Mal menor e mal maior

Louçã apareceu em força neste fim-de-semana, indo à TSF e sendo entrevistado no DN. Não faço ideia se ele se fez convidado ou se os jornalistas queriam muito ouvir as suas palavras numa altura em que o BE está em processo acelerado de implosão e a suposta liderança nem com duas cabeças no trono consegue suscitar interesse pelas suas ideias a respeito. O resultado é mais uma ocasião para confirmar que Louçã, como o bom comuna que sempre foi e será, nada esquece e, portanto, nada aprende.

A sua participação no Bloco Central é particularmente reveladora porque ele está à conversa com dois colegas de colóquio que primam pela independência de pensamento, não com um entrevistador que se pretende politicamente neutro e deontologicamente condicionado. O resultado são interacções mais significativas, porque mais dialógicas, agónicas e imprevistas.

Começando por um aplauso, Louçã contou que está com um grupo de economistas a fazer contas ao modo como se poderá reestruturar a dívida: juros, maturidades, contratos, pensões e um longo etc. E frisou que mais ninguém está a fazer o mesmo, para sua surpresa e escândalo. Eis um caso em que tem absoluta razão. Aqueles que defendem o “não pagamos”, caso queiram ser levados a sério, precisam de apresentar obra séria. Precisam de explicar tudo e mais alguma coisa, tal a enormidade das consequências do que propõem aos berros. Aliás, essa será uma das principais razões para o paradoxo com décadas da propaganda da extrema-esquerda, em que prometem o céu na terra à legião dos famélicos, explorados e descontentes mas que nem o seu voto conseguem captar de modo a ter alguma influência na governação.

Quanto ao resto, Louçã veio dizer que não está disposto para deixar de ser quem é. Quem é Louçã aos seus próprios olhos interiores? É, por um lado, o proprietário do BE, e, por outro, o generalíssimo da esquerda pura e verdadeira, o herdeiro espiritual de Álvaro Cunhal. Como proprietário do BE, decretou que não haverá qualquer convívio com os apóstatas. O caso de Rui Tavares, então, é de aberta perseguição em modo de vingança e sem o mínimo desejo de fazer prisioneiros. Com Daniel Oliveira e Ana Drago, embora com menor intensidade, o fel deverá ser o mesmo. Recorde-se o estado de descontrolo emocional que o affair Joana Amaral Dias com Paulo Campos lhe causou em 2009. Estamos perante um padrão de narcisismo agudo que está na base da sua megalomania. Como herdeiro espiritual de Álvaro Cunhal, continua a sonhar com o dia em que levará numa bandeja a cabeça do PS à Soeiro Pereira Gomes, assim provando que é ele o Messias anunciado por Marx, Lenine e Trotsky. Daí a alucinação, por exemplo, de pretender juntar PCP, BE e elementos do PS numa entidade qualquer que vai conseguir, finalmente, renacionalizar a banca. Ver a família Espírito Santo a ter de recorrer ao Rendimento Social de Inserção seria para este homem o mais belo espectáculo na Terra.

E falou no PEC IV. Falou para se justificar retrospectivamente; isto é, falou de forma atabalhoada e, acima de tudo, falaciosa. Invocou informações duvidosas e equívocas de Teixeira dos Santos para com elas desqualificar aquela solução e apontou para situações internacionais que não eram comparáveis. Em suma, revelou má consciência e desonestidade intelectual, algo perfeitamente coerente com esse outro Louçã que se aliou à pior direita que já conhecemos em democracia para derrubar um Governo de centro-esquerda minoritário e a enfrentar uma Europa disposta a todas as violências sobres os países em inaudita aflição financeira. Louçã chegou ao ponto de garantir que “rejeitar o PEC é o princípio da saída da crise“, assim gravando o seu epitáfio político fique ele os anos que ficar no palco da política nacional. É que as razões para recusar o PEC até poderiam ser as melhores na sua abstracção, mas a política não é uma actividade meramente teórica nem estritamente moral. A política será a actividade humana mais complexa, pois é aquela sujeita à maior variação nos factores decisivos para o seu desfecho, requerendo o domínio da inteligência prática para alcançar os resultado possíveis. A verdade em relação ao PEC IV não é a de que era um programa pior do que o Memorando, como PSD e CDS venderam, menos ainda a de o seu chumbo ter sido a salvação como afirmou a luminária. A verdade é a de que ninguém sabe quais seriam os seus resultados. Apenas se sabe – e isto, todos o sabem quer o assumam quer não – que entre um mal menor e um mal maior só os pulhas e os imbecis é que preferem o último.

