Os que falam não sabem, os que sabem não falam

Falar do juiz Carlos Alexandre é constatar como a Justiça portuguesa bateu no fundo. Para além de ser um magistrado que alimenta o culto de personalidade na indústria da calúnia, e isto a troco de um serviço de informações politizado e/ou criminoso, estamos também perante um agente da Justiça que se permite violar os seus deveres de isenção, que difama o próprio sistema de que faz parte, e ainda ameaça com chantagens os seus pares. Tudo isto feio às escâncaras, publicamente, como se fosse essa uma condição e uma garantia da sua impunidade. Donde, ver a comunicação social a tratar a sua pessoa implica, inevitavelmente, descobrir qual a relação desses órgãos, jornalistas, comentadores e editorialistas com o Estado de direito democrático. Trata-se de uma dimensão onde, como se lê em Apocalipse 3:16, “os mornos serão vomitados”. Quem se cala é ainda pior do que aqueles que usam Carlos Alexandre para atacarem a cidade.

Ontem ficámos a saber que alguém no tribunal onde o “super juiz” interrogou Azeredo Lopes estava a relatar os acontecimentos em directo para os jornalistas. À hora de almoço já havia resumos e comentários à disposição e ainda faltava mais uma tarde de espectáculo. Claro, poderá ter sido o próprio Azeredo ou o seu advogado a fazê-lo, como gostam de sugerir os pulhas sempre que este tema vem à baila. Talvez eles tenham estado a responder de telemóvel na mão e a teclar desenfreadamente. Mas, nesse caso, será que iriam pintar o retrato que o Expresso, o Observador e a Cofina de imediato espalharam para açularem a matilha com deturpações, escárnio e mentiras? É pensar nisso.

Do que se conhece na rua sobre o desaparecimento e recuperação do material de guerra armazenado em Tancos, é possível admitir que Azeredo Lopes foi aquele que teve até agora a tarefa mais heróica. Tendo sido uma das testemunhas da conversa entre Marcelo e o director da PJM, onde este obteve uma qualquer espécie de promessa do Presidente da República para exercer a sua influência sobre Joana Marques Vidal (versão desmentida por Belém), e conhecedor a posteriori da encenação da recuperação do material (versão do ex-ministro), Azeredo igualmente sabia que os militares adjuntos à Presidência e ao Governo iriam ser parte, passiva ou activa, da pressão castrense que Luís Vieira estava a exercer sobre o poder político. Só que toda a minha gente na hierarquia do Estado, sem excepção, sabia do mesmo. É claro que Marcelo e Costa, por maioria de razão, estavam contínua e preocupadamente ao corrente dos mais pequenos detalhes a que pudessem meter os garfos, mal de nós se não o fizeram. Este episódio da História de Portugal é tudo menos cómico. Na verdade, a usarmos uma categoria dramatúrgica, a indicada seria a tragédia. Porque a situação nasce de uma ameaça à honra de quem se sente responsável por um corpo humilhado pelos poderes civis e cada vez menos relevante no seu estatuto – quiçá, um pilar do regime profundamente apodrecido, como o próprio caso de Tancos sugere. O nome com que a Judiciária carimbou a sua investigação a respeito – Operação Húbris – não tem nada de metafórico.

Para investigar o que se passou em Tancos, como é necessário a bem da República, é preciso sacrificar Azeredo Lopes, achincalhá-lo de forma bronca e maníaca no editorialismo e no comentariado, e usá-lo para a chicana partidária e para as campanhas negras? É pensar nisso. E, de caminho, tomar por sinceras as palavras com que o primeiro-ministro sempre se referiu ao seu papel na crise. O papel de quem não tinha poder sobre os militares que prepararam uma armadilha ao Governo onde era ministro da Defesa, em relação directa com outras violações graves das suas responsabilidades enquanto oficiais de alta patente das Forças Armadas Portuguesas. O papel de quem, inesperadamente, teve de proteger todas as partes envolvidas pois a situação foi levada para o grau máximo de conflito institucional subterrâneo num contexto de selvagem exploração mediática e política.

Quem disser que faria melhor do que Azeredo Lopes nas circunstâncias, ou não sabe do que fala ou não fala do que sabe.

12 thoughts on “Os que falam não sabem, os que sabem não falam”

  1. Ontem ficámos a saber que alguém no tribunal onde o “super juiz” interrogou Azeredo Lopes estava a relatar os acontecimentos em directo para os jornalistas.

    Em todos os anteriores interrogatórios de Carlos Alexandre, tem havido sempre “fontes do processo” que informam os jornalistas daquilo que se passou dentro de portas. É impressionante como neste país não pode haver um interrogatório em privado.

