O PÚBLICO mudou; mas para melhor?

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É sempre injusto avaliar mudanças estéticas e conceptuais nos primeiros dias. O choque afecta o entendimento da nova organização. E é igualmente injusto esperar demasiado; injusto para o nosso sentido crítico fatalmente acomodado, entranhada a estranheza. Para começo de conversa, que poderia ser já conclusão, não se ganhou nada de útil ou relevante com a “renovação”. Talvez pelo contrário.

A questão é fascinante: conseguirão os jornais resistir à Internet? O pânico está instalado. Todas as forças apontam para a bancarrota do papel-notícia; onde se incluem as razões evidentes — um jornal diário sai com um dia de atraso num ambiente empanzinado de informação, e isto numa cultura que promove a reacção imediata, que automatiza a cognição, que impõe um modelo restritamente visual e transitivo — e as emoções subterrâneas — um jornal é anti-ecológico, um desperdício que não se recicla e, last but, now, not least, suja as mãos e a casa. Na era da ubiquidade digital, e da instantânea saturação mediática, os diários carregam a vetustez hebdomadária e os semanários evoluíram para embrulhos de revistas. Num certo sentido, a imprensa em papel deixou de veicular noticias, reduziu-se ao comentário (e, com sorte, à investigação, mas já lá vamos). É este o cenário, em versão minimalista, para o drama do PÚBLICO e dos outros jornais generalistas.


Ora, que fizeram os carolas a quem foi dado dinheiro para gastar? Pois começaram por ir a Inglaterra deixar luso-euros por troca com uns bonecos dum cromo lá da terra. Mark Porter aplicou a fórmula já vendida ao Guardian e apresentou uma proposta à prova de rejeição, por ser, obviamente, “muito gira”. Este simples facto, assim tão simplesmente relatado, daria para várias teses de doutoramento. Não é esta a ocasião para explorar as camadas de mau portuguesismo que saltam à vista e às narinas, mas é patriótico relembrar o infame Tratado de Metween. Para os leigos, colhe informar que em Portugal se faria igual trabalho, igual em qualidade, com os mesmíssimos brilhos e defeitos do projecto comprado pelo PÚBLICO. Se a ideia era ter um P muita bem esgalhado, pois Portugal é um dos 8 países no Mundo onde o P é a primeira letra da própria nomenclatura. Se há letra em que um português é especialista é precisamente o P. E pertencemos a um grupo de alta exclusividade alfabética, onde não entrará outra nação tão cedo. Podía ter ficado o dinheirinho para a malta, e eu garanto que haveria à mesma um P magnífico para inglês ver e nada receber. O resto, a paginação e truques editoriais, é tudo intrinsecamente arbitrário e, finalmente, inconsequente; como é característica do design gráfico. Isto não significa que seja indiferente para o sucesso do jornal ter esta ou aquela estética, melhor ou pior funcionalidade de leitura. Nada disso, pois há aspectos objectivos, técnicos, em que o design gráfico institui boas práticas que podem resultar em vantagens competitivas. Apenas não vale a pena ter ilusões de grandeza, não existindo magos nem poções mágicas. Ir comprar um Mark Porter é um provincianismo, um novo-riquismo, uma manifestação de insegurança, um capricho, um desvario, um crime de lesa-património, uma ofensa a Almada Negreiros – [assinalar com uma cruz as opções correctas].

Em resultado da avaria, ficámos com um híbrido nas mãos. É assim um jornal com espírito de revista e alma de blogue. Dá-se maior território às imagens, sarapintam-se as páginas a propósito de nada, e até introduziram um incompreensível vício televisivo, uns bicharocos no alto das páginas, antónimos dos roda-pés, e cuja designação oficial proponho que seja a de cabeças à roda. Só lá estão a fazer ruído.

