Falta o pau

As relações dos ex-Presidentes da República com os titulares no activo foi invariavelmente pautada pela mais rigorosa, ou convencional, circunspecção e deferência institucional. O protocolo era rei e senhor. Vermos um ex-Presidente a criticar politicamente o Presidente seria algo impensável. Supor que um ex-Presidente viria a pedir a demissão do Presidente era algo inimaginável.

Ajudou muito, para manter o status quo, que os Presidentes da República anteriores a Cavaco fossem todos, com as respectivas diferenças, exemplos de respeito pela Constituição e pelo Soberano. Cumpriram no essencial o juramento que fizeram. Isso coloca-os num grupo onde Cavaco não pode entrar. Cavaco é o primeiro Presidente que põe os seus interesses políticos à frente da defesa da Constituição, anulando-se como representante do Povo. Tal disrupção justifica uma reacção nova por parte da comunidade.

Estas declarações – “Senhor Presidente, demita-se, uma vez que não cumpre a Constituição. Não desgrace mais Portugal, senhor Presidente da República.” – tinham tudo para serem uma bomba política de consequências imprevisíveis. Vinham de Soares, pediam a demissão de um Presidente da República, esse Presidente é Cavaco Silva e a alegação é vexante e ofensiva. Porém, contudo, todavia, estão condenadas a desaparecerem na mesma trituração quotidiana para onde se mandou nesta quinta-feira a indignação bufa de quarta por causa da Pepsi, para onde se mandaram todos os escândalos e ilegalidades do actual Governo, para onde se manda a vergonha pela

Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!

A causa dessa ineficácia na comunicação encontra-se no próprio Soares. Este homem, a quem devemos em parte maior estas décadas de democracia e desenvolvimento, envelheceu. Tal condição poderá não ter afectado substantivamente a qualidade dos seus valores e raciocínios, mas sem qualquer dúvida que alterou a sua prudência. Ao vir a público fazer apelos à violência disfarçados de avisos contra a violência, hipocrisia a que se tem entregado ao longo do último ano, Soares pode estar ainda a cumprir-se como o animal político que sempre foi e será. Mas já não é capaz de ajudar a cidade. Porque a violência, a ocorrer, fará vítimas inocentes e aleatórias. E Soares, nessa eventualidade, não terá força para estar ao seu lado, quanto mais a protegê-las e liderá-las. Aliás, violência foi o que aconteceu em simultâneo com o seu discurso, uma violência muito maior e muito mais grave do que aquela ocorrida em Novembro de 2012, quando os manifestantes atiraram pedras aos polícias que defendiam a Assembleia da República. Assim, a profusão de afirmações catastrofistas que tem feito apenas conseguiu contribuir para a passividade colectiva, dada a evidente emotividade descontrolada que as originava e a ausência de responsabilização pelos seus potenciais efeitos. Foi esboroando a sua autoridade a cada intervenção inflamada. Caso Soares tivesse estado calado só para aparecer agora a exigir a demissão de Cavaco, então, sim, Belém talvez viesse mesmo abaixo pela força da sua voz.

Soares age por instinto e amor à vida, amor ao próximo, amor a Portugal. Mas as suas lancinantes palavras são pontas afiadas sem pau.

32 thoughts on “Falta o pau”

  1. Concordo consigo, no essencial. Mas estou em desacordo com a ideia de que a prudência de Mário Soares está afectada. Homens com idade avançada podem, eventualmente, apresentar desgaste ou decrepitude, mas não parece ser o caso de Soares. Ele mostra ser o único peso pesado a abanar um país de gente anestesiada. O que ele disse é um grito de alerta. Falar da violência não é incentivar a violência, é dizer a palavra certa que muitos querem ignorar. Antes que seja tarde demais, Soares pôs o dedo na ferida e atribuiu responsabilidades a Cavaco. Na verdade, violento, violento, é já o quotidiano de muitos de nós.

  2. A causa da ineficácia da comunicação é irresolúvel neste contexto, simplesmente porque o poder económico capturou os meios e posicionou os peões para a desinformação. Repare-se: ocorreu uma tentativa de condicionar umas eleições legislativas, que deveriam ser livres e democráticas, nos termos da constituição. O Órgão que tem a missão de zelar pelo regular funcionamento das Instituições Democráticas, patrocinou uma campanha com vista a favorecer o seu partido. A comunicação social foi conivente, e a que não foi pactuou com o silêncio. E assim continua, com raras exceções. Não me parece que a situação se altere com apelos à serenidade: no meio de um pântano, os primeiros a afundar são os que não esbracejam…

  3. “fazer apelos à violência disfarçados de avisos contra a violência”

    Não são o governo, o presidente e a troika que fazem apelos à violência disfarçados de salvação da pátria???

