És tão bronco, Monteiro

«Um dos mais extraordinários fenómenos presentes é o mimetismo da linguagem da Comunicação Social em relação à de forças políticas e institucionais. Foi assim que uma votação coincidente de CDS, PSD, PCP e Bloco a favor do diálogo com os professores foi anunciada como coligação negativa. Curiosamente, um Governo do PS, apoiado pelo PCP e BE contra os vencedores das últimas eleições, não se considera uma aliança negativa. A conclusão, subliminar, é que o positivo apenas existe quando o PS participa.»


Henrique Monteiro

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Eis um pândego que não se limita a confundir a estrada da Beira com a beira da estrada, é contumaz na bronquite crónica de achar que PSD e CDS poderiam ter cumprido esta legislatura no Governo com menos deputados do que PS, PCP e BE. Como teria sido, como é que os gloriosos “vencedores” iriam impor o triunfo da sua vontade? Nem ele sabe nem os deuses, mas teria sido lindo pois os direitolas ficariam obrigados a cumprir os projectos de lei da esquerdalha durante 4 anos. Ou talvez não seja tão bronco assim, talvez se limite a ser bronco assado. O facto de o Parlamento ter encontrado – no mais puro e inaudito respeito pela Constituição e pelo espírito de Abril – uma solução de Governo que permitiu chegar ao fim da legislatura com um dos mais eficazes e populares exercícios executivos de que há memória em democracia é o que deixa o bronco com um agudo ataque de azia.

Esta direita identificada pelo discurso do ressentimento é a direita da impotência intelectual e comunitária, a direita da decadência. Durante décadas, usufruíram de um desequilíbrio no sistema partidário que impedia a formação de meros acordos à esquerda, quanto mais coligações eleitorais ou parlamentares (excepção para a política autárquica). Comunistas, primeiro, e bloquistas, até 2015, tudo fizeram para prejudicar o PS e ajudar a direita. Com isso, essa esquerda preferiu o fanatismo e sectarismo ao interesse nacional e ao genuíno e óbvio interesse dos eleitores que representavam. Como se viu no chumbo do PEC IV – e a cada dia que passa nesta legislatura é mais cristalina essa realidade até para os ceguetas que não quiseram ver – teria sido sempre possível chegar a acordo com os socialistas com o resultado prático de se puxar o PS para a esquerda sem que tal o levasse a sair do centro onde tem de ficar. Por que é que não se tentou antes o que em 2015 foi concretizado com as consequências que nacional e internacionalmente se reconhecem e valorizam? Porque a cultura tribalista do PCP não concebia outra alternativa à sua clandestinidade antropológica que não fosse a capitulação do imperialismo e do grande capital; ou seja, comuna bom era aquele que abdicava da democracia em nome dos amanhãs que apenas cantam, da revolução científica de que se consideravam proprietários monopolistas. O mesmo desfecho para o BE comandado pelo general Louçã, o qual numa madrugada em Setembro de 2009 apareceu embriagado de felicidade extasiante a anunciar a nova era da “esquerda grande” em que iria conseguir decapitar o PS e levar a sua cabeça podre à Soeiro Pereira Gomes numa bandeja. Menos de dois anos depois, o mesmo genial estratega estava a levantar-se ao lado dos deputados do PSD e do CDS para afundar Portugal e deixar entrar os carrascos da austeridade salvífica.

Henrique Monteiro acha que o acto soberano de legitimar na Assembleia da República um Governo está ao mesmo nível de votações parlamentares avulsas, tacticamente volúveis e oportunistas. Para ele, e foi a sua única motivação para encher o chouriço no Expresso, a mensagem a passar é a de que o actual Governo é “negativo” dado ter corrido com o “positivo” Passos Coelho – o qual, depois de 4 anos a castigar os madraços, os estroinas e os piegas que viviam numa zona de conforto bem acima das suas possibilidades, foi nas últimas legislativas o grande conquistador da minoria absoluta.

11 thoughts on “És tão bronco, Monteiro”

  1. Louçã a levantar-se ao lado dos deputados do PSD e do CDS (e os do PCP fizeram o mesmo) é facto que volta não volta é aqui invocado numa perspetiva ideológica do único que vê a História “como deve ser”. Os deputados do PS a levantarem-se ao lado dos deputados do PSD e do CDS inúmeras vezes anteriormente já não é facto que mereça análise crítica.
    “Teria sido sempre possível chegar a acordo com os socialistas com o resultado prático de se puxar o PS para a esquerda sem que tal o levasse a sair do centro onde tem de ficar. Por que é que não se tentou antes o que em 2015 foi concretizado […]? ” Não teria não senhor, e é preciso saber porquê. Foi-o em 2015 e sabemos porquê.