    Provavelmente o próprio juiz instala num local esconso da sala um microfone com ligação direta ao exterior…

  2. “… É claro que Marcelo e Costa, por maioria de razão, estavam contínua e detalhadamente ao corrente dos mais pequenos detalhes a que pudessem meter os garfos, mal de nós se não o fizeram. …”

    Certamente que sabiam da trafulhice, apesar de tudo a hierarquia ainda funciona.
    Alguém tinha que ser sacrificado. É assim que as coisas funcionam, a corrente quebra-se no elo mais fraco. No caso, Azeredo Lopes. Mas deixem lá que ele será compensado.
    Eu é que gostava de saber se as armas que apareceram são mesmo as que foram subtraídas ou se houve material que foi efectivamente desviado. E que destino teriam (tiveram) essas armas desaparecidas? Tal operação de entrega de armas teve origem ou aprovação a que nível? Político, militar, ou de zé metralhas?
    O juiz Carlos Alexandre até pode concluir o seu processo, mas nunca conseguirá deslindar o caso. A solidão dos magistrados é imensa. O risco que a sociedade corre é que os juízes tenderão a tornarem-se meros funcionários públicos.
    Quanto ao microfone não é de estranhar quando o estado de direito está subvertido. Mas não apontem o dedo ao juiz!

  3. Esse juiz de caca comporta-se como um militante golpista da oposição. Sonha com uma futura carreira política à Moro, hoje ministro de um governo de extrema direita.

  4. Comentário acima de “Eu mesmo” :

    “ O risco que a sociedade corre é que os juízes tenderão a tornarem-se meros funcionários públicos “

    Num dos governos de Cavaco Silva, foi nomeado Director-Geral dos Impostos, um fulano que do antecedente tinha sido administrador de um hospital, de onde tinha sido subtraída uma criança recém-nascida . Na altura, um caso inédito. Hoje, infelizmente, mais recorrente .

    Como se entendia na época que um gestor dava para tudo, embora não fosse área que o mesmo, de todo, dominasse, lá foi nomeado .

    Publicou uma Circular, em que se dizia que o programa informático de IRS interpretava o Direito, e que, como tal, não era lícito que qualquer funcionário decidisse uma reclamação de um contribuinte, contra o dito programa informático.

    Ora sucede que, como é óbvio, nenhum programa informático, por mais aperfeiçoado que seja, consegue abranger todas as situações . É necessário ir fazendo preenchimento de situações não contempladas, eventuais lacunas, actualizações, eventualmente correções, em suma, é um work in progress .

    Sucedeu comigo, ter detectado pelo menos uma situação em que o contribuinte tinha razão, mas o programa informático não aceitava a correção.
    Em última análise, o problema tinha resolução: far-se-ia a correção mediante uma nova liquidação de IRS, feita de forma manual .
    Mas prontos, já estávamos em pleno período de ditadura do computador e entendia-se que não havia outra forma que não a informática.

    Ora eu na altura, pensei para os meus botões :

    “ O programa informático de liquidação do IRS interpreta o Direito “ … e ri-me da idioticice .
    Pois que coisa maravilhosa, e estranha, seria um programa de computador, interpretar o Direito . Destarte, os juizes seriam, num futuro não muito longínquo, substituídos por máquinas …

    E pronto . É como diz, eventualmente, limitar-se-ão a supervisionar um técnico, ou um escrivão, que deitará um olho ao computador :^)

  5. Lendo o post e os comentários acima, é forçoso concluir que também foi o malandro do juiz que colocou no site do governo o depoimento do Dr. António Costa nesse processo.

  6. ò jotapêtê! o costa foi eleito, publica no site do governo e dá a cara. o calex foi ungido pelo cej e publica no correio da manhã ilegalmente sob anonimato. percebeste ou queres um boneco?

  7. “À hora de almoço já havia resumos e comentários à disposição e ainda faltava mais uma tarde de espectáculo. Claro, poderá ter sido o próprio Azeredo ou o seu advogado a fazê-lo, como gostam de sugerir os pulhas sempre que este tema vem à baila.” Porque é que, tendo o Dr. Costa interesse em divulgar publicamente as suas respostas em juízo, não há o Dr. Azeredo de o ter também? As respostas dadas pelos réus visam ser exculpatórias, pelo que (como é evidente) é do seu interesse que elas sejam conhecidas de todos (em particular, aqueles réus “borderline”, absolutamente convictos do poder persuasivo “daquilo que acreditam ser a sua verdade”, como aquele réu em que todos estamos a pensar). Podemos, claro, fazer-nos de sonsos.

  8. JPT, estás a excluir informação da tua arenga. O Dr. Azeredo tem tanto interesse na exposição das suas respostas ao super juiz que teve de emitir um comunicado ao princípio da noite a desmentir as atoardas que as versões à maneira editadas pelos jornalistas engajados lançaram durante o dia. O mesmo contexto para a decisão de Costa.

    E depois os sonsos são os outros. Creio que isso de seres mais um maluquinho socrático, apesar de não ter cura conhecida, justifica que se tenha compaixão para o teu sofrimento.

  9. “a TVI teve acesso ao despacho emitido por Carlos Alexandre em que pede ao “Ministério Público para se pronunciar sobre esta divulgação”, tendo em consideração que os autos do processo se encontram sob segredo de justiça.”
    https://tvi24.iol.pt/sociedade/05-02-2020/tancos-juiz-carlos-alexandre-quer-que-ministerio-publico-se-pronuncie-sobre-divulgacao-das-respostas-do-primeiro-ministro

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