Gostar de futebol

Quem gosta de futebol não liga ao futebol. Quem liga ao futebol são os matarruanos que antecipam a reforma para gastarem os dias a ver os treinos dos seniores, dos juniores, dos juvenis, dos iniciados, dos infantis, dos recém-nascidos e dos intra-uterinos. Conhecem melhor os funcionários do clube do que a família. Comem, bebem, mijam, barafustam e vêem televisão no bar. Só não dormem nos balneários ou no relvado porque são expulsos das instalações quando desligam as luzes. Decoram centenas ou milhares de biografias dos jogadores, são capazes de relatar ao minuto o que aconteceu 30 anos antes numa eliminatória da Taça de Portugal. Isto é ligar ao futebol.

O resto da Humanidade limita-se a gostar de futebol. Quando há vitórias, há festa. Quando se perde, muda-se de assunto que temos muito mais em que pensar. Os jogos não são importantes pelo resultado, mas pelo exemplo. Quem gosta de futebol está sempre à espera de encontrar exemplos de entrega, disciplina, criatividade, respeito, sacrifício, heroísmo. Em suma, amor à camisola. Se a equipa perder dando prova destas qualidades, há um sentimento de realização. A vitória não é necessária, até porque não depende do esforço. O que importa é dar testemunho de uma vontade indómita, de uma esperança infinita. É por isso que ouvimos senhoras a declarar que não percebem nada de futebol e, acto contínuo, a expressarem a sua tristeza ou alegria com o desfecho de um dado jogo. Falam dos jogadores como se eles fossem os guardiões da cidade, defendendo nas muralhas a sua prole da investida do inimigo. Elas estão a captar o essencial: o futebol é o microcosmo da vida comunitária, o que acontece dentro das quatro linhas espelha o que acontece nas linhas do destino de cada um. A bola que entra na baliza entra também nos planos de Deus.

Instalaram-se os inglêses em Carcavelos com o confôrto, a elegância, o luxo desportivo que é proverbial entre inglêses. O Cabo Submarino, a par dos seus oito braços de polvo estendidos para os Açôres, Gibraltar, Brasil, Inglaterra, construía campos desportivos na Quinta Nova, já crismada pelo vulgo em Quinta dos Inglêses. O golf, o tennis, o foot-ball, o rugby, o volley-ball, o cricket, etc., fizeram a sua aparição de assombro naquele céu e naquela terra onde depois se tornaram vulgares.

Nos primeiros anos dêste século realizavam-se na Quinta Nova os nossos grandes desafios internacionais de foot-ball - portugueses-inglêses. Faziam-se combóios especiais para Carcavelos, tanto era o público dêsses desafios! Os portugueses, novatos no jôgo, iam à Quinta Nova como quem vai à escola. Perdiam sempre. Duma vez, provàvelmente em 1906, ganharam por uma bola - e foi tão grande o entusiasmo do público que os passageiros, no regresso, partiram as bancadas e as vidraças do combóio!

MEMÓRIAS DA LINHA DE CASCAIS, Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, 1943, Edição Fac-similada 1999, pp. 217-218

16 thoughts on “Gostar de futebol”

  1. É curioso notar que o futebol, suas regras, tal como o concebemos ainda hoje nasceu em 1863 numa Taberna de Maçons em Londres. Havia uma divergencia enorme entre os vários «colleges» de todo o país, uns jogavam com a mão como o rugby outros não. Se não fosse a unificação nada disto teria acontecido pois foi o «book» que ajudou a divulgar as regras em todo o Mundo. Tenho experiência concreta de convívio com esses fanáticos desde 1988 a 2006 e posso testemunhar que existe um poderoso «transfer» sentimental. A criação de uma Academia do SCP em Barroca de Alva e um campus do SLB no Seixal veio estabelecer a desolação nessa gente. Passam o dia a ler jornais nos cafés do estádio e a discutir treinadores horas e horas sem fim.

  2. Gostava de ter escrito este post.

    Claramente dito que o desporto é só a coisa mais séria das coisas não sérias. Coloque-se, pois, no seu lugar. Que é imenso, mas não é tudo.

  3. Só uma curiosidade: foi neste período (início do século XX) que se registou a vitória de uma equipa de alunos da Casa Pia, todos portugueses, sobre os mestres ingleses do Carcavellos Club.

