Não há cobardia na loucura

Trump fez um raciocínio interessante na sequência do atentado em Manchester. Disse que não iria chamar “monsters” aos autores do ataque, e seus apoiantes, porque esse vocábulo os deixaria contentes, pelo que passava a tratá-los por “losers”. O interesse está na análise semântica ter vindo de alguém manifestamente incapaz de reflectir sobre o que está em causa no seu involuntário lampejo de relevância. Porque se no domínio psicológico se percebe o infantilismo de Trump, permanentemente reduzindo o mundo exterior a si próprio e aos seus códigos culturais, no domínio da gestão política e social dos atentados terroristas sobre civis importa pensar no vocabulário usado pelas autoridades que assumem os discursos públicos e institucionais na gestão e rescaldo das violências. Aqui, reina o chavão do conceito de “cobardia”. Uma “cobardia” inerente a qualquer ataque sobre civis, e que aumenta à medida que aumentar a fragilidade das vítimas de acordo com a sua idade.

Dá que pensar. Porque, nesta lógica, a “cobardia” ficaria atenuada se os terroristas escolhessem como alvos apenas indivíduos acima dos 65 anos, ou 70, ou 80, ou qualquer idade equivalente à velhice. Quão mais velho menos cobarde ficaria esse modo de matar alguém, de acordo com o pressuposto que remete para uma tabela, uma taxonomia da cobardia terrorista. Num outro plano, a escolha pelo conceito de cobardia surge como um refúgio consensual para evitar contaminações religiosas e clínicas. O cobarde não é necessária nem provavelmente alguém possuído pelo “mal”, tal como não é provável nem necessariamente alguém a precisar de diagnóstico e terapia psiquiátrica. Será outra coisa, aparentemente normal da Silva: um cobarde. E, portanto, como cobarde que é fez o que fez – matou-se para matar ou apenas matou quem pôde sem saber quem iria apanhar e estando preocupado somente com o grau de destruição e mediatização obtidos.

Creio que teríamos vantagem em mudar o automatismo de usarmos o conceito de cobardia como principal doador de sentido para os ataques terroristas sobre civis. Para começar, ele é absolutamente inútil como eventual prevenção para futuros assassinos nessa categoria. Depois, porque espalha nas comunidades atingidas um sentimento de impotência que acrescenta dano ao dano sofrido. De facto, se for a “cobardia” a explicação mais funda para o ódio alucinado que gera esses desastres, que se pode fazer? Vamos iniciar um programa de detecção e correcção de “cobardes”? Quando ouvimos e lemos os nossos chefes políticos, policiais e militares a tratarem como “cobardes” quem, do outro lado da barricada, é tratado como “mártir”, algo de perverso se espalha. A perversão de não querermos entender os processos mentais em acção naqueles que planeiam e executam este tipo de guerra sem linhas da frente nem retaguardas.

Seria preferível uma destas duas respostas, por exemplo: “Não sabemos porque nos atacam assim, mas queremos ouvir as vossas razões, ‘bora aí falar” ou “Alá, deus do amor, também foi atacado neste atentado”. Por exemplo. E, no entretanto, continuar a fazer os possíveis e os impossíveis para anular quem nos vai mesmo atacar apesar da sua tão infinitamente grande “cobardia”.

13 thoughts on “Não há cobardia na loucura”

  1. Uau ! Ou estas cansado, ou sou eu :

    1. O Trump não falou em cobardia, ou falou ?
    2. O que ele quer dizer, tanto quanto percebo, é que que chamar “monstros” aos terroristas é ja, de alguma maneira, conceder-lhes uma pequena vitoria (uma vez que o que eles querem é precisamente aterrorizar), o que ele prefere evitar, chamando-os antes “losers”, derrotados, porque isto corresponde completamente ao que eles são, e também porque o combate deles não tem qualquer hipotese de vencer (especialmente se não nos deixarmos impressionar). Não vejo mal nenhum nisso, antes pelo contrario.

    Logo, não percebo bem o que estas a dizer, nem como chegas à conclusão do ultimo paragrafo (que percebo e com o qual tendo a concordar). De certeza que não saltou uma parte do teu post ?

    Boas

  2. não , não saltou , mas tive de ler duas vezes também : a partir do losers ( que achou interessante) do trump filosofa sobre o “cobardes “dos outros que aparecem nos media . o fim é que não está com nada : dialogar ? tentar perceber ? psicologia barata ? isso é que é muito cobarde.

  3. This whole world’s wild at heart and weird on top.

    E isso Val, a utilização de “cobardia” não é inocente, da uma ajuda a normalização destes actos retirando-lhes a excepcionalidade, o que evita o reconhecimento que, como sempre, o terrorismo só tem solução política. Qual o politico que arrisca o pescoço a dizer a evidência? Nenhum.As sociedades modernas vivem nas 24 hour news e a narrativa foi desde o inicio formatada para a imensa mole de carneirinhos, existe o bem e o mal, precisando um do outro para a sua existência e teem que coexistir para ficar claro a demonstração de cada um. Se alguém dissesse o que propoes ou apontasse uma solução era…exactamente, tratado como um cobarde.

