Ócio e negócio

Uma boa negociação é aquela em que ambas as partes saem igualmente insatisfeitas

Anónimo

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Daniel Deusdado (ninguém conhece) escreveu sobre Daniel Oliveira (toda a gente conhece) para lhe dar tautau – Tal como no PEC IV, Bloco chama por Passos todos os dias A tese é a de que o BE continua a ser um partido sem enraizamento que depende da visibilidade na comunicação social, e que o Daniel Oliveira fez pressão pública sobre o BE para o chumbo do Orçamento de Estado dado continuar ligado de coração à dinâmica viciosamente táctica das opções políticas dos bloquistas. De facto, não custa a validar esta ideia, basta tropeçar nesse loquaz e nervoso comentador para ficarmos encharcados em verrina contra o PS, especialmente contra Costa. Estamos perante um general que rivaliza com Louçã na genialidade com que vêem no horizonte o triunfo da esquerda pura e verdadeira, a esquerda grande, sobre os bandalhos e vendilhões dos socialistas – a cassete sectária que de 2015 a 2019 foi posta na gaveta com os benefícios históricos que se conhece e desfruta. É esperar mais um bocadinho, dizem-nos estes imbatíveis treinadores de bancada. Se não for ainda nesta temporada que o PS passará a aprovar Orçamentos de Estado do BE, será numa outra já em produção.

Deusdado gasta apenas um parágrafo com Oliveira, o resto do texto é preenchido quase todo com aquele olhar lúcido e equidistante onde se denúncia a farsa a que a democracia fica reduzida quando o bem comum e o interesse nacional não passam de poisos turísticos que os partidos locais não frequentam, apenas se lembram deles quando agitam postais ilustrados no Parlamento dessas belezas sublimes da política e da vida em comunidade. Só estraga a coisa quando fala de Sócrates. Não porque a sua opinião seja negativa, nada de nada contra, mas porque não tem opinião. Escrever “É difícil esquecer 2011 e quem ajudou a chumbar o famoso PEC IV. Sócrates era péssimo? Sim. Mas talvez não fosse inamovível. Já o que sucedeu a seguir estava à vista: uma “troika hard core” e a maioria absoluta PSD/CDS. Do ponto de vista da esquerda, foi o pior resultado possível.” implica nada justificar a respeito de Sócrates, o que acaba por invalidar não só o argumento em causa como toda a sua honestidade intelectual. Este tipo de espasmos contra Sócrates, em que os comentadores sentem necessidade de assinalar a sua aversão visceral à pessoa, quando vêm da direita sabemos que nascem do ódio; e quando vêm da esquerda, também podendo vir do ódio (como em Ana Gomes, para dar um notável exemplo), o mais frequente é virem da burrice. O caso deste amigo, infelizmente, borrando a boa pintura.

E quanto ao voto contra do BE na votação do OE para 2021? Foi a decisão mais fácil, aquela que deu a maior satisfação, como explica o Daniel Oliveira e vai passar as próximas semanas a desenvolver. Para recusar ficar na fotografia ao lado do PS qualquer razão servia. Literalmente qualquer uma, ao ponto de ser indiferente em que número a bola fosse parar, se era preto ou vermelho. Porque o que conta para os cálculos do BE é o embrulho retórico e o efeito que ele provoca nos palcos mediáticos onde for exibido. Claro, o Daniel não lhe chama a “decisão mais fácil”, diz antes que foi a resposta da coragem à “chantagem” – como se a responsabilidade de um partido com a incumbência de governar, mesmo em minoria e face aos desafios do presente crítico e do futuro tragicamente incerto, fosse igual à do partido que se recusa a tal e ainda faz birras. A sua demagogia é, pois, de boicote e ganhos maximalistas, exigindo ao PS que trate o BE como um igual eleitoral já que precisa dos seus votos. Um tudo ou nada que o enche de adrenalina enquanto tecla furioso e se vai a eles na televisão e nas redes sociais. Também isto são os vícios do ócio a foderem as virtudes do negócio.

4 thoughts on “Ócio e negócio”

  1. Isto de ter o Louçã na SIC a dar missa todas as semanas e fazer parte do Conselho de Estado ( parece que há outras mordomias pelo meio) dá muita pica. Pelos vistos só o Bloco é que é inteligente , de esquerda e defensor do povo e que traça linhas vermelhas ao orçamento.. Comem muito queijo . Razão tinha o outro quando lhes chamou de “esquerda caviar”.

  2. O Daniel Oliveira começou há muito a sua campanha pelo chumbo deste orçamento, não foi apenas recentemente. Estava-se ainda muito longe do orçamento e já o assalariado da Impresa mandara a fatwa pelos seus canais merdiáticos: o próximo orçamento não pode passar com a abstenção do Bloco. A Catarineta fez-lhe a vontade, a ele e à Impresa, mas pelos vistos não vai ser suficiente a adesão do Bloco à Frente da Direita para chumbar o orçamento. É uma nódoa inútil, mesmo para fins tácticos, e será mais uma nódoa indelével no cadastro do Bloco. Para mostrar que existem, estão sempre dispostos a dar um tiro no pé. Não aprenderam nada em 2011, quando perderam metade dos deputados depois de derrubarem o governo do PS. Aprenderão quando tiverem menos votos do que o PCP e até do que o Chega?

  3. Num fim de tarde, em pleno auge do PREC estava como assistente numa reunião de uma Comissão de Trabalhadores(CT) próximo da Praça do Marquês de Pombal em Lisboa quando uma delegação do PRP chegou para solicitar a presença da dita CT na Manif. que ia realizar no dia seguinte até ao COPCON para tratar da tomada do poder com o Otelo, informaram ameaçando quem não colaborasse.
    No mesmo instante passava uma grande Manif. do PS pela Praça do Marq. Pombal abaixo que nunca mais acabava e um homem do PRP voltou-se para um grupo de presentes e disse; – olhem para aquela gente toda que vai além enganada, somos nós que lutamos por eles e os defendemos da miséria e eles vão além a gritar pelo PS; como os podemos ganhar para a nossa luta e virem às nossas Manifs -?
    Este é também, desde que nasceu, o problema original do BE. Naquele tempo revolucionário a rapaziada da pequena-média burguesia lisboeta (e o operariado aristocrata da Lisnave) tinham uma forte ambição revolucionária. Hoje a mesma classe continua com a ambição de obter os votos e substituir o PS para operar a sua revolução guevarista-trotskysta (ou trotskysta-guevarista) e dar, pronta e empacotada, a fartura e felicidade aos portugueses.
    Foi Louçã, o ideólogo, que negou o PEC IV com o lema “derrubar Sócrates é o princípio da resolução de todos os problemas do país” e teve a sua 1ª grande oportunidade e falhou. Contudo, fiel à mesma ideia continua ideólogo dos mesmos pequeno-burgueses mimados filhos de papás e mamãs sem experiência de vida porque nunca tiveram vida própria antes e para além da política, obstinadamente, à procura de roubar os eleitores do PS e realizar a sua utopia trotskysta entre nós.
    Nesta perspectiva é fácil compreender a sua lógica de “destruição criativa” tal como era a visão do seu primo ministro das finanças de Passos; um realizava a revolução neo-liberal destruindo a economia existente e outro a revolução trotskysta destruindo a economia e o resto.
    Estando na sua génese este pecado original serão alguma vez capaz de se libertar dele?

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