    :))))

  4. Dos mais belos posts sobre desporto que já li, E que toca no assunto fundamental: apesar de tanta papel, tantas horas de emissão na TV, nas rádios, na Net, tanta gente a lançar bitaites sobre a bola, e é cada vez mais dificil encontrar quem tenha uma verdadeira cultura desportiva. Apontam-se os holofotes aos mais fanáticos, polémicos, dá-se destaque aos trafulhas, e ninguém se lembra que a essência do desporto é afinal o que o Valupi aqui tão bem descreve: a entrega, o empenho, o esforço, o transformar uma equipa em algo maior que a soma dos individuos. Só depois aparece o resultado .
    O enorme erro que hoje em dia se transmite e inculca nas mentes cada vez mais juvenis é que o que interessa é sobretudo o resultado.

  5. Bom dia Val,
    Belo texto. Repito os outros dingos comentadores… mas como gosto de futebol não resisiti a deixar áqui um : “Bom dia”:
    Um abraço

  6. Pois é! Tão engraçado vires com a Colaço & Archer, vai que não vai. Acho que era lá que tinha umas fotos gostosas em Carcavelos, não sei se do cricket, todos muito branquinhos e engomados (já comprei um ferro de engomar de viagem mas ainda não usei, ando só a olhar para ele desconfiado, gosto mais da esfregona mas é outro domínio),

  7. Val:
    Sobre o seu texto “Gostar de futebol” levou-me a consultar dados biográficos passados nos anos trinta. Aqui na minha terra guardamos esses dados para que os mais novos tenham conhecimentos das nossas origens. Como era diferente o futebol de então. Jogava-se por amor à camisola, a maioria das vezes rota, mas tinha-se um amor a ela que é difícil descrevê-lo. Não havia os empresários de futebol e os presidentes a viver à custa da bola. Era o futebol pelo futebol. Os presidentes desse tempo tinham que pôr dinheiro do seu bolso para fazer face às despesas.
    Aqui vão alguns excertos desse tempo relatados nos jornais da época.
    OS PRIMEIROS CONFRONTOS
    “Em Dezembro de 1934 é convidado o Sport Club Sobrosa para um jogo que serviu de experiência ao novo campo do clube, privado ainda de indispensáveis balneários, construídos tempos após e que constavam de uma periclitante estrutura de madeira, pintada a azul, de telhado clássico e com um pequeno gradeamento frontal, assente no solo a uns quinze / vinte metros da porta de entrada principal, a norte do “Carvalhal”. Em frente ergueu-se, mais tarde, um frondoso carvalho – felizmente ainda resiste – implantado pelo Freamundense João Pereira, mais conhecido por João “Ovelha”. A árvore veio do Marão, trazida por um tal Mendes, chefe dos cantoneiros, natural de Felgueiras, que correspondeu afirmativamente e com enorme prazer ao pedido formulado por Hermínio Pinto, dirigente de então. Para suprir tal lacuna os jogadores serviam-se de pequenos aposentos de uma casa particular pertença de Maximino da “Eira”, mais tarde sogro do atleta Alberto Augusto. A vitória sorriu aos anfitriões por uns concludentes 10 – 0.
    Testemunhos da época referem que a jornada foi um êxito total, pelo número e qualidade de espectadores e também pelo interesse despertado
    Cerimónia essa que jamais se apagará da memória de quem teve o previlégio de assistir e participar, e do coração de quem esperou e lutou por esse momento.
    O que de mais relevante ressaltou do acontecimento foi a adesão de entusiastas, figuras públicas incluídas, o ambiente de festa que rodeou a peleja e a goleada – é sempre bom ganhar-se mesmo num jogo a “feijões” – imposta pelos rapazes aos ilustres visitantes.
    Para os intervenientes directos foi, sem dúvida, um dia de rara felicidade, compreendendo-se o que para eles representava vestir, em data simbólica, a camisola que era uma paixão.
    Uma semana depois os “Onze Vermelhos” recebem e derrotam copiosamente os “Scouts” (Escuteiros) do Vasco da Gama, da Vila de Paços de Ferreira, por 13 – 0.
    “Foi um para cada um e ainda sobraram dois”. Assim nos contava, vezes sem conta, com os olhos a brilhar, Cândido Pinheiro, atleta desse lendário grupo.
    Para a disputa da Taça “Aniversário do F. C. Lagoense” disputou-se no campo deste um encontro que opôs as formações dos Onze Vermelhos e o S. C. Penafiel. O empate a duas bolas foi o resultado final.
    Relatam as crónicas de então: “O árbitro, embora razoável no primeiro tempo para uns e no segundo para outros, não pôde contentar a todos e assim, fez com que parte da assistência, invadindo por vezes o campo, invectivasse o árbitro, incitando os jogadores”.
    O ritual de insultos entre adeptos, antes e durante os jogos, era uma constante, para além dos habituais piropos aos adversários e aos, por vezes, improvisados árbitros, e de uns tantos confrontos com elementos da força da ordem (Regedores e respectivos Cabos) que às vezes deixavam algumas marcazitas. Coisa “pouca” como se vê…
    Os desafios não eram, portanto, lá muitos pacíficos, causando impressão o ambiente que os rodeava. Eram mesmo durinhos a roçar a brutalidade. O que deveria ser um simples jogo de futebol, brincadeira com bola, “descambava” para a violência. Não raras vezes – parecia que tinham chegado da guerra – era ver os atletas de narizes e dedos a sangrar, pernas desfoladas, braços ao peito, ossos à mostra, tornozelos torcidos…Problema delicado o do policiamento dos recintos, necessário por temor de invasão ou outras escaramuças, mal de que padecia e padece, o futebol.
    Outros encontros de carácter amigável se disputaram contra, por exemplo, o S. C. Pacense (3 – 1), o S. C. Penafiel (4 – 1), Lagoense F. C. (7 – 1 e 3 – 0), Grupo Caldas da Saúde (6 – 3) “Centenas de pessoas assistiram ao jogo sem alterações à ordem”, Louzada (6 – 2 e 3 – 2) “Jogo quezilento e interrompido várias vezes devido a cenas de pugilato entre os jogadores”, Figueirense F. C. (4 – 4), Leões Sé do Porto (3 – 1) e Marco S. C. (4- 2 e 4 – 4).
    Em Março de 1935 tinha sido o campo de futebol desta Vila – denominado de “Carvalhal” por se situar no lugar do mesmo nome -, por muitos entendidos considerado um dos mais funcionais e modernos da província.
    Bom, mas o mais importante de tudo era já haver um espaço onde se pudesse praticar o futebol e onde se escreviam algumas das “Páginas Futebolísticas” mais brilhantes da respectiva história.
    Ao Carvalhal passaram a convergir, durante anos e anos, milhares de homens, mulheres e crianças que, com a sua alegria, a sua entrega, tanto a participarem como só a verem ou a apoiarem, fizeram do Freamunde um clube diferente, do qual todos gostamos.”

