Para quem é

Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. A atmosfera pública está em carne viva: qualquer notícia provoca apoios arrebatados ou acusações iradas. A execução orçamental no 1.º trimestre de 2011 não fugiu a este clima. Segundo os valores agora divulgados, as receitas cresceram 15% e as despesas caíram cerca de 4%, o que nos dá um quadro mais favorável do que é necessário para reduzir em 5600 milhões de euros o défice público para 4,5% do PIB em fins de 2011. Não é de espantar que os economistas ligados a partidos da oposição afirmem não acreditar no apurado superavit de 432 milhões, entre Janeiro e Março deste ano, acusando reiteradamente o Governo de instrumentalizar os números da execução orçamental e de ocultar outros buracos, escondidos em parte incerta.

Editorial do DN, Abril de 2011

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Um fenómeno curioso, talvez universalmente inevitável, consistiu – e continua a consistir – na observação da troca directa de argumentário quando se passa da oposição para o Governo. Por exemplo, assim que o PSD venceu as eleições, saiu um cartaz da JSD a apelar à união de todos os portugueses no contributo para a nova governação. Esta mesma JSD, até às eleições de 2011, afiançava que parte desses portugueses era corrupta e outra parte servia esses corruptos por vício moral ou defeito intelectual. Por exemplo, aqueles que alimentaram a indústria da calúnia na comunicação social, e que instigaram ao ódio com furioso entusiasmo, passaram a queixar-se da imprensa por esta ousar não estar de acordo com o estupendo Executivo de Passos aqui ou ali. Agora, e é apenas outro exemplo entre tantos, os mesmos que ficavam deprimidos e desvairados com alguma notícia positiva para Portugal durante a governação de Sócrates, de imediato a carimbando como mentira mesmo que viesse de entidades europeias, aparecem agora à janela com os melhores fatos de domingo a dar lições de patriotismo ortodoxo.

Se este segundo trimestre ainda fosse de recessão, as razões que PSD e CDS agitariam eram as da cassete: Sócrates, a bancarrota, o Tribunal Constitucional, o azar da situação europeia. Como aconteceu uma retoma na Europa, uma travagem judicial na austeridade celerada e o factor Galp, o laranjal congratula-se, solta demagogias para cima dos empresários portugueses e falácias para dentro das vítimas da sua incompetência e irresponsabilidade.

Mas, sim, para quem é, é o suficiente.

5 thoughts on “Para quem é”

  1. os fatos de domingo que, não sendo a preceito, estão encardidos fazem bullying. contribuem, e muito, para o bullying generalizado à inteligência. estou pelas pontas dos cabelos, camandro!

  2. Custa muito a engolir, mas temos de viver e conviver com o que há de melhor e de pior no homem. E, claro, nos políticos. Até à demagogia, até à indecência, até ao crime. Apraz-me ver que a História deixa na sarjeta o pior do Homem. Isso é motivo de esperança e razão de ser melhor. Passos, Portas, Cavaco e toda a matilha que no presente conduz o país são o esterco da História. Agora e para sempre, porque os seus actos jamais serão apagados.

  3. Eu queria protestar contra esta quadrilha que nos governa. muito.
    mas toda a minha energia é sugada para lado nenhum, sempre que me lembro do Seguro.

    Não vou cometer o mesmo erro que as pessoas decentes do PSD (tb deve haver…) quando votaram no Passos.

    Miguel

  4. Não seria mais prudente, que em vez da girândola de foguetes que os pacóvios dirigentes do laranjal, lançaram ao ar, em comemoração do pífio crescimento de 1,1%,esperassem pelos dados dos próximos trimestres?
    Tal como uma andorinha não faz a Primavera, um só trimestre de crescimento também não acaba com a recessão. Seria mais sensato aguardar pela confirmação futura. Mas sensatez é o que não há naquelas cabeças. Aguardemos…

    aguardemos

  5. Pois investimentos camarários para tapar buracos terá sido o crescimento anunciado depois das eleições lá aparecerá mais um esqueleto no armário.

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