36 thoughts on “Mal menor e mal maior”

  1. É fácil concordar contigo em relação ao Louçã, a análise parece-me ser no essencial correcta, mas seria interessante que explicasses aqui às massas populares ignaras onde podem elas ir beber alguma informação sobre “o Messias anunciado por Marx, Lenine e Trotsky”, coisa de que nunca ouvi falar. Em que escrito(s), em que volume(s), em que página(s) dos autores citados podemos nós aprofundar tão miraculoso conceito? E já agora: eles anunciaram mesmo o “Messias”? Acaso não seria “Dux”? Isso, sim, é que era pontaria histórica.

    Vou esperar, ansioso (e obviamente sentado), por esse valioso contributo que certamente não nos negarás, e atrevo-me a sugerir que comeces a pesquisa no local onde foi encontrada a criancinha do Lapedo.

  2. heizia de regresso, a especialista em loladas, na versão estrelada em banha. já táva com sódades do poster da margarina vaqueiro.

  3. Mais uma analise que se distingue pela sua elevação, muito longe da fulanização rasteira, autêntico veneno que mata lentamente, impedindo o discurso politico de ganhar altitude e mantendo-o cativo no pântano, condenado a mastigar sempiternamente os mesmos rancores, as mesmas rivalidades tacanhas e os sordidos calculos das ambições individuais.

    Olha, devias escrever num blogue…

    Boas

  4. As votações dos PEC’s I, II e III foram de uma coerência absoluta. O PS e o PSD votaram sempre a favor, o PCP e o BE votaram sempre contra (desculpem não dispor aqui da votação do PP mas parece-me que, na circunstância, era indiferente, quero dizer, se alterou a sua votação não pesou nem para um lado nem para o outro, o seu peso só conta como bengala).
    A segurança do regime estava garantida, os dois maiores partidos iam aprofundando o que entendiam necessário para o manter.
    No PEC IV houve algo que mudou e foi isso que mudou tudo. Como é que pode ter acontecido, se os passos estavam a ser dados com toda a segurança e as votações do PCP e do BE não contavam para nada. As duas vertentes do poder não lhes ligavam nenhuma, eles e todos nós já conhecíamos de antemão as suas posições. Não iam mudar, nem podiam mudar, ou alguém tem dúvidas sobre iss? O PS não ia mudar, nem podia mudar, etc., etc.
    Portanto, o PSD – aliado do PS e co-esteio do regime – foi o único que mudou de campo. É nesta mudança que temos que tentar entender o que aconteceu. O resto é idealismo. É acreditar que o PCP e o BE podiam mudar de campo e assim sustentar o PEC IV quando tinham votado sempre contra e ninguém via nisso qualquer problema ou acreditar que o PS podia mudar radicalmente os pressupostos da política de modo a trazê-los para o domínio do possível. Realismo era mudar de campo e foi isso que fez o PSD. Podia mudar e mudou porque tinha nas mãos os instrumentos que garantiam a prossecução da política ou o seu aprofundamento dramático. Esta “traição” (podemos chamar-lhe isso em política?) foi terrível para o PS, que certamente não contava com ela e o deixou sozinho a afogar-se no mar da partidarite e ninguém sabe navegar noutro.

  5. Avernavios, vê se falas um bocadinho mais baixo, olha que o Valupi pode ouvir-te e de repente desatar a fazer contas. E depois como é que seria ? As consequências psiquicas são potencialmente avassaladoras.

    Duerme duerme negri-ito
    Que tu Socrates esta en el ca-ampo
    Negri-ito

  6. Ainda não percebi três coisas:
    1) O Valupi acredita ser possível pagar esta dívida (sim ou não)?
    2) O Valupi defende a renegociação desta dívida (sim ou não)?
    3) O que é que o Valupi propõe (para além de idolatrar Sócrates)?

  7. avernavios, tens razão. E até vou mais longe: tens quase a razão toda. Que falta? Apenas aquela pequena parte da natureza humana, portanto deste Universo, que se chama liberdade. Ora confessa lá: o facto de o BE e PCP terem votado contra os PECs anteriores anulou a sua liberdade? Pois.

    Quanto ao resto, a conversa sobre o PEC IV, deste ponto de vista onde se aponta o dedo a quem escolheu o mal maior, não é do foro histórico, mas político. Historicamente, é óbvio que o desfecho teria de ser aquele, dadas as forças em causa serem aquelas. Politicamente, lembrar quem sacrifica a população à ideologia é um dos meios (mesmo que com baixíssima probabilidade de sucesso) para se tentar evitar que algo igual se repita.
    __

    rui mota, larga o vinho.

  8. ouvi portas,em espanha,a fazer o papel de palhaço e no dia seguinte ouço socrates na rtp,e mais uma vez fiquei revoltado com o comportamento do actual lider do ps .a estrategia politica por ele executada, baseada no ódio a socrates ,está a afundar o ps e o pais!

