Pináculos da estupidez

Ser oposição é lutar pelo Poder, e lutar pelo Poder é denegrir o Governo e os adversários. É assim em todo o lado, desde sempre. Como a política ainda é um espaço regido exclusivamente pelos códigos masculinos, esta agonia satisfaz os fluxos de testosterona e seus modos bélicos. À esquerda e à direita, não faltam aqueles que reduzem a actividade política ao conflito – uns, sonhando com revoluções em 10 dias; outros, preparados para defender os bens acumulados do ataque dos vândalos. Tem de continuar a ser assim?

Uma das leituras da sondagem que dá 44% ao PSD é a de que o eleitorado valoriza positivamente políticos que ajudem o Governo. A ser correcta esta interpretação, explicá-la é a coisa mais fácil do mundo: o eleitorado não é estúpido. Só um estúpido prefere um Governo fraco a um Governo forte. Ora, como aqueles que boicotam e difamam o Governo não apresentam alternativas credíveis, ou nem sequer estão dispostos a governar, o resultado da sua acção é um enfraquecimento inútil, ou perverso, das equipas ministeriais. Para o eleitorado, isso equivale a um prejuízo para todos, lixando-se o mexilhão.

A estratégia da calúnia e da conspiração, seguida pelo PSD entregue à Manela e ao Pacheco em aliança com Belém, foi castigada nas urnas. Os próprios não aprenderam nada com esses resultados, como burros velhos que são, mas podemos imaginar o cenário em que a saída de Menezes conduzisse a um caminho de recuperação do mito cavaquista. Para tal, Ferreira Leite teria mesmo de recuar a 1985 e reinventar-se como figura tecnocrática exclusivamente dedicada ao culto da governação para a recuperação económica. Claro que essa operação seria impossível, tratando-se da Senhora Calinadas – chegou a dizer que não apresentava ideias para que o Governo não as copiasse! – mas uma estratégia inteligente teria ido por aí. Todas as temáticas e críticas feitas seriam acolhidas como sinais de honesta preocupação e legítima diferença ideológica. A tal seriedade auto-proclamada, e absolutamente hipócrita, teria sido demonstrada por actos. O resultado eleitoral só poderia ser melhor, diz-nos o bom senso.

O mesmo para a esquerda imbecil, onde a cristalização ideológica mantém o PCP confinado a uma geografia, e onde a mistela ideológica obriga o BE a depender do marketing corporativo para crescer. Estas estratégias não os podem levar ao Governo, contudo estes partidos prejudicam qualquer Executivo que lhes apareça pela frente. Os votos que recolhem, por adesão aos programas ou de protesto, são parte do problema porque os políticos que deles vivem não querem ser parte da solução se esta implicar compromissos da sua parte. A radicalidade é uma imposição de organizações que subsistem através de sectarismos para-religiosos e onde o culto de personalidade vai a par com fundamentalismos diabolizantes e paranóicos promovidos para impedir a fuga dos crentes. Por isso os discursos de Jerónimo e Louçã são invariavelmente sermões de fundo moral, construções simplistas, e maniqueístas, da realidade.

Temos um Governo minoritário no meio de uma crise económica que, num ano, reduziu a cacos os ganhos obtidos desde 2005. Para agravar, estamos no meio de uma tempestade financeira que é caracterizada pela irracionalidade e por um ataque maciço contra a Zona Euro. Nesta situação, ocupar o tempo a prejudicar quem tem a responsabilidade de nos governar, em vez de se contribuir criticamente com lealdade, é mais um pináculo da estupidez.

38 thoughts on “Pináculos da estupidez”