  2. “Louçã a levantar-se ao lado dos deputados do PSD e do CDS (e os do PCP fizeram o mesmo)…”

    Custa a engolir, custa, dadas as consequências que daí resultaram: queda do governo PS, eleições, governação PSD/CDS, troika, etc. Na minha perspectiva ideológica isto na verdade não devia acontecer. a esquerda radical a unir-se à direita para derrubar a esquerda, só esquerda, a socialista.

  3. É demasiado evidente que este tipo que escreve sob pseudónimo pertence ao aparelho do PS. Porque só os aparelhistas têm este tipo de discurso caracterizado pela cegueira partidária e defesa fanática dos seus queridos líderes, e isto depois de se saber que o “líder que a direita sempre quis ter” não passava de um impostor ideológico que apenas pensava em governar-se a si próprio (e ao seu santo amigo).
    As “análises” políticas deste pseudónimo lembram as “análises” e discussões futebolísticas daqueles broncos do Benfica, Porto ou Sporting, onde não há qualquer objectividade, imparcialidade ou espírito crítico, mas apenas fanatismo e incapacidade para reconhecer a justiça, ou não, dos resultados dos jogos. De facto, para este pseudónimo a natureza e consequências das políticas económicas, sociais, laborais, etc, adoptadas é irrelevante, pois desde que o PS seja o partido do governo não há qualquer razão para criticar ou contestar a “bondade” ou a “justiça” de tais medidas.
    Dentro desta mesma “lógica” aparelhista deste imbecil autocrático, o PCP e/ou o BE só existiriam para garantirem a governação e o poder do PS, ou então para prejudicarem o PS e ajudarem a direita, pouco interessando ao mesmo imbecil se o PS e as suas políticas financeiras e económicas pouco ou nada se distinguem das políticas de direita e do Passos, o que tornaria o PS na melhor e na maior ajuda que a direita poderia querer (pois até conseguiu calar e anestesiar a esquerda que só existe para atacar o PS).
    Enfim, para este bronco aparelhista o PCP e o BE deviam ter apoiado o impostor, a sua austeridade e os seus cortes pré e pós-crise, agindo contra os interesses dos seus eleitores, mas em nome do interesse nacional que era continuar a ser governado por aqueles que só se lembraram do que interessa à esquerda quando ficaram sem o poder. Típico da carneirada que pensa que o pensamento e a acção política se reduzem aos interesses do aparelho a que pertencem.

  4. O acordo entre o PS e o PCP antes de 2015 nunca se fez por razões partidárias, do PS partido de governo e do PCP partido de protesto. Responsabilidades repartidas, já não interessa se mais de um lado do que do outro. Cada um terá a sua opinião, diferentes uma da outra, sem dúvida.
    O acordo concretizou-se em 2015, porque o interesse sobre o país se tornou prioritário. O PS, que continuou a ser um partido de governo, deu um passo atrás e estendeu a mão, e o PCP, sem deixar de ser um partido de protesto, deu um passo à frente e estendeu a sua.
    Oxalá ambos continuem a pôr o interesse do país à frente dos seus próprios interesses partidários, ideológicos ou não.

  5. No que me diz respeito, nunca dialogo com indivíduos insultuosos incapazes de se exprimirem com educação. Como alguém um dia avisou: Nunca discutir com um porco!

  6. Olha, não é que o bronco do Monteiro respondeu?
    E descreveu-se quase na perfeição, o “lambe cús” do Balsemão.
    Rimou e é verdade.

  7. A vítima que foi torturada pelo malévolo Sócrates com uns beliscões nas nadegas,
    conforme pungente deposição na comissão de inquérito ao caso PT/TVI onde se
    apurava sobre a verdade do malévolo ter ou não encomendado a compra da esta-
    ção de televisão … só para calar a bocas que passava a vida a atacá-lo!
    Dizia que, não merece a pena perder tempo com semelhante profissional do mal
    dizer sustentado pelo militante nº1 do PDS, até porque, ele tão pouco se consegue
    ver ao espelho para se barbear mantendo aquela ar aporcalhado para fazer realçar
    o seu riso de hiena faminta!!!