  4. A mediocridade nacional em todo o seu esplendor.

    Mário Soares que inventou «os salários em atraso», que confundia «milhares com milhões», que correu mundo de avião, de camelo e tartaruga, que gozou com um Portugal do 26 de Abril, (digo vinte e seis), que se põe em bicos de pés gabando-se que foi mais vezes preso pela PIDE que qualquer outro português, que se gaba que tanto como quem foi para o Tarrafal, ele foi tão vítima como eles ao ir para as praias de São Tomé, Este Mário consegue reunir toda a mediocridade nacional, contra um medíocre governo e Presidente da República igualmente medíocre.

    Ou seja, ao fim de 45 anos, como não deviamos recorrer a estrangeiros para nos governarmos?

    45 anos, que são os anos em que se partiu a cadeira.

  5. Eu acho que Soares veio a público fazer um apelo contra a violência disfarçado de aviso sobre a possível e muito provável, violência.
    Uma violência originada pela governação de direita, por um PR que a apoia e suporta, por uma maioria, por uma PGR, por todos os jornais, rádios e televisões, por um líder da oposição completamente incapaz.
    Estamos, sem escape e sem esperança, a viver um grande pesadelo, assistindo à destruição da protecção social, do SNS e da escola pública.
    Que fazer?

  6. estou banza: dizer que a passividade colectiva se deve também às declarações de Soares.?!?!Não, pá, a passividade colectiva também se deve a termos um seguro na oposição. o mal não está em soares, o mal está em só termos um soares.

    jrrc, muito bem!

  7. dêem-lhe as voltas que quiserem, o mal está no cavacoiso e se a coisa não teve o efeito previsto, o gajo pode agradecê-lo à encenação macedo/forças de segurança, com um holofotezinho para o arménio, aos rúbenes pereiras que foram lá controlar os danos na imagem de sexa, aos cobardolas do costume e aos consonsuais que costumam aparecer na fotografia da vitória.

  8. Só tenho a agradecer ao Soares. Pelo passado e pelo presente. Estou-lhe profundamente grata por não se deixar ficar. Não diriamos as coisas da mesma forma que ele? Pois foi, mas não dissemos nada, quem levantou a voz foi ele.

    Há alturas em que é mesmo assim: não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí.
    Não pude estar na aula magna, mas estou ao lado do Soares e de todos os que lá estiveram.

  9. soares,não incentivou o povo à violencia,simplesmente fez um aviso solene ao governo,que esta politica e o não cumprimento da constituiçao,leva certamente à revolta.dado que o povo,depois dos tempos de socrates parece viver em estado de” coma induzido”. lamento, que este grito de revolta tenha que vir da boca de um homem que se podia ao luxo de estar a ver o “filme” comodamente em nafarros.quanto à manif dos policias,foi uma especie de “secos vs secos” e ainda bem,pois abriu um precedente, que espero que seja respeitado por ambas partes e num futuro proximo.

  10. reaça,como simpatizo contigo,o castigo que te aplicava, pelas tuas mentiras e reacionarites, era a prisaõ não no tarrafal,mas em londres, a fazeres de dama de companhia aquelas velhinhas da minha idade, prisioneiras em londres.para tua felicidade esse castigo não ias cumprir ,porque elas para não te aturar arranjavam uma soluçao para te por fora da casa dos segredos.

  11. Muito bem, nuno cm, ibmartins, Pandil, Roteia e tantos outros.

    Soares merecia ser substituído, nesta fase crucial do “jogo”? Sim, estamos de acordo. Mas POR QUEM? POR QUEEM? Este é o drama da Oposição e Soares não tem culpa, entre (muitas) outras coisas, de o PS se ter senilizado, desde os anos 90, muito mais rápidamente do que ele próprio!

    Sim, Soares pode ser ridicularizado, é tão fácil ridicularizar os velhotes, não é? Avancem lá, valentões! Gozem o prato à vontadex, como agora se diz!

