Onde é que estás no 25 de Abril de 2019?

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Este passarão, o típico cavalheiro de indústria do regime que acumula com uma pose dandy desbocada, reagiu de forma pulsional à exibição da natureza política de Moro. Adorou. O Twitter é useiro e vezeiro nessa armadilha, o apelo à estocada letal a partir do cu-sentadismo e do tele-desvairo. E no caso havia um ex-juiz justiceiro, agora ministro de um presidente fã de ditadores e ditaduras, que tratava Sócrates como o ilustre António Nogueira Leite acha que deve ser tratado: como criminoso. Estava sozinho nesse supino gozo do auto-de-fé? Não, absolutamente ao contrário. Milhares, ou milhões, de companheiros de linchamento pensaram e sentiram exactamente o mesmo. Só que não avançaram em direcção ao boi, ficaram nas tábuas. Eis que o bravíssimo Nogueira Leite se viu sozinho no meio da arena, ouvindo da assistência “Ó Tóino, sai daí olha que te aleijas! Não sejas maluco, Tóino!” E ele – que não é maluco nenhum, apenas gosta de passar por tal para ter ainda menos chatices pelo mesmo dinheiro que vê cair na conta todos os anos – assim fez. Embora a resmungar, claro, porque nestes números das bravatas contra Sócrates o estilo faz o pulha.

O episódio é anedótico mas relevante, folclórico mas representativo, pícaro mas simbólico. Acima vemos como a primeira mensagem não fica desautorizada pelas aparentes rectificações. O que ANL está a lamentar não é a atitude de Moro, muito menos o seu entusiasmo twitteiro pela violência espectacular de se ver um ministro da Justiça de um país estrangeiro a desprezar os fundamentos mais básicos da Constituição portuguesa. Ele apenas se arrepende de ter sido imprevidente, indiscreto, na exposição do seu ódio. Um ódio que, como explica à prova de estúpidos, nasce de olhar para Sócrates e nele ver um extraordinário, formidável, adversário político. Imagina-o tão poderoso que, naturalmente, se borra todo de medo de cada vez que o vê “sair da toca” (leia-se: de cada vez que Sócrates desperte no Sr. Leite a consciência da decadência cívica e política que ocupa o bestunto do Sr. Leite).

Por coincidência, ocorreu em cima da celebração do 25 de Abril um duelo, da exclusiva responsabilidade do operacional judicial e ministro de Bolsonaro, que põe em confronto o essencial do essencial desse dia inicial inteiro e limpo de 1974. De um lado, alguém que sempre promoveu o Estado de direito enquanto responsável político e governamental, continuando a fazê-lo enquanto arguido e acusado num processo judicial. Do outro lado, alguém que como juiz poderá ter violado o Estado de direito (é uma questão sujeita a interpretações, mas em aberto) e que como agente da Justiça foi decisivo numas eleições presidenciais que acabaram por lhe abrir uma carreira política como governante. Estas duas figuras, dois gigantes na paisagem política e mediática dos seus respectivos países, estão em campos opostos que jamais se irão reconciliar. Ambos são a tela para incontáveis e contraditórias projecções ideológicas, morais e circunstanciais inerentes aos diferentes protagonismos que assumiram e assumem em diferentes contextos. Mas no que diz respeito à liberdade, e aos direitos e garantias que nela se fundamentam, não há meio termo, não há espaço para a mais pequena dúvida. Quem chama criminoso a um inocente é ele próprio criminoso.

O Estado de direito democrático é a mais preciosa conquista de Abril. Porque é a mais fundamental, é aquela que permite não só a pluralidade partidária e a imprensa livre como todo e qualquer instrumento que nos defende dos abusos de poder, os quais podem tanto vir de um tiranete como de um vizinho ou familiar. Quem apresentar o ideal do Estado de direito democrático como ideologia matriz da República acaba inevitavelmente por ser atacado por um dos lados de um qualquer conflito político onde a tentação do abuso de poder está latente ou em marcha. No PCP, por exemplo, vêem o Estado de direito democrático como um artifício do imperialismo para derrubar o “socialismo” abrilista. Não são fãs, longe disso. E na direita decadente, e restantes vítimas das deturpações da indústria e cultura da calúnia também na esquerda e no centrão, o Estado de direito democrático deveria ser suspenso para se conseguir castigar Sócrates, Vara e mais uns quantos em ordem a satisfazer os desejos circenses e sanguinolentos da turbamulta. Tentar explicar a um fanático, fanático por imbecilidade ou oportunismo (mas em muitos casos acumulando), que não se pode servir à canalhice e à liberdade ao mesmo tempo pode ser ingrato e desgastante. Porém, contudo, todavia, queridos amigos, se há coisa para que o 25 de Abril foi feito é essa.

16 thoughts on “Onde é que estás no 25 de Abril de 2019?”

  1. o zézito é um criminoso, um criminoso a defender estados de direito é anedótico . quem não respeita direitos de autor , e numa altura destas, para além do crime é também alucinado. e não mete medo, mete dó, como qualquer doente, mete dó.

