O regresso dos intérpretes

Questionado sobre as declarações do líder do PSD, Pedro Passos Coelho, em entrevista à TVI, sobre a apresentação de uma eventual moção de censura ao Governo caso a comissão de inquérito venha a apurar que o primeiro-ministro mentiu sobre no caso PT/TVI, Marcelo Rebelo de Sousa referiu “que talvez Passos Coelho não quisesse dizer isso”. “Eu não sei se de facto ele quis dizer isso. Às vezes os políticos querem dizer que há um juízo político negativo, mas não querem dizer necessariamente que há uma moção de censura”, observou.

Marcelo

*

O que Passos Coelho disse, e com aristotélica lógica, foi à prova de ambiguidade: provando-se que Sócrates mentira, era inevitável a moção de censura. E esta declaração de Maio não passou da reedição do que fora prometido em Março. O desfecho é inevitável sob pena de se pôr em causa todo o Parlamento, o qual se constituiu em Comissão de Inquérito para aferir dessa mesma suspeita. Seria politicamente escandaloso que a sede da democracia ficasse inibida de produzir as consequências condizentes com o estatuto, legitimidade e propósitos dos seus deputados. Seria estar a instrumentalizar a Assembleia da República e a Justiça apenas para a baixa política, violando princípios constitucionais e cívicos que fundamentam o regime.

Estando assim o baile armado, a novidade é a de já ser público ter o PSD descoberto que Sócrates mentiu. Foi o seu deputado-espião que o anunciou, em nome do grupo parlamentar:

“O carácter dos elementos que recebemos é pura a simplesmente avassalador com pormenores de um negócio com contornos anómalos, conduzido politicamente com o objectivo de mudar a orientação da TVI” . Um negócio que, acrescentou o social-democrata, passou da Tagus Park para a PT e “era do conhecimento do primeiro-ministro e não iniciativa só de Rui Pedro Soares”.

São duas acusações, fazendo o pleno do inquérito: mentira e plano para levar a cabo uma mudança de orientação da TVI. Nesta declaração, atente-se, não se põe em causa a validade dos conteúdos das escutas, muito menos se espera para interrogar os envolvidos com vista à procura de esclarecimento e confirmação do que foi registado. Uma vez que foram ditas certas coisas, ou assim fica estabelecido pelas autoridades judiciais, um órgão de soberania como o Parlamento está autorizado a tomá-las acriticamente e sem carência de investigação posterior. É esta a separação de poderes que o PSD faz entre Justiça e Política: num lado, é preciso provar; no outro, basta cheirar. Por isso desistiram de novas audições, mas não desistem da conclusão, pouco importando o que a CPI vote como relatório: existia o tal plano maligno e Sócrates mentiu, garante o deputado-espião. Esta posição não foi contraditada pelo Presidente do PSD, o que equivale à sua admissão.

É aqui que entra Marcelo com o seu número de sapateado. Passos, coitado, é tontinho, por isso não sabe o que diz, esclarece o Professor. Felizmente, ele venceu a asfixia democrática e voltou para a sua querida TVI, donde vai pôr isto nos eixos com o lendário despacho que lhe dá fama e proveito. Dizer que Sócrates mentiu, que é um dos maiores mentirosos das três Repúblicas juntas, pode dizer-se; melhor: deve dizer-se. Mas acaba aí a brincadeira. É que ninguém no PSD está interessado em governar, era só o que faltava, ter chatices como isto está. O PSD quer é satisfazer as suas clientelas, outro campeonato. Se não existisse uma crise internacional e medidas impopulares para tomar, sim, o PSD levaria a farsa até ao fim. Agora, sem dinheiro e tendo de governar com talento e coragem, nem pensar.