    Mas não se esqueçam do mais importante: O QUE ELE DIZ É A MAIS PURA DAS VERDADES!

    E, se olharem bem à vossa volta, verão que a violência já é patente. Mas por enquanto apenas violência surda das MARGENS QUE COMPRIMEM O RIO.

    A ela seguir-se-á, inevitávelmente, a do Rio que rebenta com as margens e levará tudo com ele.

    Como alertava Cesário:

    “(…) Que os Povos humilhados, pela noite, para a vingança aguçam os punhais!”.

    O Carlos e o Luís Filipe não o quiseram ouvir e a vida da Monarquia foi aquilo que se viu…

  12. O “pau” está enterrado algures, à espreita. E, a partir de agora, com o “ferro” em brasa, pode ser desenterrado a qualquer momento. O mais certo é alguém TROPEÇAR nele e desenterrá-lo sem querer – é quase sempre assim que o “pau” se mostra!

  13. Ó Nuno, asinhas não te faltam! Mas vai chamar mentiroso a quem mente.

    Chama-me todos os nomes, mas mentiroso porquê?

    É que se fôr preciso mais verdades, tenho o saco cheio.

    Principalmente sobre o melhor e o pior dos portugueses, Mário Soares.

    E não há qualidade que justifique tantos defeitos na pessoa desse típico português Mário Soares.

  14. ” Vermos um ex-Presidente a criticar politicamente o Presidente seria algo impensável. ”
    Mudam-se os tempos e para novos males, novas receitas. Também não tínhamos tido um PR que boicota a missão para que foi eleito, boicota alarvemente o povo que devia representar, para manter no poleiro os amigos delinquentes, custe o que custar. Usurpação, chama-se. O homem já devia estar preso depois de montar o watergate portugês, “as escutas”, numa tentativa de golpe de estado. Nunca tínhamos tido isto como PR, por isso não se justificaria que tivéssemos ouvido antes o que Soares disse agora. É muito difícil de perceber??

  15. E jà agora, valupi, a agência de comunicaçao em que trabalhas faz parte daquela associação que repudiou as declaraçoes do Moreira de Sà?

    E como è que tu te chamas mesmo?

  16. reaça,desculpa lá. tu não és só mentiroso como és pouco rigoroso.de tartaruga só viajou 5 metros nas maldivas,por falta de combustivel.de camelo viajou as costas de um gajo como tu, para levar mais uns subsidios aos retornados.

  17. Sexta-feira, 22 de Novembro de 2013 – In: http://barbearialnt.blogspot.pt/
    À margem do Estado de direito
    ParemA nossa troika (Coelho/Portas/Silva) ainda não entendeu que o que a distingue da outra é o facto de ter sido eleita. Ao contrário da troika internacional que “está lá” por direito divino, esta “está cá” por direito eleitoral e tem de responder perante os cidadãos e perante a Constituição que lhes permitiu cá estar.
    Se não gostam da Constituição, alterem-na. Se não têm legitimidade suficiente para a alterar vão busca-lo às urnas. Se não conseguem convencer os eleitores a mudar de opinião quanto à validade da Constituição e aos seus preceitos, demitam-se.
    Cumpram com as Leis deste País porque se o não fizerem não têm o direito de exigir que os cidadãos que vos elegeram cumpram as Leis a que estão obrigados e, principalmente, anotem que esses vossos malditos comportamentos ilegais estão a forçar o aparecimento de ilegalidades de contraposição.
    Quando o Estado de direito não é respeitado pelos detentores do poder os cidadãos passam a dispor do direito de demitir o poder por todos os meios, incluindo aqueles sobre os quais o direito não dispõe.
    LNT

  18. Se o livro do Rui Mateus estivesse à venda e os cambalachos do principal delinquente nele referido tivessem sido investigados, esta fantochada nunca teria existido. Mas a censura democrática impôs o desaparecimento do livro, perante a indiferença geral, e os snrs. jornalistas, contra aquilo que seria a sua obrigação, continuam de espinha quebrada, em permanente vénia a este desavergonhado profiteur da coisa pública e da imbecilidade de uma classe(?) política rasca, inçada de labregos deslumbrados, apenas empenhados em fazer pela vida.

