O teste do pato

Marina Costa Lobo, no texto onde em duas pinceladas explica que o livro “A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega” pode ser tudo menos um trabalho académico, recorre ao cliché do “se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato” para encerrar um responso. Riccardo Marchi não tinha atingido os mínimos metodológicos para inscrever a obra no campo da investigação em história ou ciência política, segundo os critérios da autora, daí resultando uma ocultação da verdadeira natureza do Chega e de André Ventura. A coisa não passa de um “panfleto partidário“, rematou.

Para além da utilidade jornalística do exercício, uma curiosidade bem mais importante desperta: onde estão os trabalhos académicos – onde se cumpram critérios mínimos de distanciamento do objecto de estudo, seja do ponto de vista da ciência política e/ou da história, e com enquadramento analítico, teórico, e ainda apresentando comparações históricas ou da actualidade portuguesa ou europeia – a respeito do populismo como táctica do PSD e do CDS desde 2004, em força ostensiva desde 2008, e como assumida cultura política desde 2010? E onde estão os estudos dos cientistas sociais sobre o uso do ódio político pela direita portuguesa numa estratégia nascida com a perda do seu império bancário e desaparecimento da vida intelectual e da mera decência nas suas sedes partidárias, ódio que tem sido alimentado por crimes sucessivos cometidos por magistrados e jornalistas ao fazerem da judicialização da política e da politização da Justiça um fogo de barragem imparável que até dá para tentar condicionar procuradores e juízes à descarada? E cadê as monografias, ou que fosse apenas uma nota de rodapé, onde se analisasse com instrumentos conceptuais robustos o fenómeno do Entroncamento de vermos um Presidente da República a dar raríssimas honras de Estado a um fulano cuja carreira profissional consiste tão-só em despejar banalidades, lançar calúnias, perseguir difamatoriamente cidadãos por associação com uma tara que lhe deu a fama e o proveito e, last but not fucking least, bolçar que o regime é intrinsecamente corrupto logo a começar pela Assembleia da República e seus actos de soberania?

André Ventura não terá organizado a “parada Ku Klux Klan” junto à sede da SOS Racismo em Lisboa nem terá carregado no botão “enviar” que fez chegar ameaças dementes a diversos “dirigentes antifascistas e anti-racistas” mas aqui aplica-se a sensata máxima correlation may imply causation. A manifestação do dia 2 de Agosto, em que Ventura não só ocupou a rua como também o silêncio vexante de Rio (portanto, do PSD) que dias antes lhe tinha entregado a chave da cidade, foi poderosamente simbólica na dimensão em que não existiu qualquer força ou representante político a dialogar com o evento. E por causa disso ele ficou sem enquadramento democrático e sem contraditório axiológico, deixando-se que a prosápia insurrecta e megalómana do Ventura espalhasse confiança e ousadia junto daqueles apoiantes fanáticos que realmente não conseguem medir as consequências das suas acções – como se espera que a Judiciária e o Ministério Público no mais curto espaço de tempo possível ilustrem em nome da Lei e da liberdade que ela defende e consagra.

É neste nexo de causalidades paralelas que nos falta uma Marina Costa Lobo a reflectir, com o rigor do seu percurso na investigação, sobre a história de um certo Pedro que foi buscar um tal André para que este fizesse ao seu serviço exactamente o que anda agora a fazer para escândalo serôdio de tanto hipócrita. Uma Marina Costa Lobo capaz de explicitar o que leva o director de um “jornal de referência” a citar encomiasticamente vezes sem conta um cronista que podia ser ideólogo do Chega, tanto por partilharem o mesmo posicionamento de “nova direita anti-sistema” que vai acabar com os corruptos e esquerdalhos como por comungarem da mesma esperança messiânica no regresso de Passos Coelho, o herói que meteu na masmorra o dragão socrático. Uma Marina Costa Lobo com tempo para ajudar a comunidade a dar sentido, fosse no âmbito da história ou da ciência política, à tragédia de vermos o partido fundado por Sá Carneiro a pedinchar o apoio de Ventura e seus amigos.

Sim, o teste do pato à decadência da direita portuguesa nos últimos 17 anos está por fazer. E aposto os 5 euros que tenho no bolso como assim continuará até que o Fabril do Barreiro ganhe a Champions. Três vezes.

3 thoughts on “O teste do pato”

  1. bom , como as conclusões do estudo sobre a direita já foram enunciadas aqui no post era um desperdício de recursos dedicar-se ao tema.

  2. A Marina pode não ter escrito um artigo memorável, mas fez algo que certamente não fizeram muitos dos 67 subscritores do protesto contra a entrevista do Marchi para apresentação do seu livro na tv: leu o livro do fulano e fez uma crítica ao seu trabalho. Agradeço-lhe o serviço, porque eu jamais compraria um livro desse tipo (tenho as minhas razões) e assim fico com uma imagem geral que considero fiável. Os 67 apenas criticaram o que o Marchi disse ou não disse numa entrevista, o que é muito pouco para tantos cientistas sociais juntos. Ao fazê-lo, não se coibiram de criticar a RTP2 por não ter “comentado” outros factos que alegam. Ou seja, não foram só as declarações do Marchi que (legitimamente) criticaram, deixaram também uma censura à RTP2 por lhe ter dado a palavra “em horário nobre, na televisão pública e sem contraditório”.

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