O lugar da ministra da educação

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No discurso auto-laudatório e pretoriano de Louçã para festejar os resultados eleitorais de Setembro, Maria de Lurdes Rodrigues foi o principal alvo dos costumeiros ataques corporativos de um partido especializado em propaganda demagógica. Era o corolário de uma longa campanha diabolizante que apostou na exploração das emoções mais básicas e destrutivas, de forma a garantir um estado de conflito imune à racionalidade e à negociação. O comentário supra ilustra o que se pretendeu atingir.

O recente lançamento do livro A Escola Pública Pode Fazer a Diferença é notável por várias razões, a menor das quais não será este bom exemplo de legar um documento que alia a teoria e a prática de um dado governante. A relevância maior do acontecimento, porém, decorre da área em causa, Educação, e da pessoa que nela deixa obra admirável e polémica. Com esta síntese detalhada dos seus 4 anos à frente do ME, Lurdes Rodrigues remata um ciclo de reformas decisivas que tem a sua assinatura.

Não teria sido possível ao PS mantê-la no novo Governo, embora fosse essa a esperança de uns poucos (ou de muitos, depende do critério da contagem). Se o fizesse, Sócrates seria acusado de completa irresponsabilidade por alimentar um conflito que não podia ser ganho: Maria de Lurdes Rodrigues teve contra ela toda a oposição, e até o Presidente da República, por omissão. Conservá-la num Governo minoritário seria acabar com as ténues esperanças de coligação ou pacto parlamentar, para além de permitir à Fenprof a continuada agitação social e o boicote às negociações.

Foi possível, contudo, mantê-la até ao fim da Legislatura, contra tudo e contra todos, até Alegre. Ao contrário de Correia de Campos, vítima dos reaccionários e oportunistas de esquerda e direita, Lurdes Rodrigues continuou a tentar completar o seu programa, sujeitando-se à fúria soez e demencial de um grupo de profissionais habituados a regalias sem paralelo no Estado e constituído por indivíduos maioritariamente sem espírito de missão – grande parte deles sem qualquer vocação para o ensino, o que também explica os fenómenos de pânico com uma avaliação que os poderia expor como incompetentes.

Moral da história: a História da Educação em Portugal não gastará uma linha com Louçã, mas vai ter lugar para Maria de Lurdes Rodrigues.

22 thoughts on “O lugar da ministra da educação”

  1. Este Val é um fenómeno. Enviei, há uns tempos, um comentário a um post sobre um qualquer assunto, post aonde, como é hábito, Sócrates era vergonhosamente bajulado: o habitual. O comentário em questão era o seguinte: “Ora aqui está – outra vez – ao que venho quando procuro a Aspirina B: a inteligência da análise e não o sabugismo seguidista; uma atitude adulta e não o adolescentismo blogosférico idiota; a crítica culta e elegante e não o trambolhismo intelectual. A minha sincera admiração e uma palavra de incitamento”. Pois não é que o Val me responde todo feliz: “Vieste ao sítio certo”.
    Em relação ao post agora em questão, só quero dizer, ora aqui está – outra vez- ao que venho …

  2. Acho extraordinário que alguém consiga ter a paciência de ler mais de 200 comentários em blogue alheio para fazer um post em que se dizem tamanhos disparates, como essa dos privilégios.

    Mas acaso eu sou ou fui da administração da PT só por ter feito um site para a campanha do grande líder?

    Nossassenhora, o delírio!

  3. j. almeida, continuas no sítio certo.
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    Paulo Guinote, o que achas extraordinário, ou deixas de achar, não é o tema mais interessante do mundo. O que é extraordinário é teres escrito um comentário que é incompreensível. Estás a falar do quê?

  4. Tivesse tido este país, desde o 25 de Abril, 3 ou 4 ministros da educação da têmpera de Maria de Lurdes Rodrigues e seguramente teriamos hoje outro país e outras gentes!

  5. Caro Aniper, lamento, mas infelizmente está enganado.Não há ministro que resista ao sistema corporativista,de que é exemplo o Sindicato dos professores que é normalmente suportado pela oposição. Este Sindicato é o principal responsável pela degradação actual do ensino, pois nunca permitiu ao longo de toda a sua existência qualquer reforma e esta ministra apesar da sua coragem e pertinência naquilo que pretendia foi «devorada», apesar da sua capacidade de luta. Na pasta da educação alguma reforma minimamente aceitável só seria possível com um apoio bastante alargado entre todas as forças políticas, mas isto será sempre pouco provável, porque neste país acima de se resolveram os seus reais problemas, estarão sempre os dividendos políticos.