A quantidade de equívocos que as opções editoriais revelam também é notável. Por exemplo, o próprio do Editorial. Durante anos o lemos na vertical, ao lado das Cartas ao Director e do Bartoon. Este conjunto de página par convivia feliz. Era um dos espaços mais importantes do jornal, por conter três instituições políticas que configuram uma ontologia do meio: a palavra de quem dirige, a palavra do povo e a palavra do bobo. Sim, estávamos na corte. Agora, expulsaram o Bartoon para outro continente, mudaram-se rei e povo para os confins da leitura, perdeu-se o eixo vertical do compromisso político do jornal. Será apenas um pormenor? Sim, daí a importância de se falar nele.

O colorido que enche o olho não preenche a inteligência. O tratamento da informação continua convencional, não se oferece qualquer exclusivo intelectual ao leitor, o qual até pode encontrar artigos que já leu dias antes, ou semanas, nos sites da CNN, TIMES, BBC, etc. Nisso de consumir a informação, a paginação nada faz pelo ordenação da paisagem narrativa; o que parece lógico numa relação em que um dos lados, Mark Porter, estaria limitado pela ausência de conhecimentos da língua e cultura portuguesas, e o outro lado estaria limitado pela ausência de ideias jornalísticas conceptualmente inovadoras. O melhor exemplo desta claustrofóbica banalidade é a secção Pingue-pong, onde Helena Matos e Rui Tavares ilustram a falência da estratégia. Anunciado como exercício típico de discussão em blogues (??), o que temos lido caracteriza-se, curiosamente, pela imediata procura do monólogo. Cada um está ali para continuar a fazer as suas peculiares rábulas, não para dialogar seja com quem for, e muito menos um com o outro (e logo à frente de toda a gente!). Isto mostra uma assustadora ingenuidade ou uma apavorante superficialidade da parte de quem teve a infeliz ideia, para lá de exibir um péssimo critério de casting. Rui Tavares e Helena Matos são dos cronistas mais desinteressantes que povoam aquelas páginas, não têm cabedal nem para o textozinho semanal. Se era para partir a loiça, pois que se convencesse Vasco Pulido Valente a fazer parelha com António Barrreto. Outro par que promete seria Constança Cunha e Sá com São José Almeida. Ou Pacheco Pereira com Rui Ramos. Frei Bento com António Marujo. E outros. Em suma, que juntassem pessoas com alguma coisa de relevante para dizer aos portugueses.

E qual a solução para a imprensa em papel? Para lá da conquista das vozes mais importantes do País, está em causa voltar às origens. As origens são a busca obsessiva pela cacha. Talvez em Portugal essa postura não seja, pura e simplesmente, possível, pois exige uma completa e blindada independência. Olhando para o mapa dos patrões da indústria, só com Belmiro parece existir uma cultura que promove uma notória liberdade questionadora. Contudo, os limites de actuação estão à vista e o PÚBLICO não poderia assumir um Watergate à portuguesa, por exemplo. Há uma auto-censura, uma inibição que casa na perfeição com a herança do salazarismo e demais maleitas endémicas típicas de sociedades sem esperança. Só isso justifica que, com tanto material de investigação, e tão obsceno, os jornais não tenham contribuído para a denúncia da corrupção. Houve casos, pois sim, mas ínfimos face ao caudal de histórias que circulam à boca-cheia. Se os jornais não investigaram, foi porque não quiseram, porque as chefias o não promoveram, porque as administrações o não instigaram. Nisso se equivalendo jornais e partidos, Governos e jornais. Sem esse exercício, que em tempos foi chamado de 4º poder, e com informações neutras em excesso para o consumidor comum, o destino dos jornais parece traçado. Não quer dizer que desapareçam por completo, mas, previsivelmente, tornar-se-ão canais mistos, um corpo de revistas, Internet e TV. E serão, no essencial, o que são agora: irrelevantes.

30 thoughts on “O PÚBLICO mudou; mas para melhor?”

  1. No que respeita ao Público, concordo:
    “não se ganhou nada de útil ou relevante com a “renovação”. Talvez pelo contrário.”

    Penso, que os jornais de distribuição gratuita estão, neste país de tesos, a rebentar com a imprensa diária.