  19. Se a história se tivesse feito de falinhas mansas, abraços e beijinhos, ainda não existiria cidade nem cidadania, estávamos todos cheios de piolhos e a fazer muitas vénias à passagem do chefe da tribo ou do senhor feudal.
    Deve ser tudo feito à bruta?
    Claro que não, desde que o sistema democrático funcione devemos respeitar a vontade das maiorias. Será que está a funcionar? Duvido.
    Os cravos do 25 de Abril foram postos nos canos das espingardas, sem a força da tropa ainda teríamos os herdeiros do Marcelo antigo a mandar nisto, a meias com os das hóstias.

  20. o país anda fodido porque até na política se confunde tesão com desejo: até num texto tão explícito onde se diz que o desejo, aquilo grande e maior, deve estar acima de tudo – até das palavras que são hábeis a matar sem arma – se lê apenas, pequeno ímpeto humano, tesão. não tenho dúvidas: quem não sabe interpretar nunca poderá, como é óbvio, bem pensar. e muito menos bem falar nem escrever. isto tudo a uma escala gigante dá em Cidade fodida. isto porque vocês, os que não sabem interpretar, são todos fodidos da cabeça.

  21. oh bimba! falta de pau, tens tu e é de marmeleiro, pelos cornos abaixo. haja pachorra para tanto nonsense rilhafoleiro da sereia d’areia branca. desbunda, pá! tira daí o postal, que dás cabo da vista aos mais atentos e despertas comportamentos zoófilos aos distraídos.

  22. desculpa val,mas é sempre bom recordar! catroga em 3 de maio de 2011:”a negociaçao do programa de ajuda externa a portugal,foi essencialmente influenciada pelo psd e resultou em medidas melhores e que vão mais fundo do que o chamado pec 4″. há mais mas fica para a proxima.

  23. Oh! VAL pode riscar este comentário, mas vou espalhá-lo por aí. Vocês são uns filhos da puta, fascinados pelo chefe da máfia, como se dizia no meu tempo dão o cú e oito tostões pelo chefe. Bom proveito lhe faça.
    Encontrei isto que segue no facebook de ´José Sócrates, e ontem estava no facebook de AJS, como comentário:

    Hirondino Isaías
    Militante do PS
    Parque das Nações

    Caro Camarada
    António José Seguro

    CARTA ABERTA

    Antes de mais, apresento as minhas maiores saudações socialistas.

    Por outro lado, e como militante do Partido Socialista, quero salientar que nada tenho contra o Camarada, enquanto Secretário-Geral, nem do trabalho que tem vindo a desenvolver pelo nosso Partido e por Portugal.

    No entanto, dia após dia, a situação do País e da esmagadora maioria dos que nele trabalham e habitam, está a detiorar-se graças aos cortes brutais nos rendimentos dos trabalhadores e dos pensionistas, ao enorme aumento dos impostos e à má governação dos Partidos que estão no Governo.

    Se esta situação se mantiver por mais tempo, o País ficará numa situação muito pior do que aquela que existia quando a “Troika” e o Governo PSD/CDS entraram “em funções”, razão pela qual Portugal não pode continuar assim.

    Perante os erros cometidos, por diversos Governos, o nosso País necessita de um Primeiro-Ministro preparado, experiente e com uma grande capacidade de trabalho para que as Portuguesas e os Portugueses voltem a acreditar em Portugal como um País de futuro na Europa e no resto do Mundo.

    O nosso atual Secretário Geral, António José Seguro, irá dar certamente um bom Ministro, numa próxima Governação Socialista, e até poderá ser, um dia, Primeiro-Ministro de Portugal, mas antes disso, e sem querer ferir susceptibilidades, o nosso Camarada António Costa é aquele que, sem desprimor para ninguém, poderá garantir como Primeiro-Ministro de Portugal o princípio do fim de uma crise sem precedentes para Portugal e para todos nós, tal como fez na cidade de Lisboa.

    Caro António José Seguro,

    Espero que esta “Carta Aberta” não seja considerada nenhuma “ameaça” à liderança no Partido Socialista, mas sim entendida como uma ”opinião sincera e honesta” para bem de Portugal de todas as Portuguesas e Portugueses.

    Com as maiores Saudações Socialistas,

    Parque das Nações, 21 de Novembro de 2013,

    Hirondino Isaías

    Gosto · · 23/11 às 20:25

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    Gosto · · 16/11 às 14:32

    Maria Vouga

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