Oratória, alquimia da comunidade

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É, acima de tudo, natural que nove meses de pandemia pareçam uma eternidade para os Portugueses.
E se é verdade que estamos todos no mesmo barco e todos sofremos, há uns que sofrem na 1ª classe, outros na 2ª, outros na 3ª, outros nos porões. Tudo a lembrar que quem mais sofre mais deverá ser apoiado.
Quer isto dizer que vamos renunciar a resistir mais uns meses?
Quer isto dizer que vamos agora baixar os braços, ou porque a pandemia é imprevisível, ou porque vem o pior quando se esperava o menos mau, ou porque aqueles que com ela lidam, nos quais me conto na primeira linha, não correspondem ao que deles se espera e espera-se legitimamente muito?
Não. Não vamos renunciar, nem baixar os braços.
Vamos fazer o que sempre fizemos em quase nove séculos de História. Aguentar pestes, combater guerras, perder e recuperar independências. Não desistindo e tendo de refazer vidas, às vezes, a milhares de quilómetros de distância, partindo e chegando, sem nada, uma mão à frente, outra atrás.
Foi assim que, no passado, nós Portugueses, superámos as piores horas.
Mais unidos do que divididos. Esperando para além de todos os desesperos. Confiando para além de todas as descrenças. Fazendo o futuro a partir de um presente incerto, inseguro, para tantos quase impossível.
Mas nunca desistindo de o fazer!
Nunca desistimos de Portugal!

Mensagem do Presidente da República ao País sobre a renovação do segundo estado de emergência – Palácio de Belém, 20 de novembro de 2020

🇵🇹

Marcelo Rebelo de Sousa não ficou conhecido, nas décadas anteriores à sua entrada no Palácio de Belém, como líder político carismático nem como tribuno tremendo, inspirador ou inesquecível. A sua notoriedade, fama e marca vieram do cruzamento entre a sua influência como jurisconsulto da oligarquia e a sua influência como estrela mediática, esta em crescendo a reforçar e superar aquela. Um estrelato que começou pela chicana no jornalismo político, mesmo que fosse à moda de Cascais e com patine de um outro Marcello. Chicana que nunca abandonou, como pudemos assistir no discurso em que decapitou Constança Urbano de Sousa e na entrega do 10 de Junho a um caluniador profissional que alimenta o populismo.

Em 2017, jurou que o seu mandato ficaria inapelavelmente ligado aos incêndios desse ano e à forma como o Governo iria reagir aos mesmos nos anos seguintes. Foi uma solene jura de sangue, o dos mortos que reclamou como património político. Três anos depois, nas vésperas de entrarmos em campanha eleitoral para as presidenciais em Janeiro próximo, onde está sequer uma vaga memória desses acidentes trágicos de então nos cálculos e discursos para este contexto actual? Em lado algum, a pandemia veio mostrar como Marcelo foi não só precipitado, e não só imprudente, e não só ridículo, outrossim antipatriota ao ter explorado acontecimentos cuja causalidade era impossível de evitar e cujas consequências (especialmente, no número de mortos em Pedrógão) eram impossíveis de prever. Marcelo não só quis oferecer à direita o prémio de ferir e ameaçar o Governo com a dissolução da Assembleia da República como intencionalmente usou os fogos para se promover como Rex católico, fantasia a que não resiste por razões que Freud explicaria entre duas baforadas num charuto (atenção: alguns charutos são apenas isso, charutos).

Agora, com quatro mil mortos directos por causa de um vírus (ainda nem sequer entrámos no Inverno), as contas públicas e a economia a somar prejuízos crescentes, e uma potencial avalanche de disfunções sistémicas na saúde dos portugueses para os próximos anos, que pensará de si próprio e de nós? Como correlacionar os desastres passados aos presentes à luz da retórica e do oportunismo já gastos? Em Fevereiro deste ano, a dias de se registar o primeiro caso de infecção pelo coronavírus em território nacional, o nosso beijoqueiro-mor ainda se deixava abraçar pela multidão. Em Março, desapareceu do mapa e barricou-se em casa própria. Em Abril, garantia que esse era o mês crucial para sairmos do confinamento e regressarmos a uma qualquer normalidade. Em Setembro, revelou que esperava cem casos por dia ao chegarmos a esse mês. Ou seja, apesar de receber as melhores e mais exaustivas informações e de reunir amiúde com os variegados especialistas de topo, o homem é humano. E, como os restantes humanos em toda a parte do Mundo, anda a apanhar bonés e a ver passar o comboio interminável das vítimas da pandemia. O que imaginou como dez anos de “Show e Tour Marcelo”, antes de escrever as memórias e fazer as pazes com o Criador, está a revelar-se uma Via Crucis onde a sua passada vai ficando mais vacilante sob o peso da realidade.