  2. Valupi,

    Podes ter muita razão. Poderás tê-la mesmo toda. Pelo que ouço e leio (até no próprio jornal, na página do Provedor), o ‘novo’ Público parece ser uma decepção. Digo «pelo que ouço e leio», porque ainda não tive na mão nenhum número. O Público não chega ao bocado de Planeta que eu habito. Não é grave, a vida é assim.

    O que vejo no ecrã tende a dar-te, a ti, razão também nisto: «É assim um jornal com espírito de revista e alma de blogue.» É difícil perceber aqui qualquer elogio.

    Sinto o mesmo que tu confessas acerca do feliz, e agora perdido, microclima da página do Editorial, do Bartoon e das Cartas ao Director. Novos microclimas poderão gerar-se, ou já estarem gerados. Mas há uma violência no destruir daquele. Para mim, uma violência ‘personalizada’, digamos. Era, muitas vezes, a primeira página que eu lia. E acontecia lê-la toda.

    Digo-te isto: o Público era o mais belo jornal português. Agora já não estou tão certo.

    Discordo de ti só nisto: a tua apreciação do Rui Tavares. Leio-o sempre. Lembra-te de que é um fulano jovem ainda. Ele tem tudo para ser, um dia, um dos obrigatórios.

    E esqueceste, no rol dos apolíneos, o Paulo Moura.

  3. Mas que importa onde vão parar o editorial, as cartas ao director, e o bartoon? Que raio de preciosismo. Sobre o Pingue-Pong. Talvez o Rui Tavares e a Helena Matos fossem os únicos disponíveis para a brincedeira. Talvez por serem os mais baratos.Talvez por estarem ainda a consolidar a sua assinatura como cronistas.Etc. De qualquer modo o Pingue-Pong trouxe algo de muito positivo – encolheu os textos do Rui Tavares(da Helena Matos nem sequer falo porque nunca lhe li mais do que 3 linhas).

  4. 1 – Paciente do Público, em regime de exclusividade, desde há muito tempo, torci-lhe o nariz no primeiro dia da mudança. Mas resisti, e trouxe-o para casa durante uma semana. A ver.
    Depois disse-lhe adeus definitivamente.

    2 – Um jornal que seja bom não vende, ou melhor, não rende. Perde para a concorrência.
    Um jornal que seja bom não faz concessões ao mercado, não está ali para isso.
    Um jornal de qualidade é como tudo; tem um preço, custa dinheiro, não é um produto comercial, não pode ser barato.
    Um jornal digno do nome, a existir, tem que ser caro. Mas existirá sempre. Para elites, claro. A quem o virtual não satisfaz.

  5. Pois eu também ainda não atinei com aquilo. Mas o Bartoon está lá no meio, ou fui eu que sonhei? Mas acho que não, senão já andava cheio de saudades. Os priões dão cabo de muita coisa mas não das saudades.

  6. “um jornal diário sai com um dia de atraso” mas não são “noticias maradas” que as minorias que lêem jornais procuram. Por exemplo a “Politica Operária” ou o “Le Monde Diplomatique” são mensais e têm temas essenciais, porque reflectidos – e não debitados por uma lógica mercantil apressada

  7. Não perdes uma oportunidade para cascar no Rui Tavares, pois não?
    Começou quando ele falou do holocausto como quem fala de pilinhas e bananas? quando ele “se permitiu falar”, digo …

    “Quando alguém (absolutamente de boa-fé, bem intencionado, “boa pessoa”; isso nem se discute, dando-se já como provado) utiliza o recurso de invocar o Holocausto Nazi para se sonhar émulo do Vasco Pulido Valente, assim se projectando a calcorrear os palácios da elite cultural e mediática com discussões tu-cá-tu-lá by blog, podemos ter a certeza que essa gente acabou por transformar este particular crime num tropo.”

