Lendas do Cavaquistão

Naquele tempo, certo dia o Presidente acordou com uma moinha que o deixou encanitado toda a manhã. Perto da hora do almoço, não aguentou mais e disse aos jornalistas — Face às dúvidas fortes que neste momento estão instaladas na sociedade portuguesa, é importante que os responsáveis da empresa de telecomunicações expliquem aos portugueses o que está a acontecer entre a PT e a TVI. É uma questão de transparência.

A sociedade portuguesa a que ele se referia era constituída por ele próprio e pela senhora Manuela, que ainda na noite anterior tinha garantido que o Primeiro-Ministro era mentiroso. Duas pessoas chegam para constituir uma sociedade, não havia exagero na expressão. E as dúvidas eram fortes porque não eram fracas, disso também não se podia duvidar.

Ora, o Presidente tinha consciência de ser assim a modos que para o impróprio andar a interferir nos negócios das empresas, pelo que fez questão de agravar a sua intervenção, dizendo — Em princípio, não faço declarações públicas sobre negócios das empresas, mas neste caso devo abrir uma excepção pela natureza do sector que está causa e pela importância nacional da empresa de telecomunicações. Muito bem, faltava só explicar quais eram as fortes dúvidas que tinham aberto a excepção. Por grande azar, nenhum jornalista lhe perguntou na ocasião, nem depois. Que estaria em causa? Será que a PT iria fazer da TVI um canal pornográfico, e Cavaco tinha saído à rua em defesa da moralidade? Ou teriam os estouvados da PT perdido de todo a cabeça e estariam a planear transformar a TVI no canal da Igreja? Experiências com rãs, em laboratórios secretos na zona do Bombarral, permitiram chegar a outra hipótese: Cavaco estaria alarmado com a suspeita de que a PT iria entrar na TVI só para abafar a Manuela Moura Guedes, a qual tinha um famoso programa de variedades onde alertava a população para a iminência da prisão de Sócrates pelo James Bond. Este programa, até por ser semanal, era muito apreciado em Belém, e toda a Casa Civil já tinha o arreigado hábito de se juntar e assistir em conjunto, havendo um clima de festa e euforia, com as pessoas a trazerem bolos, gambas, queijo da Serra, presuntos Pata Negra, grades de Minis, tremoços, água-pé lá da terra, guardanapos e copos de papel.

Naturalmente, a serem verdadeiras as suspeitas de que a PT iria acabar com esse excelente programa que alegrava tanta e tão boa gente, isso era muito grave. Por isso, o Presidente declarou — Tenho tido a ocasião de dizer publicamente que uma das lições mais importantes que se deve tirar desta crise económica e financeira que se vive é a de que deve existir transparência e ética nos negócios. Não era à toa que o Presidente tinha o cognome de Professor, aqui estava mais uma das suas magistrais lições: transparência e ética, por causa da crise económica e financeira. A PT só tinha de baixar a bola, arrepender-se e enfiar a viola no saco. E assim foi. A corte no Palácio respirou de alívio.

Três meses mais tarde, depois de um jornal ter tido autorização oficial para noticiar que a Presidência estava a ser espiada pelo Governo no continente e nas ilhas, depois de ser publicado um email que explicava essa notícia e o respectivo silêncio cúmplice do Presidente, e depois de um confuso episódio de demissão e recuperação do seu mais importante assessor, o Presidente fez uma comunicação dirigida apenas aos jornalistas, mas sem que eles pudessem fazer perguntas. Nessa ocasião, nada explicou do que fez e não fez, e ainda conseguiu passar uma imagem de inacreditável desorientação psíquica e fragilidade intelectual. Quanto à ética e transparência, tão exaltadas em Junho, nem os melhores espiões do Mundo conseguiram encontrar no que disse um qualquer sinal da sua existência.

Ficava assim consagrado o fim da crise económica e financeira, graças a mais um golpe de vista do Presidente.

11 thoughts on “Lendas do Cavaquistão”

  1. As lendas verdadeiras, essas, raras, terminam com uma lição de “moral” e de “bom comportamento”. E serão tão eternas quanto a moral e o bom comportamento se mantiverem no activo e em vigor.
    Ao ler este excelente post concluo já inquieto que, ou a moral e os bons costumes são em Portugal da maior volatilidade e inconstância, ou então esta lenda é só para ir assustando os eleitores não vá dar-se o caso, desagradável, de ser preciso exigir-lhes que votem de novo, em breve… e desta vez bem!

  2. A ‘sociedade portuguesa’ continua a aguardar ansiosamente que, em nome da ‘ética e da transparência nos negócios’, a boliqueimada criatura a informe como foi lhe possível comprar acções sem cotação na Bolsa e como as conseguiu vender com lucros do tipo ‘donabrancário’ sem que a cotação fosse, outra vez, do domínio público. Isto num banco em que se passaram outras coisas cheias de ética e transparência nos negócios, como pode atestar o seu amigo pessoal Dias Loureiro. Ou essa alegada transacção foi encenada para encobrir donativos?

    Continuamos à espera do esclarecimento mas, já sem esperança na ética e transparência da boliqueimada criatura, sentados.

  3. Pois o problema é esse. Também em Londres um dia um grupo de alfaiates fez uma petição à Rainha que começava com «We the british people» – logo Nós o povo inglês… Essa gentinha não percebe que o cavaquistão acabou um pouco como a minha avó materna que me dizia em 1972 que o Salazar era bom porque nos tinha livrado da guerra… esquecendo que eu poderia ter ido para a guerra se não fosse especialista em Contabilidade.

  4. A boliqueimada creatura deve andar já a esgravatar as diversas superficies a procurar quem lhe possa proporcionar a reeleição daqui a 2 anitos.Parece que o poeta Alegre ,com a sua intenção de concorrer lhe vai proporcionar a oportunidade.Com o meu voto nenhum deles lá vai.Prefiro votar branco ,nulo ou no galo de Barcelos.

  5. «havendo um clima de festa e euforia, com as pessoas a trazerem bolos, gambas, queijo da
    Serra, presuntos Pata Negra, grades de Minis, tremoços, água-pé lá da terra, guardanapos e copos de papel.»
    Noto aqui uma grande falha, nesta ementa que é a falta duma iguaria, que imortalizou o nosso Presidente para a sua posteridade e que lhe assenta como a cereja em cima do bolo na sua muito relevante personalidade e que será certamente a sua futura grande marca; claro que me refiro ao BOLO REI. De resto, pouco mais mais haverá a comentar a tão «insigne e independente figura.»

    Gostaria que alguém me avivasse a memória. Será que alguém se consegue lembrar da quebra do segredo de escutas, que tivessem por alvo alguém de outro partido que não do PS?
    Claro que penso que todos estarão ser escutados…

  6. mct pró caralho desinfecta pá (última resposta dada a este moribundo) para a próxima ficas a falar para as paredes

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