O muro da esquerda

A indignação de São José Almeida – Existe esquizofrenia política? – é um sinal de que algo pode mudar na esquerda portuguesa. Esta incansável lutadora anti-PS deu por si a ter de reconhecer publicamente que o PCP se transformou num manicómio. A verdade é a de que já o poderia ter feito antes, bem antes, pois o actual sectarismo alucinado tem muitos anos de gasto.

O PCP tem sido um aliado precioso da direita desde o 25 de Novembro. Pela simples razão de ter sido o PS quem assumiu a defesa da liberdade e da democracia ameaçadas pela ditadura vermelha logo após o 25 de Abril. Daí para cá, a esquerda portuguesa ficou dividida pelo muro do fanatismo comunista. O PS era obrigado a ter de se aliar à direita para coligações quando não obtivesse maiorias absolutas. Foi esta característica da política nacional benéfica para os interesses da comunidade? Não. E se alguma dúvida houvesse, o que aconteceu em 2011, onde o PCP preferiu colocar uma direita decadente no poder que iria afundar o País a ter de negociar com um Governo social-democrata, chega e sobra para se poderem avaliar as consequências de um radicalismo escatológico que apenas se liga aos problemas da população na retórica.

Por arrasto, São José Almeida também dirá do BE o mesmo que diz do PCP, pois o BE repete a estratégia comunista de eleger o PS como o inimigo e é na Soeiro Pereira Gomes que os bicéfalos procuram o seu futuro. Neste quadro, o caminho do LIVRE, que tem ousado pensar e agir sem medo do PCP, acaba de ficar mais iluminado. Há um combate a fazer no campo da esquerda mas não é contra um PS fiel à sua tradição democrata, republicana e social. É contra uma cultura de sectarismo alimentada por uma seita cujo único instinto é o de sobreviver recusando a alteridade.

28 thoughts on “O muro da esquerda”

  1. Um muro….um gigantesco complexo de não ser considerado de esquerda vermelha!

    Também uma forte convicção de que há uma esquerda que não é dogmática e que encara a realidade, procurando formas de resolver ou contornar obstáculos!

    Há velhos do restelo até nas convicções politicas !!!
    O mundo está na encruzilhada mais cativante deste nosso tempo! Há uma nova mentalidade, um tempo de novos horizontes, em que os instrumentos tecnológicos aproximam os povos.

    E já ninguém, ou muito poucos, têm medo de afrontar velhos mitos ! É um tempo de esperança, de alianças que valham a pena, de troca de experiências e de vontades, é portanto, um tempo novo……tempo de não nos demitirmos !!!

  2. Mensagem basica oriunda do continente do mais elementar bom senso :

    Os apelos à unidade da esquerda contra o sectarismo e a atomização contraproducente podem basicamente dividir-em duas grandes categorias : i) os que começam por criticar o seu proprio campo, e apelar os seus à abertura, que merecem sempre ser ouvidos, e encorajados ; ii) os outros, que criticam a intransigência do parceiro potencial, que são lixo e não merecem que se perca tempo com eles, nem para fazer este reparo de bom senso, mas hoje acordei generoso.

    Até tu és capaz de compreender isso.

    Boas

  3. Muito bem, Val. Mas ao lado do LIVRE está a nascer outra formação fanática contra o socialismo democrático que aceita governar: o partido de Marinho e Pinto que já elegeu como seu principal adversário o partido-de-esquerda-que-aceita-ser-governo, infelizmente, contra toda a restante “bancada parlamentar”. Nunca fui filiado em quaquer partido. Sou apenas democrata. E custa-me ver o coligação negativa da direita com a esquerda radical, que já dura há quarenta anos. O ano de 2011 foi a prova que faltava para desmascarar os jerónimos e os louçãs. Fazem política a pensar nas ambições dos seus respectivos partidos. O povo que se lixe.

  4. “… credenciais populares do PC…”

    oh imodium! andas a ver coisas, muda de dealer. mais elitista que comuna é difícil encontrar.