    “Claro que não convém ir incomodar o esforçado articulista com a nossas dúvidas quanto à sua noção de honestidade. Não que ele esteja privado da mesma, que é carência que nem me permito pensar existir, apenas acontece estar aqui em causa uma concepção de honestidade que poderá ser divergente da minha, da nossa, da de cada um.”

  8. É verdade Valupi, eu sempre escrevi e mandei para o Público aquele artigo sobre os fogos e o Carbono. Eu escrevo de borla para o Público (coisas de neanderthal+priões), já sei que o efeito das minhas palavras é maximizado se eu fizer de graça, e eu escrevo só por intervenção cívico-política. Portanto se quiseres perspego isso aqui. Mas tem muitos números…

  9. O Dr Fernando Venâncio diz que lê sempre o Rui. Pois lê, e outros.Se eles dizem asneiras espeta logo os escritos aqui e observa a as reacções dos animais. E como é que o Rui pode ser jovem se ele ainda se lembra das primitivas telefonias a pilhas? Está a proteger a antiga prata da casa, não é sr Doutor?
    O posto do Valupi está meio comprido mas acaba muito bem. Viva a juventude denunciadora!

  10. Admirador,

    1. Acha você, a sério, que um indivíduo de trinta e poucos anos não viu nunca rádios alimentados a pilhas?

    2. Que quer você dizer com «prata da casa»? Que o Rui Tavares escreveu no Aspirina? Ou que alguém aqui escreveu no Barnabé?

    3. Esqueça os «doutores». Tá?

  11. Fernando

    Sei bem da tua predilecção. E nada tenho contra o teu gosto, escusado será dizê-lo. Apenas acontece que para mim, que também o leio sempre, a leitura é desinteressante. Acho os textos pobres em ideias, e paupérrimos em boas ideias.

    Contudo, é por te saber paladino desse articulista que também opto por fulanizar a questão. Não que ele precise de defesa, sequer eu tenho voz para o perturbar. Mas quando vem a propósito, eu malho no ferro. Um dia há-de arrefecer.

    Quanto ao Paulo Moura, é uma figura que promete. Opta por um registo decididamente literário, o que é um bolsa de interesse para o leitor. Terá, só pode ter, outras facetas que eventualmente enriquecessem a arena da polémica, sentido primeiro da secção Ping-pong. Ou, afinal não, pois poderá achar fútil o bate-boca que o Rui Tavares (entre outros, claro, mas este descarada e pateticamente) tanto procura ter com as estrelas da freguesia. Ou, até, acontecer ao Paulo não ter vocação para temáticas politiqueiras.
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    Importa porque um jornal não é diferente de qualquer outra realidade, onde o todo é mais do que a soma das partes. No caso, diz respeito à experiência de reconhecer num jornal uma personalidade, feita de simbolismos e subtilezas.
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    Anonymous

    É isso mesmo: o virtual não satisfaz, precisamos do peso e da textura.
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    Py

    O Bartoon está no P2. Quanto a esse teu artigo, e qualquer outro, é contigo. Esta casa ficaria honrada com a tua generosidade.
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    Joao

    Tem calhado, como também expliquei ao Fernando. De facto, a aversão começou aqui no Aspirina. Ele escreveu isto:

    https://aspirinab.weblog.com.pt/2006/02/a_manha.html

    E eu ripostei, lateralmente, isto:

    https://aspirinab.weblog.com.pt/2006/02/pagar_o_galo_a_asclepio.html

    Depois foi curioso acolher a sua reacção moralista e primária na caixa de comentários, a que se juntou o patrono Daniel Oliveira. Na altura estava longe de imaginar que ele viria a escrever no PÚBLICO.

    Só voltei a falar dele aquando do referendo, e por causa de um seu texto que o Fernando publicou. Donde, se é verdade que não perco uma, não menos verdade é que não procuro nenhuma.
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    Admirador

    Viva!
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    Sininho

    Espero que vá bem, e cada vez melhor. Não se deseja o fim de um jornal a ninguém, muito menos o único que ainda dá vontade de ler.

