Mudar de dieta e ir para o ginásio, a panaceia para a esquerda imbecil

Primeira nota breve: no dia seguinte à assinatura do memorando de entendimento recordo-me de ver Catroga puxar para si os louros do excelente resultado conseguido. Lembro-me de Sócrates ter anunciado que, pelo contrário, o bom memorando era obra sua. Lembro-me de PS, PSD e CDS terem assinado o documento, todos satisfeitos com o que aí vinha. Aplaudidos por banqueiros (vinha dinheiro para eles), jornalistas, comentadores, economistas. Lembro-me de Passos dizer que aquilo era o seu programa e até queria ir mais longe. Lembro de comentadores da sua área política terem gritado "bendita troika". Ou seja, quase todos reivindicavam a paternidade da criança. E agora todos a enjeitam. O que é estranho, tendo em conta o agradecimento que Passos Coelho fez à troika pelo excelente serviço.

Daniel Oliveira

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Seguro conseguiu o espantoso feito de imobilizar o PS naquela pasta (gosma?) que não tem qualquer pressa em se mover, quanto mais em ter ideias para apresentar ao eleitorado. Estar em Fevereiro de 2014 a contemplar a possibilidade de o PS ter uma vitória pela margem mínima nas Europeias (ou até de perder!) é da ordem da suspensão da Lei da Gravidade por seis meses. Mais para a esquerda, reina a confusão e muita boa vontade. Resta esperar pelas vontades boas para ver o que sobrevive e cresce. À direita, é o triunfo completo. Onde é que está o Passos que apareceu furibundo a disparar contra o Tribunal Constitucional lá muito para trás em 2013? Está a acender velas à coragem e sapiência dos juízes que resistiram a todas as pressões e permitiram o tão desejado alívio no ciclo da fadiga da austeridade. Fora desta normalidade excepcional, não se conhecem iniciativas originais na sociedade que prometam romper com o marasmo – o que teria de nascer sempre ao centro – nem surgem líderes capazes de dar sentido e projecto ao frenesim convencional. Então, falar do quê ou de quem? Do Daniel Oliveira, por exemplo, um prolixo publicista e alguém que se esforça honestamente para levar este país a entregar-se nos braços da esquerda pura e verdadeira.

O parágrafo que cito corresponde a uma ideia que o Daniel tem repetido. Nessa ideia, todos os partidos e figuras com relação directa ao Memorando aparecem iguais em responsabilidade e intenções. A caricatura a que se entrega com gosto é típica da cassete repetida no Parlamento e comunicação social pelo PCP e BE. Nela, os socialistas são sósias dos direitolas, Sócrates não se distingue de Catroga. E, afiança, o PS de então estava “satisfeito com o que aí vinha“. Ora, como é que um fulano que se apresenta moralmente superior a quem já sujou as manápulas na governação se permite mentir tanto e tão escabrosamente? É que a mentira é de arrebimbomalho, pois não só o PS foi obrigado a aceitar o Memorando também por causa dos votos do BE e PCP como Sócrates se bateu até às últimas para o evitar, tendo descrito exactamente quais seriam as consequências de o País optar por essa solução para a crise com que estava confrontado em 2011. Será apenas pelo dinheiro com que lhe pagam o serviço que o Daniel mente desbocadamente? Creio que não, seria mesmo impensável para mim vê-lo nessa degradação, aposto antes em factores antropológicos e psicológicos que cristalizam as figuras mais influentes desta esquerda, mesmo aquelas aparentemente amantes da democracia, num sectarismo tribal sem qualquer possibilidade de erradicação.

