Na sombra dos inúteis

Antes dos incêndios de Pedrógão, os bons resultados do Governo estavam a deixar a oposição (a oficial partidária e a oficiosa jornaleira) em crescente e sofrido desespero. Como vimos noutras conjunturas, e que não será exclusivo da direita mas talvez muito mais frequente nela por razões antropológicas, nesse estado qualquer boa notícia para o País é sentida como mais um golpe na auto-estima, mais uma ameaça à identidade dos infelizes que estão reduzidos ao maniqueísmo compulsivo. A vitória da Selecção no Campeonato da Europa ficava como um azar, a vitória de Portugal na Eurovisão como propaganda, a entrada de cada vez mais turistas como uma das trombetas do Apocalipse. A bílis correu caudalosa à medida que o Diabo não aparecia, sequer nos pequenos detalhes, e em que o sucesso na Economia, no Parlamento e na Europa deixava Costa como um semideus capaz de mover montanhas e fazer milagres. Este era o tempo em que o actual primeiro-ministro tinha já encomendada a estátua de maior habilidoso na política nacional desde as cortes de Lamego.

Veio Pedrógão, impossível de prever e de evitar. Veio Tancos, que continua em investigação sem qualquer nexo causal ou relacional com o Ministério da Defesa. Veio Outubro, aqui com falhas óbvias na governação e, especialmente, com a hérnia do regime chamada Marcelo. De repente, Costa era mais bisonho do que um recém-filiado na juventude do PURP (Partido Unido dos Reformados e Pensionistas). O que passava a dizer e o que deixava calado só adensava o peso da sua incompetência. E com isso espalhou-se um sentimento de alívio, de júbilo, de frenesim na oposição partidária, na oficiosa e na de ocasião. Todo o cão rafeiro aproveitava para morder no primeiro-ministro e seu bando de ministros, gente do pior. Se fossem sérios andavam era a trabalhar, não se metiam naquilo, eis o sumário executivo que a comunicação social entretanto completamente tabloidizada (só varia no grau) acredita que chega para vender papel e cliques.

E Costa, no meio disto? Sou insuspeito, pois não lhe aprecio o estilo e certas decisões, certas companhias. Mas é cristalina a sua alta qualidade de estadista e de servidor público. Ao se oferecer para o cargo de primeiro-ministro, para lá da motivação subjectiva que poderá nunca vir a ser conhecida publicamente ou só daqui a muito tempo, o que mais impressiona é a radical diferença entre a complexidade e esforço da sua função e a displicência e irresponsabilidade dos directores de imprensa, jornalistas-comentadores e demais publicistas com poleiro em órgãos profissionais e ditos de “referência”. São pessoas que, muito provavelmente, nunca aceitariam passar por experiência similar, ou que lá chegadas não aguentariam nem a milionésima parte do que o currículo de Costa prova que aguenta. Todavia, cagam sentenças a metro e ao peso, saturando a mancha da opinião publicada na imprensa escrita e audiovisual. Aliás, são os mesmos aqui e ali, ubíquos e repetitivos. A sua produção verbal é uma logomaquia narcísica – inevitáveis e salubres excepções à parte. Sem saberem, sem olharem para o chão que os suporta, na sombra dessa montanha diária de sectarismos e inanidades refulge imperceptível a heróica vocação daqueles que aceitam sujar as mãos e a esperança nas muralhas da cidade.

4 thoughts on “Na sombra dos inúteis”

  1. De todas, a maior do Costa, não foi encostar às cordas a oposição.
    Foi encostar toda a esquerda mais o Sócrates.
    Aqui é que foi o segredo-da-abelha.
    Vaselina da fina!

  2. Valupi, cheguei a este post através de uma voz do Além (gostas-da sugestão-de-um-trocadilho)?
    E comentei-o assim, gostas também?

    ______

    Sobre o que o Valupi passou a escrever de mansinho sobre o António Costa, um amor tardio que por isso mesmo tenta não dar muito nas vistas, deve aplicar-se uma frase certeira que vem não sei se pelo menos desde a antiguidade clássica.

    – Que graxa, até aqui cheira bastante…

    Dito isto, o tipo está a meio de um processo de busca da sua fé.

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