  4. Trump chamou “falhados” aos bombistas, para não lhe chamar “monstros”, o que eles considerariam um elogio.

    Mas pior que “falhados”, são é “invejosos” porque estão impedidos de serem felizes como eram as vítimas que eles mataram.

    Eu não sou feliz, tu também não serás…buuum!

    Mas aqui a culpa é dos ingleses, que venderam castelos e palácios para haréns de reis do petróleo, agora não adianta fechar o túnel, que já estão lá dentro os ovos para nascerem víboras suficientes.

    A ganância dos petrodólares!

  5. Ljubomir Stanisic
    23 DE MAIO DE 2017 ÀS 17:39
    O seu comentário aguarda moderação.

    Inscrições – Pesadelo na Cozinha – TVI
    http://www.tvi.iol.pt/outros/57430b510cf2cbd1df6f83d5

    Valupi, ontem disse-lhe que espêrrava por çí coraggio!
    A Farmácia do Aspirina Bar agora tem sempre dois cliêntes, o seu negóçío vai de mal a piorr e sabe que esta merrda preçísa de um lifting!
    Espêrro por çí e, sabe disto, oferreço-me parra tratarr do sêu caso…

    [Valupi, mais e mais trambolhices mas não há nada parra me dizerr ainda?]

  6. Mas chamar-lhes o quê ? Loucos, seria uma desculpabilização. Islamistas radicais: Mas radicalizados por quem e porquê ? Criminosos ? Mas não há quem cometa crimes sem motivo. Perdedores ? Mas de quê ? De uma guerra ? Mas afinal são combatentes ? Cobardes é a solução conveniente.

  7. podemos chamar-lhes filhos de Iblis , que é o que são . na tv os dirigentes ( escolham uns que sejam muçulmanos para porta voz) irão dizer :Iblis sussurra-lhes ao ouvido ” matem , matem , matem” e eles obedecem cedendo aos mais baixos instintos iblisicos , ofendendo Alá. para doido , doido e meio .

  8. estou completamente de acordo com a impertinência do uso da palavra cobardia para designar aquilo que demonstra ser a maior falta de empatia pelo outro, ou seja, onde desagua a doença mental. faz-se imensa confusão ouvir que o suspeito já era suspeito ou que andam atrás do suspeito que já andavam atrás – há aqui uma redundância de crime que mete nojo. quando prendem autores terroristas por que é que, de facto, não rastreiam a sua comorbilidade? isto permitiria aferir, antes de mais, o perfil psicológico e desenhar um padrão e, depois, perceber o desvio padrão do padrão para, talvez, se investir em uma estratégia de psicologia social.

    se culturalmente começássemos a perceber a importância da avaliação psicológica logo desde tenra idade, relevância do Hare ou do Rorschach, estou certa de que muitos crimes se evitariam.

  9. já estamos nas propostas de avaliações psicológicas aleatórias à população?
    para quando o departamento de prevenção de crimes baseado em inteligência artificial que analisa os metadados da nossa interacção nas redes sociais?
    que maravilhoso mundo se perfila…
    entretanto, que a unica solução para o terrorismo é política é a coisa mais acertada que aqui se leu.

  10. Mais uma vez tenho que dizer que concordo. É gostaría discordar que é mais interesante.
    Eu fez muitas vezes esta reflexão, embora não soube explicâ-la com tanta clareza, como também explica Olinda no seu comentario.
    Perante o tempo do terrorismo de ETA, escutava sempre o mesmo, porque são uns cobardes etc. agora também. Acho que a cobardía sería o mais desacertado comentario a fazer no caso. Porque um tipo que se imola, podemos chamar-lhe de tudo mas um cobarde, como tal não é. É absurdo seguir dizendo que o terrorista é um cobarde por não fazer a guerra de peito aberto e de frente quando neste século ja a guerra é feita de variadas formas e sempre contando com o sofrimento da povoação civil.
    Do Trump evidentemente não creio que podamos esperar não original nem no que diga nem no que faça.

  11. o terrorismo e a política são feitos de Homens, insónia brazão. e os Homens, alguns, são feitos de enfermidade mental. não sei onde foste buscar a ideia de que a avaliação psicológica é uma coisa má – pelo contrário, é forte indício de salubridade mental. é que quando as criancinhas são avaliadas e se descobre personalidades psicóticas ainda se vai muito a tempo de revertê-las.

    imagina como teria sido o Portugal de hoje se o Passos Coelho tivesse recebido esse presente em idade pré-escolar: o povo não teria sido chacinado e este governo não teria tanto que fazer. :-)

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