O Inferno deve ser bué da grande

Um evento que tinha tudo, até o melhor discurso do Pacheco Pereira de que há memória, para ficar como referência da resposta da comunidade à degradação imposta pelo pesadelo laranja, acabou dando azo aos trastes para se defenderem atacando Soares por apelos à violência. Tentar explicar aos tribalistas que o problema não está nos atacantes, que se limitam a aproveitar uma oportunidade de ouro, mas em quem não cuidou de evitar o erro crasso onde se ia enterrar é tarefa inglória. E eis que o acaso quântico, ou a intervenção do Espírito Santo, lança para a fogueira o combustível papal. Também o Chico do Vaticano anda por aí a falar em violência, aleluia meu irmão, logo a Magnum soarista está abençoada.

Este é um daqueles momentos em tenho de usar de muita cautela para não perder o respeito intelectual por muita gente que admiro. Vou pois agarrar-me a alguém que não admiro intelectualmente, o Daniel Oliveira. Não o admirar nesse domínio significa que não tenho curiosidade por saber que livros lê e quais são os seus realizadores de cinema favoritos, por exemplo. Mas tenho por ele uma admiração social e política, pois é alguém que pelos seus méritos de comunicador alcançou notoriedade e influência na indústria da política-espectáculo e, ainda mais importante, é alguém que promete coragem cívica na defesa da democracia e da liberdade.

Pois bem. Este marmanjão assinou por baixo as palavras do papa – O apelo à violência do Papa Francisco – só para poder dizer não sei o quê a Portas e ao CDS. E saiu-se com esta:

o meu texto de hoje é este. Assinado pelo Papa Francisco, na sua exortação apostólica “Evangelii Gaudium” (“A Alegria do Evangelho”). Subscrevendo mais umas partes do que outras, deixo este excerto aqui para aqueles que, tendo rasgado as vestes contra supostos apelos à violência, possam agora atacar o Papa Francisco.

Sim, estamos num registo primário. E de gargalhada. Alguém que sempre lutou para impedir que uma autoridade religiosa influencie politicamente uma sociedade secular de repente já a valida apenas e só porque lhe dá jeito. Isto devia chegar para que o escriba detivesse a tempo o dedinho que usou para mandar o texto para o jornal, pois há mínimos de respeito próprio apesar dos exemplos dos nossos governantes. Mas o caso é mais agudo no que à desonestidade intelectual diz respeito, e, por isso, ainda mais hilariante. É que enquanto Soares discursou a partir da cidade para a cidade, transportando o seu legado político e institucional – de que somos devedores – para projectar a voz que pedia acção adentro de um regime constitucional definido, de um Estado de direito vigente, de um quadro partidário legitimado e de uma sociedade contextualizada, o estimado Francisco falou a partir de uma certa crença mitológica, de que se arroga benignamente ser o primeiro interprete ou último decisor, e a economia das suas mensagens apenas é suposto ter eficácia garantida no conjunto dos fiéis dessa particular religião. Pior para o que à comparação diga respeito, o seu discurso é relativo ao capitalismo como sistema económico que não tem fronteiras, cabendo tudo e mais alguma coisa na crítica do Bispo de Roma – portanto, nada nem ninguém se identificando.

Francisco fala do bem e do mal, de países e povos não nomeados e termina, no trecho que o Daniel propõe à leitura dos brutos, a dizer que

os excluídos veem crescer este cancro social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes.

Onde é que já ouvimos coisa parecida?… deixa cá pensar… Ah, heureca! Foi, é, nos populistas de qualquer origem e destino. Este é um discurso apropriado aos tempos de crise que vivemos, claro, mais um desses discursos que não servem para nada a não ser para dar mais alimento a outros populistas. E podemos fazer o teste: de que países e Governos e empresários e instituições está o santo padre a falar? Não fazemos puto ideia. E, se não podemos saber, para que serve esta conversa? Aliás, o que será a corrupção neste contexto evangélico em que se emite opinião política e social? Não será, para um católico, também essa coisa dos abortos e da paneleiragem, dos ateísmos e do deboche, das drogas e do adultério? Como é que podemos ter a certeza de que a democracia escapa ao libelo exalado pela Evangelii Gaudium? Questões a que o Daniel nunca irá responder, seguramente por falta de tempo.

Em Abril deste ano, Soares lembrou-se do que aconteceu a D. Carlos e resolveu enviar uma mensagem a Cavaco. Aparentemente, o actual Presidente da República não estaria com essa memória avivada, o que lhe poderia ser literalmente fatal. É que “por muito menos” tinham feito a folha ao outro, pelo que… pois é… quem avisa e tal. Imaginemos, portanto, que num dia destes o seu homónimo argentino Mário lançava urbi et orbi a seguinte bojarda:

Os ricos deviam lembrar-se da história da Inquisição. Por muito menos assámos carradas de hereges.