  6. A direita tem a sua teima na escola. A escola pública vai peredendo a sua força, iste o límite verdadeiro e fondamental hoje em dia emtre direita-esquerda, concordo com que a escola pública pode fazer a diferença, embora estase cada vez mais a revalorizar a privada.A esquerda tem de dar a batalha.
    Acho que é básico dende a esquerda o tema, faltaram-me dados para compreender porque Louça discorda dessa ideia, não acredito.

  7. Maria de Lurdes Rodrigues foi para mim a melhor Ministra da Educação de sempre em Portugal. Tentou meter nos eixos os vários professores que não se conformaram em perceber que estão ali para servir a causa pública e nunca os seus interesses. Não há ministro que resista com as corporações que gostam do quanto pior melhor. Os partidos que mais deviam de lutar para que a escola pública seja um exemplo, remetem-se a obstruir tudo que seja para o bem. Ver o PC, Bloco de Esquerda e Verdes a seguir esses sindicatos e corporações dá pena. Sei que eles vivem das confusões e obscurantismo para terem uma clientela, que são os votos. Enquanto caminharmos assim não saímos da cepa torta. A direita ainda se compreende, quer a privatização da escola pública. Um dia quando a mama secar e os professores para conseguirem emprego vão ver o que é o privado. Gostam, é de estar onde não há quem mande e tudo ao monte e fé em Deus.
    Por isso repito o que disse em cima. Para mim não houve melhor Ministro/a que Maria de Lurdes Rodrigues.

  8. Isso para não falar do inenarravel Vidal do 5 dias que escreve um post a protestar contra o titulo do livro, pois a alimaria vê na expressão “fazer a diferença” uma negação da missão igualitaria da escola…

    A esquerda perdeu completamente a noção da sua missão neste assunto. Isto é que é triste. Isto é que é revoltante.

    Incapacidade de compreender que a “diferença” consiste, neste caso, em redistribuir as capacidades e as qualificações, por forma a que os menos favorecidos possam de facto enfrentar a vida (a começar pela vida profissional, mas não so) em condições de igualdade, em vez de terem de se sujeitar àqueles que, até hoje, monopolizaram injustamente e de forma arbitraria o exercicio de responsabilidades e que, diga-se por sinal, falharam redondamente, tendo-se revelado completamente incapazes de produzir outra coisa do que um sistema de casta em que os mais ricos vivem como parasitas, chupando os dinheiros publicos : quer os da administração, quer os dos subsidios, quer os da corrupção, sendo que nesses três casos sera sempre o povo a ter que pagar a conta, mais cedo ou mais tarde, no dia em que voltar a ser necessario dividir uma sardinha por dia.

    No que toca à educação, e ao apoio idiota a reivindicações corporatsitas que não passam de uma recusa liminar em aceitar uma reforma da educação com base na avaliação dos resultados, a esquerda “dura” traiu a sua missão, traiu os seus ideais, traiu a sua base popular.

    Comportou-se como os partidos fascistas, que se apoiam na média burguesia para contratar capatazes cuja missão é fazer com que o povo se mantenha quedo e mudo.

    Quanto a mim, se o BE ou o PC não tivessem assumido esse tipo de posições aberrantes, o mais provavel seria não ter votado no PS, como votei e como continuarei a fazê-lo enquanto os nossos Mao Zedongs de café central insistirem em confundir proletariado e pequeno mandarinato.

    Isto é contraproducente, é estupido, é falta total de visão.

    Mas é também uma forma perfeitamente revoltante de cuspir em cima do povo e dos pobres, ou seja daqueles que verdadeiramente precisam de igualdade.

  9. Caro JV (João Viegas?) agradeço-lhe o seu comentário com o qual concordo em absoluto em especial com este último em que alarga a sua correcta e penetrante análise do problema ou dos problemas da educação em Portugal.
    Quando me referi a “3 ou 4 ministros da Educação da têmpera de MLR” não considerei devidamente a circunstância de na nossa terra (da qual já os romanos diziam ser ingovernável) tal hipótese não passar disso mesmo: uma simples e inverificável hipótese, pelas razões que tão bem e tão dolorosamente analisa nos seus comentários! Digo isto porque ao longo da minha vida, o meu coração e a minha razão sempre esteve à esquerda do PS, até ao momento em que não tive outro remédio senão render-me à evidência de tudo quanto o meu amigo refere.