  9. Avernavios,

    “É acreditar que o PCP e o BE podiam mudar de campo e assim sustentar o PEC IV quando tinham votado sempre contra e ninguém via nisso qualquer problema ou acreditar que o PS podia mudar radicalmente os pressupostos da política de modo a trazê-los para o domínio do possível.”

    Não podiam? Por quê? Quem disse? O bloco passou de 16 para 8 deputados e o PCP de 15 para 16, não me parece que lhes tenha servido de grande coisa a intransigência ideológica. Mas isso não interessa nada, a revolução está a chegar.

  10. joão viegas ,isto que vou dizer é factual: a pouco mais de uma semana das eleiçoes o ps estava com empate tecnico com o psd.na parte final,com o ps e psd sem maioria e ninguem disposto para com ele se coligar,o povo dicidiu-se em definitivo por um governo maioritario de direita (psd+cds).esta é a verdade irrefutavel. sabe a direita não é estupida,como a extrema esquerda que nem em familia se entendem.não compreendo que alguem com responsabilidades familiares e outros encargos se torne tão irresponsavel ao votar em partidos que não passam do protesto e por isso fugindo a compromisssos governativos.

  11. Esta golfada de comentários faz-me lembrar as conversas que ouço no Alentejo a um grupo de idosos, muito deles em estado de senilidade, à porta da tasca. Louçã e implicitamente Sócrates são os principais cabeças de cartaz… ui e o todo do BE em dissolução também não escapa ao debate.
    Sócrates tem algum futuro na política portuguesa? E Louçã é marxista, leninista, trotskista e até devoto admirador de Estaline e de Pavlovich Beria? São estes temas de um ‘post’ burlesco e toscos, ignorando as questões primordiais para o País neste momento. Que imbecilidade!
    O fundamental, neste momento, não é ter a pretensão de ser corrosivo com a extrema-esquerda do BE em dissolução (apenas o PCP revela solidez), ignorando o governo de tirania financeira e anti-social que temos e um PS, chefiado por um homem sem condições nem qualidades para governar o País.
    Vamos lá a ver se acertam os relógios do tempo político.

  12. Ola,

    Tendo a concordar com estes dois ultimos comentarios, pelo menos na medida em que eles apelam para que voltemos ao essencial, que me parece bem resumido na frase de nuno cm : “a direita não é estupida”.

    Boas

  13. Carlos Fonseca, tens de largar o café porque, manifestamente, ele deixa-te acelerado de mais. Então tu queres ser o editor deste blogue e decretares a tirania do monotema, aquele que for do teu gostinho? Boa sorte, companheiro, mas talvez gastes melhor o teu tempo dando o exemplo num qualquer poiso da Internet com alguma visibilidade em vez de andares a arrastar-te pelos subterrâneos das caixas de comentários como crítico encartado de posts avulsos.

  14. louça começou a entrevista na tsf,a falar do ps,o moderador diz-lhe para falar da esquerda que não se entende e que não quer estar na europa,louça ignora esse apelo e continua a malhar no ps para mais tarde falar da sua esquerda e no fim remata regressando ao prec para dizer: isto só vai lá com a nacionalizaçao do bpi bes e bcp. a europa permite? então vamos nessa vanessa! há cada lirico!

  15. Val, já sou bloguer há uns anitos. Agora tenho um pessoal e indivisível. Quanto a café, bebo um por dia. Mas nem esse me safa da resma de disparates que leio na blogosfera. Mas por muito que se tente explicar coisas bem simples a empedernidos, há sempre dificuldade em demonstrar-lhes que o passado é inamovível; o presente e o futuro é que são o cenário temporal da luta actual. Ou ainda em linguagem simples, convencê-los que o essencial tem primazia sobre o acessório. Sócrates já lá vai, a Seguro também chegará a hora da partida e o PS há-de encontrar quem seja capaz de liderar o partido e o País.
    Já agora, também me permito dar um conselho de líquidos a ingerir: não abuses tanto dos abatanados com ‘cheirinho’.

  16. A Parvalorum (que trocadilho tão a propósito!) é que me anda a dar a volta à cabeça. Fizeram-nos de parvos, com esta história da dívida. Fomos parvos, val, todos nós, quando em vez de termos dito,

    “Não pagamos, nem a porra do BPN e nem do BANIF, nem os negócios ruinosos do laranjal, da Madeira e das privatizações e investimentos no Brasil, tudo feito a crédito”

    ficámos a pagar os desmandos da nossa elite dirigente. Fomos encavacados, isso sim, ficámos a pagar dezenas de milhares milhões de euros de dívidas que não foram contraídas pelo povo português.