  1. Val,

    Leio com atenção o que escreves e não é de agora. E se escreves bem. Agora, não é preciso fugirmos do tema central dos dias de hoje. Ninguém sabe para onde caminhamos, nem governo, nem oposição e nem a Europa ou o mundo. O que já se permite saber, isto é, o que está desocultado é que vivemos uma época não semelhante à crise de 1929, mas, outrossim, ao ano de 1789. Hoje, assistimos ao baixar do pano sobre a Revolução Francesa – e algum dia tinha de acontecer. Primeiro, entraram em obsolescência as suas formulações mais radicais, corporizadas em regimes ditatoriais tanto de esquerda como de direita, estes últimos, embora a repudiassem, foram sendo seus sucedâneos. Agora, é a sua vertente mais moderada, assiste-se ao fim da ordem onde abunda a administração social-democrata e conservadora, sim, os conservadores, esses colectivistas. Ora, vivemos pois, num sistema sem respostas: nem à esquerda, nem à direita. O socialismo falhou e falhou clamorosamente em todas as suas vertentes. O conservadorismo ainda tem mais falhas nas costas, pois, sendo mais antigo, a sua receita é comprovadamente errada. Estamos, assim, perante a possibilidade de uma nova era, e não necessariamente “um mundo melhor”, esse, lamentavelmente, já não é possível.

  2. Palberico, mas não saber para onde se caminha é uma característica das sociedades pós-industriais e do fim da Guerra Fria. Quanto a essa ordem social-democrata, falas apenas da Europa. No resto do Mundo, outros foram os caminhos seguidos de acordo com a miríade de factores históricos respectivos.

    Mas, diz de tua justiça, qual é o mal de se estar perante uma nova era? Não é essa a consequência inevitável da inteligência humana, como se constata pelo advento da cultura e avanço científico? Se ainda vivêssemos nas cavernas, imutáveis no modo de vida de caçadores e recolectores, estaríamos melhor?

  3. Val, a forma escorreita e límpida como escreves e abordas as questões abrem, a quem lê, novas perspectivas de “ver mais longe”. Este introito em jeito de agradecimento, é também, para corroborar o teor da mensagem e ao mesmo tempo para alertar para um certo triunfalismo que impera nas hostes laranjas, qual espécie de marketing de pacotilha e que, como a mentira, mil vezes repetida, se pode vir a tornar mentira. Ainda hoje ouvi parte da entrevista de um vaidoso-militante, João de Deus Pinheiro, que afirmava que a muito breve prazo o Passos Coelho irá ser PM, afirmando, ainda, entre outras bacoradas, que aquele é muito melhor que Sócrates e dando o exemplo, até, que um “roupeiro (o Sócrates), jamais pode substituir um treinador como o Mourinho (Passos Coelho). Eu sei que pedantes como aquele, que foge das responsabilidades e vai gozar a reforma de ouro, não serão muito ouvidos, mas a rádio que difundiu a entrevista repete, até à exaustão o “discurso” (e é uma rádio “controlada” pelo Sócrates, que fará não o fosse…”.
    Espero que o povo não se “enforque” nos Pináculos da Estupidez!

  4. Val,

    Concordo, não existe mal nenhum em estarmos perante uma nova era, mas, ainda, também não existe bem nenhum, pelo menos, do ponto de vista ocidental: e é no ocidente que vivemos. A verdade, que todos os dias se torna mais patente, é que todos nós, europeus e norte-americanos, vamos ter que baixar os padrões. Todos, ricos e pobres, vão ter que baixar o nível de vida, não sei em que percentagem. E isso poderá ser o mote para uma nova tomada da bastilha. Só que, como é óbvio, já não vamos em grupos: já não vamos na cantilena do colectivismo acéfalo, quer de direita, quer de esquerda.

  5. Agora uma pergunta directa. Quando perguntas qual é o mal de se estar perante uma nova era e se essa não é a consequência inevitável da inteligência humana, como se constata pelo advento da cultura e avanço científico, tu, percorres um programa positivista que é respeitável e, também ele, fruto da revolução francesa. Outros, que se dizem mais à direita (sabem lá eles), contradizem-te, dizendo que esse é precisamente o mal, isto é, esse excesso de racionalismo levado quase à crença. Dizem ainda, que é aí que está o mal, pois, esse racionalismo, leva-te ao chamado bem comum, ao mundo melhor, e, daí ao socialismo científico, vai um passo de tão racional que é. Estes, que são contra o progresso, contra a evolução, contra a mudança, dão-te, ao invés, a panaceia da tradição, dos valores. Uns (tu, e outros bem radicais do que tu), puxam para um lado, outros puxam para outro. O que digo é: estão todos no mesmo campo, ainda a jogar, mas o jogo já acabou e o campo foi interditado. A pergunta é: acreditas mesmo que essa nova era como consequência do advento da cultura e avanço científico, vai criar algo fundamentalmente novo, ou estás, antes, a fazer a aposta de que a história se vai repetir? Dito de outro modo, será que divisas no racionalismo que te leva a falar do advento da cultura e avanço científico algum criticismo, consegues chamar-lhe racionalismo crítico?

