Lapidar

«O que se perdeu com a estratégia narcísica que vai dar, mais cedo ou mais tarde, ao sentimento elegíaco da perda e por conseguinte a uma profunda infelicidade, foi a crítica, o espírito crítico. O jornalismo moderno, que nasceu do Iluminismo, colocou a crítica como projecto inalienável e como critério primeiro que justificava a sua existência. Mas a crítica não era apenas uma exigência na relação com o poder político e todos os outros poderes: o jornalismo crítico tinha também de ser capaz de ser crítico de si próprio. Sem essa dimensão, todo o projecto falharia. Ora, o que acontece hoje é que a capacidade de autocrítica, com todas as suas potencialidades, foi substituída pelo narcisismo que se compraz na autocelebração. Este fenómeno não é novo, mas instalou-se na nossa paisagem mediática com uma força enorme a partir do final do século passado. Recordar isso hoje é também uma homenagem a Vicente Jorge Silva, cujos projectos em que esteve envolvido, do Comércio do Funchal ao PÚBLICO, passando pela "Revista" do Expresso, foram espaços que estimulavam a razão crítica do jornalismo. Sem uma consciência teórica e crítica de si próprio, o jornalismo é cego.»


António Guerreiro

5 thoughts on “Lapidar”

  1. A crítica hoje em dia faz-se em função da agenda que paga o salário e não de uma reflexão ou até pensamento próprio (censurado pelo editor) e esclarecido do objeto que se quer criticar, logo é mais interessante e estimulante ler-se um livro do que se ler criticas diárias que mais não são do que meras cópias umas das outras não no texto em si mas no objetivo. A necessidade de estar-se sempre a mediatizar e a entupir as mentes com o mesmo teor jornalístico de determinada notícia vicia os leitores e ao mesmo tempo, com as mudanças súbitas de outros assuntos “importantes” da agenda se altera o assunto, criando-se assim gente desinformada e desinteressada. Nunca se vai ao fundo das questões, pois estas são ultrapassadas por outras mais atualizadas, logo mais “importantes”.

  2. “Muitos homens bons podem ser encontrados entre os açougueiros, mas uma certa brutalidade é inseparável da profissão. É pior ser jornalista. Um certo grau de desonestidade é inseparável mesmo do jornalista mais honesto”(Kierkegaard)

    Muitos pensadores e intelectuais do início da modernidade eram frontalmente criticos do jornalismo. A comunicação de massas ajudou a criar o conceito abstracto de público sob o qual se criou a subordinação do indivíduo à massa e ao geral. Esta categoria irreal, indistinta e imaculada é ninguém mas é tudo, hoje uma coisa, amanhã outra, com personalidades diferentes consoante as necessidades do seu criador: a Imprensa. A imprensa, por sua vez, não pode ser culpada de nada: ela é a voz do público, de todos os iguais e de ninguém. Tudo se equivale, é tudo flat. Perdido o indivídual, não há mesura.

  3. «Mas a crítica não era apenas uma exigência na relação com o poder político e todos os outros poderes: o jornalismo crítico tinha também de ser capaz de ser crítico de si próprio»

