O jornalista chave na mão

Though this be madness, yet there is method in’t.
“Hamlet”, William Shakespeare

Não frequentar o bas-fond político-jornalístico, não ter actividade partidária e ser um displicente e distraído consumidor da actualidade permite-me manter uma ignorância que liberta a imaginação ingénua. Assim, ingenuamente, imagino que o Ricardo Costa se dá, ou deu, intimamente com Sócrates. Imagino que já se embebedaram juntos, adormecendo ao lado um do outro. Isto porque o mano Costa não perde uma ocasião para mostrar que conhece Sócrates de gingeira e de outros Carnavais. A forma que encontrou para transmitir essa informação consiste em anunciar que Sócrates é uma fraude e a causa da maior parte dos nossos males. Por exemplo, em 2009, numa entrevista feita do princípio ao fim em modo febrilmente acintoso, o mano Costa atirou a Sócrates esta pedrada: “O BPN é seu.” Temos de reconhecer que é uma brilhante ideia, mas não será igualmente uma manifestação da tal loucura shakespeariana que é puro método de assassinato de carácter, entre outros objectivos na agenda?

São muito poucos os que já tiveram, e alguma vez terão, o poder de escolher as parangonas do Expresso. Quando um desses ilustres se decide por uma coisa como “Processo de venda dos Mirós começou no Governo PS” podemos ter a certeza de que o ilustre está a contar com a constância das leis da gramática. A transitividade dos termos é perfeita, sendo que a mensagem que se pretende espalhar é a de que o “Governo PS começou o processo da venda dos Mirós“. E qual a relevância dessa informação, e independentemente da sua veracidade e exactidão, ao ponto de aparecer como a principal escolha editorial? Para o Expresso, o caso da semana era o das pinturas de Miró e a parte mais importante do dito estava na atribuição de uma responsabilidade primeira ao Governo anterior. Tal como já escreveu a Penélope, o exercício pretendia ilibar o actual Governo que, coitado, não só andava a arrastar um Memorando que não assinou, que não reconheceu como idêntico ao seu programa de desmantelamento do Estado social e que nada fez para que ele nos caísse em cima das cabeças e da carteira como, coitadinho, ainda tinha de suportar vitupérios por cumprir o que os malvados socráticos tinham planeado fazer. Quanto às ilegalidades agora cometidas, ao desvario da decisão e à cumplicidade de Cavaco com mais uma prova do abandalhamento do Estado, tudo para segundo plano ou debaixo do tapete. Como acontece quase sempre quando as difamações e calúnias são feitas em órgãos de comunicação ditos de referência, missão cumprida, Ricardo.

A sátira que o mano Costa se sentiu obrigado a fazer para responder à defesa de Sócrates, Teixeira dos Santos e Gabriela Canavilhas, pelo menos, não passa de mais um ataque ad hominem embrulhado numa processo de intenções à la Feira das Galinheiras. Aproveita para malhar com gosto nos exercícios de memorização, contextualização e explicação a que Sócrates se dedica enquanto comentador e reforça o estigma: Sócrates é um mentiroso, para além de incompetente, que nos tenta impingir uma narrativa de maravilhas passadas ou esconde as suas responsabilidades na crise atrás da fórmula “o mundo mudou”. Não contente, o mano Costa resolve pensar pelas cabeças de todos aqueles que apanha pela frente, e, de repente, decreta que os Mirós estão umbilicalmente ligados a questões tão vastas ou pícaras como o tamanho da fraude no BPN ou a boataria acerca do falatório em conselhos de ministros. Culmina com uma típica falácia de irrelevância, fazendo alusão ao processo da privatização da TAP. Em suma, o seu texto é factualmente contraditório, é intencionalmente derrisório e aparece num espaço de opinião, não de estatuto editorial, o que o livra da obrigação (ou da tentativa) de ser intelectualmente honesto. Estamos perante um acto político.

Mas qual é o maior interesse, se é que algum, deste episódio? Quanto nos metemos no meio de uma briga para tentar separar os envolvidos corremos o alto risco de parecer estarmos a favorecer ou proteger só um dos lados – e, portanto, a sofrer represálias da parte que estava a ganhar ou que queria consumar a tareia. Falando por experiência própria, os infelizes que quisessem retirar do que escrevi entre 2005 e 2011 aquilo que pudesse ser catalogado como apoio às políticas do Governo iriam ter de se esforçar muito, muitíssimo. No entanto, tal não impediu que fosse incluído na lista dos avençados do “Gabinete onde se usavam técnicas dos serviços secretos”, pago para invadir as mentes da populaça a partir de um blogue lido por meia dúzia de maduros, a maior parte dos quais por afinidade prévia e os restantes para chafurdarem no ódio. O mero protesto contra a baixa política e cultura de golpadas a que se resumiu a luta da direita contra os Governos PS, sintetizada na diabolização de Sócrates, era o que bastava para ser alvo da cegueira e raiva tribal de que também se faz a experiência política, tão mais intensas e violentas quão menor for a literacia e a maturidade cívica. Neste episódio do mano Costa ressurge essa pulsão de obcecado antagonismo onde o adversário e a sua honra e palavra não merecem qualquer respeito. É a mesma lógica, explorada como nunca se tinha visto antes em Portugal, que levou à espionagem de um primeiro-ministro e à exploração das suas conversas privadas. Sócrates queria usar a PT para comprar a TVI e assim conseguir calar a Moura Guedes e abafar o Freeport, rezava a patranha que envolveu magistrados, políticos e jornalistas. Que não o tivesse ainda feito, e que fosse absurdo, mesmo inviável, que o conseguisse fazer era o que menos incomodava os autores da manobra – pelo contrário, quão mais fantasiosa e escabrosa fosse a suposta ameaça mais poder caricatural teria na opinião pública.

