Lapidar

«Os números resultantes da acusação do Processo Marquês são de pura demência: 4000 páginas de despacho acusatório, 53.000 de investigação, 77.000 de documentação anexa, 8000 de transcrições de escutas telefónicas, 103 horas de vídeos de interrogatórios e 322 de depoimentos áudio de testemunhas. Tudo isto desaguou nos braços de um só juiz de instrução, que terá a seu único cargo decidir arguido por arguido, acusação por acusação, prova a prova, quais e o quê manda para julgamento. Como é óbvio, o Processo Marquês vai consistir numa tarefa desumana para os seus intervenientes, a começar por Ivo Rosa e magistrados do julgamento, mas também extensível a todos os outros intervenientes, como os jornalistas e todos aqueles que ainda não fizeram o seu julgamento prévio e queiram mesmo saber o que se passou e seguir de perto o trabalho da Justiça.

Num texto sobre o assunto, o juiz Manuel Soares, presidente da respectiva Associação Sindical, insurge-se contra a falta de meios de ajuda ao juiz de instrução, nomeadamente a falta dos assessores previstos na lei. Tem razão, mas não vai ao fundo da questão. O fundo da questão é constatar como a hierarquia do Ministério Público, contra todas as suas proclamações, permitiu que a equipa de magistrados do MP do Processo Marquês, liderada por Rosário Teixeira, pudesse livremente dar à luz um monstro como este, que só para deduzir a acusação precisou de uma dúzia de magistrados a escrevê-la a várias mãos. Porque não havia necessidade nenhuma de assim ser, se Rosário Teixeira, com o apoio de Carlos Alexandre, não tivesse cedido à tentação de fazer o “julgamento do regime”, à conta da acusação contra José Sócrates. Isso tornou-se-me evidente quando, com base na simples opinião de Paulo Azevedo sobre a OPA falhada da Sonae à PT, resolveu envolver também Sócrates no caso e, para fechar logicamente o círculo e socorrendo-se da “delação premiada” oferecida à muito pouco recomendável testemunha Hélder Bataglia, envolvê-lo também com o BES. Isso acrescentou uns milhares de páginas e dezenas de testemunhas ao processo desnecessariamente — pois, se achou que tinha elementos suficientes para tal, o podia ter remetido para um outro processo, a cargo de outro magistrado. Assim, além de mais, salvo melhor opinião, só veio enfraquecer a acusação quanto ao restante, deixando a impressão de que, se juntou a PT e o BES ao processo já no final da investigação, foi porque achou que o que tinha até aí contra José Sócrates era fraco ou de êxito duvidoso. O facto é que o monstro foi crescendo para todos os lados à vista dos superiores hierárquicos do procurador, que nada fizeram para o impedir e que assim deixaram ser entregue em tribunal um processo que, pela sua dimensão absurda, é virtualmente impossível de ser decidido sem levantar tantas ou mais dúvidas do que certezas. Justamente o contrário do que se pedia e se dizia pretender.»


Dez milhões de idiotas

12 thoughts on “Lapidar”

  1. Até o urso ibérico vai aproveitar a densa floresta de papel do Processo Marquês para se estabelecer à vontadinha,em instalações amplas e arejadas!

  2. Este processo só revela o insustentável amadorismo que reina no M.Público!
    A não ser assim, só poderá ser considerado um verdadeiro atentado contra o tão
    apregoado Estado de Direito ou no pior dos casos, um acumular de incompetên-
    cia por parte da hierarquia do M. Público a começar na PGR tida como uma verda-
    deira santa no combate à corrupção e, à impunidade como anunciou a tal ministra
    de má memória!
    Se a ideia é de fazer um julgamento do regime, a montanha acabou por parir um
    rato, comprometeu os vários intervenientes neste processo, ao acreditarem na “re-
    ceita” do chef Rosário supervisionada pelo “super” Carlos sem esquecer o tal aju-
    dante tributário escrutinador de pistas mas, sem bufar para os pasquins!
    Para lá dos meios consumidos nesta “caldeirada” e, do julgamento público já feito,
    para os portugueses ficará a sensação de assistir a algo criado sem verdadeiros e
    fortes indícios de crimes de corrupção praticados por um P. Ministro de Portugal,
    antes sim a uma perseguição movida por razões que só os autores poderão um
    dia clarificar … claro a Justiça acabará por sair por baixo se prevalecer a “convicção”!!!