  6. Pois era, a Ferreira Leite tinha ideias fantásticas, mas não queria o Governo as copiasse. E o Passos Coelho já terá pensado numa desculpa para não apresentar ideia nenhuma, para além do fim do TGV? É que todos os dias ilustres sociais-democratas dão o Governo, e até o País, como acabado. Estão cheios de pressa, por eles devemos ir para eleições antecipadas o mais depressa possível, mas alguém sabe o que pensa (?) o novo líder acerca, por exemplo, da actual política energética do País? As renováveis são para continuar ou são uma má aposta de Sócrates e é tudo para rasgar? O mesmo para o investimento em ciência e tecnologia, para a Educação, Justiça e para o resto. Não é por nada, mas parece-me que o ambiente é de pré-campanha e aquela coisa de ter salvo o País da bancarrota é capaz de não ser suficiente…
    Já sei, olha-se para ele e vê-se logo que vai dar um excelente primeiro-ministro, isso das ideias é para saloios como o Sócrates. :)

  7. Não Guida, para saloios como o Sócrates é mais propaganda, tipo a visita do Chico ao Chico, digo, Chico Esperto ao Chico Buarque …

  8. Pois é, Adolfo. Mas pelo menos percebe-se o que diz. Já aquelas tiradas do Passos a dizer que não vai tirar o tapete ao País, não percebo. Ainda por cima, pela forma como falam do País, pensei que o Governo de Sócrates já o tivesse tirado há muito tempo. :)

  9. Agora estou perdido. O Sócrates deu alguma conferência de imprensa onde tivesse dito que tinha recebido convite do Chico Buarque? Um mero comentário a algum microfone? Adiante. ..
    Guida, não se amofine tanto e, verifique, que é natural a alternância no poder. Sempre foi, sempre será, pelo menos enquanto vivermos em democracia. É certo que nisto tudo fica uma impressão: alguém andou a urdi-la, e fê-lo, em várias frentes, atacando sempre a honorabilidade da pessoa que é PM desde 2005. Mais, ninguém tira a Sócrates os seus êxitos, como ninguém tirará aos que babam por poder, a responsabilidade no que não conseguiu fazer. A oposição, qualquer oposição democrática, não deve ser colaboracionista, isso não seria natural, contudo, também não pode valer tudo e, nestes três últimos anos, tem valido tudo, nós já vimos de tudo, ou não vimos? Vai ser muito interessante observar: Cavaco presidente e Passos PM. E, mais interessante ainda, vai ser observar que um Presidente e uma maioria do PSD podem, de uma só vez: perder o país na crise (à qual ainda não chegámos a sério), não terem propostas salvíficas (sabemos que não têm, como não têm ideologia, credo ou ortodoxia, ou seja, o dia internacional que hoje se comemora, o dia das putas, é todo ele, dedicado ao PSD), não terem sequer tempo para assentar no poder e, no fim, reabilitar o PS e quiçá o próprio Sócrates. Vai ser giro de se ver.

  10. Para que conste, e na eventualidade de alguém se perguntar porque chamo ao partido político do Passos, partido de putas, sempre se dirão duas coisas de substância e outra do dia-a-dia: chama-se social-democrata, mas é conservador; o líder diz que é liberal, mas colabora no aumento brutal de impostos (eufemismo: “estendi a mão ao país”), e, não contente, ainda pede desculpa, de quê?

  11. Palberico, não estou amofinada, estou curiosa, e é exactamente por achar normal a alternância no Poder. Não acho natural é a falta de ideias que reina no PSD. E num líder que anda há anos a preparar-se para liderar o partido e que, consta, vai ser o próximo primeiro-ministro, ainda acho menos natural.