    Equipa (Época 1938/1939)
    “Leonel – Maximino “Frita” – Chico “da Fonte” – João Taipa – Agostinho Machado “Barroco” -Boaventura
    Maximino “da Couta” – Zeca “Rabão” – Alberto Matos – Zeca “Pequito” – Belmiro “da Riqueta”
    A FILIAÇÃO
    “Em Novembro de 1935 é extinta a denominada Liga Invicta e o Freamunde Sport Club filia-se na Associação de Futebol do Porto, preparando-se para entrar no Campeonato da Promoção.
    O azul passaria a ser a referência predominante da sua bandeira. O Clube optava por camisola e meias desta cor e calções brancos, tonalidade que ainda hoje perduram. e porquê esta alteração na indumentária?…Conta-se que nesses remotos tempos a povoação integrava comunidades judaicas – o sobrenome de vários freamundenses “Pinheiro, Carvalho, Pereira, Nogueira…(alusão a árvores, sobretudo de fruto)”, é ilucidativo – , daí a cor azul e o emblema do nosso orgulho ser “sósia” da Estrela de David, já, portanto, com seis vértces e não cinco como anteriormente.
    O futuro começava a construir-se. O denominado “Desporto Rei” ia tomando grande desenvolvimento nesta terra, passando a visitar-nos clubes de assinalado valor.
    O Freamunde alinhava quase sempre com rapazes naturais da Vila, alguns jeitosos e muito prometedores, mas faltava-lhe alguém que ministrasse alguns conhecimentos futebolísticos enfim, que soubesse da poda, mas também tivesse o cuidado de formar outros tantos, pois as deserções eram uma constante e o Clube via-se na necessidade de convidar jogadores da cidade do Porto.”

