Os caluniadores protegem o povo das agruras da complexidade

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E a verdade é que em Portugal nunca se avançou por uma legislação que previna, por exemplo, o enriquecimento ilícito, porque esse é um dos problemas do regime que temos, nenhum partido quer essa figura, a verdade é esta. Cada vez que há uma iniciativa legislativa ela morre no Parlamento porque já vai inquinada. Aquilo que seria uma outra iniciativa muito prática e muito boa, que era o obrigar a reverter todo o rendimento e todo o património acumulado em caso de dúvida, também não existe e devia ser legislado. Eu digo isto porque acontece que em relação a estes casos, grandes casos, de decisões económicas que aconteceram em Portugal, nos anos que estão em apreço, que estão em análise, que estão ao mesmo tempo referidos neste processo que envolve o ex-primeiro-ministro, eu soube de casos de advogados, e não estou aqui a influenciar ou a querer dizer que a classe é toda assim, não, mas sei que houve casos pontuais de advogados que fizeram pareceres jurídicos para determinadas obras como parcerias público-privadas e que em pouco tempo no espaço de meses ganharam milhões e milhões de euros. E não foram só advogados, foram economistas, foram professores universitários. A própria academia participou nesta deriva muito grande que houve na tentativa de se fazer obra; isto é, de fazer acontecer para alguém ganhar, porque não há outra maneira de dizer isto. Soube de casos de economistas que fizeram estudos de tráfego das estradas, das novas auto-estradas, provando por A + B nos seus estudos econométricos que iriam dar azo a que passariam por lá centenas de milhares de automóveis todos os dias, e tudo isso se provou, grande parte disso se provou que era mentira. E agora nós perguntamos uns aos outros como cidadãos, "Mas nós pagámos, e estamos a pagar, isso tudo e ninguém investiga?". E eu tenho que remeter para este período da História em que eu concluo o seguinte: houve um primeiro-ministro que se sentiu à-vontade para decidir todos estes grandes dossiers, e foi um período histórico em que houve uma escolha de um Procurador-Geral da República, que mais tarde, pelo menos na altura não foi percebido mas mais tarde percebeu-se, que era amigo pessoal, e houve uma influência numa eleição ou numa escolha de um presidente de um Supremo Tribunal de Justiça, que mais tarde apareceu na situação também em que aparece muito chegado a um ex-primeiro-ministro. E isto foi de tal forma gravoso no nosso regime, não tenhamos medo das palavras, que quando se descobre que há uma tentativa de controle da comunicação social, que como sabemos chegou a atingir a TVI, ou por meios indirectos houve até uma tentativa por interpostos empresários, nomeadamente um deles, um senhor que era dono da ONGOING, que quis também controlar o Grupo Impresa, o que nós vimos foi que havia indícios de tudo isso, e houve um período histórico em que tudo isso não contou para nada e foi arquivado como se nada se tivesse passado. E, portanto, quando alguém sente, em determinado período, que pode actuar em vários campos para decidir dossiers a seu bel-prazer, em conjunto com outros decisores políticos, pensando que é inquestionável, é óbvio que aparecem exageros que levaram a uma deriva económica, que mais do que as questões de corrupção... Porque a mim o que me preocupa neste debate nem é se o senhor A ou B recebeu mais 5 ou mais 10 milhões. A minha maior preocupação está acima disso, é muito mais vasta do que isso. É que houve uma deriva económica do País no sentido de uma América-Latina, no sentido de uma falta de escrutínio e do mau funcionamento das instituições. E agora que o poder judicial está a tentar descobrir o que se passou, aparece alguém a dizer que não, não se passou nada, não há nada... Eu, não acredito que não haja nada. Continuo a dizer: como jornalista, tenho o direito à interpretação, e continuo a achar o que é legítimo supor face aos sinais que nos chegam.