  12. Guida, honestamente? Olhe, Sou adepto do estilo e governação do Sócrates desde a sua passagem pelo Ministério do Ambiente. Já muita gente se esqueceu que Sócrates foi, só, o melhor Ministro do Ambiente desde que existe essa pasta. Mas, apesar disso, até eu já me sinto farto de tanto “bater no ceguinho”. Veja o seguinte, o PS, é um partido cheio de sensibilidades e tem, como noutros partidos, uma mão cheia de cabotinos, à espera do próximo a quem se vão atirar às costas a gritar: sou fiel! Acha que esta cena do Chico Buarque foi inocente? Que merda de assessores são aqueles? Digo só isto: para o Sócrates e para o PS, o melhor que podia acontecer, seriam eleições. Das duas uma: ganha e é a surpresa das antigas e, então…; ou perde, e no entanto, a prazo, ganha.

  13. MARGARIDO TEIXEIRA, juntos veremos mais longe, e mais diversamente, melhor. Assim, dependemos uns dos outros e todos valem, todos foram chamados. Agradeço a tua simpatia e a tua presença.

    Quanto aos barões do PSD, eles andam ressabiados há muito tempo, o vapor tem de sair por algum lado.
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    Palberico, não vivemos só no Ocidente, e cumpriu-se a profecia da “aldeia global”. A nossa comida, e outras matérias-primas, não vem só, nem na sua maior parte, do Ocidente. Ora, o nosso consumismo afecta, positiva e negativamente, o resto do Mundo. Mas é um discurso consensual, batido, esse reconhecimento de que o Planeta não aguenta que todos os seus habitantes, nem sequer a metade, tenham o mesmo nível de vida do que o dos países mais ricos. E aqui entre nós, não estamos rodeados de tralha e de lixo? Não é obscena a diferença entre ricos e pobres? Há pessoas que passam pela vida só para a devoraram com a barriga, em vez de encherem a alma com ela.

    Quanto à tua questão directa, creio que estás a usar o conceito de racionalismo de forma educada, mas ainda ambígua, equívoca ou ingénua. Afinal, qual é, no teu entender, a alternativa ao racionalismo? Ou dito de outra forma: que parte do comportamento humano se pode excluir do racionalismo e qual a relevância dessa dimensão (biológica, instintiva?) para a tua questão?

    Se responderes, continuamos a partir daí, recuperando os dados do problema tal como os apresentaste.
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    mdsol, então, e não nos ajudas a resolver os maiores problemas da Humanidade?… Vá, não guardes esses segredos só para ti…
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    guida, nem mais. Passos Coelho vai ser primeiro-ministro porque um grupo de maduros o anda a dizer aos jornalistas. É esta a estratégia do PSD, nem precisam de programa.

  14. Valupi, começando você assim, com pena do filósofo amargurado que conhece bem as leis das lutas de galos e cães:

    “Ser oposição é lutar pelo Poder, e lutar pelo Poder é denegrir o Governo e os adversários. É assim em todo o lado, desde sempre”

    porquê dar-se, então, ao masoquista incómodo de escrever o resto.

    A única curiosidade que vejo na sua mensagem contra a estupidez é a sua extrema habilidade em evitar que alguem repare que já a leu antes, e mais que dez vezes. É pena que o Alegre e outros traidores do PS não tivessem feito parte do elenco passivo das suas acusaçoes.

    PAIberico,

    O meu amigo já leu Orwell? Leia “Keep the Aspidistra Flying”, lá encontrará um herói muito parecido consigo: sempre disposto a apertar o cinto, e incapaz de aceitar dinheiro dum amigo para matar a fome. Irritante, mesmo.

  15. GiróFlé, tens de ter cuidado com essas projecções, o masoquismo atribuído a terceiros pode não passar de um reflexo da tua estupenda pessoa.

  16. Outra leitura possível desta sondagem é que um inquérito através de telefone fixo nunca pode ser representativo do universo dos eleitores portugueses. Logo, o mais aconselhável é esperar pela próxima para tirar conclusões.

