Gandim

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Pode-se procurar aqui, aqui, aqui, e não se acha. Pode-se consultar o Houaiss ou o Dicionário da Academia, nicles. A palavra gandim ainda não se passeia por eruditas paisagens. Mas ela existe desde a minha adolescência (pelo menos). Cresci ao lado da Musgueira (e da Norte, bem pior do que a Sul), dei-me com essa gente, os musgas, a que se juntavam as tribos próximas da Charneca e das Galinheiras, uma cintura urbana de índios. A Musgueira Norte era um pardieiro de barracas, criada pelas deslocações forçadas dos habitantes miseráveis que viviam nos locais afectados pelas obras da ponte, a tal que o povo baptizou Sobre o Tejo para não ter que sujar a boca. Era um território fora-da-lei, engrossado com migrações e imigrações variadas. Era, ’tá visto, um viveiro de gandins.

O termo gandim será (hipótese) um neologismo formado por deriva fonética de gandulo. Adentro dos códigos axio-gramaticais do meio, um gandim seria um gandulo ainda pior. Pior em quê? A ajudar velhinhas a atravessar nos semáforos não seria com certeza, por falta de tempo. Os gandins eram seres atarefados, com uma agenda repleta de assaltos, venda de droga, consumo da mesma, proxenetismo, rixas e vinganças, decoração de interiores. A parte da decoração de interiores talvez até seja a mais relevante; pelo menos, do que me foi dado ver. Entrei em várias barracas da Musgueira, putrefactas ao olhar exterior, de fazer inveja à mentalidade consumista da classe média assim que se passava a ombreira. Lá dentro, avós despachadas e risonhas, rodeadas de electrodomésticos de última geração e outros mimos confortáveis, vendiam saquinhos de pó, ou barrinhas de haxixe, aos meninos betinhos que ali se abasteciam. Faziam-se encomendas de peças de automóvel, rádios, artigos variados e variados serviços. Dizia-se, por exemplo, “quero uma mota assim e assim”, e dias depois ia-se lá levantá-la ou ela era entregue ao domicílio. A Musgueira Norte era uma central de apoio à desburocratização do acesso à riqueza e ao delírio.

Há pouco, descobri com gosto que o vocábulo chegou à Madeira. Alberto João, para as câmaras, confessou inspirar-se num gandim. Não disse qual; mas, como de costume, deve estar a falar de si próprio.

18 thoughts on “Gandim”

  1. Valupi,

    Cresceste «ao lado da Musgueira»? E da Norte, «pior do que a Sul»? Mas, «ao lado da Musgueira», poderia haver, ainda assim, um Restelozinho.

    É isto: continuo sem saber de que meio social vem este meu companheiro do Aspirina.

    Mas, a este blogue, só fica bem alguém que respirou os fumos da Musgueira. Faz boa companhia a quem cresceu numa transversal da Poiais de São Bento.

    Síntese provisória: o Aspirina (o mais assíduo dele nos últimos tempos) subiu a pulso.

  2. Ainda bem que me esclarece sobre a expressão proferida, eu já temia uma invasão indiana de «resistência passiva» a tiro, para salvar a honra de Gandhi

  3. Ao lado do restelozinho havia um pequeno bairro de ciganos, estrategicamente colocado como modo de cumprir a função pedagógica de devolver o país real aos habitantes. O resto era povo de trabalho.

  4. Gandim já conhecia, mas também cheguei a ouvir o termo “gandino”. Será que estaria pelos dicionários? Gandulo, esse sim, famosíssimo por todo o país. Pelo menos pré-informática, dá vontade de escrever algo sobre o analfabetismo popular (por oposição ao funcional) que se instalou com o advento dos computadores. Por “analfabetismo popular” refiro naturalmente a ignorância daqueles termos mais antigos que os mais novos (e aqui incluo mesmo as pessoas da minha idade) parecem desconhecer. E é pena, porque alguns eram verdadeiros achados. Talvez com novas jornadas de alfabetização para educar estes gandulos…

  5. Fernando

    Ao lado da Musgueira não há Restelozinhos, seja lá qual for o lado para onde se olhe. Curiosamente, havia (e ainda há, mas quase que desapareceu) uma presença anacrónica e paradoxal na Musgueira: a quinta da família Lancastre (não confundir com a família Lencastre). Nesta quinta havia cavalos à solta, entre outras provas de fidalguia rural. Foi o patriarca que, algures no tempo, cedeu uma grande porção dos seus terrenos para a Carris fazer uma central de recolha. Como curiosidade, o solar dos Lancastre, no Minho, é um dos mais espectaculares em Portugal.