Marcelo chegou tarde à banca da infâmia mais peixeira. Antes de papaguear que Sócrates mente, andou a repetir que a maioria do PS só tinha sido perdida por causa do Freeport. É uma observação que contém um enorme elogio ao adversário. Acima de tudo, é uma constatação que se estende para o caso PT/TVI, o qual se alimenta do Freeport para vender a teoria da conspiração. Sem a exploração vil de materiais avulso por Moura Guedes, alguns deles violando o segredo de Justiça, não teríamos tido a sucessão de eventos que levaram Sócrates a defender-se politicamente daquilo que não passava de um ataque político feito a coberto de um meio de comunicação social. A sua defesa foi igual a si próprio: frontal, pública, sincera. As declarações no congresso do PS, e também em duas entrevistas, contra a TVI e o Zé Manel, chocaram pela novidade, não se conhecia exemplo de jogo limpo igual. Em Portugal a tradição é outra, é a da hipocrisia venenosa e vingativa, pelo que esta hombridade foi mais uma ocasião de pavor e raiva para os ressabiados. Nunca mais se calaram, nem sequer se atrevendo a pensar como é que era possível o homem preparar-se para acabar com a sua carreira, através de um plano impossível de levar avante, e dar-se ainda ao trabalho de chamar todas as atenções para o que iria fazer. Enfim, cada um concebe os outros à sua medida.

Fica só a faltar um intérprete para o Presidente da República. Até mete dó sabê-lo em Belém sem essa ajuda, recebendo qualquer catastrofista com tempo livre, ouvindo a sua amiga Manela a contar-lhe das boas, olhando para as escutas à moda de Aveiro – onde se vê que o Primeiro-Ministro mente sempre que abre a boca e usa o Conselho Executivo da PT para mudar a programação das sextas-feiras à noite num canal privado – e não tendo ninguém para lhe traduzir a indignação e o patriotismo. Acudam-lhe, vá lá, senão Cavaco continua a fazer comunicações ao País só acerca daqueles assuntos onde está mais à-vontade, aqueles onde consegue fazer passar a mensagem: sintaxe açoriana, emails e gayzolas.

9 thoughts on “O regresso dos intérpretes”

  1. Para mim que não sou ninguém neste mundo, apenas um eleitor como os outros, avassalador seria por exemplo fazerem um inquérito ao negócio do edifício de Coimbra que foi vendiddo duas vezxes no mesmo dia e com diferenças de milhões. Isso seria avassalador mas como o Sócrates nao aparece em Coimbra já não conta. Porque será?

  2. Boa malha Val…

    Os meios de comunicação social estão povoados por uma sarna piolhosa, de que são exemplos os seguintes substantivos colectivos: congregação, corja, cáfila, matilha e vara…

    Exprimem-se como se tivessem procuração de todos os portugueses, não se conformando com o que representam: a si mesmos, em primeiro lugar, e a outros que, militando já no mesmo espectro político, se revêm na prolixidade sectária.

    Se a sua credibilidade se medisse por sondagens ou votos, corariam de vergonha sempre que abrissem a boca.

  3. A desculpa de que a actual situação económica do país inviabiliza uma crise política é uma versão actualizada e enviesada do discurso da tanga. Se toda a oposição defende que este governo não está a governar e os ministros estão perdidos, a saída mais positiva é alagá-lo. O resto é conversa de personal trainers manhosos como o Ângelo Correia, um predestinado do nosso subdesenvolvimento.

  4. A conclusão é, portanto, simples e hipócrita, na boa tradição dos políticos do PSD: Sócrates mentiu, temos escutas que o provam mas que não divulgamos por serem secretas, mas não vamos fazer cair o governo porque “seria irresponsável” nestes “tempos de crise”. Ficamos como avalizadores. Procuraremos os louros do que correr bem (foi por nossa influência), e sacudiremos as culpas do que for impopular (foram as políticas do PS, pedimos desculpa). Maravilhem-se com o nosso sentido de estado, com a nossa responsabilidade, com o nosso sentido de dever. O país acima de tudo. Mas recordem-se: Sócrates mentiu, nós provámo-lo, não se esqueçam, nunca se esqueçam. Nós não vos vamos deixar esquecer. E nas próximas eleições, quando o pior tiver passado, lembrem-se de quem andou a expor os corruptos, os mafiosos, os mentirosos.

    A pulhice, realmente, atingiu aqui o zénite.

  5. E do BPN, Senhores
    que ouvides de novo????….
    será que aqueles magistrados ja estarão de ferias?

    mande-se o processo para Aveiro, carago…

    quanto declarações de PP
    parece que lhe falta um q no meio…

    pqp…

    é uma cabecinha tonta
    que com marcelo descaído, bem descaído parece-me
    no meio campo
    vai dar água pelo papo de Angelo…
    e seu double, Pedro…

    abraço

  6. Ou eu muito me engano, ou o Marcelo regressou para destruir PPCoelho e envenenar mais uma parte do PDS. Veremos!…

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