    O RECRUTAMENTO PARA APRENDIZAGEM

    “Aparece então em finais de 1935 ao lance de um grupo o conhecido e valoroso internacional do F. C. Porto, Francisco castro, campeão de Portugal em 1930/1931 e da 1ª Liga em 1934/1935.
    Da revista “Stadium” extraímos esta deliciosa referência sobre o perfil do orientador : ” Filho de uma talhante – possuidor de metade de estabelecimentos comerciais do género, no Porto – só gostava de sardinhas. Jogador polivalente, actuava preferencialmente a ponta esquerda, por sinal onde menos dava nas vistas. Nos outros lugares, inclusive no de guarda redes, era imbatível. Craque também no jogo das cartas, ninguém o levava…a não ser quando encontrava nas visitas a Lisboa, determinada “Rosa”…Para os colegas era o “arrasta”.
    Com tantos atributos os freamundenses ganhavam alma, alento. Francisco Castro iria ter o pivilégio de orientar uma das melhores “linhas” de sempre do onze da “terra dos capões”.
    Alberto “Botas”, Bica I e Cândido; Pinheiro, Correia e Careca; Pinto, Bica II, Moreira, Jerónimo e Firmino.
    Correia (António Aloísio), natural do Porto, onde chegou a alinhar na formação do Wanzeleres, tinha-se transferido do F. C. Pacense para o Freamunde Sport Club.
    Jerónimo (proveniente do Salgueiros) – irmão de Miguel que por cá também deu alguns pontapés na bola antes de incorporar na GNR, posto de Faro -, era filho da senhora Mariquinhas do Porto, de onde eram naturais. Entretanto, a família radicou-se em Freamunde, na procura de emprego, vindo a morar numa das casas de Serafim Pacheco Vieira (Pai das “meninas Vieiras”), no túnel do Carvalhal, bem perto do então Quartel dos Bombeiros. Jerónimo e MIguel, conjuntamente com os irmãos Cristovão e José, eram exímios jogadores da “malha”.
    Ao iniciar-se o ano de 1936 o Freamunde Sport Club, já em pleno Campeonato da Promoção, mede forças com congéneres de alguma nomeada: F. C. Campense (7 – 1), Ginásio Club Laborim – V. N. G. (6 – 0), Sporting Club Famalicão (5 – 2), Sport Club Wanzeleres – Porto (1- 1) “Durou apenas 45 minutos devido ao mau tempo”, Sport Comércio e Salgueiros (3 – 6), Club Desportivo Costa Cabral (6 – 0), Sport Club Penafiel (2 – 2), Sporting Club Baliense (3 – 1), Sport Club Barros Lima (3 – 5) e Atlético Águas Santas (3 – 1).”
    Equipa “Classe Infantil” –
    Época 1935/1936
    “João Taipa – António “Pataco” – Fernando Rego – Rodrigo “Passarinha” – João Campos – Maximino “Frita” – Miguel – Belmiro “da Riqueta”
    Manuel “Bica” – Amâncio Torres – Zé “Baião”
    DOS “PEQUENOS” TAMBÉM REZA A HISTÓRIA
    Em Meixomil, por estas alturas, teve lugar um encontro de futebol da classe infantil, que opôs as formações da U. D. Paços de Ferreira e do Freamunde S. C.. Venceram os miúdos do “Carvalhal” por 4-2. O seu responsável técnico era o então jogador e sub-capitão do grupo principal, António Aloísio Correia. Este “mister” improvisado assentou arraiais, definitivamente, nesta Vila ao contrair matrimónio, em Dezembro de 1936, com Etelvina Gomes Bessa, filha do Regedor Joaquim Bessa Ribeiro.
    No jogo de retribuição – contou-nos João Taipa – inverteram-se os papéis e os vizinhos venceram por 2-1. ” Nesta partida fui excluído do onze por me encontrar lesionado numa das mãos, sendo substituído na baliza pelo Casimiro “Vaidoso”. Efectuamos depois mais alguns desafios com o Lagoas, Colégio de Lousada e S. Martinho do Campo. Aqui, goleamos por 4-0. Os golos foram todos da autoria do António “Pataco”, após assistências perfeitas do “Zé Baião”. “Zé Pinga”, para os amigos, por ser admirador confesso desse portentoso atleta do F. C Porto, Artur de Sousa “Pinga”. O “Zé” era um franganote mas “rabiscava” que se fartava”.
    Facto curioso da baliza ser ocupada por aquele que viria a tornar-se numa das lendas do Clube “azul”: João Taipa.
    E tem uma história este facto; Porquê na baliza e não na posição onde mais tarde se viria a evidenciar?…Pois bem, andava o Joãozinho no primeiro ano de escolaridade – tempos de sacola de pano e pequena ardósia -, tendo como professor Francisco Valente, quando nas escolas amarelas da Rua do Comércio, em tempo de recreio, se formavam entre os alunos duas equipas para os habituais jogos de futebol, com uma bola feita de trapos e sempre sob o olhar atento do Mestre. Como infelizmente nesse tempo quase todos os alunos andavam descalços, e porque só um ou outro usavam botas ou chancas, (Joãozinho incluído), o professor Valente colocava-os na ingrata posição de guarda redes (aos possuidores de calçado, claro), remediando assim a situação.”

