Onde estavas no 25 de Abril de 1986?

Eu estava nas instalações da rádio Nova Antena, algures perto de Loures. Era o tempo da pirataria, um tempo de entusiasmo e aventuras hertznianas. O meu saudoso amigo Hermenegildo Gomes tinha sido convidado para fazer um programa nesse dia, ele que era realizador da RDP. Veio a fazer vários ao longo dos anos e a dar apoio à estação de sortidas formas, incluindo cursos de formação. Se bem o conheço, fez tudo de borla — era de outra geração… Já agora, o Gil teve um papel no 25 de Abril que talvez nunca venha a ser conhecido. Falava disso impante de orgulho, mas só em raras ocasiões de desvario alcoólico, e sem revelar o segredo.

Gravado em mim, dessa noite na Nova Antena, ficou o lamento de alguém que tinha ido fazer um périplo pela região à procura de festejos do 25 de Abril. De volta, disse num misto de estupor e contida raiva: “Não há nada… já ninguém festeja o 25 de Abril…”

O 25 de Abril não inspira artistas, intelectuais, políticos, académicos. O salazarismo também não. A Guerra Colonial, idem. As convulsões da Primeira República, idem. O fim da Monarquia, aspas. A diáspora portuguesa, aspas. Portugal não se conhece, vivemos sem memória. E talvez uma das causas esteja na suavidade da Revolução, o apagamento instantâneo do passado. 40 anos de uma execranda governação que ficaram sem culpados, sem sequer um acto solene de acusação. Começava assim o ciclo que repetia um dos aspectos operativos do regime precedente: a opacidade. Só que desta vez, supremo artifício, uma opacidade democrática onde o inimigo já não tinha rosto. A coberto desse véu, Portugal transformou-se num pardieiro de corruptos que, afinal, vieram substituir os anteriores ou apenas obrigaram à mudança das regras para os restantes. Como se diz noutros lugares, o Diabo é mais poderoso quando nos convence da sua inexistência.

Enquanto não acertarmos contas com o passado, cobrando factos e nomes, continuaremos com o futuro mal-parado.

29 thoughts on “Onde estavas no 25 de Abril de 1986?”

  1. “O 25 de Abril não inspira artistas, intelectuais, políticos, académicos. O salazarismo também não. A guerra colonial, idem. As convulsões da Primeira República, idem. O fim da monarquia, aspas. A diáspora portuguesa, aspas. Portugal não se conhece, vivemos sem memória. E talvez uma das causas esteja na suavidade da Revolução”

    Valupi:

    Por outro lado, a guerra colonial, e o retorno de África, foram processos muito violentos, e não são falados, justamente por terem sido muito violentos.

    Como dizia alguém: a guerra só acabará quando morrer o último soldado.

  2. Luís

    E para mim, na minha estupidez natural, esse silêncio sobre a Guerra Colonial e o retorno de África são causa de contínuo, e acrescido, sofrimento. A experiência fica a latejar na sua força bruta, não se transforma em sentido que realize. Porque não se carpem as dores até ao fim, não se esvazia o absurdo.

    Filipe

    Compreendo-te. Se há temas fracturantes em Portugal, este estará em primeiro lugar. Por isso começaste por reagir com nervoso muito miudinho. Não me parece é que o futuro para onde tu queres olhar diga respeito ao presente se não estiver relacionado com o passado. São muitos, e há muito tempo, aqueles que nos avisam para procurarmos o futuro no passado. Quem sabe, um dia concordarás com eles.

  3. Valupi:

    Concordo contigo, grosso modo. O problema é que quem transporta certo tipo de fantasmas dentro de sí, não os pode evocar, sob pena de os ver tomar conta de sí próprio.

    Filipe:

    Ganda maluco!

    Um abraço para os dois.

  4. Valupi,

    Depois dum pranto de comprimento razoável a falares de coisas desinspiradoras e de maltas das mesmas laias e situações de opacidade re-editadas e outras pintelhices menos graves, penduras este remate de originalidade muito duvidosa:
    “Enquanto não acertarmos contas com o passado, cobrando factos e nomes, continuaremos com o futuro mal-parado”.

    Pois vamos a isso, homem. Conheces alguem que esteja disposto a fazer parte da comissão e dum banquito ou dois desejosos de financiarem esse patriótico trabalho de pormos a História no devido lugar e preparar a cama para o futuro? Mas tem cuidado, não vá a indiscreta comissão ser naturalmente obrigada a concluir que o Abril de 74 foi resultado duma decisão a alto nivel das Maçonarias Anglo-Marrano-Jesuíticas, e que o de 2006 continua de excelente saúde e bem lançado graças à aplicação dos mesmos vetustos princípios de cega-multidões.