Que haveria para dizer a seguir? O recém-convertido às exortações apostólicas talvez nos pudesse ajudar na ocasião. Até lá, fica esta ideia: se de boas intenções está o Inferno cheio, então esse lugar tão concorrido deve ser bué da grande.

32 thoughts on “O Inferno deve ser bué da grande”

  1. estava ansiosa pela tua dissertação sobre a ponte do Soares sobre o Papa. e chegou!, enfim!, possante e bela e cheia de riso. :-)

    (só discordo no que não tenho de concordar ou discordar: não interessa saber dos livros e dos filmes de quem admiramos intelectualmente – interessa perceber como os digere e o que faz com a assimilação dos nutrientes. )

  2. Peço desculpa mas entendeu mal o texto do Daniel Oliveira e entedeu mal a celeuma que por ai vai com o caso Mario Soares.
    O Daniel Oliveira limita-se a apontar o ridiculo de quem rasgou as vestes, quando do mesmo lado se podem dar exemplos de comportamento semelhante. Hipocrisia much?
    Não vejo em que é que apontar essa hipocrisia corresponda a validar a autoridade papal ou sequer a mostrar concordancia com os ditames e crenças de uma qualquer religião.
    De resto o exemplo papal não é o único. Já Cavaco apelava á violencia de forma velada quando o governo não era do seu agrado.
    Tem no entanto alguma piada vêr o Nuninho de Melinho todo assanhado contra o Soares enquanto no background fazemos correr o discurso do papa…Democracia cristã o quê?

  3. O Daniel Oliveira não diz que o papa tem razão ou deixa de ter, nem foi convertido a nada. Tem aí um texto cheio de arrebiques e falhou-lhe o essencial.

  4. deixa a aldrabice e agarra-te ao tintol. nem soares, nem papa apelaram à violência, limitaram-se a avisar o que aí vem se continuarem com o liberalismo desenfreado. não é por acaso que os europeus com dois dedos de testa andam à rasca com marina caneta e as frentes nacionais e quando se fala nisto não se está a fomentar fascismo, xenofobia ou violência, está-se a tentar prevenir a merda que aí vem e que tu não queres ver. podes continuar a torturar o que foi dito e a retorcer palavras, que os únicos gajos que te batem palmas são os incendiários de direita, aqueles que dizem que os fogos com televisão, especialmente quando se usam 2 minutos de imagens para fazer um compacto de 1 hora.
    já o daniel valida o que dá mais jeito ao tio balsas, que é quem lhe paga os ordenados e o faz aparecer na caixinha, quando assim não for vai para a fila do iefp.

  5. “Um evento que tinha tudo, até o melhor discurso do Pacheco Pereira de que há memória, para ficar como referência da resposta da comunidade à degradação imposta pelo pesadelo laranja, acabou dando azo aos trastes para se defenderem atacando Soares por apelos à violência.”

    tásse mesmo a ver que foi por causa dos pêlos das violência que a direita não não pediu biz e o pacheco não saiu em ombros.

  6. Foda-se, algum dia havia de concordar com o Inacio. Quantos somos hoje, Sexta Feira 13 ? Ai não, afinal é 29. Também da.

    Com o 1° paragrafo, claro. O resto, as vossas guerras com os bonecos da televisão, embora saiba que para v. é sagrado, e respeite, vejo com mais distância.

    Boas

  7. “Também o Chico do Vaticano anda por aí a falar em violência, aleluia meu irmão, logo a Magnum soarista está abençoada.”

    leitura errada, meu! é pouco, o xico teria de pedir a demissão do cavaco para o soares ser abençoado. não te esqueças de tomar as gotas.

  8. Eu continuo a pensar que Soares se limitou a avisar que algumas das reacções ao beco sem saída onde nos encontramos poderiam ser violentas.
    Nunca apelou, convidou ou instruiu alguém pata que fosse por tal caminho.
    Também começo a pensar que talvez o devesse ter feito, assim ficou com a fama e sem o proveito de ter sido o primeiro a apelar à revolução armada contra os ultras dom liberalismo; logo ele que combateu a ditadura pela palavra e o PCP com manifestações, um pacifista como se sabe.