Pouco importa o nome do líder socialista que em Março de 2011, à frente do Governo de Portugal, pôs preto no branco as escolhas a fazer pelos partidos com representação parlamentar. E não esteve sozinho. Teixeira dos Santos, Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira e Francisco Assis, entre outras vozes socialistas e até das instituições europeias e de países terceiros não só europeus, clamaram por uma racionalidade que defendesse os interesses de Portugal numa situação inaudita da sua História. Acontece que o nome desse líder é Sócrates, e Sócrates é um caso trágico em que o seu sucesso governativo foi tanto que – e principalmente por causa das crises internacionais que lhe condicionaram o percurso – se tornou o alvo principal da oligarquia portuguesa. Essa oligarquia conhece bem, com um conhecimento de séculos, a terrinha à beira-mar plantada e conta com a aliança da esquerda mais conservadora e fanática para atacar o centro, o inimigo comum. Assim fizeram, e assim continuam a fazer. A oligarquia está a ganhar em todas as frentes.

O último parágrafo do texto do Daniel devia ser reescrito por ele mil vezes num quadro a giz. Porque o que lá aparece já tinha sido dito por outros antes mesmo de o Memorando estar assinado e negociado. Outros o disseram quando teria sido possível evitá-lo ou adiá-lo para o negociar em melhores condições. Que podemos concluir, portanto, do seu continuado ataque àqueles com quem, afinal, está de acordo? Seja o que for, não é nada de bom. No mínimo dos mínimos, é sinal de uma inteligência a precisar de alimentos mais nutritivos ou de ir para o ginásio. Muito provavelmente, as duas coisas.

Ao reler o memorando fiquei de novo arrepiado. Ficará na história como um dos documentos mais vergonhosos que o nosso Estado assinou. Não é, como podia ser, um acordo com metas e objetivos financeiros. É um péssimo programa de governo, para vários governos, imposto por quem não foi eleito e desconhece em absoluto o país que pretende "governar". É um programa de governo de fanáticos vanguardistas sem o mínimo de bom senso ou razoabilidade. É uma excelente demonstração da razão porque a política nunca pode ser entregue a burocratas que não têm de pagar o preço político das suas decisões. Muito menos burocratas que apenas conhecem a sala VIP do aeroporto. Mas é também um excelente álibi para quem, tendo sido eleito, não quer arcar com as responsabilidades das decisões que toma. O memorando é uma vergonha. Mas tem as costas largas.

21 thoughts on “Mudar de dieta e ir para o ginásio, a panaceia para a esquerda imbecil”

  1. Trocados por miudos, estas novamente aos berros porque o DO confundiu o Peque Quatro com o memorandum da troika. Como é a 783a vez, pelo menos neste blogue, algo me diz que deves estar mesmo convencido disso. OK.

    No entanto, ha uma coisa que, apesar de tudo, permanece sem explicação e que se coaduna mal com a essência messiano-sebastianica do teu Principe Perfeito. Afinal de contas, porque é que ele não começou, em 2009, por implementar logo o Peque Quatro, por forma a salvar o pais de uma vez por todas ? Para que foram precisos o Peque Um, o Peque Dois e o Peque Três ?

    Eu bem sei que existe uma razão, mas nunca me consigo lembrar qual é, e isso cria dificuldades quando estou a apregoar a Boa Nova. As pessoas querem saber, é mais forte do que elas…

    Não tens por acaso uma mnemonica para eu fixar de uma vez a resposta capaz de calar definitivamente a boca dos incréus ?

    Boas

  2. valupi,é a campanha. se houver duvidas quanto ao memorando, leiam o que disse de catroga sobre o referido em 3 maio 2011. d.oliveira,quando escreve pensa que está a falar no eixo do mal! a extrema esquerda já mostrou o seu programa eleitoral que consiste em atacar o ps. o francisco anacleto louça (nome de sectario)serve-se do palco da sic noticias,para fazer o mesmo.o desespero não é bom conselheiro.não podemos baixar a guarda em nome da democracia.se hoje temos este presidente, este governo e esta austeridade devemos ao bloco. que os pariu!

  3. joão viegas, ao falares de 2009 e ao ligares esse ano aos PEC dás bem conta do estado de alienação ou delírio em que te encontras. Não admira que sejas mais um maluquinho que persegue o fantasma socrático de tocha na mão e forquilha na outra.