    Também o SOL vendeu que se fartou nas duas primeiras semanas, e depois…

  12. Xatoo [esqueci-me de ti, perdão]

    Sim, mas não. Há também inúmeras fontes exclusivamente de existência electrónica que oferecem comentários de fundo, reflexões ponderadas e de longa gestação. Não se trata de nenhuma conspiração capitalista, agora contra os pobres jornais em papel dos pobres trabalhadores outra vez explorados. Trata-se da racionalidade cultural a ser transformada pela racionalidade económica, e esta pela racionalidade tecnológica.

  13. Ora bem, se os meus novos amigos digitais se sentem honrados com a minha colaboração, que outra coisa posso fazer senão corresponder?

    Para mim os amigos são a coisa mais importante do mundo (javalis incluídos).

    Além de que espero honrar o nome indígena que o Xatoo me deu.

    E agora, posto aqui?

  14. fica já tratado:

    Os fogos e o carbono

    Os danos causados por ignorância são mais propriamente chamados erros
    Aristóteles, Ética a Nicómaco

    Em 1971, numa comunicação apresentada na Suécia, Lester Match afirmava que os cálculos, tendo em conta as trocas de dióxido de carbono (CO2) entre a biosfera e os oceanos, previam que a concentração de CO2 na atmosfera no ano 2000 atingisse as 380 ppm (partes por milhão). O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, no seu relatório apresentado em Fevereiro de 2007, refere que o CO2 é a componente antropogénica mais importante dos gases com efeito de estufa, e que a sua concentração atmosférica aumentou de um nível de cerca de 280 ppm, por volta de 1750, para um valor de 379 ppm em 2005.

    Não foi portanto por falta de previsões atempadas que se não se contrariou o estado actual e o aquecimento global emergente, embora não seja despicienda a natureza conservadora dos testes (de hipóteses) estatísticos, tornando necessária uma enorme evidência para concluir, como hoje é adquirido, que é verosímil que as alterações climáticas ocorram por influência do homem.

    Portugal, no Plano Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC 2006), aprovado pelo Governo em Agosto de 2006, apresenta para 2010 (o ano médio do período 2008-2012) a expectativa de sequestrar o equivalente a cerca de 3,36 milhões de toneladas de CO2 por via das actividades de florestação, reflorestação e desflorestação, previstas no nº 3 do artº 3º do Protocolo de Quioto – de contabilização obrigatória – a que se juntam outras 3,69 milhões de toneladas de CO2, associadas ao nº4 do mesmo artigo, relativas a políticas e medidas adicionais de gestão florestal, agrícola e de pastagens. No total é o equivalente a mais de 7 milhões de toneladas de CO2 por ano, que se prevê possam ser retidas nos sumidoiros vegetais, por acção da fotossíntese, complementada por boas práticas de gestão e biotecnologia. Este número é apresentado como um resultado final, líquido, que permite descontar outro tanto nas emissões industriais.

    Interrogo-me, no entanto, se as emissões directas dos fogos florestais terão sido devidamente contabilizadas nesse balanço. Tomando como referência o cenário de 100000 hectares (ha) ardidos por ano, e os valores médios de conteúdo de carbono para as diferentes componentes dos ecossistemas silvestres na Europa, infere-se uma estimativa grosseira: de que essa área ardida pode corresponder à emissão de cerca de 8 milhões de toneladas de CO2, ou até mais. Embora a economia dos fogos florestais ainda não internalize as perdas de biodiversidade ou a erosão dos solos, o mercado do carbono permite estimar o valor dessa emissão bruta: tomando como referência €12 por tonelada de CO2 (o valor utilizado no PNAC 2006), aquele volume de emissões dos arvoredos queimados perfaz quase 100 milhões de euros. Os mais de 400000 ha ardidos em 2003 teriam assim um valor estimável de cerca de 500 milhões de euros, só em carbono emitido!