  17. Eu é que pergunto, honestamente, acha que o “bater no ceguinho” termina com eleições, ganhe quem ganhar? Se for o PS, com ou sem Sócrates, o comportamento da oposição não se altera. Se for a dupla Passos/Portas, a ver pelo estado de graça do líder do PSD, enfim, é tudo menos garantido que o “bater no ceguinho” acabe. Além disso, e contra todas as espectativas, o Governo minoritário de Sócrates está a provar que consegue governar sem maioria absoluta. A oposição teve de largar aquela história da vitimização de modo a forçar eleições antecipadas. Do que estou farta é de ver o PSD num dia a dizer que é irresponsável apresentar uma moção de censura e no outro, se não for no mesmo, dizer que o Governo está a levar o País para o caos. Decidam-se, mas decidam o que decidirem, irem pensando numas soluções alternativas e partilhá-las connosco só lhes ficava bem, ganhávamos todos. :)

  18. João Pinto e Castro, sem dúvida. Mas também inquestionáveis são os ganhos de credibilidade e simpatia para Passos Coelho em resultado de ter decidido apoiar o Governo quando o podia ter feito cair, ou deixar ao abandono. Quanto ao resto, não passa de uma sondagem marcada pela novidade, pelo imprevisto e pelo efémero.

  19. aqui está como uma cretinice do gabinete é convertida em golo da oposição. Perfeitamente de acordo que o psd é partido de putas, daí a minha irritação.

  20. Val,
    Com a habilidade que te é comum, pisando o terreno com suavidade, lanças-me um mote irrecusável: que eu me clarifique. Pois bem, para atalhar, digo-te, que não sou irracionalista, mas, ainda, e cada vez mais, tendo ao uso do racionalismo critico ou moderado, se quiseres, o mesmo que encontra as suas raízes nos que fundaram a independência e moldaram a Constituição dos EUA. Dos ideais políticos do jovem James Madison, passando por John Adams, Jefferson e todos os juristas que constituíam a maioria dos signatários da Declaração da Independência e foram membros da Comissão Constitucional. Racionalismo presente nos princípios dos homens da geração de Maitland, Acton e Bryce, a última geração cujo objectivo principal era a liberdade e a igualdade ou a democracia como pressupostos da liberdade e que permitiram uma evolução de tal maneira bem sucedida, que só nos EUA, poderiam aparecer um Barak Obama e o seu precursor, Martin Luther King.
    Mas vejamos mais de perto. Trocando por miúdos: o que sabemos (e o que não sabemos) sobre o mundo? E o que permite sequer pensar na construção de uma ordem socialista, social-democrata, liberal ou conservadora? Ou qualquer uma das muitas matizes neo, ou neo-neo, das nossas pós-modernidades? Vou apenas simplificar, admitindo os erros que daí possam advir. De acordo com a tradição (porque é disso que se trata), temos uma visão racionalista, oriunda das “luzes” e filtrada a partir da revolução francesa em diante, que privilegia o planeamento, do mais radical que envolve tudo, toda a actividade humana, ao mais moderado que deixa espaço a livre iniciativa; temos depois uma tradição evolucionista, que enfatiza o surgimento espontâneo das instituições e práticas. A primeira tradição é conservadora e construtivista, sendo aplicada tanto à direita como à esquerda; a segunda é liberal e recebeu da escola Austríaca (calma!), mas também de Popper, o nome de “racionalismo crítico”. Cada uma delas aponta caminhos distintos, tanto do ponto de vista descritivo (como explicar o surgimento das instituições e práticas existentes) quanto do ponto de vista prescritivo (como se pode alterá-las intencionalmente). A meu ver, e sem entrar na dilucidação de cada umas delas, a globalização (fruto do advento da cultura e avanço cientifico racionalistas), produziu efeitos que do ponto de vista descritivo, não foram construídos; criou condições que levaram à criação, modificação e extinção de instituições e práticas da vida em sociedade; e, tudo isto surgiu sem que alguma mente o tenha definido antes. Ou seja, o racionalismo construtivista falhou. Falhou, porque a história recente, veio demonstrar à saciedade que o homem não é capaz de apreender todos os dados relevantes da realidade social e, com base neles, poder criar ou ajustar racionalmente as instituições sociais para que cumpram fins específicos (progresso, desenvolvimento, paz, justiça etc.). Falhou o socialismo e falhou o conservadorismo, ambos colectivistas, ambos falhanços rotundos!

