O ministro Pires

No dia 14 do corrente, António Pires de Lima foi à Comissão Parlamentar de Economia. Perto do final das quase 3 horas que durou a sessão, aparentando estar em plena posse de funções públicas e cognitivas numa sala da Assembleia da República, lembrou-se de partilhar com o País o que pensava enquanto ministro acerca do presente e do passado da PT. E que era isto:

– Os problemas actuais da PT foram causados no passado.

– Esse passado começa com os Governos de Sócrates e termina com os Governos de Sócrates.

– Nesse passado, os Governos de Sócrates interferiam na PT, daí os problemas actuais.

– Nesse passado, o Governo de Sócrates usou a Golden share para impedir que a Sonae comprasse a PT.

– Nesse passado, o Governo de Sócrates obrigou a PT a fundir-se com a Oi, daí os problemas actuais.

– Ah! E também nesse passado, o Governo de Sócrates meteu uns malandros no BCP que deram cabo daquilo.

Estas declarações geraram a resposta de Paulo Campos que este vídeo documenta:

Paulo Campos é o tal ex-secretário de Estado de Sócrates que desviou centenas de milhões de euros para empresas amigas envolvidas nas PPP, tal como o Correio da Manhã e a Ana Gomes conseguirão provar assim que o entenderem. Por sua vez, Pires de Lima é filho desse outro Pires de Lima que aproveitou uma ida ao Crespo, em 2010, para tratar o primeiro-ministro da altura como um “aldrabão de feira”. Last but not least, o Pires de Lima filho, nesta sessão da comissão parlamentar, também se referiu ao ambiente de feira para carimbar a reacção dos deputados do PS que o ouviam, algo que o presidente da comissão, Pedro Pinto do PSD, repetiu com gosto. Estamos assim entre aldrabões e feirantes, embora não necessariamente por esta ordem.

Campos falou de factos. Os factos mostram que o ministro da Economia, na Assembleia da República, mentiu de forma grosseira a respeito de acontecimentos indiscutíveis. Com base nessas mentiras, lançou suspeitas, difamações e calúnias. E ainda terminou o exercício de emporcalhamento do seu estatuto, do seu papel e dos seus deveres com o ar de satisfação que as imagens registam. Obrigado a responder à exposição da sua indecorosa violação da decência, começa por revelar ao mundo que “os factos são factos“. E depois repetiu a dose, incapaz de assumir qualquer responsabilização pelos seus actos oficiais e públicos.

Repare-se como esta figura caricata, dada como potencial candidato a suceder a Portas e vista como uma jóia de competência política nos depauperados recursos humanos do CDS, encheu a boca com a “moral” e a “ética” para mais uma dose de velhacarias paga pelo Estado e acaba exibindo-se como o familiar aldrabão de feira do imaginário paterno. Aliás, seria lindo vê-lo a discursar livremente sobre o que considera ser a moral e a ética, mas os deuses nunca nos concederão essa benesse, tenho a certeza.

Falar da decadência da direita é falar disto. Um discurso que não passa da repetição do que de mais básico existe na cultura política oligárquica, a qual é uma praxis violenta que ambiciona sempre a destruição do adversário. Não o podendo fazer com armas, faz-se pela mentira. Um ministro da Economia que dá mais importância à celebração da sua pessoa do que ao conhecimento acerca do uso de uma Golden share, que precisa de citar entrevistas facciosas, que recorre à desonestidade intelectual inane do “toda a gente sabe” é, verdade seja dita, um ministro pires.

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Apêndice 1

Pires de Lima termina a sua intervenção fazendo um elogio a Mariana Mortágua a propósito da discussão sobre a PT. Que se terá passado? Que levou a pulhice a louvar o que resta da “esquerda grande”? Explica-se sem esforço: Mortágua disse que no tempo de Sócrates havia interferências na PT. Não explicou quais, nem como, apenas repetiu a cartilha da direita. E ganhou um rebuçado.

Apêndice 2

No Política Mesmo, no mesmo dia, Paulo Magalhães preparava-se para encerrar o bloco com Santos Silva dizendo que já não tinham tempo para falar das “interferências governativas na PT” aquando dos Governos de Sócrates, mas que o fariam numa outra oportunidade. Santos Silva não deixou passar essa insinuação dada como facto e de imediato explanou o sentido de haver uma Golden share e de como ela servia tanto para dar alcance estratégico internacional como para controlar desvios numa empresa com a dimensão e valor da PT na altura. Era a perda da Golden share, deixando a empresa totalmente nas mãos dos accionistas, que teria dado origem à sua implosão adentro da implosão do império BES.

O que este episódio revela é a promiscuidade entre jornalistas e as agendas políticas avulsas, pois Paulo Magalhães é um profissional que mantém regular equidade e pose sóbria mas que aqui aparece a espalhar uma ideia que serve apenas um dos lados do combate político. Fazer jornalismo é outra coisa.

10 thoughts on “O ministro Pires”

  1. gostei do porteiro de bar de alterne a conduzir os trabalhos, só faltou levar as santanettes para abanar o pernão e fazer coro nos momentos altos do pirex. aquilo não é feira, é a chungaria que nos governa.

  2. val, quem sai aos seus não degenera.ainda me lembro das intervençoes do pai desse “vendedor de cerveja ao copo” na qualidade de bastonario da ordem de advogados.tudo que ele disse no parlamento sobre a responsabilidade do ps na pt ,foi tambem desmentido no jornal expresso.é contra escoria que vai a missa aos domingos,que o papa francisco tambem luta !

  3. quanto à mortágua, tenho a dizer que a pt,não é o banco da figueira da foz.quem tirou de lá muita massa foram os acionistas depois da golden share ir para o caralho, e com ricardo salgado como maior acionista!

  4. Ó João Lisbosta, em vez de vires promover – a despropósito, como é habitual – a tua pocilga neste post, porque é que não vais dar a tua douta opinião no “Três em Um” do Júlio, em que és capaz de ser especialista, visto tratar-se de um tema relacionadao com o teu patrão Jerónimo? Mas não vale o habitual link p’rá tua latrina, pá! Bota lá mesmo a tua opinião…

  5. Mariana Mortágua fez até agora a intervenção MAIS SÉRIA sobre a PT.

    A realidade é que os problemas da PT começaram com Sócrates, e vão terminar com Passos Coelho.

    Os dois governos têm responsabilidades que não deveriam enjeitar, até para no futuro não se cometerem os mesmos erros,

  6. O Ministro contradiz-se. Na primeira intervenção culpa a golden share por todos os males do universo. Na segunda, culpa o anterior governo por ter assinado um memo que acabava com as golden shares. Mas afinal em que ficamos? É a favor ou contra?

  7. Entre o grunho Paulo Campos e o grunho Pires de Lima venha o diabo e escolha.

    Os problemas da PT, começaram com a venda da participação da PT na Vivo, por pressão do BES e de outros accionistas, que queriam realizar mais valias, mas onde estavam nessa altura Socrates e o seu governo…..Não vale a pena tentar esconder as responsabilidades de Sócrates, que as teve e MUITAS.

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