  10. …e no entanto, algo mudou na escola pública, por infimo que seja, após a passagem de Maria de Lurdes Rodrigues pelo Ministério da Educação: na consciência colectiva e nos privilégios de uma classe.
    Pagarão caro, no futuro, os professores e os restantes funcionários públicos o sindicalismo desabrido de um comunista ortodoxo. Não se conhece um único País liderado por ideologias utópicas, que seja viável.
    Acreditar na autarcia de um Portugal liderado por comunistas, não abona nada em favor da inteligência de uma classe tão qualificada com a dos professores.

  11. Cara(o) ANIPER,

    Não fui eu que escrevi o comentario assinado jv, mas pouco importa. Salvo erro, estamos os três a dizer substancialmente a mesma coisa. O meu comentario (que não lhe era dirigido) saiu um pouco mais virulento, so isso.

    Boa continuação.

  12. A agenda dos professores durante o consulado da Mª de Lurdes Rodrigues não teve nada a ver com qualidade da Escola, com prestígio da profissão docente, com nada do que devia interessar. Foram tiros nos pés atrás de tiros nos pés. Foram energias gastas a combater a mudança, em vez de energias gastas a ajudar a uma boa mudança. Foi uma histeria estremunhada sancionada por uma oposição oportunista.

    Ninguém de boa fé pode dizer que as mudanças não eram urgentes. Então porque é que, desde a primeira hora, estiveram sempre contra tudo? Claro que houve asneiras da parte de Mª de Lurdes Rodrigues. Algumas delas são tão incompreensíveis que só me ocorre dizer que foram sopradas por submarinos interessados em pôr em causa o que ia sendo decidido.

    ….

  13. O que é revoltante, mas absolutamente revoltante, é que uma classe profissional que se encarrega (ou devia encarregar) de formar as próximas gerações se comporte como funcionários de repartição, preocupados com o seu umbigo, com a mediania que a todos protege, esquecendo completamente qual a missão, e deixando-se manipular da maneira mais abjecta. Mas é uma consequência da falta de ligação que têm à escola, aos alunos, aos pais. Porque é que haviam de a ter, quando tudo o que lhes interessa é decidido por uma estrutura gigantesca e impessoal em Lisboa?
    Esta estrutura educativa é uma aberração. Todos sabemos quais os resultados dos grandiosos “planos quinquenais” na antiga União Soviética, e no entanto continuamos a tratar a educação como algo que pode ser planeado e gerido a partir de um centro. Não pode. São demasiados funcionários, demasiados professores, demasiadas realidades e especificidades locais, é um alvo demasiado fácil e suculento para interesses puramente políticos. Quem tem as melhores condições para decidir como organizar a escola, que professores contratar, que condições oferecer, são as estruturas locais. Gostava de ver o Mário Nogueira a fazer as mesmas fitas se do outro lado estivesse um presidente da câmara, com a população do seu lado, preocupados com os resultados nos exames nacionais. Como dizia o Maradona aqui à uns tempos, e com o qual concordo completamente, a avaliação dos professores é simples: há um director de escola. Esse director decide quem são os professores competentes, e promove-os. Os incompetentes, despede-os. Responde, apresentando resultados, perante os principais interessados – os pais. Como acontece em qualquer estrutura que se preze. Como acontece, por incrível que pareça aos nossos funcionários educativos, nos colégios privados.
    É que há um ponto que acho que os professores e respectivas estruturas sindicais não estão a ver bem: enquanto andam às turras com quem os quer ajudar a oferecer um ensino de excelência, há quem ofereça uma solução simples, e cada vez mais procurada por quem se preocupa com o essencial, e tem meios para o fazer. Basta ver aqui, aqui e aqui, entre muitos. Crescem como cogumelos, porque há cada vez mais procura. Já não estamos a falar dos tradicionais colégios de elite. Estamos cada vez mais a falar de classe média pura, que adere, muitas vezes com esforço, a locais que sentem que a vocação é a correcta: os filhos deles. É o meu caso, por exemplo, com grande pena minha, que sempre desprezei elitismos e condomínios fechados. Mas que escolha tenho? Sujeitar a educação dos meus filhos a uma escola onde os professores são todos “iguais”, tanto faz um como outro, mudam constantemente, não há o mínimo critério na sua contratação e manutenção, e ainda por cima permanentemente em conflito? E que, como bem diz o Val, muitas vezes não têm a mínima vocação, sendo papável a exasperação por terem de lidar com miúdos? Basta-me ouvir as histórias de horror da minha vizinha de baixo, que caiu na asneira de inscrever as filhas na primária pública. E verificar as diferenças de nível entre os nossos filhos de idade semelhante. Enquanto puder, não obrigado. Nem que tenha de sacrificar tudo o resto, vão ter uma educação digna desse nome.
    E de referir que estas novas estruturas não se limitam a captar alunos de pais como eu, mas captam também os melhores professores, criando um círculo vicioso que será cada vez muito difícil de quebrar uma vez imposto. Porque se a educação pública é vista como inferior, e a privada é cada vez mais acessível, não tenham grandes dúvidas sobre o que sucederá – o mesmo que já sucede com a saúde. O que significa que haverá, cada vez mais, duas classes de cidadãos: os que podem comprar uma educação de excelência para os filhos, e os que não podem. Graças aos sindicatos e ao BE, do lado dos professores, e à direita retrógrada, que alegremente ataca o programa Parque Escolar (que, coincidência ou não, aproximou as condições da escola pública à oferta dos privados), essa é uma realidade cada vez mais presente. Era esse o objectivo? Se era, os meus parabéns, a estratégia tem funcionado lindamente.