  5. nota-se. todos os dias chegam pedidos de casamento à soeiro pereira gomes e o que nos vale, num quadro patriótico de esquerda, é a tia gerómina não ser nenhuma leviana, senão o dote já tinha ido com a odete.

  6. O Bloco de Esquerda NUNCA elegeu o PS como inimigo, denunciou e BEm , a colagem dos vários governos do PS á direita.

    Aliás o Costa já vai dando sinais , de que vai seguir o mesmo caminho.

    Por isso é que na Europa existem os Syrizas e Podemos, os PS europeus tiveram a sua época, hoje são meros gestores do grande capital, e pouco mais.

  7. “Aliás o Costa já vai dando sinais , de que vai seguir o mesmo caminho.”

    yeah meu! o costa vai a caminho da maioria absoluta, tal como aconteceu com o sócras, e o bloco vai a caminho da inexistência. deixa lá, o fazenda fica com a representação dos tijolos do muro albanês para gourmets como tu.

  8. olhe que não, olhe que não…Quando eu estava a pensar que o Alegre ia ser PR e que eu ia contribuir eis que surge aquela figura do PS a lixar tudo. E fico por aqui.

  9. O muro de Berlim caiu há 25 anos.
    A partir daí deixou de ser necessário fingir que o “socialismo em liberdade” era viável, aquele socialismo que fabricava estados sociais apoiando-se nos banqueiros anarquistas que defendiam ser possível construir o socialismo do lado de cá do muro.
    Só que o muro caiu e agora os banqueiros a sério não se fartam de cantar “oh tempo volta pra trás!”.
    O tempo está a voltar para trás, para antes do 1ª guerra (foi só há 100 anos), em que os direitos dos trabalhadores eram nulos. Só não voltaremos à jornada de trabalho de 50 horas porque entretanto as máquinas e os automatismos preencheram o espaço de muitos postos de trabalho, criando um exército de desempregados semelhante ao de então. E não faltam patrões a desejar esse regresso…
    Para que volte a haver de novo esquerda é necessário que surjam novos teóricos a interpretar de uma forma correta a atual luta de classes. A velha-esquerda-marx-lenine já era…

  10. Com que então foi o PCP que colocou a direita no poder! E eu a pensar que tinham sido os portugueses que se deram ao “trabalho” de ir votar.

  11. Valupi
    Sei e muito bem!
    Os meus inimigos políticos são a canalha que nos governam. Não me obrigues a dizer os resultados das votações do Pec l, ll, lll e lV. Se me perguntares: com o resultado das últimas legislativas ficamos melhor, dir-te-ei que NÃO (não é berro) foi um desastre, mas isso é outro assunto.
    cumprimentos.

  12. Para MEMÓRIA FUTURA (vamos estar atentos às previsões ! VAI SER GIRO !) … do VPV que escreve cristalinamente sobre a Costo-PROMESSA que já se tornou DÚVIDA

    Os tempos de facilidade e de aclamação acabaram. António Costa passou de uma promessa a uma dúvida. A política – sobretudo a política orçamental – da Câmara de Lisboa começa a ser examinada a sério. Chegou tarde, mas chegou, o fim do pequeno comício semanal na “Quadratura do Círculo”.

    Para preservar um pouco da aura de antigamente, Costa tenta não falar e, quando fala, não dizer nada. Só que um candidato a primeiro-ministro, queira ou não queira, tem de falar. Desta vez, foi uma entrevista à RTP para apresentar a sua moção ao congresso do partido – a única, de resto. Infelizmente para ele, não se arranjaram mais de 800 000 portugueses para o ouvir (e a concorrência ganhou a noite). Como sinal de entusiasmo é fraco e, além de fraco, muito lógico.

    O prodígio António Costa não saiu do calão em uso, nem das generalidades mais rasteiras. Primeiro, não se comprometeu a diminuir a austeridade num futuro previsível. Mais prudente e vago, acenou de longe com a possibilidade de “travar a regressão social” (o que não significa nada) e em “estabilizar e começar a inverter o ciclo para crescer” (o que significa menos). Quanto ao pão e à manteiga, pretende uma “política de rendimentos” segura e previsível. Vai repor as pensões (como eram antes dos cortes) e deixar por enquanto os salários do funcionalismo à providência do Altíssimo. A sobretaxa, ao que parece, ainda está para durar; e o desemprego também. Nestas coisas, todo o cuidado é pouco e Costa não tenciona criar ilusões à sua tresloucada esquerda.