    De facto, não se vê porque é que a “indústria do fogo”, uma metáfora – alguns dirão: uma metonímia – para designar o conjunto de interesses e atitudes que relevam de uma cultura pirófila, não deve ser objecto do mesmo rigor de aferição que as indústrias propriamente ditas. Certo é que se pode admitir uma baseline própria dos ecossistemas mediterrânicos – em 1985, António Manuel de Azevedo Gomes, deputado socialista e catedrático do ISA, afirmava que 10000 ha seria o montante normal de área ardida no país, por ano, tendo em conta o clima, as espécies e a história. Hoje, com o aquecimento global, e a expressão crescente do eucaliptal, esse limiar será outro. Mas tem custos que não devem ser ignorados e, dir-se-ia mesmo, desde já acautelados, com investigação apurada e medidas de prevenção. Convém não esquecer que mesmo em Janeiro arderam 100 ha. Como será o Verão?

  15. Py

    Manda por email para o Aspirina, e aproveita para esclarecer o que queres que se faça de especial, se há formatações a respeitar, etc.

    Enfim, diz de tua justiça e fogo à peça.

  16. Percebo-o.Digamos que os simbolismos e subtilezas que valorizo são outros. Quanto às cartas ao director, desde que escrevi certa vez uma(não necessariamente ao Público) e não foi publicada tive a firme certeza de que a amostra diária está a léguas de ser representativa da voz do «povo». Venham pois os comentários online que já é tempo.

  17. São raros os que apreciam uma mudança no seu agradável quotidiano.

    O jornal é bicho viciante. Vai de abraço até casa, faz-nos companhia ao pequeno-almoço, senta-se na sala connosco, vai e volta da praia, aquece a lareira do dia seguinte e chega mesmo a deitar-se na nossa caminha.

    Tenho uma vaga ideia que esta não é a “primeira lavagem” de cara do Público.
    Desta vez acho que ouve uma nítida tentativa de agradar ao Público… feminino. Será que vi mal!?

    P.S. – Ainda bem que o SOL apareceu antes da mudança P.

  18. Depois da aldrabice em que se meteu, duvido !

    A pior marosca de sempre

    Se algum dia existir um concurso para eleger a pior marosca de sempre, esta será uma forte candidata. Em resposta à eleição d’Os Grandes Portugueses, na RTP, o programa Eixo do Mal, transmitido na SIC Notícias e produzido pelas Produções Fictícias, iniciou em Dezembro do ano passado uma votação para eleger O Pior Português de Sempre, onde se propunha encontrar “a personalidade que mais contribuiu para a ruína do nosso País”.
    Mas, apesar do símbolo da iniciativa e da insistência dos protagonistas do Eixo do Mal em que António de Oliveira Salazar deveria ser eleito como O Pior Português, os resultados da votação online no blogue oficial iam numa direcção diferente (a outra tese defendida por eles no programa era a que “os piores portugueses de sempre são os que votam em Salazar na eleição para os Grandes Portugueses”). Até que, uma semana antes do fim do escrutínio, foi anunciada uma fase extraordinária e criada uma votação nova, ignorando os mais de 26000 votos da anterior. Ao contrário da primeira, esta segunda votação nunca apresentou os resultados em tempo real. É também curioso que quando esta nova votação começou foi logo gravada uma reportagem sobre a eleição de Salazar como O Pior Português.
    Na passada terça-feira, dia 13, foi dada por terminada a eleição. Nesse dia, pouco antes da transmissão do documentário sobre Salazar na RTP, a SIC Notícias emitiu uma gala onde, com pompa e circunstância, o Eixo do Mal anunciou o vencedor da votação do Pior Português: António de Oliveira Salazar, com 5132 votos (39.21%). Este “facto” fez a primeira página de jornais como o Público (na imagem). No entanto, no decurso de uma exaustiva e melindrosa investigação virtual, conseguimos ter acesso aos verdadeiros resultados das duas fases de votações, que podem ser vistos aqui:
    Votação 1 (1 de Dezembro a 4 de Fevereiro)
    Votação 2 (5 a 13 de Fevereiro)
    Em ambas as votações o vencedor é outra figura bastante diferente, um tal de Mário Soares. Se isto era tudo uma brincadeira, para quê a marosca? É evidente o conceito de democracia destes senhores. Epa, para a próxima tenham mais cuidado! É que nas eleições que temos tido em Portugal a coisa é feita de forma um bocadinho mais discreta… tão a ver?
    Já agora, será que o vencedor d’Os Grandes Portugueses também será escolhido assim?
    É também de referir o facto de Soares já ter sido eleito como O Pior Português de Sempre numa votação feita o ano passado no blogue Do Portugal Profundo.