  14. Caro(a) Aniper, só agora aqui cheguei e confirmo que o meu jv, não tem nada a ver com o comentarista João Viegas, que é alguém que escreve com muita qualidade e com quem normalmente estou de acordo.
    Lamento a confusão, mas penso que ando por aqui há mais tempo, apesar de ultimamente ter aparecido pouco.
    Um abraço aos dois.
    JV

  15. Pingback: V9 at Aspirina B
  16. Ó Qualquer um

    Mas a voz da classe funcionária? Pois que faz esta?
    Será que falamos da mesma? Oube, sempre que quero uma informação ao telefone, obrigam-me a percorrer a instalação telefónica toda do organismo funcionário. Se vou ao balcão, exibem com orgulho como sabem manuesear a «pega» das senhas, mas responder, tá quieto, ó bicho.
    Se telefonas para o gabinete do primeiro miistro, dizem-te para onde estás a telefonar, e insistem em não te dar a informação. Ainda assim lá ta dão depois de mandares uns berros, mas como dali só vêm petas, tens de ir confirmar a informação noutro sítio.
    Se ligas para Belém, a azáfama ou trabalho em cuidar dos cavalos é tanta que ninguém te atende.

    Portanto, que VOZ é essa? Que fazem os funcionários públicos? Jogam pinga – pongue, meu, espreitam aumentos, mandam vir com o INE, olham pró «embigo» e marimbam-se pró resto. Tás a ber?

  17. Ó Vicentina,

    Aqui entre nós, há professores e professores e em Portugal há com cada trolha a ensinar pá, que te digo: deixa lá Milú em paz, cascar nesses gajos, que os tipos decorararam um livro e não saíram dali. Tás a ber?

  18. Dia 19 de Julho:
    “A Câmara Municipal de Paredes, liderada pelo social-democrata Celso Ferreira, decidiu atribuir, após voto unânime do executivo municipal, a Medalha de Ouro do Município à Ex-Ministra da Educação, em Sessão Solene a realizar na próxima segunda-feira, 19 de Julho, pelas 11 horas, no Salão Nobre da Câmara Municipal.”
    É assim que os autarcas demonstram que estão ao serviço do povo e nunca dos partidos. Celso Ferreira não se importa com as críticas de quem votou nele quando se tem que fazer justiça. A não ser que seja um socialista disfarçado de social-democrata. O seu a seu dono. O Mundo e o Tempo demoram a reconhecer o valor de quem defende a causa pública. Mais vale tarde que nunca. Os fazedores de opinião roem as unhas por tal atitude, mas descansem que não lhes vão faltar oportunidades para ficarem sem elas. Foi assim com Correia de Campos, Manuel Pinho, hoje, Maria de Lurdes Rodrigues e vai ser com muitos mais. O povo pode ser míope mas não cego ou será que a população do concelho de Paredes gosta do quanto pior melhor. Se os professores não estivessem de férias arranjavam maneira de fazer uma manifestação e atirar com ovos podres a Celso Ferreira. Quem não é por eles…!

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