Fantasia a mais

Fantasia Lusitana tem o supremo mérito de cumprir o contrato: o seu título antecipa, e resume, a obra. Só que o Canijo é ludibriado por si próprio. A intenção de ilustrar a retórica do Estado Novo com documentos da época apresentados sem contextualização, acrescidos de um olhar estrangeiro fugaz e em fuga, acaba por retratar uma realidade onde ninguém já se reconhece. Nem os que protagonizaram a oposição, mesmo o combate, a esse regime se identificarão, por contraste e recordação, com o fluxo dos clichés e subjectividades de uns e de outros. Ficamos a ver passar um carrossel que parece ir para algum lado, mas não sai do mesmo sítio. A última reportagem apresentada é especialmente penosa de tão indulgente, dando ao filme um final simplista e banal.

Mas é de ver, obrigatoriamente, e por boas e cinéfilas razões. Mas também para despertar aqueles que podem pegar em igual temática e chegarem ao osso, ao nervo, ao sangue. Só a pele, e à distância, é fantasia a mais e lusitanidade a menos.

7 thoughts on “Fantasia a mais”

  1. Boa crítica na primeira parte, mas depois deixas-nos na expectativa. Eu quero acreditar em ti, mas quais são as “boas e cinéfilas razões” para ser “obrigatório” ir ver o documentário? Especialmente tendo em vista que o “trailer”, como habitual, é péssimo. Já o cartaz é fantástico, o que diz muito da distância que separa o design gráfico nacional contemporâneo do cinema.
    Ah, e isso da Medeia chamar “grande êxito” a uma produção que, pelas minhas contas, teve uma média de 26 espectadores por sessão é, só por si, esclarecedor.

  2. As boas e cinéfilas razões são todas as que dizem respeito à fruição da arte, do cinema, do cinema português, do género documentário, do documentário português e das salas de cinema. Concretizando, o filme é original na proposta, e recolhe documentos que valem por si. Para além disso, a temática é fascinante. O tempo dos nossos pais, avós ou bisavós, é um continente por explorar – desconhecimento que explica muito do que acontece, e não acontece, no presente.

  3. Tentei já tres vezes fazer um comentário ao texto e ao filme e não consigo a publicação. Que raio de coisa se está passando com a caixa aberta?

  4. Adolfo Contreiras, não sei qual seja o problema. Lembro-te só que as causas poderão ser as mais diversas, incluindo o teu browser ou ligação.

  5. Perdi o texto, aqui directamente escrito, três vezes. Vamos ver se volto ao assunto como o quero contar e já tinha escrito.
    Estive em Lisboa, fui ao Jamor ver o Federer e os dois portugueses com bilhete “arranjado” por familiar, e ao C. Pequeno ver o Fantasia Lusitana por minha conta. Vejo todos os filmes portugueses que posso, desde ainda antes da minha passagem pelo Cineclube ABC.
    O filme vale como arte de cinema pelo laborioso trabalho de pesquisa e sobretudo pela montagem do material de arquivo. Dar sequência fílmica dispondo e trabalhando apenas com material totalmente de arquivo é fazer arte cinematográfica de montagem.
    Mesmo com tal limitação o filme acaba por ser uma crítica certeira do provincianismo pacóvio da “cultura” do Estado Novo, muito especialmente quando trata de desmontar pelo ridículo essa tal “cultura” de aldeia. Neste aspecto o filme vai muito bem e atinge em cheio o objectivo de pôr a nu a concepção cultural do Estado Novo.
    O final, não me recordo já bem, julgo tratar-se de mostrar o ponto de vista de alguém, um escritor(?) estrangeiro, e portanto uma visão do exterior, “de fora” e por conseguinte um olhar mais distanciado e visto por cima, pairando sobre o salazarismo,e não sentindo-o como os metidos nele à força. Talvez venha daí essa fraqueza que o Val detectou no final.
    De qualquer modo trata-de de um filme sobre a nossa memória histórica recente e obrigatório para quem não viveu a tortura cívica, moral e cultural daquele tempo condicionado e agora recusa a mais leve incomodidade.
    , sentindo-o. sem a vida e não ou se pequenez vai

  6. Sem dúvida, adolfo contreiras, obrigatório vê-lo por muitas e boas razões, como dizes. A última reportagem é a da inauguração do Cristo-Rei.

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