    Foi tal crítica inteligente, independente, não comprometida, livre que levou à consideração da imprensa como 4º poder em democracia.
    Mas foi e não sei precisar quando se iniciou a mudança para o jornalismo do simplismo, sensacionalismo e mediocridade mas penso que mudou decisivamente quando os media iniciaram uma campanha em massa a explorar a ideia de que os políticos são todos corruptos e se instalou no país, com a cumplicidade do próprio Ministério Público, que dada a sua ideia de poder para o Séc. XXI onde este seria a era do Primado da Justiça sobre a política, orquestrou tal campanha pela sua prática objectiva subordinada à ideia de um poder absoluto justiceiro.
    Começa a perceber-se hoje mais nitidamente que tal campanha nem foi inocente e inseriu-se mais uma vez e como sempre na tentativa de regresso ao velho domínio absolutista do capital sobre o trabalho.
    E ainda hoje tal ideia, que fora martelada diariamente e ainda não parou, está entranhada nas consciências políticas mais atrasadas que continua a vender-se nos media e ser explorada e propagandeada pelos pombos brancos e yos da nossa praça.
    Concordo com o Daniel acima acerca da imprensa actual. A ideia central mesmo é não deixar as pessoas pensar pela sua cabeça, é ocupá-la em todos os segundos livres que as pessoas tenham. Repare-se nas técnicas utilizadas na TV onde já são sobrepostas às imagens e palavras do próprio video, outra faixa a correr em baixo de novidades, publicidade, eventos e ás vezes também notícias sensacionais.
    Na “bola” enquanto dão o relato sob a forma de espectáculo e quase não nos deixam ver o jogo em si colocam questões relativas ao decorrer do jogo aos ouvintes para serem respondidas pelos especialistas; tudo o que nós vemos afinal ou vimos mal ou nem vimos e só sabemos o que “realmente” vimos e sabemos bem de ter visto “finalmente” depois de sermos explicados pelos especialista em bola.
    A ideia é mesmo essa; cortar, interromper, entupir a corrente do pensamento próprio sobre o que estamos vendo e criar em nós uma dependência viciosa, como uma droga, do que o outro, o especialista tem para nos receitar como sendo o verdadeiro ver e saber sobre a coisa.
    Na prática é um puro ilusionismo que nos impingem; colocam tanto ruído sobre as imagens que nos dão a ver que acabamos mesmo por as não ver com olhos de ver mas ávidos de ver à posteriori pelos olhos dos putativos especialistas, afinal todos engagés na sua clubite pessoal.

  4. Se ao longo da história humana sempre foram os mais fortes (claro os mais ricos) que impuseram o seu poder fosse através da democracia, autocracia, e outras doutrinas sociais, na atualidade assim continua, mas com um aspeto interessante, a imprensa podia e devia ajudar a reformar a sociedade em aspetos determinantes para que fosse eventualmente mais equilibrada, desenvolvida e quiçá justa, só que essa mesma imprensa desde que começou a ser comercial e tendencialmente tabloide, e a agir por imposições de agenda com fins bem específicos perdeu a liberdade e criou uma forma universal (este é um problema global não meramente nacional) não de informar, de dar acesso ao conhecimento ou eventualmente ajudar a criar espíritos criativos mas sim a iludir e a tornar os consumidores em infodependentes, sim hoje em dia consome-se tudo, e claro, não fica nada, é um mero entretenimento passageiro. Assim se formatam as mentes que de história pouco ou nada se lembram mas que estão sempre ávidas de estar “online” com qualquer aparelho tecnológico em detrimento de perderem tempo com tantos tipos de cultura ou outras formas adequadas para se formarem como pessoas de uma sociedade e eventualmente poderem aspirar a lutar não contra este estado de coisas, mas com o que a inteligência artifical, que supostamente vai salvar a humanidade, mas no fundo, e desde o seu inicio, o que tem feito, aos poucos, é criar uma geração de zombies ou seres não pensantes. A internet se uma pessoa a usar com filtros adequados e objetivos determinados é uma inesgotável fonte de conhecimento. Só que lá está o ser humano por natureza gosta de coisas banais e virais, porque são “puro entretenimento”, e claro, pensar dá trabalho e por vezes é chato, logo é mais fácil copiar uma opinião e replicá-la do que pensar um pouco e formular uma opinião.

    A TV quando apareceu e se massificou era o ópio do povo, hoje o que não falta na sociedade são ópios para adormecer os eventuais espíritos rebeldes e todos os demais, para que o “progresso” possa ser sempre no mesmo sentido, ou seja, nós os poderosos seremos sempre os vossos donos.

  5. Um exemplo de narcisismo neste horrível spot de apresentação da “nova” dupla do jornal da TVI. Poderia bem ser um anúncio de um perfume ou da coleção outono/Inverno do El Corte Inglês, sartorial e vazio…mas também do Turismo de Portugal com o cenário datado e o por do sol na arriba. O Super Pop Limão é capaz de ter uma personalidade mais complexa que estes dois produtos da jorna POP. Este novo restyling da estação posiciona a TVI como a CMTV 2.0 e exemplifica na perfeição o nivelamento a que a Imprensa se reduz e nos reduz, não é mais do que uma média, um indiferenciamento, no fundo uma mediocridade.
    https://m.facebook.com/tvi24/videos/a-mudan%C3%A7a-j%C3%A1-come%C3%A7oujos%C3%A9-alberto-carvalho-e-pedro-mourinho-s%C3%A3o-os-piv%C3%B4s-do-jorna/325780375532386/

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