Pode-se entrar duas vezes nas promessas do mesmo Rio?

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Rui Rio, na fase em que começou a posicionar-se como candidato à presidência do PSD, aparecia como um potencial Salazar democrático, ou um alemão exilado em Portugal. Alguém que viria propor ao eleitorado uma tirania das “boas contas” e uma nortada moral para morigerar o regime, as cortes e as gentes. Na disputa com Santana Lopes, surpreendeu ao levar a votos as suas críticas ao Ministério Público da santa Joana. Foi nisso muito corajoso dado o clima de judicialização e linchamento explorado ininterrupta e maniacamente pela direita política e mediática desde 2004, agravado pelo uso da PGR como braço policial e judicial dos interesses que Cavaco e Passos representavam. E depois ganhou a Santana, numa inevitabilidade que também teria acontecido se Montenegro tivesse então concorrido. Ganhou mas não soube o que fazer com o novo estatuto, deixando os seus apoiantes perplexos com a inépcia de quem trazia um currículo só com vitórias no circuito autárquico, depois de ter sido uma segunda linha prestigiada ao longo de décadas no PSD. Qual a origem da actual disfunção?

O problema, segundo a minha vizinha do 4º andar, é clássico. É o principal problema da política: a dinâmica entre o poder e a autoridade. Rio pressentia que seria fácil obter o poder máximo dentro do PSD, bastava-lhe ir exibindo uma marca conservadora e esperar pelo céu limpo de nuvens. Nesse conforto, comprazia-se a fantasiar que iria conseguir resolver os problemas futuros no futuro. O seu maior problema futuro consistindo no caminho para chegar a primeiro-ministro ou a vice-primeiro-ministro. Eis que acordou no dia 14 de Janeiro de 2018, cheio de energia e apetite, e continuando sem fazer a mínima ideia de como derrotar Costa ou chegar a um Governo de coligação com ele.

Talvez não seja possível derrotar o PS nas eleições de 2019. Isto é, talvez não exista nada nem ninguém capaz desse feito, fosse quem fosse o presidente do PSD (incluindo nessa lista o Cristiano Ronaldo e a Cristina Ferreira). Mas todos sabemos, e Rio melhor do que nós, que seria possível estar a fazer um melhor trabalho. É até simples de explicar, bastando recuperar o que prometeu: rigor, rigor e rigor. Valor importante para diferentes públicos eleitorais, assim essas promessas sejam concretizadas. O seu problema reside na falta de autoridade. Porque a autoridade não se declara nem se pede, conquista-se. Ora, é o próprio que boicota a sua afirmação; como se viu durante o frenesim que antecedeu a substituição da anterior procuradora-geral da República. Para quem já se tinha mostrado capaz de afrontar os cães raivosos no seu partido apesar de estar em campanha interna, a ambiguidade e irrelevância, ou mesmo contradição, reveladas como líder do PSD no meio desse berreiro mediático de exploração e degradação política foram não apenas uma oportunidade perdida para se impor com autoridade em matéria tão grave e decisiva para o futuro do Estado de direito e da democracia em Portugal; muito mais e pior do que isso, Rui Rio mostrou não estar à altura da situação.

Justiça e Saúde, este o centro de um programa que poderia seriamente assustar o PS. A que se juntaria a política fiscal para cidadãos e empresas, em plano secundário mas complementar. E, pelo meio, encher de elogios o Governo pelos resultados económicos e europeus, inclusive pelos ganhos sociais face ao passadismo do passismo. Na Justiça, levar até ao fim o que já tinha iniciado, dando nome aos bois, colocando a Lei e a decência acima das pulsões criminosas de agentes da justiça, políticos e jornalistas. Mostrando não temer a ameaça corporativa do sindicato do Ministério Público. Usando o fanatismo sectário e persecutório, essa cultura do ódio e a indústria da calúnia, como trampolim para levar a sua mensagem ainda mais longe. Ser atacado pelos pulhas a servir de farol ao acerto do seu rumo. Calhando ficar sozinho a defender a sua visão para alguma área da Justiça, como no caso da constituição do Conselho Superior do Ministério Público, ter a consciência de ser esse isolamento prova de força, manifestação de liderança. Assistir ao progressivo ajuntamento de concidadãos à sua volta por perfilharem do mesmo ideário, por sentirem que finalmente têm alguém que os representa e pode guiar nesse terreno de batalha em constante bombardeamento mediático pelos impérios e serventuários da decadência. Na Saúde, indo ao encontro das crescentes experiências de intenso sofrimento e tragédia que o maremoto do envelhecimento demográfico traz. Ser realista e claro na exposição das soluções, mostrando que com ele haveria decisões estruturantes nessas áreas onde qualquer adulto se sabe utilizador presente e futuro. Abraçar a republicana glória de termos um Serviço Nacional de Saúde onde milhões encontram milhares que se tornam decisivos para as suas vidas, para as vidas daqueles que amam. E, por fim, agitar a bandeira que ideologicamente justifica haver um PSD e um PS, sendo o primeiro a opção para aqueles que com absoluta legitimidade queiram um 25 de Abril com mais sociedade e menos Estado, comparativamente com aqueles que preferem um Estado mais robusto como garante de uma sociedade com menos desigualdade – mas continuando a ter esse “dia inicial inteiro e limpo” onde nos queremos livres.

Não faço ideia se Rui Rio vai conseguir recuperar a sua autoridade. A avaliar pela estupidez que podemos ver acima, onde faz um comentário asinino e abstruso sobre Armando Vara, despachando logo a seguir a infantilidade de confundir a sua subjectividade com a alteridade a propósito de Miguel Macedo, diria que está de chuva.

4 thoughts on “Pode-se entrar duas vezes nas promessas do mesmo Rio?”

  1. podes parar com as manobras de reanimação, V, como vês, o psd está morto. ninguém lhe liga. agora, só se for Cristo a dar-lhe vida.

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