  4. “Lembro-me de Sócrates ter anunciado que, pelo contrário, o bom memorando era obra sua.”

    oh daniel! poderias pôr o link desta alembradura? eu só me lembro do sócras ter dito que não governava com a troika e do bloco ter participado na maior farsa da democracia e aldrabice eleitoral portuguesa.

  5. Claro que entre Setembro de 2009 e Março de 2010, é sempre possivel dizer que o Sebastiocrates estava a dormir o sono dos justos. Até ai, eu consigo aguentar as hostes. Mas depois, a partir de Março de 2010, porquê o Peque Um, e não logo o Quatro ? Isto é que as pessoas costumam perguntar !

    Esta parte é dificil de explicar, a sério. E a famigerada Crise Intergalactica de 2008 não serve como desculpa, a menos que se diga que houve varias, para ai umas quatro, e apenas quatro, porque a quinta morreu de susto com o simples anuncio da iminência do Peque Quatro. Tanto que foi logo fazer queixa a Deus para que ele desestabilizasse tudo, e mandasse para a Portugal a corja que sabemos, os Louçãs, os Oliveiras e etc. que apoiaram o Passos Coelho… Mas dito assim, fica a modos que complicado e menos convincente…

    Tu estas na sede, não imaginas o que temos que passar, nos que andamos a espalhar a boa nova pelos mercados…

    Va la, faz um esforço, uma mnemonicazita, para ajudar !

    Boas

  6. “Mas dito assim, fica a modos que complicado e menos convincente…”

    pois foi, logo de seguida perderam metade dos crentes e nas próximas deixam de existir.

  7. Será mais difícil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que bloquistas e comunistas tentarem algum dia fazer uma autocrítica sobre a sua responsabilidade no derrube do governo de Sócrates e estender de passadeira vermelha à Direita.
    No “Eixo do mal” , em que frequentemente só Pedro Marques Lopes se salva no desbragado tiro ao alvo ao PS, Daniel Oliveira assume aquela postura Torquemada de Louçã, mas não perde oportunidade de habilmente fazer a propaganda do 3D criticando sistematicamente António Costa.

  8. O Val está a ser picado pelo João Viegas. Este apenas quer defender as suas convicções, não a verdade da estória. É preciso paciência para manter um diálogo correto e honesto com tal gente.
    O João Viegas nem se lembra de que o PEC-1 e o PEC-2 foram pedidos pela senhora Merkel em Outubro de 2009, aquando do Orçamento para 2010. Saberá o João Viegas que Espanha, não tendo aceitado a Troika, já elaborou 4 ou 5 PECs, a pedido de Merkel e Olli Rehn? E a Itália?
    A crise internacional não é tida nem citada pelos críticos… Mas ela atingiu todos os países europeus, mesmo aqueles que estão fora do Euro. Toda a economia europeia entrou em recessão. Claro que no discurso enviesado de alguns, o mundo acaba ali em Badajoz. Eles apenas têm noção das crises ocasionadas pelo capitalismo selvagem através d aumento do litro da gasolina. Com tanto enviesamento, porque não quero dizer ignorância, não é possível manter a compostura no diálogo.
    Boa malha, Val!

  9. “mandasse para a Portugal a corja que sabemos, os Louçãs, os Oliveiras e etc. ”
    … e os Joões Viegas e outras parvoíces quejandas, para quem dizer mal do Sócrates é uma masturbação psicológica.
    …. que os pariu!

  10. É dar muita importância ao publicista daniel que, desde
    há muito tempo que não diz coisa com coisa, basta ter a
    paciência de o ouvir no eixo! Já basta a desavença com
    o grande lider anacleto … aliás, eles passam a vida a ten-
    tar disfarçar as culpas próprias na desgraça que o País
    está suportar, seja numa ou em 3D!!!