  3. Forrar as pistas do Novíssimo. Aeroporto do Montijo com laudas retiradas dl Processo Marquês? São demasiado escorregadias? Que pena…

  4. “Estamos recetivos a convites para a final 😉”: a SMS do chefe de gabinete do secretário de Estado da Indústria para a Galp

    1.
    A 6 de Julho de 2016, Portugal e País de Gales disputavam o jogo da meia-final do Euro 2016. E a selecção nacional era apurada para final. Às 21h53, Pedro Matias, ex-chefe de gabinete de João Vasconcelos, envia a XXXXX XXXXXX XXXXX XXXX, membro da comissão executiva da Galp e ex-secretário de Estado de José Sócrates, uma mensagem: “Estamos receptivos a ‘convites’ para a final 😉 Abraço”.

    2.
    Do outro lado, da empresa, a resposta não tardou: “É sempre uma honra. Já adivinhas as perguntas que estava a pensar fazer :). Amanhã vamos ter de ver isso internamente e ligo-te. Abr.!”. XXXXX XXXXXX XXXXX XXXX averiguou a possibilidade e, sim, havia luz verde para voltar a convidar João Vasconcelos, Pedro Matias e, ainda, Rocha Andrade. A este perguntaram se o chefe de gabinete também quereria repetir o programa e o então governante não hesitou: “Acho que o meu CG adoraria ir havendo possibilidade; mas essa parte é contigo.” E, mais uma vez, lá houve lugar para todos.

    3.
    A 7 de Junho de 2016, o então secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, recebia uma mensagem no telemóvel: “Caro amigo, tenho o dever e no seu caso também um grande gosto pessoa [pessoal] de convidar para um dos jogos da selecção em França. Dia 14, St Etienne; dia 18 Paris; ou dia 22 Lyon, como mais conveniente. Teria disponibilidade/interesse? Sendo o caso, faria chegar formalmente ao seu gabinete. Gde abraço, XXX”. As iniciais eram do membro da Galp e ex-secretário de Estado de José Sócrates, XXXXX XXXXXX XXXXX XXXX. Jorge Seguro Sanches respondeu a 13 de Junho: “Obrigado, mas optei por não aceitar qualquer desse tipo de convites enquanto for membro do governo. Um abraço e bons jogos.”

    No Expresso, de ontem.

    Nota. Valulupizinho, my dear, sabes quem é este bacano?

    [MST gostei muiiiittto da parte censurada por ti. ]

  5. Olha, o merda seca atacou outra vez. Ora vai vomitar na Estátua de Sal, ora vem impestar o ar aqui no Aspirina. E cada vez está mais fino na nomenclatura: Eric, RFC, atento. etc.
    E o Sócrates que não viesse à baila. Está-te atravessado, desgraçado.

  6. Finalmente percebi a tara deste RFC com o aspirina. Deve ser o único lugar do mundo onde ainda alguém lhe passa cartão. Que triste…

  7. Conheces, pá?

    José Sócrates diz:
    Maio 13, 2019 às 2:12 pm

    Nota. Aqueles gajos da troupe do Aspirina B ainda conseguem ser mais parvos que o Joaquim Madeira, o do Jumento. Não sabem nada, não lêem, nada. Saibam quntos que, nesta cena macaca da Galp, nem o Eduardo Cabrita nem o Fernando Medina, ui!, escaparam, mas tiveram uma pinga de vergonha na cara e recusaram tais ofertas com respostas tão ou mais picantes do que a do Jorge Seguro Sanches. Enfim, o tipo chama-se Carlos Costa Pina (Pino e Lino, Lino e Pino, lembram-se?) antes era um lambe-botas, em Aveiro, e pensava eu que tinha conseguido fazer dele um homenzinho. Enganei-me, mas ao menos não me abandonou…

  8. Tudo somado só de leitura são 142.000 páginas, equivale a 5.680 horas de leitura, equivale a 236 dias, equivale a 8 meses de leitura, sem dormir, sem parar. Isto só para ler.

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