    Já a perspectiva evolucionista, sugere que existem limites para o que podemos realizar deliberadamente e mostra que certas esperanças não constituem mais do que meras e perigosas ilusões. Esses limites da capacidade de realização são consequência dos limites cognitivos inerentes ao homem: é impossível à razão humana apreender toda a complexidade dos factos da realidade social. Dessa óptica, não é possível prever nem prescrever qualquer tipo ideal de instituição social ou mesmo de sociedade. Não existem receitas mágicas, não existe a varinha de condão. Diante da impossibilidade do homem moldar o mundo a seu bel-prazer, a sociedade deve ser guiada por valores abstractos reflectidos num pensamento abstracto. Estando assim aberta a possibilidade da chamada economia da felicidade, ou seja, numa pergunta: seremos nós, os portugueses, mais felizes do que os filipinos? E estes serão mais felizes do que os ugandeses? Este racionalismo crítico tem consequências severas, desde logo, obriga a que se olhe de frente as pessoas e se diga a verdade, por mais difícil que ela seja (não a verdade da tanga). Se diga: meus amigos, a festa acabou! Agora, vamos começar a pensar como vamos reduzir o nosso nível de vida, aonde vamos cortar. Não é cortar por cortar, para resolver esta crise, não, vamos mesmo ter que cortar e, ainda assim, vamos procurar ser felizes, ok?

  21. Palberico,

    “Não é cortar por cortar, para resolver esta crise, não, vamos mesmo ter que cortar…”

    Eu bem desconfiava que havia guilhotina por detrás dessa conversa toda com alusões à Bastilha, etc. e tal. Ok, proponho começar pelos gajos com carros com cilindrada superior a 2000 cc, casa própria e cursos tirados no estrangeiro com bolsas da Gulbenkian. Os gajos da Maçonaria e os sionistas ficam pro fim como se faz com o chouriço.Ok?

  22. Os gajos da Maçonaria e os sionistas ficam pro fim como se faz com o chouriço.

    Ufffff…. e Fuuuuuuu!

    Os argumentos e coisa vão a seguir se nã levarem a mal.
    É que esta merda dói.

  23. Palberico, agradeço a fértil resposta. Tinha pedido que definisses o âmbito em que estavas a utilizar o conceito de “racionalidade”, para que melhor nos entendêssemos, e as referências que expuseste são mais do âmbito histórico do que do filosófico. Nada de mal com isso, apenas o registo para clarificar as posições. Passemos, então, para a tua questão:

    “A pergunta é: acreditas mesmo que essa nova era como consequência do advento da cultura e avanço científico, vai criar algo fundamentalmente novo, ou estás, antes, a fazer a aposta de que a história se vai repetir? Dito de outro modo, será que divisas no racionalismo que te leva a falar do advento da cultura e avanço científico algum criticismo, consegues chamar-lhe racionalismo crítico?”

    A revolta, ou suspeita, contra o “racionalismo” é fruto do Romantismo e da hegemonia da tecnociência tomada como modelo de conhecimento e transformação do real. Tu próprio o recordas implicitamente, ao aludires ao Iluminismo. Contudo, não te entregaste ao tal criticismo que advogas, pois estas críticas românticas e contemporâneas ao racionalismo são ideológicas, não epistémicas. Quem as faz está a usar a razão, e de forma bem complexa e sofisticada, no acto mesmo de a diminuir.

    Este assunto é colossal, imenso e excelente para uma introdução à filosofia, e não por acaso faz parte do programa da disciplina logo no Ensino Secundário. Para atalhar e responder directamente às tuas perguntas, digo que a História acompanha o movimento criativo que está inscrito no próprio universo, e o qual talvez seja a essência da realidade: tudo é novo, sempre. E nada temos de mais espectacular para o provar do que a própria cultura, a qual é exuberante na criação da diversidade, tanto dos povos, como dos indivíduos, como das épocas, como dos lugares, como dos grupos, como dos saberes, como dos rituais, como de qualquer elemento que compõe a dimensão antropológica.

    O racionalismo, se concebido como o primado da inteligência de base lógica, científica e intelectual, é inerentemente crítico. Não o pode deixar de ser, sob pena de desaparecer. Ser crítico é ser autocrítico, numa permanente procura da verdade estabelecida racionalmente. É por isso que as expressões mais elevadas, e profundas, da razão humana – filosofia e ciência – são também aquelas onde mais se sabe que não se sabe – e, em particular, que a verdade é inatingível, embora seja horizonte. Todas as ilusões, erros e manipulações na actividade racional são perseguidos, daí o poder crescente da racionalidade. Esta dinâmica está presente de forma inconsciente na evolução biológica, levando os animais mais inteligentes a ter mais sucesso. Actualmente, e neste planeta, o Homo sapiens sapiens é o animal mais inteligente, tão poderoso que até criou condições para se extinguir por si próprio ou conseguir alterar os equilíbrios e ciclos ambientais da Terra.