    Sabes que mais? Esta rapaziada que aqui veio espicaçar-te e ao Venâncio para sacudirem pós comemorativos melhor faria dedicar-se à indústria do carapau de viveiro. Alem dos cobres que dá, diz-se, o produto adapta-se bem ao palato do gato consumidor moderno.

    Tio Tadeu

  5. É a conhecida tese do José Gil rediviva. No famoso “Portugal, Hoje: o Medo de Existir”, já se “explicava” que o nosso maior problema era a falta de ajustes de contas com a ditadura. Fica por esclarecer, e de que maneira!, a vitalidade, a energia assombrosa dos nossos vizinhos ibéricos, que saíram de uma ditadura, de uma guerra civil e de pesadelos mil sem sequer desfrutarem do bálsamo de uma tranquila revolução como a nossa.
    E quanto à falta de reflexos culturais da nossa História mais ou menos recente, não me parece que a escuridão seja assim tão assutadora. Mas isso seria discussão para outras circunstâncias.

  6. Se me permitem uma “humilde” opinião, meter o nariz sem convite, aqui fica:
    para não variar, não concordo, em absoluto, com nada do que aqui fica dito, que no post quer por parte dos comentadores.
    O que faltou, no 25 de Abril, não foi (ou não é) “um ajuste de contas” com o passado e a ditadura, mas uma ruptura, que nunca aconteceu, apesar da enorme pressão popular… Essa revolução, a da ruptura com o passado, está por fazer e é aí, apenas aí, que residem as causas profundas das nossas desgraças e seu agravamento continuado.
    Todas as sociedades sobrevivem às “feridas” do passado… se “o presente” não continuar a agravá-las.
    Concretizemos: Essa gentalha que se pôs em bicos de pés, para se apoderar do poder, após o 25 de Abril, deteve-se à porta dos Tribunais, que continuaram a funcionar da mesma maneira anacrónica, cometendo todo o tipo de crimes e provocando escândalos, até hoje. Ficou tudo na mesma num “poder” de primordial importância para qualquer sociedade. Agora, para prolongar essa situação absurda e perversa, argumenta-se com as independências respectivas, nas situações mais abjectas e absurdas. A democracia não interessa nada…
    Aliás, para além dos conspiradores (dos que conspiraram nessa época e continuam a conspirar hoje, contra a democracia e a civilização), seria interessante (do ponto de vista académico) analisar as razões, profundas; que fizeram com que essa gente (que fez a “revolução”) se detivesse à porta dos Tribunais… Seria bom até para aprendermos, com esse erro crasso e absurdo.
    O mesmo aconteceu com o funcionamento dos organismos estatais, onde tudo ficou na mesma, também.
    Os torcionários da Pide ficaram impunes e são agora referenciados em “crimes de colarinho branco”, altos complõs, vigarices absurdas swancionadas pelos próprios tribunais; ou então ligados à alta criminalidade, por onde é só escolher…
    Claro que, para conviver com tanta perfídia, só mesmo políticos abjectos como os que temos tido e continuamos a ter…
    Resultado disto tudo?
    A situação que se vive, onde as pessoas não têm motivos para festejar o 25 de Abril porque, no essencial, tudo ficou na mesma
    É por isso que eu defendo a valoração da abstenção. É que “pode-se enganar muita gente, por algum tempo; pode-se enganar algumas pessoas por muito tempo; mas não é possível enganar TODOS por todo o tempo”. Aqui, já existem mais de 35% dos eleitores que não se deixam enganar. Pois que prevaleçam as regras da democracia: um homem um voto (ou não voto), mas sempre uma opinião a ter em conta e a respeitar…
    Acabava-se a bandalheira e, ao poder, deixava de ser possível invocar legitimidade que não tem… para continuar a servir mafiosos, bandidos, que só querem nos destruir…

  7. Valupi, esse mirabolante admirador do social-fascismo soviético, mostra sempre aquilo que é, de cada vez que escreve, uma alforreca da vida dos blogues portugueses.

  8. Creio, que mais importante que as comemorações, é o espírito do 25 de Abril, ou mesmo da 1ª República.

    Estive a fazer um pequeno estudo sobre a instituições associativas criadas durante a 1ªRepública, e, fiquei deveras surpreso com a vitalidade que ainda têm nos dias de hoje.

    Dou particular realce ao movimento mutualista; Não vou referir ao óbvio sucesso no Montepio Geral, isto no sector bancário (Se vocês têm conta num banco de crápulas, mudem-na, existe alternativa!), mas sim, ao movimento associativo de prestação de serviços sociais.