    O meu meio é o mais banal possível: baixa classe média.
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    Anonymous 10.07 AM

    Não, nada de ciganos.
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    João André

    Também eu (se for o teu caso) sou “filogirino” (acabei de inventar e não tem qualquer futuro, o Fernando que me perdoe a blasfémia). Tenho um desejo insano de recuperar a gíria de outros tempos, não só os meus. Há aí uma inventividade que é um especial amor ao outro e às coisas. Um amor perdido, aparentemente.

    No entanto, a puberdade e a adolescência continuam a produzir gíria, em fenómenos que são automáticos. O que se passa é que a gíria actual tem menos diversidade genética; ao contrário da antiga, alimentada de variados nichos culturais sem contaminações nem efeitos dissolventes (por efeito da economia, transportes, TV, escola, Internet).
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    Anonymous 7.29 PM

    Estragas-me com mimos.

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    Filigrana

    Concordo, é um boneco feliz.

  6. …irrraaa!, até q’enfim q o homem resolveu dar um ar da sua graça, qt mais ñ seja pra ñ deixar mal o q insistem em fazer-me crer…e claro q ñ me refiro ao burgesso, claro!:=>

  7. Foi por acaso que descubri este sitio, mas depressa me despertou a atenção, não pelo termo que o pseudointelectual lhe quer atribuir como sendo pioneiro, mas sim pela forma quase realista como descreve a MUSGUEIRA, que por acaso foi meu berço, e com muito orgulho, já agora gostava de saber se esse morar ao lado era morares na rua pedro queiros pereira onde era praticamente para não dizer tudo igualzinho ao k descreves-te em relação á MUSGUEIRA, a unica diferença era:
    vocês pseudointelectoais moravam em barracas ao alto.

  8. manik, era na rua Alexandre Ferreira, no Lumiar.

    Quanto ao “pseudointelectual”, tens toda a razão. Excepto na parte do termo pioneiro, onde me parece que tropeças e cais de queixo.

  9. Valupi

    sabes lá tu o k é cair de queixo, sabes lá tu o k é vida, de certeza k nunca saís-te de traz do ecrã do computador, mas pela maneira como descreves-te a musgueira de certeza k compras-te lá muita droga.

  10. manik, mais uma vez tens razão: eu não faço ideia do “k é vida”.

    Uma coisa te posso também assegurar: “k compras-te” tem muito de errado.

  11. Desculpa lá o atraso, Valupi, mas só agora é que cheguei a estes teus comentários sobre a palavra “gandim”. É que também só agora pensei no termo, porque vi a protagonista de um documentário, a D. Aida Meneses de Bragança de “A Dama de Chandor” de Catarina Mourão, falar (entrevistada em Goa) do personagem histórico Ghandi pronunciando o seu nome não come habitualmente fazemos em Portugal (creio), “gándi”, mas antes “gandí”. Não será que, em tempos salazarentos, o termo passou a adjectivo comum, com sentido despectivo? Muito antes de tal período, o mesmo se deu com “judeu”, “safardana”, “rabino”; e, nos tempos da Primeira República (se não antes), com “jesuíta”. Depois, mesmo no período salazarista, lembro-me do meu avô (que não era lá muito prafrentex) ter baptizado como Neru um seu podengo…
    E pronto. Cumprimentos e aguenta a barra sempre direita. Arlindo

  12. VALUPI

    pois na rua Alexandre Ferreira no Lumiar onde deitavam os sacos do lixo pela janela em vez de deitarem nos contentodres do lixo.
    A diferença das familias da Musgueira Sul e Norte de pessoas como o Sr. é 2 palavras Amor e Amizade.

  13. VALUPI…

    SÓ UMA PESSOA TRISTE E INFELIZ NA VIDA TEM ESTE TIPO DE DESCRIÇAO DE UM BAIRRO QUE POR SINAL TE É TAO DESCONHECIDO OU ENTAO MUITO CONHECIDO PELA NEGATIVA…
    SÓ QUEM LÁ FOI NASCIDO E CRIADO É QUE SABE O QUE REALMENTE ERA A MUSGUEIRA…

  14. Apenas a passar por aqui porque a Musgueira nunca morrerá… pelos menos aos olhos daqueles que souberam aproveitar a escola da vida para dar o salto que a sociedade permitiu…

    Nao estou a falar do salto em altura, para onde foram trasnferidos todos aqueles que tinham um vizinho com quem partilhar uma historia.

    Hoje a musgueira ainda está viva, nao vive em barracas horizontais feitas de madeira, tijolo e algum cimento… vivem em ALTA ou melhor na alta … em barracas verticais onde sonham um dia poder regressar á velha musgueira.

    Fui, sou, da velha musgueira a tal mais a sul.

    Sou e sempre serei “soldado da musgueira”, vivi na selva, e hoje sou homem q metade do que sabe e é foi ppor ter nascido num lugar tão especial…

    Musga4Ever

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