    Em suma, o problema não é, nunca foi, um “excesso” de racionalidade. Não pode haver excesso de algo que nos acrescenta poder. Essa imagem é falaciosa, ideológica. O problema foi sempre o oposto, um défice de racionalidade. Repara: quando vais ao médico, ou estás perante um juiz, ou dependes de um engenheiro para fazer uma obra, esperas que eles utilizem as suas capacidades racionais de forma deficiente ou que nem sequer a elas recorram? Pois.

  24. Val,

    Brilhante a tua apologia da Racionalidade!

    “…o problema não é, nunca foi, um “excesso” de racionalidade. Não pode haver excesso de algo que nos acrescenta poder. Essa imagem é falaciosa, ideológica. O problema foi sempre o oposto, um défice de racionalidade.(…)”

    A afirmação “Não pode haver excesso de algo que nos acrescenta poder…” é, ela mesma, falaciosa ou mesmo falsa. Se a tomarmos por verdadeira, ainda mais grave se torna!

    Porque carrega consigo uma apologia do poder. E se temos demonstrações-mil dos excessos do poder! O poder mais terrífico de todos: o EXCESSO do conhecimento (Fausto); a HIPERTROFIA do mental. A Lúcida-fria racionalidade.

    Não. Não faço apologia da irracionalidade nem da ignorância.

    Trata-se da Vida como equilíbrio dinâmico em que os excessos humanos se deveriam, sintonicamente, integrar.

    Racionalidade sim. Mas tanto quanto baste! Temperada de cordis!…e assim sendo, sem excessos. Tanto quanto baste!

  25. Val, tinha saudades de não ter tempo para ti nem para os amigos que te seguem por todo o mundo, como vou arrancando um bocado (de tempo) aqui e ali, lá vai bernarda, espero que te aguentes.

    De modo nenhum é minha intenção aniquilar-te o esquema das ideias.

    Agora que o brinquedo está quase todo desmanchado podemos entender melhor as peças essenciais sem as quais és um ser de pouca valia.

    No despacho do correio afirmas que, e bem…

    “em ti, cada vez mais à solta, há tirano cansado da democracia. Essa de acabar com o “votante mediano” é aspiração antiga dos oligarcas e revolucionários, os tais extremistas que te deu para louvar”.

    Para quem estudou direito, talvez teologia, filo ou psico, especulações minhas como é óbvio, bateste no vinte, parabéns.

    Sem demagogia vais permitir que te considere também um pré-robot em fase de embrião, ao teu nível de desejos só uma inteligência supra-humana fruto do determinismo e da super vontade e nunca do acaso material estaria ao teu nível, Nietzsche estava noutra, tu nunca.

    De política ou de ciência da dita cuja, és um cepo. Tenho para te emprestar “pargas de votante mediano”, demonstração de “merdas” do teu querido líder. As asneiras já nem as registo, observei que nem os cães lhe ladram.

    Espero que tenhas espaço intelectual para engolir dois ranhosos e imbecis de peso; Manuel o vendido e Marocas o “brutos”.

    Embrulha estes ranhosos de peso que o teu líder, por puro oportunismo já evacuou.

    Considero-te uma excelente pessoa, sem ti o mundo seria muito mais triste.