  8. Também gostei do texto. Não consigo é saber ao certo se a dívida de mais de mil milhões de euros dos três grandes clubes portugueses é à pala dos que gostam ou dos que ligam ao futebol. Possivelmente é à pala dos dois e isso também não interessa nada e valente, valente, é continuarem a ter crédito à disposição numa altura destas.

  9. És um verdadeiro pioneiro Val!!! …pois fazes os outros descobrirem-se :)

    – ‘descobriste-me’ agora que,como não ligo ao futebol…afinal gosto de futebol ! :):):)

    “A bola que entra na baliza entra também nos planos de Deus.”

    Tiro-te absolutamente o chapéu……..aliás….à conta disso deve estar a esgotar-se o stock universal de ‘sombreros’… ;)

    Hasta Siempre*

  10. Val,

    Este excelente «post» é contraditório com um elogio que há bem pouco tempo fizeste a Mourinho.
    Mourinho é anti-futebol, eu sou anti-«quem é anti-futebol».
    Respingo um texto meu de Abril de 2010:

    «”Muda aos cinco acaba aos dez

    Finais dos anos setenta, grupos de miúdos a brincarem na rua, roupa suja, calçado com solas de borracha, bolas de catchú e «cambra d´ar», campos de terra e balizas marcadas com pedras ou com montinhos de roupa (casacos, camisolas).
    O meu futebol não tinha treinadores.
    Apenas miúdos com vontade de jogar, não existiam tácticas, existiam golos, pelo menos dez, às vezes os desafios terminavam noite escura, mal víamos a bola.
    Finais dos anos setenta, princípios dos anos oitenta.
    Nesse início de década, o Rio Ave era treinado por um antigo guarda-redes, Félix Mourinho e contava no plantel com um promissor futebolista com dezoito anos, Zé Mário Mourinho.
    Diz-nos a história que o grande momento de Zé Mário nessa época de 1981/1982 foi ter-se sentado no banco de suplentes do Belenenses X Rio Ave e ter sido o décimo sétimo jogador do Sporting X Rio Ave, assistiu sentadinho na bancada do velhinho Alvalade a cinco golos de Jordão, dois de Manuel Fernandes e a mais um título do clube do leão, clube esse que anos mais tarde o contrataria para tradutor.
    De jogador a tradutor e de tradutor a treinador, julgo que podemos resumir assim a carreira futebolística de Zé Mário.
    O futebol, como eu o entendo, é prazer, é gozo, são sorrisos no campo, convívio e amizade nas bancadas, golos gritados (quanto mais melhor) e apupos aos árbitros e aos adversários circunstanciais, depois acaba o jogo, vai-se a revolta, molham-se as emoções com cerveja fresca e reconforta-se o corpo com couratos e torresmos quentes.
    O meu futebol é o futebol sorrido de Messi não é o futebol encolhido de Mourinho.
    O jogo não é, não deveria ser, uma guerra (táctica), prefiro os resultados de 2-2 ou de 4-1 que os insípidos 1-0; 0-1 mourinhescos.
    Na minha opinião, Mourinho não trouxe nada de novo ao futebol, ficará conhecido pelos «mind games» e a bola não se joga com a mente, a qualidade não mente, joga-se com o corpo, com a inteligência, com «fair-play».
    O futebol é o sorriso alegre dum menino baixito e não o riso irónico dum grisalho cinematográfico; são os pés, a vontade e os sorrisos dos jogadores que me apaixonam no futebol e não as palavras escolhidas, ressentidas de treinadores «fashion».
    «José Mourinho contra Messi nas meias-finais» grita-nos A Bola na capa; entre o choramingas Zé Mário que há quase trinta anos assistiu em Alvalade à derrota do seu (dele e do pai) Rio Ave por sete a um (nesse Rio Ave jogava um tal Baltemar de Brito) e o sorridente Messi que encanta os adeptos de futebol quem apoiaremos, com quem estará o nosso coração de adepto do desporto-rei?”»