    Ao contactar com uma instituição do Porto, fiquei verdadeiramente espantado com a sua dimensão (ver dados aqui: http://www.uniaomutualidadesportuguesas.pt/anuario_ump/regi/01-A.htm), ou seja, esta instituição associativa, tem mais pessoas associadas do que o Bloco de Esquerda tem de militantes. Não deixa de ser surpreendente a vitalidade destas verdadeiras alternativas ao capitalismo e à sua lógica de lucro.

  9. Este Adaufe daqui a pouco está a falar-nos dos Rotários, da columbófila, dos samaritanos, sociedade protectora dos animais etc. etc. Mas que país de anjinhos, mon
    Dieu! Por que é que esta malta não se dedica de corpo e alma ao restauro de livros deslombados ou caravelas carcomidas e deixa a politica da mão.

  10. «Produtos de Beleza», de que caralho falas?!

    Eu estava-me a referir a uma associação mutualista com 65.000 sócios (só!), ou seja, são 65.000 pessoas que estão associadas para resolver problemas importantes, como a saúde, por exemplo.

    É esta consciência de cidadania, que vem da 1ª República e que se renovou no 25 de Abril.

  11. E que problemas de saúde foram resolvidos por essas 65.000 almas da primeira República ressuscitadas pelo 25 de Abril, Adaufe? Vais ver que não resolveram nenhum. Cada vez andamos mais doentes…

  12. [bicionario.blogspot.com]
    25 de Abril

    O dia em que Portugal se libertou da ditadura, pôde respirar em liberdade e começou a libertar-se da eterna pobreza. A revolução que nos libertou duma ideologia paternalista de pais-nossos e fadinhos. Uma explosão de alegria no cinzento da História.

    ou

    O dia em que Portugal interrompeu uma década de crescimento económico e se lançou no turbilhão duma revolução que destruiu a economia nacional. A época que nos deixou reféns duma cultura de esquerda. Uma bebedeira de loucos que minou o país.

  13. Adaufe: as associações de socorros mútuos (ou mútuas) representaram a resposta do movimento operário à falta de serviços de saúde e cuidados sociais prestados pelo Estado (eu sei, no caso que referiste era o do financiamento – é o mesmo, os bancos só emprestam a quem tem dinheiro).
    Quanto aos cuidados de saúde, muitas das associações de que falaste nasceram quase paralelamente ao sindicalismo (do anarco-sindicalismo, para ser mais preciso).
    Depois da Segunda Guerra Mundial os trabalhadores conseguiram fazer vingar em alguns países a ideia de um serviço de saúde universal e gratuito, o que levou ao declínio dessas associações de “auto-assistência”.
    No caso português, o 25 de Abril de 1974 permitiu o germinar de um Serviço Nacional de Saúde, consagrado na Constituição de 1976 como “universal e gratuito” intergeracional e pago com as contribuições de trabalhadores e empresas. Como é sabido, uma das “modernizações” efectuadas ao texto constitucional foi a de retirarem o termo “gratuito”…
    O resto já se sabe, desinvestimento, má organização deliberada e entrada dos privados no novo “negócio”.
    O que é que isto tem a ver com o 25 de Abril?
    32 anos após 1974 o melhor é pensarmos reactivar as velhas associações de socorros mútuos, é que por este andar os doentes passarão todos a “clientes”. E como um cliente só tem direito ao que consegue pagar…

  14. Sobre o tema da entrada.
    O Valupi tem razão. Nestes anos poucos foram os filmes e obras (à excepção da literatura) que nos colocaram perante aquilo que fomos, vamos varrendo a coisa para debaixo do tapete à espera que não tenhamos de o desviar nalguma mudança.
    Esse tratamento amnésico chegou ao ponto da reciclagem e até à condecoração dos verdugos dos Pides – quase só as suas vítimas protestaram, para os outros o preço a pagar pela normalidade.
    Ao contrário dos E.U.A. não temos obras cinematográficas que nos façam exorcizar a Guerra Colonial – bem vistas as coisas o “Platoon” e quejandos não serviram de nada a parte substancial da opinião pública americana, mas isso é outra conversa…
    Nas escolas mantemos a ideia dos gajos porreiros em África e passamos um pano pela escravatura (“A Missão” não é definitivamente um filme português)o colonialismo bem “puxadinho” acaba em “encontro de culturas” (encontrão?).
    O “toca e foge” que podemos ver em algumas séries e filmes mais modernos é pouco, muito pouco.

    Na real, o drama de muitos ex-combatentes, abandonados à sua sorte. Eles andam por aí, com os fantasmas do que fomos a atormentálos. Alvos das tentativas demagógicas e manipulatórias da Direita, e do esquecimento criminosamente laxista da “Esquerda” governamental – sobretudo no que toca a cuidados de saúde específicos.