  9. “… pois é alguém que pelos seus méritos de comunicador alcançou notoriedade e influência na indústria da política-espectáculo e, ainda mais importante, é alguém que promete coragem cívica na defesa da democracia e da liberdade.”

    um sabujo do caralho, ele e a restante pandilha do eixo anormal, que se tem distinguido a levantar lebres de esquerda nas caçadas de direita que o balsas organiza nas coutadas da impresa. vê lá se o gajo diz do seguro 1/10 que seja do que disse do sócras, claro que não, o futuro pode passar por aí.

  10. Podes crer, Inacio, podes crer.

    E no entanto, são sempre os primeiros a deixar-se intrumentalizar estupidamente. Se fosse permitido saber quantos Pereiras, Sousas e Santos ha na Frente Nacional (e Gentiles, e Garcias e Ignasiakes), ficariamos bastante surpreendidos.

    Boas

  11. “… estaremos muito mal quando valupi precisar que um daniel oliveira venha em seu auxílio, carago.”

    adaptado de um comentário do val, lá para trás, sobre o mesmo assumpto

    na versão do oliveira, o papa é generalista e portanto pode dizer o que quiser desde que o alvo seja uma coisa indefinida e não se aponte o dedo a ninguém, não vá essa merda disparar um sabugo. já o problema do soares foi pôr nomes nas coisas que o chateiam, demissão do cavaco e do gang do coelho, tirando isso a “violência” em abstrato não faz mal a ninguém e até poderia ajudar a vender sacos de boxe.

  12. “E no entanto, são sempre os primeiros a deixar-se intrumentalizar estupidamente.”

    nota-se, malgré l’accent abéque

  13. Quando um Homem com quase 90 anos de idade,vividos com a paixão e intensidade conhecidas,já” meio lélé da cuca”,organiza um evento no qual reúne largas centenas de pessoas com sensibilidades diversas e profere uma intervenção desprovida de qualquer novidade,(limitada ao óbvio para qualquer mente minimamente esclarecida e conhecedora da História dos Povos),desencadeia as movimentações em curso de disfarce e distrações outras que mais nada são do que tentativas de construção de máscaras em cima de folha de couve,está tudo dito.
    Entretanto,organizado o baile,siga a música…

  14. (se a alusão à violência na democracia é a evidência suprema de que a política falhou redonda em um quadrado qualquer de tempo – a alusão à violência na religião é-o de igual forma: a religião católica tem-se revelado ineficaz e ineficiente no que concerne ao que, nos seus fundamentos, apregoa. cá temos um paralelismo interessante no que a falhanços diz respeito.)

  15. Gato Vadio, é bem possível que não tenha entendido o texto do Daniel. Mas repara que não será com o teu contributo que me conseguirás ajudar. Por exemplo, falas de um “mesmo lado” – de que mesmidade estás a falar? Qual é exactamente o paralelo que se pode estabelecer entre o Francisco e Soares, entre o Vaticano e Portugal? Explica lá, por favor.

    Depois declaras, e bem, que Cavaco também apelou à violência contra o Governo socialista. Com isto estás a reconhecer que Soares apelou à violência, por um lado, e estás a esquecer-te que estás em diálogo com quem deixou escrito logo em cima do acontecimento, e depois ao longo do tempo até hoje, a denúncia dessa infâmia de Cavaco. A hipocrisia não mora aqui, é ao contrário.

    Finalmente, se julgas que existe alguma correspondência entre o actual CDS e a democracia-cristã, tal só se pode explicar se tiveres estado ausente deste país nos últimos 20 anos.
    __

    Pedro, tens razão. O Daniel limita-se a dizer que assina por baixo o texto de uma exortação apostólica.

  16. E continua isto? Foda-se, deixa-te de merdas, estes crápulas há dois anos e meio que nos violam todos os dias, em clima de total impunidade, e estás preocupado com o soares ter dito que a violência está à porta? Estás preocupado porque os polícias subiram umas escadas? Só foi pena não terem entrado e partido aquela merda toda, a ver se estes cabrões ganhavam freio nos dentes e se se punha cobro à verdadeira violência de que somos alvo desde que os pulhas se alçaram ao pote. Hã?

  17. … achas que a delinquência e a irascibilidade e a anarquia são detalhes da vida de um povo na Cidade? pois te digo que neste momento mentes sãs é o mais importante a manter e promover. palavra de Olinda.

  18. É. Pois sim. Mentes sãs para combater um governo de canalhas e de traidores à Pátria. Pois claro. Palavra de …

  19. Ah, e quanto à condução, não te preocupes Val, tive de vender o carro porque já nem dinheiro tinha para a gasolina.

  20. vamos lá ver se nos entendemos, …: legitimar a compatibilidade da democracia com a violência numa de olho por olho e dente por dente é a premissa da tirania. eu também sofro tanto ou mais do que tu ou qualquer outro que cá vem comentar. mas esforço-me por respeitar aquilo em que acredito porque é comigo que vivo. e dizer, e fazer, a céu aberto (mesmo que seja em uma aula magna fechada) que não temos de respeitar quem não nos respeita é simplesmente falta de respeito próprio. é a desestrutura completa; é o sentido de justiça completamente alienado; é vender a alma aos desalmados.