    in:

    http://antonioboronha.blogspot.com/2010/04/bestial-ou-besta.html

  11. parabens pelo post, tudos temos conhecidos assim. Eu tudos os dias falo com um reformado que so sabe falar de futebol, merca tudos os dias o jornal esportivo, e é uma cabeça valeira, um vegetal que só vive para o futebol. E eu partilho com ele uns minutos porque a cada um há que dar o seu.
    Houve um gran jogador espanhol, Maceda, que o deijar o futebol activo dizia que não suportava ir de espectador os estadios e o mundo de futebol de parladoiro, para ele era um esporto e olhava-o doutra maneira.

  12. OUTRO ESPANHA-PORTUGAL.
    Lá pelo ano mil novecentos e setenta e sete, já nessa altura morrera em Espanha o ditador e Portugal fizera a despedida de Marcelo Caetano. As fronteiras estavam fechadas, nas alfândegas ja não havia vinte cães e mil cadeas para o controlo dos cidadãos embora ainda não havia paso livre. A Garda civil a a GNR eram daquela ja um pouco permissivos em certos lugares.
    Emtre Baltar e Montealegre fica a Serra do Larouco , ela olha e divide duas bandas, para uma as terras do barroso para o outro as de Baltar no alto Limia. O Larouco separa duas terras que noutro tempo os seus nativos se juntabam para irem juntos a loubar na sua cima o chamado Deus do Larouco. Estamos a falar dos tempos pagãos, antes da chegada dos romanos por cá. Os barrosões por uma banda e pela outra os galegos de Baltar e todas as freguesias da sua bisbarra ficaram de costas viradas muitos séculos Nos ultimos anos foi fornecida ainda mais pois os países os que cada um pertezem se deram a se mesmos umas ditaduras de longa data.Ditaduras irmás embora cada uma no seu cantão. Vira-dos de costas ainda que freguesias como A Boullosa e Sendim se olhassem uma a outra so com subir a cima do monte que as separa. Até a natureza virava de costas, pois juntos nascem o Cavado e o Limia, um verte para a banda de Portugal e o Limia vem-se para cá e comenza o seu percurso até baixar as terras da planura da Limia e vai morrer a Portugal onde ja lá è chamdo Lima.
    Nessa altura as novas gerações de rapazes das duas bandas do Larouco que andavamos por os dezaseis e dezasete ja não tinham tanto do medo herdado dos seus maiores e precisavam de conhecer-se, mudar aquela relação dos seus maiores, como sempre ocorre no devir das gentes de quaisquer lugares. Faziam destaque os garotos barrosões que os mais ousados ja tinham costume de apanhar as suas motas e pular monte adiante pelas corredoiras que se iam fazemdo e aparecerem o outro lado. A Garda Civil olhava e deijava fazer e eles vinham partilhar connosco a discoteca que naquela altura ficava em Baltar e que os domingos pela tarde era o centro do mundo. Fomos fazem-do boa relação, eles eram alegres, toleirós e gentes de palavra, tantos uns como outros estavamos a descobrir un mundo novo e queriamos rachar coas angurias do passado e que ficavam na face dos nosos devanceiros. Se a essa idade não sintes tudo isso, então onde tens o coração?.
    Certo dia xurdiu a inquedanza de fazer um jogo de futebol emtre os da lá e mais os de cá. Assim foi combinado para um domingo daquel verão, embora não tinhamos a segurança de que foram capazes de fê-lo. Assim no dia acordado com grande surpresa um exercito de garotos de motas, em cada uma dois ou en casos tres, aparecem em Baltar. Vinham preparados com a sua equipação e com uns bons reforzos de estudantes da Vila de Montealegre. Lá tivemos que prepar-nos com a nosa equipação, organizar tudo e irmos o estadio de futebol do Caneiro a disputar-mos aquele emcontro internacional. Daquela não havia telemoveis e ainda que ficara combinado, achava-mos que teriam muitas dificuldades para virem tudos. Havía rapazes de gralhas, sendim, Vilar de Perdizes, Padornelos e como ja dis de Montealegre tanto os jogadores como os muitos acompanhantes.
    Comezou aquele grande jogo, na que duas equipas iam enfrontar-se con tudas as ganhas do mundo, como se de a luta de bois das que são tradicionais no barroso se tratara. Numca olvidarei aquele jogo e a face daquele garotos que se iam enfrontar por fim e medir as forças com os galegos da banda de là do Larouco.
    Como um clarim do ceu a gente por Baltar vão dizendo em toda parte: há um grande jogo no caneiro entre os rapazes de aquí e os portugueses. O campo ficou cheio de siareiros. Nós ficavamos surpreendidos. E tudo aquilo estava-se a fazer sem apoio de ninguem pois hoje a Câmara ou o concelho seguro que dão apoio para estas coisas, senão tampouco se faz nada.
    O jogo transcurriu forte, mas muito deportivo, havía tensão força e ganhas. Foi tudo com muita nobreza. Ganharam eles. Tinham melhor equipa com alguns jogadores jeitosos e prometedores e vinham preparados para o jogo.
    Rematado o jogo ficamos felizes uns com os outros, con banho no rio pois daquela ainda não havia os balnearios que há hoje e para recuperar agua da fonte. Eles apanharam os seus vehiculos e lá foram tornando os seus lugares porque habia ainda que aproveitar o luz do día e estava a chegar o solpor ( sol do pôr). Além disso sempre fiquei zangado de que a nossa hospitalidade não foi completa, faltaram umas refeições, umas cervejas , etc. Mas o meu era jogar en ninguem com a surpreesa pôs carregar-se .
    Uns anos mais tarde fui e organizei um jogo comtra a equipa de Montealegre, mas ja tudo com a representação das instituções, refeicões e tudas esas coisas que se fazem, mas não foi igoal co meu jogo international no estadio do Caneiro naquele dia do verão de xulho.
    Sempre fiquei com o recordo daquela geração de garotos, geração que é a minha, que estava a olhar por aquela janela do Larouco a espera de um mundo novo que estava nacente , o futebol é grande quando grazas a ele partilhamos, e mistura-mos coisas como esas.