    Sobre a dívida, não houve o mais vago sinal às fantasias dos 74. Pensa num “debate a nível técnico e académico” (que certamente nos sossegará) e em “encontrar uma solução a nível da Europa”, que se reduzirá, suponho, a um “debate a nível técnico e académico”, porque Portugal não pesa, nem decide. Costa gostaria, claro, que os credores espontaneamente nos desculpassem uma parte da dívida ou que um investimento indeterminado (mas por força grandioso) nos “libertasse do garrote”. Ninguém o deve impedir de se consolar com a ideia, que até o dr. Cavaco, num estilo mais presidencial, acha “positiva”. A educação do dr. António Costa já começou. Calculo que seja dolorosa e espero que seja profícua. Que mais se pode, no fundo, esperar dele?

  13. oh inginheiro! se é como tu dizes, a direita vota toda no costa, portanto não vejo motivo para preocupações nem como evitar uma maioria de 90%, porque só tu e os iluminados da soeiro pereira gomes votarão na reconstrução do muro de berlim.

  14. Ignatz: Sabes que é feito do nuno cm? Aquele esforçado e dedicado buldogue de serviço, que ladrava e mordia tudo o que mexesse, sobretudo os atrevidos forasteiros que não deixavam uma velinha ou pediam uma bênção aqui na Igreja dos Aflitos e Viuvas Histericas do Altíssimo Santo Socras ?????

  15. Caro Valupi,

    “o PCP preferiu colocar uma direita decadente no poder que iria afundar o País a ter de negociar com um Governo social-democrata”

    Creio que já discutimos isto, mas noutro formato.

    Vamos trocar a palavra social-democrata por social-liberal para evitar equívocos. A social-democracia clássica nada tem a ver com o PS. Depois, for the sake of argument, vamos assumir que isto é verdade. Vamos esquecer as tentativas que o PCP fez de puxar o PS para o seu berço, as experiências em Lisboa, presidenciais, etc.

    A táctica eleitoral do PCP de não haverem alianças com os sociais-liberais – a menos que seja o PCP a mandar -, está errada? Na minha opinião não. A táctica está correcta. O PCP fá-lo por autopreservação (e os exemplos italiano, espanhol, francês dão-lhe razão), mas se o PCP fosse o braço eleitoral de um movimento revolucionário, a táctica seria a mesma. Isolamento dos sociais-liberais e classe contra classe. Porquê? Porque o objectivo não é entrincheirar as forças proletárias na defesa do regime, na mesma trincheira dos sociais-liberais, contra os avanços da burguesia. Isso seria negar o papel criador das classes trabalhadoras, seria diluir a antítese. O desaparecimento da “socialdemocracia do meio da ponte” e a polarização das forças políticas é uma consequência inevitável da agudização da luta de classes.

    Lamento confirmar os seus receios, resta-me apenas matizá-los. De facto, esfrangalhar o PS é um objectivo; pasokizar o PS é uma necessidade. Escangalhar esse partido-charneira que mais não é uma válvula de segurança da burguesia, e que garante o regular funcionamento dessa instituição que é o rotativismo bipartidário, o centrão da nossa desgraça. Parte-se uma perna e o sistema fica manco, está ver?! Pois é isso que se quer.

    E se o BE faz o mesmo, isso quer dizer que as coisas não estão assim tão más como eu às vezes pinto. Isto podia ser pior. Felizmente há luar.

    Cumprimentos ☭☭

  16. Argala, no que escreves não há matéria para discussão, pois é o discurso do fanatismo. Mas estou curioso a respeito de uma coisa: não seria melhor para o PCP regressar à clandestinidade e passar à luta armada? Porque continuam a querer viver no meio dos sócio-liberais e a receber o dinheiro deles?

