Exactissimamente

«São demasiado optimistas as manifestações públicas de regozijo por Portugal permanecer até agora impermeável ao populismo. Há um ambiente populista na nossa sociedade, alimentado e amplificado pelos actuais dispositivos desenvolvidos pelos media televisivos, radiofónicos e, cada vez mais, também pela imprensa escrita (um populismo onde os políticos se sentem investidos na condição de jornalistas e os jornalistas assumem a condição de políticos). Há um clima deletério que os media atiçam sempre que há uma ocasião favorável, recorrendo à teatralização e à dramatização que solicitam os afectos e criam clivagens irracionais, pessoalizações passionais, dilatações demagógicas. O último pico de calor neste ambiente de populismo difuso foi a substituição da Procuradora Geral de República, Joana Marques Vidal. Como pudemos verificar, o resultado do processo, como é próprio do populismo, acaba por ser a despolitização — a despolitização generalizada da matéria política. Quem tomar atenção aos pequenos e grande sinais, com olhar de analista, descobre facilmente que a escrita jornalística, mesmo nos jornais que gostam de se reclamar como “de referência” (algo hoje tão inexistente como o unicórnio), se inclina cada vez mais — num gesto que se vai naturalizando e tornando-se mimético — perante este ambiente, induzindo uma audiência e afastando progressivamente o público mais exigente. Experimentemos olhar para três títulos de artigos recentes: “Oh Joana, pensar que estivemos tão perto” (Pedro Candeias, Expresso), “Aprende, Joana: em Portugal quem manda é o PS” (João Miguel Tavares, PÚBLICO), “Joana e Lucília” (editorial do PÚBLICO, por Ana Sá Lopes,). Quem é esta Joana, nomeada com a mesma familiaridade (pelo menos nos dois primeiros artigos, o de Ana Sá Lopes é, quanto a este aspecto, de mais baixa intensidade) com que se nomeia a colega de turma? É a PGR. De repente, passa-se da função-PGR para a pessoa que a exerce, na sua identidade civil. Ou seja, passa-se da entidade pública para a pessoa privada. O jornalista expõe a pessoa enquanto tal, na sua nudez, como se tivesse a prerrogativa da objectivação e do tu cá, tu lá, criando uma proximidade artificial e arrogante que, na sua lógica extrema, vai dar ao “oh palhaço!” da invectiva popular. Se verificarmos com atenção, este tipo de títulos está hoje disseminado na nossa imprensa, mesmo quando depois nem correspondem ao tom mais sóbrio dos artigos. Mas não são apenas os títulos “sexy” que caracterizam este regime populista da escrita jornalística. Para fazer subir a temperatura populista, esta escrita jornalística recorre ao artifício da teatralidade, da tirada lúdica ou humorística: o jornalista ocupa o lugar da “vox doxa”, faz falar uma improvável “sociedade civil”. Tudo isto é servido por uma linguagem simples, por um vocabulário e uma sintaxe que são a forma necessária e consubstancial dos conteúdos simples, das ideias elementares. O editorialismo difuso e primário deste “building journalism”, que é um jornalismo sentado (aquele a que pertence hoje toda oligarquia instalada nos jornais), contaminou a escrita jornalística. E é fácil perceber que esta escrita se empenha, consciente ou inconscientemente, em imitar o modelo retórico e teatral das redes. Não se trata, aqui, de demonizar as redes. Mas a escrita jornalística (compreendo, com esta designação, também as secções de opinião) deveria ser outra coisa diferente. Não deveria, sobretudo, contribuir para as ondas de gritaria, tagarelice e teatralização enfática que emergem constantemente no espaço público. Essa escrita está destinada a falar apenas para o público que ela cria. É suicidária.»


O populismo jornalístico

10 thoughts on “Exactissimamente”

  1. «Para fazer subir a temperatura populista, esta escrita jornalística recorre ao artifício da teatralidade, da tirada lúdica ou humorística:»

    Precisamente, é o estilo que vem imitando, sobretudo, o “governo sombra” e também o “eixo do mal”.
    No primeiro a estética da teatralização é total assim como a fala, a expressão e linguagem dos “ministros” é da engraçadice à moda do fedorento que cada vez resvala mais para o piadismo fácil à lá Parque Mayer.
    A tv monta e encena o teatro com os respectivos embasbacados para rir alarvemente e bater palmas, o fedorento faz o estilo piadista/engraçadista sobre todos os temas e o Tavares dá o cunho e sentido político estilo “observador” ao grupo.
    O Mexia é arrastado para não destoar sendo, contudo, o que mais tenta fundamentar racionalmente a discussão e até, às vezes, chega a ser didático.
    Os media da escrita e imagem caminham para este género de fulanização da política à procura do cliente mas cada vez mais não tem clientes.
    Os clientes, leitores de jornais à procura de serem esclarecidos, já não se deixam enganar por governos sombra e menos ainda por sombras apenas.

  2. isso é circo, não é populismo (seja lá o que isso for, ainda não ouvi nem li qualquer definição com pés e cabeça, parece um conceito a modos do ” estruturalismo”, muito vago e difuso, serve para tudo e mais um par de botas).

  3. Ora porra!
    Então a imprensa portuguesa é
    que é a imprensa portuguesa?
    Então é esta merda que temos
    que beber com os olhos?
    Filhos da puta! Não, que nem
    há puta que os pariu.

    Álvaro de Campo (eng. naval)

  4. O que não há ainda em Portugal é um partido populista do tipo dos que vão povoando a Europa, da Holanda à Hungria, passando pela Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Suécia, etc., todos, aliás, partidos de direita ou extrema direita. Mas a pulsão populista existe e cresce também em Portugal, na imprensa, na televisão, nas redes sociais, em geral fora dos partidos, mas também dentro deles, como no PSD, onde está em curso uma revolta com ingredientes mais ou menos característicos do populismo de direita. Primeiro foi o Santana, tentando a cisão, agora é o fascistóide Ventura, que declara querer derrubar o líder eleito há meses.

  5. O populismo faz a politica o que a cena Pop fez ao amor (love is just a four letter word), esvazia o conteudo, as diferenças e principalmente o sentido (a violaçao na discoteca não é mera ironia) torna tudo igual através de uma leitura unilateral conspirativa, “existe uma elite que nos rouba e a solução é a sua aniquilação através daa ascensão ao poder de um ser/instituição providencial” . Como e tudo igual, funciona como uma auto-propaganda que se doutrina com as suas próprias ideias.

  6. Alves, parece-me que confundes popularidade com populismo. Marcelo é popular, mas não tem nada de populista, além da mera busca da popularidade. Onde é que está nele o discurso anti-política, anti-partidos e anti-elite, principais características do populismo? Quando é que ele defendeu que o povo é que é bom e puro e que as elites são bandos de malfeitores e corruptos? Quando é que o ouviste atacar a classe política ou os políticos profissionais? Onde é que ele fez a defesa do autoritarismo ou tentou passar por um messias salvador? Quando é que o viste a tentar puxar pelo pior que o “povo” tem – a xenofobia, os instintos primários, a inveja dos ricos, os ódios sectários? Quando é que ele fez cruzadas pela virtude ou pela moralização dos costumes?

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