vulgaríssimo em inúmeros contextos, se torna muito mais explícito.

    Claro que, em rigor, «por falta» para traduzir “by default” serviria; mas, como te disse, a língua tem razões que alguns linguistas mais excitados desconhecem (o que não os impede de procurar e descobrir).

    Explica lá: quais as vantagens para os falantes de língua portuguesa ao se referirem ao estado original, ou inactivo, de um sistema informático tendo para isso de o incluir na semântica corrente de “defeito”?

    Acho que ainda não percebeste que não «têm de o incluir», porque já está incluído há imenso tempo. Volta a consultar os dicionários se não acreditas.

    Ou será que tu, calhando vender automóveis ou electrodomésticos, verias as vendas a subir assim que dissesses aos clientes que os popós e os televisores estavam ali parados e sem funcionar “por defeito”?

    Nesse caso terias uma ambiguidade a evitar através de um uso menos disparatado da língua, ambiguidade essa semelhante à que resultaria de os carros estarem ali parados por «falta», «omissão», «pré-definição» ou outra coisa qualquer, não fosse o comprador pensar que lhes faltavam peças.

    O que deverias dizer depende do que quisesses dizer e não explicaste. Que vendias mais carros novos que usados? Que cada carro estava novo a menos de ter sido usado? Que cada carro que não tivesse um aviso de «usado» estava novo? Que significado concebível teria o “by default” no contexto que pretendes? Fornece-me a frase inglesa a traduzir e fornecer-te-ei a tradução.

    Se o que estás a tentar mostrar é que «por defeito» não quer dizer tudo o que quisermos, a resposta é que “by default” também não.

    Eu compreendo o teu problema. Tu és uma estrela mundial no estudo de dicionários.

    Mais uma vez obrigado, mas podes endireitar-te. Não compreendes nada, mas faz de conta que estás em tua casa.

    Passas o ano em digressão a dar conferências, pelo que ainda não tiveste tempo para perceber qual a diferença entre a etimologia e a filologia.

    Eu cá acho que tu é que ainda não percebeste a diferença entre o raciocínio escorreito e a fuga escolástica a coberto do nevoeiro. Em combates aéreos chama-se palha (“chaff”) áquilo que é disparado para atrair os mísseis inimigos, mas há sempre quem prefira o canhão que não vai atrás da palha…

    Recentremos pois: espelho meu, espelho meu, que «defeito» é melhor que o meu?

    Tu nem sequer és capaz de perceber o que é um verbete,

    E em que é que baseias essa tua opinião? Vá lá, faz um esforço e negrita ou italica qualquer coisa.

    Hmm, deixa cá ver, deixa cá ver. [uma hora depois] Será um verbo pequenino?

    por isso achas que um ponto e vírgula se sobrepõe à informação de que ambas as frases estão a ser catalogadas como sinónimo de “falha” – donde, a tal “falta de alguma coisa” está a ser entendida por esse dicionário como sendo relativa a algo que consiste num qualquer dano.

    Como deves saber, o que é vulgar nos dicionários é o uso da vírgula para separar sinónimos, e do ponto e vírgula para separar sentidos, mas claro que é apenas uma convenção não obrigatória. Considera então a seguinte pergunta:

    Porque é que o DLPC indica «falta de alguma coisa» e, a seguir, depois de um ponto e vírgula, «falta do que é necessário ou desejável»?

    1ª sugestão: Porque se trata de duas faltas: uma simples; outra do que faz falta.

    2ª sugestão; Porque se trata de uma falta apenas, mas o dicionário gosta muito de insistir (é talvez muito oral, como as peixeiras menos académicas) e acha que «alguma coisa» é o mesmo que «coisa necessária e desejável».

    Eu opto pela primeira sugestão. Calculo que, apesar de teceres os maiores elogios ao dicionário (e certamente não só por incluir um riquíssimo verbete «Academia») optarás provavelmente pela segunda.

    Mas no meio de tudo o que agora escreveste, talvez o que tenha apreciado mais seja a referência aos 18 volumes do Houaiss. É que eu só tenho 8, incluindo nesse grupo o de sinónimos e antónimos.