  13. reis,

    que beleza de futebol esse que contaste. Uma partida internacional, como bem dizes, em que o confronto não anula o encontro.

    Noutra escala, evidentemente, fez-me lembrar a festa que se fez em Lisboa no Europeu 2004, quando os adeptos holandeses, mesmo tendo perdido connosco, fizeram uma festa pela cidade toda… à noite, no Bairro Alto,holandeses e portugueses juntaram-se e não se percebia quem tinha sido vencedor ou vencido. Nem mesmo quando dois jovens – uma portuguesa e um holandês – se beijaram interminavelmente, enquanto a multidão mista, à volta, contava em voz alta os segundos, minutos que durava o enlace.

    Mas já vamos tendo de fazer muito uso de memória para vivermos estes momentos de sorriso.

    (não sei porquê, ao ler-te, percebi a veia galega do Manuel Pacheco e a veia portuguesa do reis :)

  14. Edie:
    Obrigado pelo cognome de galego, embora fosse dito em tom de brincadeira. Mas para sua informação e do Reis, aqui na minha terra (Freamunde) somos apelidados de Espanhois. Com muita honra, orgulhamos esse apelido, mais vale espanhol que marroquino (Paços de Ferreira) foram esses que nos baptizaram aquando os confrontos de futebol entre as duas equipas e nós como resposta os baptizamos de marroquinos. A rivalidade era grande, em dia de jogo em casa deles só ficavam em casa os acamados. Quem não conseguia o ingresso ficava á espera dos jogadores para lhes fazer uma festa. Andamos mais de quarenta anos sem perder com eles, só vitórias.
    Lembranças antigas. O futebol tem destas coisas.

  15. edie, obrigado, bem lindo é o que contas e ainda mais rematando em beijos.
    estou orgulhoso de que vejas algo do Manuel Pacheco no relatorio pois os seus post são para min fonte de inspiração para poder escrever com um bocadinho de jeito. ë um grande narrador.
    essa veia acho que fica crara.
    suadações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.