Ode à alegria, 1ª resolução de 2020

Bárbara Reis, que parece muito mais útil ao jornalismo como opinadora do que como directora do Público, abre o ano com a invocação da alegria num texto optimista: Um livro para os Demagogos & Cia. Lda.

Estranhamente, apenas indica André Ventura como exemplo de político demagogo – fazendo dele um bode expiatório e uma máscara para a sua cobardia, ou sonsice, ao não dar mais exemplos de políticos demagogos. E, tristemente, omite qualquer nome ligado à comunicação social. Como se não existissem demagogos que ganham a vida, apenas e só, a produzir caudalosa demagogia sob a capa de “jornalismo”, entre outros registos que exploram a ignorância, iliteracia, distracção e preconceitos dos consumidores desses produtos mediáticos. Como se não existissem colegas da Bárbara a autorizarem notícias demagógicas, a escreverem editoriais demagógicos e a serem estrelas institucionalizadas da demagogia e da calúnia profissionais. É assim que o alegado optimismo da autora se revela, no final da leitura, um encardido pessimismo.

Todavia, a intenção recomenda-se. Precisamos de optimismo pois ele é fonte de inteligência. Nesse sentido, avanço com a resolução de, ao longo de 2020, (re)publicar a cada dia 1 do mês este artigo: The problem with solving problems

Trata-se de um conjunto de investigações, lideradas pelo psicólogo Daniel Gilbert, onde se constata como a resolução de alguns problemas nos pode levar a achar que eles estão a aumentar em quantidade ou gravidade. Exactamente a matéria referida no artigo de Bárbara Reis a propósito de um livro de Hans Rosling, onde este relata os seus estudos sobre a deformação das percepções acerca dos problemas mundiais.

As problemáticas inerentes têm vasta aplicação na política e no jornalismo, passando pela esfera individual e privada. Os vieses cognitivos são um dos mais cruciais territórios de defesa da democracia e da liberdade. Basta atentar como os caluniadores profissionais e os pulhas dependem da manutenção das audiências (potencialmente, do eleitorado) num estado de estupidez para continuarem a ter palco e negócio.

3 thoughts on “Ode à alegria, 1ª resolução de 2020”

  1. Bom ano. Infelizmente o problema não é de analise ou diagnóstico por parte da autora, radica mais fundo na questão sociológica relacionada com a representação social e aceitação por parte de um status quo de valores que lhe valem a persona , cotação social e profissional. Esse teu diagnóstico faz parte do problema, porque limita e segrega outras interpretações ou leituras, até parece que não desmascaras mais para que a tua máscara seja aceite. O livro a ler, sem dispensa de muitos outros, é na minha modesta opinião o clássico; “A representação do eu na vida quotidiana” Ervin Goffman
    Always Rockin’

  2. Joe Strummer, não li esse livro do Goffman (nem qualquer outro dele, autor que ignorava até esta tua referência). Se quiseres desenvolver a temática, ou problemáticas, com que acenas no teu comentário, terás (pelo menos) um leitor muito interessado.

    Que tenhas o melhor 2020 de sempre.

  3. não se percebe nada do que diz o Joe , mas para não estigmatizá-lo à la Goffman , vou fingir que percebi.

    ( é super famoso , o Goffman , sobretudo na área da exclusão social e criminologia)

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