O palhaço e o urso

As diferenças entre o que os políticos prometem em campanha eleitoral e o que fazem no poder é uma fonte de frustração, derrelicção, anedotas e vernáculo desde que há políticos e campanhas eleitorais, por cá ou no cu do mundo. Felizmente, a subida de Seguro ao leme do PS vai acabar com essa secular desgraça pela força do seu imaculado exemplo. Quem conseguir esperar, vai ver. Entretanto, temos um Governo cujos responsáveis levaram esse desencontro entre promessas e realizações para um nível desconhecido na memória dos vivos. Aqueles que andaram anos ora a queixarem-se do investimento público e das actualizações salariais, ora a pedirem o fim da austeridade e dos sacrifícios, acabaram por afundar o País em nome da protecção aos rendimentos dos cidadãos só para esmagarem esses mesmos cidadãos com o maior aumento de impostos de sempre em Portugal e a degradação dos serviços públicos assim que puderam. Para agravar a aleivosia, estes tratantes encheram a boca com a “verdade” e a “credibilidade”, difamando e caluniando sistematicamente os governantes que pretendiam derrubar. E para juntar a ofensa ao insulto, assim que tomaram posse começaram a tratar os portugueses como um grupo de estroinas e mandriões a merecer castigos implacáveis.

PSD e CDS não disseram ao eleitorado o que pretendiam fazer caso fossem para S. Bento pôr e dispor. E não disseram porque sabiam que não poderiam ganhar se revelassem as suas intenções. Simetricamente, o BE e o PCP também não disseram o que esta direita pretendia fazer com o Governo nas mãos. E não disseram porque sabiam que esse grito de alerta levaria a um voto útil no PS. Mas houve quem dissesse, preto no branco e laranja sobre azul, o que os pulhas se aprestavam para fazer. Disse-o com detalhe. Não me está agora a ocorrer o nome desse fulano, mas lá que o disse, disse. O que nos leva para Paulo Portas.

É impossível que alguém se surpreenda com a falta de palavra de Passos Coelho se tiver em conta quem foi (é?) o seu braço direito de décadas, o dr. Relvas. Esse estupendo exemplar do laranjal foi capaz de ir para um estabelecimento de ensino superior usar a sua própria filha para tentar agredir e humilhar os pais e os filhos de Sócrates mais a restante família, toda – e, que se saiba, nunca pediu desculpa. Aqui entre nós que ninguém nos lê: que partido, que Governo e que país é este que aceita elevar a um cargo ministeriável uma tal alimária? Pois, concordo. Mas falemos do Portas. Começando por passar os olhos por esta compilação que o David Crisóstomo teve a pachorra de coligir – O CDS segue para Bingo (II) – só para refrescar a memória indo à fonte e seguindo logo para a pergunta: donde vem a complacência com que a sociedade aceita que Portas nos ande a tourear desde 1997?

Portas tem várias características que explicam o seu longo sucesso à frente do CDS. A principal talvez seja o talento para a comunicação, sendo tão eficaz na televisão como ao vivo. Ele desperta uma natural simpatia que é congénere da estima que temos pelos actores bufões. Nós sabemos que ele sabe que nós sabemos que ele sabe que nada do que diz é para levar a sério. O seu partido não é para levar a sério, é no máximo para levar ao colo. O seu partido não ambiciona mais do que ser uma empresa, a empresa daqueles que no PSD não teriam lugar à mesa do poder. Nesse sentido, a política pode ter sido o palco onde Portas encontrou o espaço ideal para expressar a sua vocação teatral. De facto, como vemos todos os dias, a retórica, os códigos e a cultura dos políticos profissionais portugueses é algo que está cristalizado e nivelado por baixo, sendo fácil para uma inteligência ágil encontrar uma fórmula para se destacar. Foi assim que se inscreveu na história do Parlamento como um dos seus melhores tribunos, gostos e relevância à parte.

A antinomia entre o que o paladino dourado dos pensionistas e dos contribuintes dizia antes de 5 de Junho de 2011 e o que faz neste Governo escapa à possibilidade de adjectivação sem se começar à caralhada. Porém, sendo ele quem é e o País isto que somos, é possível que ninguém se importe e se prefira que seja o nosso Portas a continuar à frente do CDS até aos 90 anos. Porque é sempre preferível lidar com um palhaço do que com um urso.

6 thoughts on “O palhaço e o urso”

  1. o cds é efectivamente um empresa,e por ser verdade tem lá um empresario,pires de lima e um fiscalista de muitas outras empresas lopo xavier,no meio daquela canalhada!

  2. ui, não lhe chames palhaço que lembro-me do Augusto: dera a ele, e outros, um sorriso ao pé da escada que é também a dignidade, aos meus olhos, de Miller.

  3. oh vaca! tou cagando no miller e nas sinopses que andaste a encornar para recitares lá no blogue das tias, donde foste corrida. tenta despachar a mercadoria na feira da ladra ou abre um outlet, mas não nos fodas com intelectualitóinices a despropósito.

  4. “É impossível que alguém se surpreenda com a falta de palavra de Passos Coelho se tiver em conta quem foi (é?) o seu braço direito de décadas, o dr. Relvas. (…) que partido, que Governo e que país é este que aceita elevar a um cargo ministeriável uma tal alimária? ”

    Sem dúvida. Só de pensar que, mais dia, menos dia, ainda pode aparecer na Universidade da Beira Interior…

    http://lishbuna.blogspot.pt/2014/01/blog-post_1790.html

  5. oh lisboa! fica descansadinho, quando muito o relvas pode aparecer no chapitô a dar aulas a palhaços como tu que gostam de fazer figura de urso cruzado de burro.

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