Ricardo Costa pode ter as suas idiossincrasias a funcionar a todo o vapor no que respeite à relação pessoal com Sócrates e que seja muito feliz com elas, mas quando as expressa profissionalmente, seja como director de um órgão de comunicação social ou como publicista, então o seu papel é maior do que ele próprio. Em Portugal não há o saudável hábito de vermos os editores a assumirem as suas preferências políticas. Em simultâneo, os gostos ficam obscenamente a descoberto em cada hierarquização e alinhamento das notícias e em cada elenco de comentadores seleccionado. O interesse deste episódio, portanto, está na exibição das malhas que o império tece. Um império que continua a manter Sócrates na berlinda por estarmos perante uma proposta irrecusável para certo tipo de jornalistas: qualquer um que queira lucrar, e dar a lucrar à oligarquia, encontra um espaço mobilado e pronto a usar de onde pode fazer tiro ao boneco sem receio de qualquer represália. São os jornalistas chave na mão.

16 thoughts on “O jornalista chave na mão”

  1. Val, que dizer mais…?!?
    O que eu “sinto” é que com o regresso da presença de José Sócrates no espaço público [a chatice de aparecer no canal público, todos os domingos !] já se recomeça a lançar as redes para manter excluído “o mentiroso” do universo dos “honestos” ! Mas nada poderá parar o que tem de ser… E o que tem de ser é o reconhecimento dos portugueses pelo grave engano em que incorreram ao deixar cair o governo que apresentou o PEC IV! Lá chegaremos…!

    Entretanto, deixo a publicidade sobre uma conferência a ter lugar AMANHÃ no ISCTE, 17H00, “Politicas Públicas – O Papel do Estado na Sociedade Contemporânea”, com JOSÉ SÓCRATES!

  2. manobras de diversão. e de restauração de algum amor próprio, depois de ter de dizer menos bem de algumas atrocidades óbvias deste governo. Em todo o caso, isto não é jornalismo, embora já escasseiem as memórias do que possa ser.

  3. isto, sim,
    http://www.publico.pt/economia/noticia/as-rifas-do-fisco-e-a-governacao-rasca-1623148
    A rifa do fisco que acaba de ser anunciada pelo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, onde são sorteados carros topo de gama entre os consumidores que incluam os seus números de identificação fiscal (NIF) nos recibos das suas compras, é mais um exemplo perfeito da forma como funciona o Governo PSD/CDS: qualquer truque é aceitável desde que proteja os mais ricos, permita um golpe de propaganda populista e distraia as pessoas dos seus verdadeiros problemas, acenando-lhes com benefícios futuros que nunca vão conquistar.

    É evidente que o preenchimento de milhões de recibos com o número de identificação fiscal no momento do pagamento constitui uma perda de tempo considerável para comerciantes e clientes. A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) protestou aliás contra a medida, tendo estimado que ela represente em 2014 uma perda de 130 milhões de horas de trabalho para os seus associados. Mas o Governo não se incomodou com essa circunstância porque os inconvenientes e as perdas resultantes da medida recaem sobre a sociedade e as vantagens do golpe propagandístico serão colhidas pelos partidos no Governo.

    Quais são as vantagens? Uma falsa aparência de combate à evasão fiscal e uma imagem moralizadora. Porquê falsa? Porque os grandes evasores fiscais são as grandes empresas e não os pequenos comerciantes, como toda a gente sabe, como os especialistas não se cansam de alertar e como as organizações internacionais que combatem a corrupção e a evasão fiscal denunciam. E porque os grandes responsáveis pela evasão fiscal são precisamente os governos. De que forma? Através dos tratamentos de excepção que concedem às grandes empresas e aos grupos financeiros em particular [1], com o argumento de que é necessário ser “fiscalmente competitivo” para atrair investimentos e para que as empresas possam “criar empregos”. Com a autorização de paraísos fiscais como o offshore da Madeira e todos os outros que existem na União Europeia e fora dela e fechando os olhos às falsas “deslocações” de empresas para a Holanda e para outras plataformas de lavagem de dinheiro.

    Mas é mais útil criar a ideia de que os comerciantes são os responsáveis pela fuga ao fisco, que é principalmente através do IVA que isso acontece, que os consumidores devem agir como fiscais das finanças e que o Governo é um campeão da luta contra a evasão fiscal.