  11. Caros,

    Se não estou em erro, a equipe de peritos internacionais contratada no outro dia pelo Valupi para descobrir um comentario meu a dizer mal do Socrates ainda esta por ai às voltas e ainda não encontrou nada. Ja agora, podem sugerir que a tal equipe alargue as suas investigações para ver se encontra um comentario meu a negar a responsabilidade do Bloco e do PC na crise que levou à vitoria do PSD em 2011. Também não vai encontrar com certeza.

    Agora numa coisa tenho de ser completamente intransigente e, alias, so consigo entender o comentario do Evaristo Ferreira porque vem de quem não frequenta muito este blogue. Pois ele que fique a saber que o joão viegas jamais poderia “picar” o Valupi. Isto é completamente impossivel, nem em sonho ! O que a experiência mostra é exactamente o contrario, o Valupi é que esmaga completamente o joão viegas como uma reles mosca. Não confundamos as coisas. E assim é que esta bem. Vamos ver se isto fica claro de uma vez por todas.

    Boas

  12. Val, o próprio Sócrates reconheceu que foi um erro assinar o memorando. Foi a única decisão que durante os dois governos a que presidiu, pode, no meu entender e em rigor, apelidar-se de erro, mas foi-o e, pior, foi crasso. A História dar-lhe-ia razão. Sócrates, dotado de um instinto político raro, sabia-o como ninguém e essa consciência é o que me custa mais. Eu sei que tenho de o desculpar e tu também sabes, porque afinal é apenas um homem foi certamente sujeito às mais vis ameaças. Certo é que esteve a um pequeno passo de ser, na prática, um herói. Ao passo que assim é, por muito que nos custe, mais um dos vencidos. Como se não bastasse, estava rodeado da melhor e mais visionária, progressista e competente gente que que já vi a governar o país, e aqui faço uma menção especial ao brilhante e Pedro da Silva Pereira – que desperdício, meu deus… Podes explicar porquê, Val, o porquê de se terem deixado morrer na praia e com eles todos nós? Eu só queria que alguém me respondesse com pés e cabeça a esta questão.

  13. “Estratégia orçamental “separa” Seguro do Governo”
    atual no DN, agora…..
    A mascara do Tó Zé Coelho começa a cair…. afinal é só a estratégia…..

  14. “… o porquê de se terem deixado morrer na praia e com eles todos nós?”

    porque tinha um governo minoritário, uma oposição maioritária e um presidente faccioso e vingativo que tudo fez para derrubar o governo. quem não percebe isto não faz ideia alguma do que seja a democracia ou sofre de anmésia selectiva e papagueia as versões feicebuquianas do sonso de boliqueime.

  15. devias andar na rua, nas manifs dos professores, a cantar com o gel e o falancio…porque realmente foda-se, sócrates andava a esbanjar o dinheiro todo em TGV´s…

  16. “se hoje temos este presidente, este governo e esta austeridade devemos ao bloco. que os pariu!”

    Sem dúvida, nuno, apoiado!

    São incontáveis as vezes que tenho gritado essa verdade!

  17. Quem me tira uma dúvida de 2011, e reforçada em 2013 pelo próprio Sócrates?
    É assim depois de tanta luta para ter apoio Europeu para o PECIV, José Sócrates se demitiu? Vamos lá a ver, o chumbo do PECIV não implicava a demissão do Governo. Não era uma moção de censura. Porque não confrontar o PR com o facto de quem derruba governos é a AR. Porque aceitar sendo governo de gestão negociar um resgate?
    Nunca percebi. Em 2013 o que quis dizer Sócrates na entrevista a Clara F Alves com a frase ” Lacão vamos incendiar as naus”? Sou capaz de ter uma ideia, mas não sendo especialista em Sócrates, ainda espero que aqui alguém me explique.

  18. Vamos incendiar as naus, fazes alguma ideia das consequências financeiras para o Estado português do chumbo do PEC IV? E qual seria a alternativa do Governo de então posto que era minoritário e toda a oposição estava decidida e boicotar qualquer solução para voltar a apresentar em Bruxelas? Explica lá antes que as naus se afundem.

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