  2. o desespero é muito, já viram que o processo marquês vai acabar mal para a direita e se cavam muito ainda sobra para o sindicato que patrocinou a novela. na volta o rapaz estava só a preencher, em voz alta, o formulário para asilo político na democracia do moro.

  3. Este gajo que assina yo é doente. O outro palhaço mencionado no post também o é conquanto mais sofisticado e com outros pergaminhos. Quanto ao resto, não deixa de ser interessante todos ou quase todos os responsáveis políticos deste governo terem ficado mudos quedos e calados. Talvez que, quando lhes calhar a eles em rifa um moro ou um alexandre, então, quiçá, talvez bufem. Shame on you, partido socialista, shame on you, António Costa.

  4. Talvez sem querer, nas comemorações do 25 de Abril, Moro veio a Portugal mostrar a cara daqueles com quem se pode contar para defender a democracia e dos crápulas que lhe dão pontapés, ou que não estão nem aí se esta fôr para o galheiro. Dos primeiros, na praça, só vi, até agora, José Sócrates e Manuel Carvalho (se bem que este ralha a um fulano de fora contra aquilo que permite todos os dias a um assalariado do seu jornal).

  5. Este passarão porque aproveitou o que disse Moro para twitar de acordo com o dito e segundo a sua cagadura de cu gordo de sebastião come tudo e que, precisamente, por isso esta sua soltura de boca twiteira não é mais que o registo do cagufo que tal gente começa a sentir por ainda não controlar o poder.
    Medo de cagados incontrolável porque sentem que, estando metidos de carne e alma até aos pelos no mundo corrupto do cavaquismo, caso o poder continue fora de controlo não só têm mais dificuldade em vender enganos acusando outros como bodes expiatórios como temem acagassados que por qualquer reviravolta inesperada e incontrolável, de repente, todas as “historietas” falsas que montaram saltem da caixa de pandora marca Alex&Teix e Pàf deixando à vista directa os verdadeiros corruptos perante o povão mantido distraído.
    O maior problema é o facto do PC e Bloco estarem igualmente incluídos na pouca vergonha do pacto negro e continuarem a fazer coro em pacto.
    Mas pode acontecer um dia saltar a tampa ao PS (o que deveria ter feito logo e limpar a imagem do partido como bem pretendia Mário Soares) e dar-se o confronto total e final acabando com as falinhas mansas e acusações mal disfarçadas.
    Com esta direita extra actual mais tarde ou mais cedo isso vai ter de acontecer.

  6. Há em Portugal um grupo político que tenta replicar a instrumentalização da justiça para conquistar o poder, verificada no Brasil. Dar palco a Moro faz parte da sua estratégia. Daqui a umês está aí outra vez. https://www.cascais.pt/noticia/sergio-moro-na-6a-edicao-das-conferencias-do-estoril
    Nenhum democrata poderá dormir sossegado enquanto as barbaridades judiciais cometidas contra Lula não forem devidadamente expostas e corrigidas. A impunidade dos que as praticaram encorajará outros a importar o método.

  7. XXXX
    26 DE ABRIL DE 2019 ÀS 18:04
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    Vá lá, pá, vais ver que só dói uma vez.

    Nota. Valulupi, não mostras a fotografia ao Lucas?

    Duarte Lima: o pobre que enriqueceu enquanto político

    https://www.publico.pt/2019/04/26/politica/noticia/psd-avanca-processo-expulsao-duarte-lima-1870583?utm_source=notifications&utm_medium=web&utm_campaign=1870583

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  8. 26 DE ABRIL DE 2019 ÀS 18:04
    26 DE ABRIL DE 2019 ÀS 20:46

    Eheheh!

    Nota, 4U. Lá nos teus pesadelos, Valulupi, tu deves ouvir é a voz do major Álvaro Salvação Barreto.

  9. Recordando a euforia duma democracia traida e olhando para a criminalidade impune dos políticos de todos os quadrantes

  10. Há 45 anos tinha entrado para a Faculdade,era um adolescente de 17 anos. Hoje quase na terceira idade, maltratado por socialistas oportunistas (nomeadamente directores da ARS de Santarem) que ilegalmente me impediram de ir para a USF de Coruche, queprotejeram criminosos como Alves Dias detido pela GNR de Alpiarca,por exercício ilegal da Medicina Dentaria, sem esterilizadora,sem recipientes para agulhas usadas, nem recipientes para sujos de sangue, a usar ilegalmente um aparelho de Raio X, colocando em risco a Vida das pessoas que o procuravam e às quais nao passava recibo, vejo que a Democracia ,tal como na Grécia antiga era so para uma minoria previlegiada, sendo os restantes escravos do Regime. Dixit

  11. poizé, ò luis. no tempo da outra senhora é que era bom. os socialistas comiam nos cornos e quem estivesse inscrito na união nacional exercia medicina onde lhe apetecesse. não faltavam esterilizadoras, agulhas, recipientes para sujos de sangue na antónio maria cardoso, o silva pais fazia as radiografias e reencaminhava os doentes para o tarrafal. tudo coisas que o 25 de abril não fez e te permitem escrever asneiras.

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