    Bom agora estás a fingir que interpretaste o meu «quanto ao Houaiss na sua versão portuguesa (18 volumes editados pela Temas & Debates), também o tenho por cá» como se tivesse querido transmitir o recado «pasma perante tantos volumes!» e não simplemente indicar-te de que edição se tratava — uma das do Houaiss do português de Portugal e não do do Brasil — da forma mais simples e identificável possível.

    Claro que se trata do mesmíssimo dicionário que tu tens. Só o formato (e, no meu caso, a ausência do complemento de sinónimos e antónimos) é que é diferente.

    Aposto que és tu quem anda a aumentá-lo todos os dias com o labor incansável da tua inteligência.

    Nem mais. E é mesmo para o registar que os dicionários servem. E não só por mim, mas por milhões de luso-falantes. Ele é gramáticos, engenheiros, doutores, trolhas, peixeiras, gatunos, freiras, um mar de gente que nunca mais acaba…

    Já agora, a propósito da discussão sobre as inovações revolucionárias «de ouvido» que o inglês quer introduzir e a que tu queres resistir que nem um Cambronne agarrado às suas águias, considera o uso de “defect” e “default” em inglês, antes do lançares o grito final.

    Em inglês, para se referir, por exemplo, que a massa de um núcleo atómico composto de várias partículas é inferior (por causa da energia de ligação) à soma das massas dos protões e neutrões que o constituem, diz-se “mass defect”, como em português se diz, com inteira propriedade, «defeito de massa». E em ambas as línguas se pode dizer deficit.

    O que acontece é que o uso da língua corrente em disciplinas ciêntíficas — a não confundir com a inovação no vocabulário das suas terminologias técnicas, que é outro assunto — é, pela sua exigência de precisão, menos dado à flutuação dos barbarismos ignorantes. É exactamente o contrário do que tu pensas: o «por defeito» quantitativo é uma conservação, não é nem um vandalismo, nem uma ressurreição milagrosa.

    “Defect”, hoje em dia, tem no inglês corrente os sentidos mais comuns de defeito/imperfeição ou de deserção (sem sentido necessariamente pejorativo, como em “their spy defected to our side”), mas pensar que o seu emprego no sentido puro e simples de defeito/ausência (como na física) faria cair da tripeça um linguista inglês ou deixaria o público inglês atónito e sem perceber a utilização da palavra, é desconhecer que as línguas, através da sua permeabilidade e adaptabilidade, criam as regras da sua etimologia sem necessidade dos decretos dos linguistas.

    E por que razão então escolheu a língua inglesa, na sua sabedoria, a expressão “by default” em vez de “by defect”? Muito simplesmente porque dispunha de duas expressões derivadas do mesmo étimo latino e não havia necessidade de privilegiar a menos comum para o uso pretendido.

    E estou aqui a dar-te uma oportunidade — sim, a generosidade é uma das minhas fraquezas — de saires airoso desta discussão, reconhecendo a pertinência do «por defeito», sem te contradizeres por completo, uma vez que em português não existe a duplicação equivalente ao par inglês “defect” e “default”.

    Imagina-te, por exemplo, a festejar o regresso da cápsula espacial «Por Defeito» à atmosfera portuguesa, depois de um ou dois saltos na reentrada, em vez de adoptares o luto pseudo-purista por falta de informação, ainda que esses saltos na realidade não se tenham verificado.

    Já agora, para quem ache que «por omissão» seria a forma mais apropriada para traduzir “by default” só porque um ex-pastor acabado de chegar das berças remotas, depois de trocar as ovelhas pela informática e perante a difícil tarefa de entender o uso corrente de «por defeito», poderia ficar chocado com o seu negativismo, o que sugiro é que o mais natural seria ele nem sequer se aperceber do sentido igualmente negativo de «omissão», por desconhecer de todo a palavra…

  60. Gungunhana Meirelles, quero agradecer-te o prazer quase insano, e a espaços irremediavelmente insano, que este teu comentário me proporcionou. Muito obrigado.

    Creio que é uma belíssima forma de darmos por encerrados os trabalhos deste entretenimento por defeito. Foi para isto que o Al Gore inventou a Internet, precisamente para isto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.