    A medida é moralmente retorcida por outras razões. Seria lógico e louvável que o Estado (que é uma coisa diferente do Governo, ainda que este, ilegitimamente, se apodere do património do Estado como se fosse seu) lançasse uma campanha promovendo a moralidade do pagamento de impostos, que são a base do financiamento dos serviços públicos, e incentivasse os cidadãos a cumprir as suas obrigações fiscais. Mas é impossível fazer isso quando o Governo usa o Estado para roubar os cidadãos e os submete a uma carga fiscal imoral para arrebanhar dinheiro para pagar aos bancos uma dívida insustentável que deveria ter renegociado. De facto, o Governo não pode usar um discurso moral sem que o país inteiro se escangalhe a rir na sua cara e, por isso, a única forma que encontrou para dizer aos cidadãos que devem pagar impostos foi dizer-lhes que com isso podem ganhar um carro. É a mais venal das razões, mas essa é a única moralidade que os membros do Governo conhecem.

    Há ainda outra razão imoral escondida: o bando que ocupa o Governo tem uma dificuldade de raiz ideológica em construir um discurso em torno de conceitos como comunidade, bem comum, serviços públicos ou património público e, por isso, prefere incentivar o pagamento dos impostos através da possibilidade de um benefício pessoal. Benefício pessoal é algo que eles percebem.

    E porquê o carro “topo de gama”? Porque não simplesmente um carro ou dez carros? Porquê este conceito antiecológico que até fez a Quercus dar prova de vida e vir a terreiro contestar (e propor um carro eléctrico)? Porquê? Porque estamos a lidar com o PSD e o CDS, meus senhores, e não se pode pedir a uma rã que cante Schubert.

    Isto do Governo tem-se vindo a degradar nos últimos anos e hoje temos no Governo a maltosa dos carros “topo de gama”, o novo-riquismo em todo o seu esplendor, o novo-raquitismo mental, analfabetos com botões de punho a condizer, monogramados. Para um jota não há maior glória que parecer um catálogo “topo de gama” e aparecer em revistas. Para um jota isso é a felicidade. Porquê a rifa do carro “topo de gama”? Porque os jotas pensam que qualquer um pode ser comprado com um carro “topo de gama” porque qualquer um deles se venderia exactamente pelo mesmo preço. O carrito “topo de gama” é o alfa e o ómega da carreira de um jota que se preze, é o simbolo de quem triunfou na vida, de quem é “alguém”, caraças! Pai, já sou ministro! Pai, tenho um carro “topo de gama”! Como os relógios e as marcas das camisas e os óculos “topo de gama” e tudo “topo de gama”. Chegámos ao cume da governação rasca. Saiu-nos na rifa mesmo sem dar o NIF. É preciso ter azar.

  4. antes de abril,havia casa legalizadas de prostituiçao.salazar como só f… às escondidas e na sua residencia oficial,resolveu acabar com essas casas, quando eu contava os anos para lá ir.sei que elas faziam o seu trabalho muitas das vezes com sacrificio ao ver na sua frente o estilo do cliente.isto tudo, para dizer que há gente noutros ramos de actividade que à beira destas mulheres são uns farrapos humanos. prostituem-se não para ganhar a vida,mas para agradar ao chefe mais o seu clã partidario.para eles vai o meu sonoro bandalhos!

  5. Quem confessou na famosa comissão de inquérito PT/TVI,
    que era ou tinha sido tu cá tu lá com José Sócrates foi o
    anterior diretor do Expresso, o torturado monteiro que
    últimamente, se saíu mal numa crítica ao livro da tese do
    ex. P. Ministro pois, levou com o contraditório e, veio com
    umas desculpas esfarrapadas de uma consulta mal feita!
    O caso do ricardo bosta, é só a necessidade de mostrar
    serviço porque o princípio de Peter há muito que o alcançou!!!

  6. Hoje, na TVI24, Constancia Cunha e Sá fez as perguntas que ainda não ouvi a ninguém, nem à Gabriela Canavilhas, nem a Sócrates: quando sairam os Miró do país? Como sairam? Quem autorizou e quem os entregou à leiloeira britânica? Ou a leiloeira veio cá, carregou-os simplesmente, e levou-os como se fosse contrabando?
    E agora pergunto eu: a leiloeira ter-se-a apercebido do “contrabando” e cancelou tudo quando soube do alvoroço em Lisboa?
    Seja como for, por aqui se vê a completa nulidade da actual oposição. Perguntas simples, como estas que fez a Constância, e nem era preciso apresentar documentos a provar quando se iniciou o processo de alienação, porque a actuação ilegal e criminosa sobrepusera-se a tudo. Nem o Ricardo Costa teria a oportunidade para o seu golpe de jornalista de sarjeta.

  7. o henrique monteiro,esteve durante anos a cobrir as atividades do ps na assembleia da republica.tratatava por tu uma boa parte dos deputados.serviu-se dessa função e desse convivio diario,para mais tarde meter a faca a josé socrates com a historia das pressoes.resumindo: um “pulha “que cuspiu no prato onde andou a comer!

  8. as más línguas dizem que os originais estão penhorados e nunca estiveram em portugal, o que circulou por aí foram fotocópias e facturas para iludir o investidor, enganar o fisco e pagar divendos aos accionistas, tipo família cavaco.

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