    Quanto à direita ser, ou não, parva? Prognósticos, só no fim do desafio. Eu penso que a fé da direita nos seus amigos alemães poderá vir ser a sua grande desgraça; e, também, do PS, se não se põe a pau. Os alemães não têm bolsos infinitos; a única coisa realmente importante, para eles, é o seu “espaço vital” (leia-se, Ucrânia).

  17. Carlos Fonseca, e que culpa tenho eu que tu aches o passado inamovível? Diz lá, tenho alguma responsabilidade nessa tua fatalidade? Por mim, podes continuar assim durante os próximos 5 mil anos. O único problema é teres metido na cabeça que parte do teu tempo deveria ser gasta a protestares contra o que outros – que não têm culpa nenhuma da tua condição, repito – escrevem.

    Também registo que tu, sendo um blogger com obra feita, não tenhas percebido em que blogues estás. Se tu achas que no Aspirina há cultos saudosistas do Sócrates, ou seja de quem for, e se tu te permites carimbar este blogue como estando a passar ao lado da actualidade política, então o teu problema deverá ser muito grave pois esse tipo de confusão pede ajuda profissional.
    __

    joaopft, ser parvo tem as suas vantagens.

  18. Foge, Valupi, o Carlos Fonseca, não sei, mas eu preciso de ajuda profissional com toda a certeza. Tens alguma sugestão nesse sentido (quer dizer : para além daquela do vinho) ?

    Boas

  19. Val, não falei do blogue como um todo. Discordei, isso sim, de um dos autores que se esconde por trás do pseudónimo que me faz lembrar uma marca de ‘comida para gatos’. Eu dou a cara, identifico-me. Tu deverás fazer o mesmo. Usa o ortónimo, sabes o que é isso?
    Esta é a minha última resposta. O meu tempo para aturar imbecis é nulo. Até aqui abri uma excepção que fica definitivamente encerrada.

  20. alto lá, Carlos Fonseca, que o diminutivo Val é da minha autoria e pretende designar tanto mais por tão menos – menos letras neste caso.

    e para que vai ele usar o ortónimo – para ser perseguido e humilhado e até afastado do seu local de trabalho só por dizer o que pensa da pulhice depois de bem pensar no que diz sem temer, porque veste o EPI, o que lhe podem fazer? pois, é fino.

  21. Carlos Fonseca, o teu problema, afinal, é o facto de assinar com um pseudónimo? Já podias ter dito em vez de teres andado armado em bófia da blogosfera (espera… tu estás cada vez mais armado em bófia da blogosfera!). Acontece que eu não te pedi para dares a cara, nem no fim do mundo nem muito menos aqui. E se a tua cara não passa da imagem com que apareces no monitor, e se o teu nome não passa dos caracteres com que assinas as tuas pérolas, então também não te gabo a sorte.

    Pelos vistos, és um blogger tão experimentado que já consegues distinguir entre ortónimos, heterónimos e pseudónimos só com o poder intelectual que te assiste. Aconselho-te a divulgares esse talento no mercado, poderás fazer umas coroas.

    Mas o mais interessante é vires desembestado dizer a um autor que assina com um dos seus nomes – Valupi – que ele se está a esconder. Ora, conta lá: estarei a esconder-me como e de quem ou do quê? Será de ti?

  22. oh fonseca! aquela espécie de blogue de comentário táxista-leninista às gordas do público é qu’é baril e aquele seguidor palermossaurorex tamém dá bués de credibilidade à tasca. gostei muito daquela caldeirada de bpn, sumarinos, pãoduro e sobreiros, aquele toque de robalos e o cheiro intenso a justiça de aveiro explicam as tuas preocupações com a identidade dos outros.

  23. ó nuno cm, quando muito as fotografias dão esgares atemporais naquela passividade que lhes é característica. mas falo por mim, claro, que não sou aos pedaços. :-)

  24. um blogue não é a mesma coisa do que um jornal ou um livro,onde quem escreve tem que lá pôr a sua assinatura .mesmo sem sermos mal educados estamos sempre sujeitos a que um energúmeno que não goste dos nossos postes venha de sachola para nós para defender não a sua honra mas a de passos coelho ou geronimo!.já nem falo no prejuzio que teria com o meu patrão quando digo,que uma boa parte desta gente são uns fcp!

  25. A implosão do BE vem sendo anunciada desde a sua fundação em 1999, e como é público, é manifestamente um exagero.

    Quanto ás entrevistas ao Louçâ, elas só têm uma explicação, os jornalistas perceberam que é dos poucos politicos que têm algo de substancial para dizer,e sobretudo tem a coragem de dizer preto no branco , o que muitos pensam, mas por medo de perder o tacho calam.

    E se o BE estivesse realmente a implodir, não mereceria tanto interesse de Valupis e congeneres, aliás penso que o PS ainda vai implodir primeiro.

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