    __

  26. Palherico,
    Nem o homem nem a sociedade no seu conjunto poderá alguma vez moldar o mundo a seu belo prazer, e muito menos guiado por valores abstratos, nem por pensamentos racionais e ainda muito menos guiado por pensamentos abstratos.
    E procurar saber como será o mundo amanhã, mesmo pelo pensamento do mais expert oráculo do racionalismo, é uma tentativa sempre vâ e sempre sujeita ao maior falhanço. Porque é preciso perceber que o “mundo amanhã” nunca será diferente do “mundo hoje”. O mundo daqui a cinquenta anos pode ser totalmente diferente do mundo de hoje, para melhor ou para pior, mas nunca será diferente do mundo que era um ano antes. No mundo nada muda ou se extingue de repente exactamente na medida que nenhuma racionalidade ou pensamento sistémico utópico o pode mudar e se o obrigam a mudar pela força, o mundo como conjunto da humanidade, mais tarde ou mais cedo volta ao ponto onde se deu a rotura.
    A evolução cultural-politico-social da humanidade é uma linha contínua onde não é possível uma descontinuidade. Os imbricados laços que tecem a sociedade: tradição, cultura, religiosidade, ciência, conhecimento, princípios de racionalidade e irracionalidade, ambiente envolvente, natureza, necessidades existenciais, etc., são impossíveis de corte abrupto e rompimento total num ponto do estádio civilizacional existente para implantar e iniciar, atrás ou à frente, um novo ponto inicial duma nova linha e caminho civilizacional inventado pelo pensamento racional ou religioso.
    Nenhum determinismo, racional ou irracional, comanda o mundo, mas o determinismo contínuo e permanente de vida e morte necessário à existência humana, vai determinando o que o mundo é em cada momento.
    Platão dizia que as coisas são o que são porque isso era o melhor para as coisas. A evolução do mundo como humanidade também é o melhor possível em cada estádio de desenvolvimento.

  27. L*, estás a entender o conceito de poder de forma ideológica ou literária. Não existe nenhum excesso de poder em parte alguma do universo, muito menos na dimensão humana. O que pode haver é bom ou mau uso do poder, sela lá ele qual for e em que quantidade. É a Parábola dos Talentos, por exemplo, onde o penalizado é aquele que não multiplica o seu poder. Mas também as parábolas da sementeira, da semente, do crescimento, da fertilidade. Quem não dá bom uso aos seus dons está a desperdiçar o seu poder, está, quiçá, a pecar contra o Espírito Santo. Jesus recusa os poderes menores de Satã para ir ao encontro dos poderes maiores do Pai. É isto e só isto e mesmo isto.

    Repara: admitindo que és crente no Deus Todo-Poderoso da tradição judaico-cristã, acima do qual não há entidade mais poderosa, e cujo poder é ilimitado ao ponto de fazer milagres e ter criado o mundo do nada, achas que esse poder todo reunido numa só divindade é maligno?… T.P.C. para meditação.
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    armando ramalho, concordo muito contigo: da política ou da ciência da dita cuja, sou um cepo. É por isso que tens de ser misericordioso com aqueles que não alcançam os píncaros onde te saracoteias qual passaroco, cagando descontraído para os seres cá em baixo. É assim, cada um no seu lugar e cumprindo o seu destino.
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    Adolfo Contreiras, estou curioso: onde é que Platão diz tal coisa? Se souberes, agradecia a fonte.

  28. Val,

    É tamanha a tua astúcia que se parece com fidúcia. Não prevê o meu caro um pouco mais para este seu fiel admirador? Claro que estou expectante de muita coisa, mas nunca de uma graça divina.

  29. Val,

    Ora bem, o meu fraco confiar no racionalismo puro e duro, pode ser extraído facilmente, desta frase do amigo Trótski: “O Homem tornar-se-á incomensuravelmente mais forte, mais sábio e mais subtil; o seu corpo tornar-se-á mais harmónico, os seus movimentos mais rítmicos, a sua voz mais musical. As formas de vida tornar-se-ão dinamicamente dramáticas. O tipo do homem médio elevar-se-á à altura de um Aristóteles, de um Goethe, de um Marx. E acima desta cordilheira elevar-se-ão novos picos”. Ora, isto, é loucura de rasgar dinheiro (como diria o outro)! Sejamos moderados, menos optimistas, mais realistas, e com muita fé no futuro (não, não é paradoxal).

  30. armando ramalho, fazes mal. As graças divinas estão por todo o lado.
    __

    Palberico, mas ser realista é ser optimista. Ora, repara: o facto de existires não implica uma afirmação absoluta do ser sobre o nada? Tudo que o que tu és, e o que podes ser, é a razão mesma do optimismo – porque nada o torna necessário. Nenhum de nós faz falta, e, no entanto, aqui nos descobrimos. Ter consciência do mistério inerente à realidade é ser lúcido; e ninguém lúcido se torna pessimista, tem muito mais o que fazer.

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