  19. AI É?

    Nos Estados Unidos da América, por excelência a terra das novas tecnologias e da Internet, os jornais, ao que se sabe, continuam de boa saúde e recomendam-se.

    Quer o Valupi fazer um pequeno exercício de raciocínio sobre o porquê disso?

    Ou crê que na América não ligam a «um dia de atraso num ambiente empanzinado de informação», não querem saber se «um jornal é anti-ecológico» ou não, e não se importam de viver com as mãos e a casa sujas.

    O problema é outro, ó Valupi. Compare os jornais norte-americanos com os portugueses e descubra que lá nos states os jornalistas trabalham que se desunham para produzir textos diferentes (diria únicos), no que a mesma matéria noticiosa recebe tratamento muito diferente de jornal(ista) para jornal(ista); lá não funciona o copy & paste habitual dos jornais portugueses.

    Mas do que eu gostei mesmo na sua prosa foi aquela da «ubiquidade digital». Uma autêntica descoberta por descobrir.

    Alex

  20. O Público mudou para pior, não haja dúvida. Quando mais o leio mais me convenço disso. Introduziram imensa palha e retiraram coisas infinitamente mais úteis. A profusão do cores e pequenas informações só serviu para o tornar mais confuso.

  21. Alex

    Saúdo a tua entrada no maravilhoso mundo da Internet. Pelos meus cálculos, ligaste-te pela primeira vez na vida no dia 23 de Fevereiro de 2007, por volta das 8 da noite, e, por algum misterioso processo que nem os deuses conseguiriam explicar, o primeiro texto que te apareceu à frente foi este meu humilde post. É por isso que não sabes nada de nada.

    Assim, a tua primeira tarefa será a de ler este artigo abaixo indicado, o qual é de um senhor chamado Ignacio Ramonet. Não te assustes, não tens de entender já qual a importância deste nome. Com tempo, e com sorte (aliás, com muito tempo e com muita sorte), vais lá chegar. Por agora, repara no que o senhor diz algures em 2005, portanto já a remeter para anos anteriores. Também te convido a leres com atenção a parte em que se discorre sobre o estado da imprensa nos EUA.

    http://mondediplo.com/2005/01/16press

    Este segundo, e último exemplo, é um texto “ao calhas”. É um dos milhares que repetem o mesmo. Lá dentro, recomendo-te o maior cuidado. Contém informações bombásticas quanto à saúde da imprensa escrita americana em papel.

    http://exploded.awcr.org/NYTonlineonly

    Continua a fazer descobertas por descobrir, pois bem precisas.

  22. Ó Valupi

    Tu, quando és apanhado a dizer disparates, fazes sempre a fuga em frente vociferando à la Alberto João. Mas isso não te resolve os problemas. Dos exemplos cuja leitura sugeres, e ao contrário do que disparatadamente escreveste, não se fala de qualquer declínio da venda de jornais pelo facto de serem impressos, serem «anti-ecológicos», um «desperdício», «sujarem a casa e as mãos», e outros disparates tais.

    Não me digas que do artigo do Le Mode para o qual me remeteeste achas que o que este relato quer dizer é que o New York Times viu suas vendas diminuir por ser jornal-papel: «In the US the scandal of Jayson Blair – a journalist who falsified facts, plagiarised articles and invented stories – did huge damage to the New York Times, which had often put his stories on the front page (7). This newspaper of reference among the professional classes went through enormous structural changes afterwards: executive editor Howell Raines and managing editor Gerald Boyd were forced to resign, and for the first time a post of ombudsman was created – Daniel Okrent, opinion columnist and former editor-at-large of Time Inc.»