  21. Okey Olinda, a ver nos entendemos então: quanto a mim, estamos perante gangsters, gangsters que estão a soldo de interesses estrangeiros e dos belmiros e soares dos santos cá do burgo; gangsters que fazem o que querem, quando querem e sobra-lhes tempo, com total descaramento e impunidade. O que é que tu achas que devemos fazer? Pelo visto, malhar no soares e nos polícias que, como tanto outros, estão desesperados e subiram uma escadaria. É isso, não é?

  22. porquê, ganhaste – ou ganharam – alguma coisa com isso? eu não. mas ganho esperança e orgulho a cada vez que deparo com água limpa. é que se os valores não sobreviverem, resta nada – são eles os alicerces de tudo.

  23. Ó rapazinho, ficaste tão transtornado da moleirinha com a aula magna que até já escreves palavras gregas ao abrigo do novo acordo hortográfico…

    Chama-nos burros, bate no céguinho até quereres, dedica a tua vida a esta causa (já que não escreves sobre mais nada desde que o cerebelo desligou), mas não penses que os teus argumentos conseguem seja lá o que for.

    Estás para aqui a gastar Latim (e agora até Grego hantigo) há vários dias e não houve ainda um único meco que tenha mudado de opinião sobre as palavras de Soares por causa da tua chinfrineira, que começa a ser insuportável.

    NINGUÉM AQUI DEFENDE A VIOLÊNCIA, encaixa isso na tola! Antes que ela se encaixe nalgum poste de helectricidade…

  24. Olha Olinda, ganhei esperança, quando vi aqueles gajos avançarem pelas escadas acima, ganhei esperança e de certo modo senti-me “vingado” por todas as atrocidades que passos e quadrilha andam a fazer ao país. E tenho a certeza de que não fui só eu a sentir isso. Há muita gente que começa a perceber que não se pode esperar mais. Que é preciso lutar contra estes filhos da puta e que contra filhos da puta que usam o cardápio completo das técnicas da malfeitoria, que não respeitam nada nem ninguém, enfim, pois, é preciso meter as mãos na merda.

  25. é isso mesmo, … Sob esse manto de bonitas palavras e nobilíssimos propósitos o que esse valerico pretende é manter incólume o status dos seus amigos instalados lá no parlamento que continuam a partilhá-lo com os tais traidores que tanto o indignam, que tanto destroem este país, mas que o Valetudo entende que em nome nao se sabe bem do quê, devem poder continuar a foder isto ainda mais, os selvagens do psd. a verdade é que estão todos debaixo do mesmo teto, do mesmo céu, que lindo. o Valerico sabe bem que a democracia é possível com outra gente e com outros partidos e com outras regras eleitorais que não privilegiem os do costume, isto é que o tolhe de medo, que outros que não os seus amigos, aqui se incluindo toda a escumalha dos restantes partidos, sejam capazes de fazer melhor democracia naquele parlamento. o Valerico com estes apelos a uma suposta inteligência quer apenas aguentar a coisa até chegar a sua vez de montar a gaja e se virem, eles e os do psd, do cds e os demais, para as fuças dela e fazerem daquele parlamento o enorme bukake que tem sido.

  26. Val, eu nunca disse que o Soares não apelou á violência , limitei-me a constatar que o rasgar de vestes da direita é uma tremenda hipócrisia para quem já teve a mesma actuação aquando o governo anterior. Nessa altura , o que Cavaco fez no seu famosos discurso do sobressalto civico era o quê ? Papas e bolos como pretendes que foi o discurso de Soares? Na minha interpretação apelou, e eu aplaudo, já me chega do politicamente correctinho, certinho bláblá blá.
    O facto é que se não sairem á bala, em 2015 não tens estado , não tens nada.
    É tempo de escolher a barricada.
    Neste sentido, quem anda para aí a tocar os sinos a rebate que vêem lá os agitadores da violência, que esteja calado porque têm nas suas hostes mais do mesmo.
    Quanto á democracia cristã do CDS é claro que a considero inexistente, o CDS é um partido de oportunismo tal como o PSD, podem levar os nomes que quiserem que as suas acções falam por si : cristo está metido na gaveta. Se dei outra ideia da minha opinião lamento, não me fiz entender.

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