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Em primeiro lugar, uma questão que é pessoal: eu não desejo nenhuma vingança, eu não procuro nenhuma vingança nem acho que devamos estar à procura de ver alguém preso. Acho que isto não deve ser um bom princípio de conversa. No entanto, eu quero ser esclarecido como cidadão. [...] Dito isto, não me move nenhum desejo de que alguém seja preso mas pergunto-me por que é que estranhamente José Sócrates aparece sozinho neste processo. Estranhamente! Porque o dossier da PT tinha um ministro na altura que era o das Obras Públicas Transportes e Comunicações, o engenheiro Mário Lino, o dossier das parcerias público-privadas que está em investigação tinha um secretário de Estado que era Paulo Campos, houve um outro dossier que teve a ver com a venda, com a atribuição de concessões de barragens por mais 15 a 25 anos às grandes empresas, nomeadamente EDP e outras, que foi feita por apenas um terço do valor que os bancos de investimento internacionais diziam que era, 700 milhões de euros, quando os bancos diziam que aquelas concessões valiam pelo menos 2 100 milhões. E eu continuo a perguntar porque é que aparece um homem isolado neste processo e não há uma investigação, de fundo, que junte as pontas de todos estes dossiers e nos faça ver claro sobre este período da nossa História, que foi um período negro. Faço uma pergunta muito concreta: se nós olharmos para o que foi o chumbo da OPA sobre a Portugal Telecom, e era Belmiro de Azevedo e o filho Paulo de Azevedo que estavam a fazer este movimento, se ela não tivesse chumbado, será que a Portugal Telecom teria continuado a pôr o seu dinheiro de caixa, e era muito, no Banco Espírito Santo? É uma pergunta que eu não vejo respondida por ninguém. É que se calhar não tinha continuado, com todas as consequências menos boas que vinham para um grupo bancário, e um grupo económico construído sobre um banco, que também precisava desse financiamento. Portanto, todas estas questões precisam de ser esclarecidas. Eu estranho que haja um homem só num processo destes. Acho que de facto estas investigações deviam ser todas aprofundadas, deviam chamar outros protagonistas. Esta questão, volto a sublinhá-lo, não estou a dizer que isto é para haver um julgamento e uma vingança sobre um período histórico e seus protagonistas, não é nada disso, até porque há casos mais recentes que também merecem ser investigados, mas nós portugueses temos o direito de saber isso. E é isso que me move, é perceber qual foi a lógica destes negócios que tinham muita coisa menos o negócio "per si" e por um valor liberal de criação de riqueza.

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Há outra coisa que eu oiço sempre, sempre, os defensores, os advogados dizerem em relação a processos que envolvem figuras públicas e se tornam muito mediáticos, que é "Ah, este é um processo muito complexo, de uma extrema complexidade, e não se consegue estabelecer relação causa-efeito". Pois eu tenho, enfim, chegado a conclusões na minha vida profissional, em relação a determinados dossiers e a determinados assuntos, de tecnicidade económico-financeira barra jurídica, que são deliberadamente construídos assim, com muita complexidade, para o comum dos cidadãos não perceber. E eu gosto de falar para o comum dos cidadãos.

José Gomes Ferreira – Especial Operação Marquês na SIC-N

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Estas declarações de um dos mais poderosos profissionais da indústria da calúnia provam, se mais provas fossem precisas, que não existe imprensa em Portugal. Isto é, não existe nenhum órgão de comunicação social (do meu conhecimento) que tenha como critérios supremos da sua missão jornalística a independência e a coragem da investigação. Porque se existisse, no dia seguinte, ou no dia seguinte ao dia seguinte, teríamos alguém desse órgão sonhado a entrevistar o sr. Ferreira, ou a relatar que o tentou entrevistar e que ele recusou.

É difícil de perceber o que seja mais grave, se a visão de completa violação do Estado de direito e falência das instituições da República que as insinuações e afirmações acima transcritas consubstanciam, se a indiferença com que são acolhidas pelos pares mediáticos, pelo sistema partidário, pela opinião pública e pelas próprias autoridades judiciais. Eis o que foi difundido oficialmente por uma das figuras com maior projecção no Grupo Impresa:

– Que há um “período histórico”, balizado pela entrada e saída de Sócrates no cargo de primeiro-ministro, onde o Governo e o Estado foram usados criminosamente ao serviço de interesses particulares bem identificados.

– Que nesse mesmo “período histórico”, e para efeitos de cumplicidade com essa prática criminosa, a Justiça foi corrompida nas figuras dos corruptos Procurador-Geral da República e Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ao tempo, os quais protegeram Sócrates e outros criminosos impedindo que fossem investigados judicialmente.

– Que são os partidos com representação parlamentar, todos, quem alimenta a corrupção ao não quererem evitar o “enriquecimento ilícito”.

Este Gomes Ferreira não prima pela sofisticação intelectual, usando as suas competências mentais e morais para assumir plenamente o papel de agitador populista ao serviço de uma agenda política transparente. Nesse papel, tem tido sucesso, pois é projectado pelo aparato da máquina SIC. À SIC, obviamente, interessa ter este caluniador profissional a ser visto como mero palhaço, pois tal permite que a sua actividade seja mantida pelo tempo em que for considerado útil. O mesmo se passou com o Crespo, tal qual. Mas por que razão a comunidade aceita ser intoxicada com este sórdido exercício de baixa política? Muitas serão as respostas, incluindo-se nelas o interesse da esquerda em que o PS seja atacado por todos os lados num vale tudo sem fim.