    Ou será que o teu inglês é do Cais do Sodré?

    Uma conclusão que daqui se retira é que, lá nos Estados Unidos, os jornais têm os seus leitores em tal conta que o simples facto de um jornalista mentiroso e preguiçoso (tipo copy & paste, por exemplo), escrever nele algo falso, determina logo que seja posto no olho da rua, levando ainda à reestruturação da cadeia hierárquica respectiva.

    Quanto ao segundo link que apontas, lá se pode ler isto: «The content make the difference, and this applies to any kind of media, printed, online, on air, carved in stone. The paper problem is a faux problem. All that voices going on the line of to hold a paper in yout hands still is another thing than reading a monitor screen are just, pardon my french here, crap. Newspapers are losing readers because they are expensive, inaccurate (generally speaking), marketing-remote-controlled and miles away from the everyday life, and 21st century days, information needs. This is why.»

    Achas que o texto supra tem alguma coisa a ver com os disparates que escreveste? Sobretudo quando afirma “The paper problem is a faux problem.”?

    Achas?

    Se não podes ser intelectualmente honesto, ao menos vê se consegues sê-lo «digitalmente». Sem ou com «ubiquidade». Que disso, sim, nos dás lições. Por descobrir.

  23. Está bem, o pyla tem costela de Hefestion e o Valupi tem-na de Alexandre. Justifica-se, portanto, que um sinta a dor (de corno) do outro.

  24. Alex

    Fruto da magnanimidade do Py, o qual avisa ter uma costela de Hefestion de modo a que ninguém possa depois invocar a Santa Ignorância, ganhaste um salvo-conduto neste caixa (mas só nesta, que o Natal já passou faz tempo).

    Assim, em condições normais, passaria agora a explicar-te que a Internet é grande, tão grande que até lá cabe esta informação:

    http://select.nytimes.com/gst/abstract.html?res=F5091FFB395B0C728FDDA90994DE404482

    Mas isso era se estivesses sem o salvo-conduto. Portanto, o que tenho para dizer-te é outra coisa, completamente diferente.

    Compreendo, e na perfeição, que te poderei ter ofendido com aquela referência à sujidade. Eu próprio hesitei muito antes de a escrever. Porque eu acho difícil falar dessas coisas. Pelo menos, falar delas em público. A sujidade dos jornais sempre me deixou envergonhado. Depois de ler um jornal, era frequente lavar as mãos 10 ou 15 vezes. Sentia-me um porco (mas não um javali, esclareço porque sei que o amigo Py está a escutar a conversa e esta nota é curial). Outra coisa sobre a qual nunca falei com ninguém diz respeito aos montes de jornais velhos que por vezes ficavam semanas ou meses sem se moverem. Era como se uma força os prendesse onde calhavam cair ou (explicação que prefiro por me parecer mais razoável) como se tivessem vontade própria e não quisessem sair de casa, nem sequer mudar de lugar.

    Por tudo isto, dou-te razão. Foi um disparate ter dito o que disse. São coisas das quais não se deve falar.

  25. Mais parece uma revista com tanta foto a cores para “distrair” a atenção dos textos.
    Quanto à “arrumação” do jornal parece-me não ter melhorado,antes pelo contrário.

  26. Sim, eu próprio não estou certo da mudança ser boa, mas há também inúmeras fontes exclusivamente de existência electrónica que oferecem comentários de fundo, reflexões ponderadas e de longa gestação. Não se trata de nenhuma conspiração capitalista, agora contra os pobres jornais em papel dos pobres trabalhadores outra vez explorados. Trata-se da racionalidade cultural a ser transformada pela racionalidade económica, e esta pela racionalidade tecnológica.

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