  17. E eu que pensava que o objectivo da esquerda PCP e BE era zelar pelo bem dos portugueses, pelo seu bem estar e pelo progresso do país.
    Mas não. O objectivo é partir as pernas ao PS.
    Ok. Já tinha percebido, mas agora estou esclarecido.
    Só não percebo é como é que com esse objectivo querem obter votos e governar.
    Ah, espera, vocês não querem governar, não querem mudar e muito menos ajudar o povo português. Vocês querem é partir o PS. Se um dia tal acontecer estarão à espera que os votos do PS se transfiram para vós? Quarenta anos não chegaram já para perceber que isso nunca vai acontecer, e que quando o PS estiver definitivamente destruido, será a direita que ganhará em toda a linha?
    Quase que dá vontade de que tenham sucesso no vosso intento. Porque no dia em que o PS acabar, vocês também acabam. E lá diz o povo, há males que vêm por bem.

  18. É sempre bonito ver que gente que defende a politica seguida pelo governo se abespinha e treslouca toda quando o Costa se limita a ser prudente e a dizer que depois de toda a merda feita nestes ultimos 3 anos, será dificil resolver logo tudo de uma vez…
    Mas eu pensava que essa gente apoiava a austeridade?
    Portanto a austeridade só é boa se for feita pelo meu partido!
    A dos outros já não presta.
    O desespero leva à contradição, mas para quem não tem inteligencia nem argumentos para mais não se pode pedir que repare sequer no que anda a escrever…

  19. Caro Valupi,

    “não seria melhor para o PCP regressar à clandestinidade e passar à luta armada?”

    É de facto uma questão relevante, que não me deve ser colocada a mim. Eu limitei-me a comparar a estratégia actual do PCP, que não se senta à mesa para negociar um programa assim-assim/bacalhau-com-todos e isso permite-lhe manter a sua quota eleitoral (~10%), comparado com um cenário à italiana onde os comunistas estariam condenados a desaparecer. O PCP (e o BE já agora) escolhem o primeiro cenário, e isso parece-me perfeitamente lógico. E quando alguém põe ou pôs em causa essa estratégia, isso deu logo lugar a cisão e cizaña (como está a acontecer no BE, e aconteceu no passado no PCP).

    Arrisco ainda assim uma resposta. O PCP mantém a sua postura de partido dentro do marco constitucional e legal, porque é realmente um partido social-democrata. O PCP e o BE representam a social-democracia no parlamento. O PCP acredita genuinamente que o eleitorado lhe dará a votação necessária para executar o seu programa, a ‘democracia avançada’.

    Se o Valupi tem menos ilusões do que eles, e tal como o Gato Vadio acha que 40 anos é suficiente evidência histórica, eu não levo a mal que vá lá bater à porta da Soeiro Pereira Gomes avisar os meninos que o pai natal não existe. Mas daí a dizer aos meninos que têm que se coligar com quem lhes rouba os presentes.. Uma coisa é destruir o sonho infantil do reformismo, outra é transformá-lo em pesadelo.

    Eu entendo a tentação de muitos militantes do PCP e BE, que perante a estagnação ou o recuo eleitoral, vejam nessas alianças a única forma de sequer ter relevância política. São muitas delas pessoas que eu considero inteligentes e cultas, mas que tantos anos a fazer a mesma coisa as intoxicou. Estão intoxicadas e esqueceram o b-a-ba da histórica política. Não lhes fazia mal uns meses, longe dos holofotes e dos jornais, no ermo, a reler ou ler um bom livro de história sobre a Revolução Francesa ou a Revolução Russa, para ver se captam alguma coisa e percebem como é que as coisas se fazem.

    Cumprimentos

  20. Argala, comunistas ou social-democratas, ainda estaremos num quadro teórico marxista, ou onde Marx seja incontornável. Acontece que nem o Marx, especialmente o Marx – e nenhum Marx, muito menos o da maturidade – abdica da racionalidade. O que descreves como ideal é já um anarquismo. A revolução permanente.

    Ora, serás um idealista, claro. Mas a democracia é muito mais difícil, por isso bela, do que o teu caos inútil.

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