  15. O Adaufe desistiu de falar das irmandades mutuais de salvação da sociedade capitalista, com ênfase na Saúde. Quem lhe anda no encalço da pernoca é o Júlio, o Causas Perdidas e, claro, o meu irmão Produtos de Beleza.

  16. Gabar o MG como alternativa aos bancos “de crápulas” é coisa de alguém que por certo não é cliente do dito Montepio…

  17. Caro Causas Perdidas,

    Também eu considero que deveria de ser o estado a prestar serviços de saúde dignos e gratuitos

    Contudo, presumo que você não é um utente dos serviços públicos de saúde, aliás, bastaria estar um pouco atento, e questionar-se, para saber a razão porque é que as urgências hospitalares estão sempre à pinha para umas simples consultas. Não me parece que as pessoas sejam masoquistas para passar horas na sala de espera de uma urgência, e que o façam por gosto..

    Uma parte significativa da população portuguesa é pobre (pobre mesmo!), não tendo recursos para recorrer aos serviços de saúde privados.

    O exemplo que eu dei da associação mutualista do Porto é verdadeiramente notável, ou seja, é uma associação de pessoas muito humildes, que conseguem prestar serviços de saúde decentes aos seus sócios, aliás, está previsto para breve a construção, no Porto, o primeiro hospital mutualista do país. Ah, convem salientar, que a direcção da dita associação trabalha à borla…pois é!

    Queria eu dizer com isto: é este o espírito de Abril (pelo menos o meu…e o de muita gente, pois claro!), em que os cidadãos têm um papel activo na resolução dos seus problemas de uma forma solidária, em que a cidadania não se esgota na deposição do voto numa urna.

    P.S.- Eu sou cliente do Montepio, e não tenho razão de queixa. Durmo muito mais tranquilo, sabendo que não estou a dar dinheiro a banqueiros e accionistas. É uma questão de coerência…

  18. Desta feita foram mortos 3 soldados italianos e 1 romeno. Isto depois de Prodi ter anunciado a retirada das tropas italianas do Iraque.
    Gostaria de saber o que todos aqueles que exigem a retirada das tropas e que tentam justificar os atentados têm a dizer em face de mais esta atrocidade.
    Cá para mim é a demonstração de que estes terroristas não merecem dó nem piedade. É a demonstração de que o Ocidente não deve vergar perante a barbárie.
    É também demonstrativo da estupidez de partidos como o BE ou o PCP, e de todos aqueles que a eles se associam, que se manifestaram há bem pouco tempo contra a intervenção no Iraque invocando a resistência iraquiana dos últimos 3 anos; resistência essa que mata indiscriminadamente militares estrangeiros e civis iraquianos.

  19. Majed, matar soldados, sejam eles italianos, americanos, portugueses ou raio que os parta, não é terrorismo, é um acto de guerra. Vê lá se percebes, senão os amaricanos são os maiores terroristas do mundo… o ca`té nem é mentira

  20. Adaufe:
    Você eescreveu: “Contudo, presumo que você não é um utente dos serviços públicos de saúde, aliás, bastaria estar um pouco atento, e questionar-se, para saber a razão porque é que as urgências hospitalares estão sempre à pinha para umas simples consultas.” Comento: Não percebeu o sentido da minha intervenção, leia o texto e verificará que não pretendi contradizê-lo no aspecto da saúde.

    Limitei-me a considerar que o sistema de saúde tem sido mal gerido e que há uma intenção deliberada de fazer definhar a ideia original do SNS.
    Uma das razões que justificam o entupimento das urgências é o facto de não existirem a montante formas de atendimento, i.e, centros de saúde a funcionar. Pior: há cada vez mais pessoas que, como eu, que pertencemos àquilo que já se denomina os “sem-médico”. Temos que esperar pelo “que há”, ou temos de pagar (os que podem) do nosso bolso um Direito Humano que a Constituição me garante e que o(s) governo(s) me rouba(m).
    Na Amadora, uma familiar idosa, que padece de uma doença que deve ser acompanhada com cuidado, é atendida por um médico/a diferente cada vez que se desloca ao centro de saúde. Óbvio que se a sua reforma fosse maior teria “direito” a outros cuidados.
    É contra este tipo de situações, em defesa do SNS prometido pelo 25 de Abril, que me manifesto.
    A talhe de foice: quantas novas universidades de medicina foram fundadas no últimos 32 anos?
    Esquecimento? E as médias disparatadas de acesso ao curso? Há falta de médicos, sim, mas não é azar.

  21. Llevo siguiendo el blog desde hace tiempo y no me habia animado aun a comentar. Sin duda, lo que dice el articulo es totalmente cierto, aunque algunas personas pueden opinar diferente.

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