Na passagem citada acima, com que terminou a sua comunicação a um país outra vez no mesmo ano à beira de um ataque de pânico, o que ouvimos é um solilóquio. Fica como confissão do seu diálogo consigo próprio, pedindo desculpas e procurando forças no passado mitologizado dos “nove séculos de História” onde, para nosso abandono e confusão, não há ninguém, afinal. Não há nomes, ditos e feitos, corpos, terra ou mar, sequer datas – isto é, não há histórias. Há tão-só abstracções despachadas a correr e com imaginário de pechisbeque, pensadas e escritas com uma mão à frente, outra atrás a fazer figas.

“Nunca desistimos de Portugal”, como clímax narrativo e depois de ter enfiado esse Portugal numa casca de noz à deriva no oceano tempestuoso, é uma convocação tecnicamente depressiva. Para além de nos aprisionar na contemplação impotente do que já passou sem ter deixado exemplo ou lição, nada nos dá de útil para o presente. Nem alimento, nem instrumento, nem mapa, nem senha. Marcelo não tinha sapiência nem ânimo para nos entregar através das suas palavras. Apenas nos trouxe medo e desespero envergonhados, os quais quis partilhar pois é isso que se faz na era das “redes sociais”.

Pelo que daqui lhe faço um apelo: mesmo que se saiba sem vocação para general, inclusive por essa mesmíssima razão, gaste uns trocos do orçamento da Presidência com alguém que tenha umas luzes de oratória. Nove séculos de História também nos deram alguns talentos nessa arte, consta, pelo que deve contratar para lhe escrever os discursos quem tenha as leituras e o verbo capaz de nos aquecer o coração, desembaciar a inteligência e soltar a coragem.

7 thoughts on “Oratória, alquimia da comunidade”

  1. parece um discurso do scolari, só faltou mandar hastear bandeiras nas varandas ou rezar à caravaggia. ainda havemos de levar com um directo da vacinação do presidente mais o esforço espiritual que fez para o descobrimento da mesma. com tanto populista rasca perfilado no próximo boletim de voto já voto no impensável pcp.

  2. Marcelo não enganou ninguém. Todos os que nele votaram , sabiam que ele era um produto genuíno do período salazarista. Estagiou uns anos no antigo Expresso onde o seu espirito se abriu um pouco, mas muito pouco à modernidade e á democracia, mas não o suficiente para perder os tiques da adolescência e juventude.

  3. “Estagiou uns anos no antigo Expresso onde o seu espirito se abriu um pouco…”

    yah… espírito de porteira com mestrado em intriga.
    foi corrido do expresso por noticiar que o amigo do patrão apalpava o cu às mulheres dos outros amigos.

  4. Marcelo é, tal e qual como a grande maioria de nós, alguém que anda a apanhar papeis, em plena divagação e sem perspectivas para o futuro próximo. Embora e ao contrário de nós, simples mortais, com muito mais informação e conselhos técnicos. Mas se a maior parte dos especialistas na matéria andam, também eles, um bocado à deriva, ao sabor dos conhecimentos mais recentes sobre este vírus, o qual, sendo recente, é também muito misterioso . Dir-se-ia que temos andado todos,, do simples cidadão, aos políticos e também à ciência, aos papéis nestes últimos meses. Só que ao Presidente cabe, nestes momentos, apontar caminhos de esperança e resistência, não a fazer dissertações sobre o “grandioso” passado do País.
    Não deixa no entanto de ser curioso que pseudo especialistas sem carta sobre o assunto, seja o que mais tem abundado neste país nos últimos meses.

  5. Marcelo Rebelo de Sousa (vejam lá, dizem os acólitos marcelistas, é o primeiro presidente que tratamos pelo nome próprio!… que aproximação ao povo!… que!… que!…) é um Presidente da República frustrado, pois o que ele queria verdadeiramente ser – e nunca conseguiu – era primeiro-ministro.

  6. ” …só faltou explicar porque o PS apoia Marcelo nas próximas eleições.”

    nah…nah… tu é que deves explicar onde e quando o ps declarou apoio à candidatura do marcelo. só se foi um apoio secreto como aquela cena do psd chega ao governo dos açores.

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