3 thoughts on “Exactissimamente”

  1. Sobre os trabalhos de Passos, sobre a ideologia que o rege e que muitos outros cumprem zelosamente, vale a pena reter um aspecto fulcral: no campo da Saúde, como em nenhum outro campo, constata-se o ponto de degradação ética a que chegámos, um país “a bater no fundo”.

    (isto é um alerta)
    Quem por estes tempos se dirigir às urgências hospitalares poderá verificar a decadência e perversão daquilo a que chamávamos Serviço Nacional de Saúde. Os profissionais da área sabem-no bem. O que se passa actualmente nos Bancos dos hospitais de Lisboa é grave, degradante, por vezes trágico. Exige de todos nós uma atenção muito particular. Qualquer de nós, ou pessoa que nos seja querida, pode ser a próxima vítima.

  2. Passos não tem, nunca teve, a noção do efeito das suas palavras nos portugueses. É um fundamentalista da política, com todos os defeitos que isso acarreta. Das virtudes — de ser sectário — também não goza pois nada há de correcto no neoliberalismo.

    Entretanto, a taxa de natalidade caiu para valores abissais. Se continuarmos por este caminho, em 2030 teremos uma população de 9 milhões (menos 10% que hoje). Isto desmente toda a “teoria” por trás das palavras de Passos. Já nem se trata de uma questão de dignidade do trabalho; é uma questão de subsistência do trabalhador individual e do próprio mercado de trabalho, no futuro (a não ser que Passos esteja secretamente apostado em provocar uma crise de falta de mão-de-obra e inflação, como as que ocorreram na Europa nos séculos XIV e XVII).

    Mas Passos só não cai porque Cavaco Silva o pregou ao poleiro. Essa é a verdade. Por vontade de cavaco, o cadáver político do primeiro-ministro tem mais dois anos para destruir a nação portuguesa. A direita quererá depois “resolver” crucificando o coelho e, quiçá, o próprio cavaco. Já duvido é que isso vá a tempo de salvar a direita (ou, pelo menos, aquela que restar da purga) do crucifixo…

  3. Mais relevante para o que poderá acontecer em Portugal, se persistir o declínio demográfico na próxima década, será o que aconteceu na União Soviética. Este país baseou o seu desenvolvimento acelerado no uso intensivo de mão-de-obra, cuja origem foi a migração do campo para as cidades e a entrada das mulheres no “mercado” de trabalho. Mas, quando os factores demográficos começaram a limitar esse modelo de desenvolvimento, a partir da década de 1960, a URSS entrou numa crise de falta de mão-de-obra. As empresas (embora, oficialmente não houvesse competição) competiam entre si por esses (então valiosos) recursos. O que criou um mercado de trabalho de facto. As mais poderosas conseguiam recrutar trabalhadores que mantinham nos quadros da empresa; alguns dos mais valiosos permaneciam inactivos, só porque a administração da empresa não queria correr o risco de os perder para outras. Claro está que tudo isto ajudou (e de que maneira) à ineficiência genérica da economia soviética, que a enfermou fatalmente no seu período final.

    Esta é outra das razões por que um país moderno, urbanizado, não pode basear o seu modelo de desenvolvimento na mão-de-obra intensiva e barata. Mesmo numa economia de mercado, e conforme o Portugal contemporâneo prova, isso também é uma impossibilidade económica. Esse modelo só funciona enquanto houver recursos de mão-de-obra (migração do campo, trabalho feminino, emigração) que possam compensar as debilidades demográficas causadas pela sobre-exploração do trabalho.

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