Existindo imprensa em Portugal, JGF seria entrevistado por um jornalista amante do jornalismo – o qual estaria muito interessado em levar muito a sério todo e qualquer contributo de JGF para o combate à corrupção. Eis algumas das perguntas inevitáveis:

– Por que razão considera ser o “enriquecimento ilícito” um dos problemas do regime? Sabe que já existe legislação para punir diferentes formas de enriquecimento ilícito? Se sabe, admite inverter o ónus da prova no combate à corrupção? E se o admite, devemos parar aí ou estender esse critério a outros tipos de criminalidade? Quais são as suas fontes acerca da dimensão do “enriquecimento ilícito” em Portugal? Quais são os restantes principais problemas do regime que tenham a mesma ou mais importância ou nenhum outro se equipara com este em gravidade? Acha que os partidos são cúmplices da corrupção? Se sim, como o descobriu? Se não, admite que possa estar enganado ou com dificuldades cognitivas no trato desta questão?

– Antes de Sócrates ter sido nomeado primeiro-ministro não se pediam pareceres para justificar investimentos públicos? Estudou esses pareceres anteriores avaliando o seu preço e o grau de acerto ou desacerto face ao futuro? Estudou os pareceres encomendados pelos Governos de Sócrates? Se os estudou, quais são as falhas que apresentam que possam ser consideradas “mentiras”? Uma previsão de tráfego é considerada uma mentira a partir de quantos automóveis por dia? Mas se são mentiras, e se foram encomendados para apresentarem mentiras que serviriam como justificação e cobertura para negócios criminosos, quem são esses responsáveis? Por que razão a SIC, ou o Expresso, ou a Visão, ou todos estes órgãos à vez ou à molhada, não expõem essas mentiras, esses responsáveis da advocacia e da academia e esses crimes já do conhecimento de JGF? Acaso a Visão, o Expresso e a SIC estarão a proteger os corruptos que JGF enfrenta e denuncia heroicamente?

– Como é que Sócrates conseguiu manipular sozinho tantos negócios, com tanta gente envolvida, com tantos níveis de decisão, sem que tenham ficado registos das suas manipulações criminosas? Dada a constante vigia, incluindo policial, dos seus actos públicos e privados, como relacionar tanto crime potencial e sistémico, e tão espectacularmente ganancioso, com a falta de provas depois de anos e anos de investigação judicial? Como é que Sócrates conseguiu corromper a Justiça ao mais alto nível sem que a própria Justiça, nem que fosse através dos seus sindicatos, o tenha denunciado? JGF acha que Sócrates também tinha na mão o SMMP, a ASJP e o Conselho da Magistratura? Ou acha que o Conselho da Magistratura, mais a ASJP, mais o SMMP, mais o Presidente da República ao tempo, mais o Parlamento ao tempo e agora foram e são cúmplices dos crimes de Sócrates e por isso é que eles não são investigados como JFG gostaria que fossem?

A basicidade do estilo desta infeliz figura adequa-se na perfeição ao público de broncos e fanáticos a quem se dirige. Aquilo que está a fazer, porém e ironicamente, corresponde a uma intenção complexa: ser um factor de permanente desgaste dos alvos que a oligarquia portuguesa selecciona. Esta complexidade pede, para continuar operativa, que se cultive o simplismo demagógico e populista dos profissionais da indústria da calúnia. O “comum dos cidadãos” para quem fala é um borrego que abdica de pensar e já só deseja poder continuar mais um dia de cabeça baixa a pastar. Serviço prestado à Nação pelo militante número 1 do PSD.

8 thoughts on “Os caluniadores protegem o povo das agruras da complexidade”

  1. Creio que, é dar muita guita ao “papagaio” e, ao voar muito alto a queda será
    maior … e, nem dará para ser reciclado, vai directamente para o lixo !!!

  2. JGF ao serviço de Francisco P. Balsemão/PSD sem mais comentários pois é gastar cera com fraco defunto, a talhe de foice, os últimos quatro anos foram de total seriedade e de bons administradores da coisa Pública, pois JGF não encontra qualquer mácula.

  3. nem sabes a quantidade de borregos com que tenho de lidar. estou metida em um antro de basicidade intelectual. tomando-o como amostra, é expectável que a caricatura que desenhas nem sequer esteja ao alcance do primeiro degrau. miserável realidade que faz parelha com o mato a arder. :-(

  4. Mário Crespo onde anda?
    Foi o agitador de plantão que, revisitado dá no mesmo :
    – homem de mão de um balsemão decrépito e esgotado.

    Este tal de jgf mais a clarinha, os mais amados da sic o que quer dizer claramente doença conducente a estado terminal dos restos da coisa dita informação .

    Não se aguente telejornais nem prime times de prop/agit.
    Muita fox crime, muita rt, muita odisseia, muita 24 Kitchen, muita tve alguma em francês e, sobretudo, muito Big Picture porque o apresentador é Big Profissional.

    Isto está tudo a arder.
    Só restarão cinzas e secura de inteligência e verdade para gente normal e de bem.

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