  8. O Monteiro esquece que, no início, a coligação ps/pcp/bloco foi considerada ilegítima pelos mesmos que, agora, denunciam a “coligação negativa”. Mas quase acerta na conclusão: para quem manda nos jornais e televisões, neste momento, só o ps é positivo. A campanha para a maioria absoluta já começou.

  9. Para mim, esse bronco será sempre o director do Expresso que em 2009 recusou publicar o email que revelava a ignóbil conspirata do Cavaco, do Lima, do Fernandes e do Alvarez para fabricar a notícia de que a presidência estava a ser espiada pelo governo. A posterior publicação desse email pelo DN expôs à luz do dia o reles jornalismo do Público, que ajudara o reles Cavaco a espalhar a reles atoarda das escutas de Belém pelo governo.

    Porque a memória é curta, aqui fica mais uma vez o histórico email que o bronco Monteiro recusou publicar (com os erros ortográficos originais).

    De: Luciano Alvarez
    Enviado: quarta-feira, 23 de Abril de 2008 14:18
    Para: José Tolentino Nóbrega
    Assunto: Lê

    Caro Tolentino
    Vou fazer esta conversa por e-mail e não por telefone porque a situação é tão grave que é melhor não correr riscos de ser escutado. Como verás mais à frentenem os homens do Presidente da República arriscam a falar dela por telefone. Pode ser paranóia da parte deles, mas a verdade é que é melhor não correr riscos.

    Primeira advertência: lê este mail sentado.
    Secunda advertência: a história não vai ser fácil de fazer, mas se a conseguir-mos pode ser a bomba atómica.

    Vamos por partes

    1- Na noite de terça-feira o Fernando Lima, do PR, telefonou-me a dizer queprecisava de falar comigo hoje de manhã num local discreto. Encontramo-nos hoje às 9 h da manhã num café discreto na avenida de Roma e foi logo direito ao assunto, estava ali a falar comigo a pedido do presidente da república, que o assunto era grave e que tinha escolhido escolhido falar comigo porque me achava um jornalista séria (isto seria a dar-me graxa) e porque o acha a presidência da república que o PÚBLICO é o único jornal português que não está vendido ao poder.

    2- O assunto era o seguinte (estás sentado?): o presidente da república acha queo gabinete do primeiro-ministro o anda espiar e que a prova grande disso tinha sido dada na Madeira onde o primeiro-ministro tinha enviado um tipo que trabalha para o MAI só para espiar os passos do Presidente e dos homens do seu gabinete. (mesmo que seja mentira o que não passe de uma paranóia do PR estás a ver a gravidade do facto do o presidente pensar que o PM o anda a espiar). Está a ver como estarão as relações entre eles e a opinião que o PR tem do PM)

    3- Depois entregou-me um dossier sobre um Rui Paulo da Silva Figueiredo que é adjunto jurídico do PM, trabalha para o MAI, já passou pelos gabinetes de diversos ministro e, segundo o Fernando Lima, terá tentado entrar para o SIS mas chumbou.

    4- Este tal Rui Paulo acompanhou a visita do PR, não se sabe como e e segundo o Lima “procurou observar”, o mais por dentro possível, os passos da visita do Presidente e o modo de funcionamento interno do satff presidencial”. Ao satff do PR terá percebido isso bastante cedo e redobrou os cuidados.

    5- Estou a contactar-te porque esta história, que pode ser uma bomba ou não dar em nada, tem de começar pela Madeira com todo o cuidado e porque sei que posso contar com a tua discrição e habitual profissionalismo (isto não é graxa).

    6- O Lima garantiu-me que Esta tal Rui Paulo foi colocado na mesa dos assessores do PR no jantar oferecido pelo Representante da República no Palácio da São Lourenço e foi também convidado para o jantar que o Jardim ofereceu no último dia na Quinta da Velga. Isto é verdade e facilmente confirmável.

    7- O Lima sugere e eu acho bem duas perguntas para inicio do trabalho (até porque a eles também lhe interessa que isto começa na Madeira para não parecer que foi Belém que passou esta informação , mas sim alguém ligado ao Jardim)

    8- Perguntas sugeridas pelo Lima: Perguntar à dr. Helena Borges, chefe do gabinete do representante da república se o conhece e se é verdade que, no jantar oferecido pelo representante no Palácio de São Lourenço ele ficou na mesa dos assessores do PR (a gente já sabe que é verdade mas vamos fingir que não sabemos) e Porque ficou ele neste mesa sem antes ser dado conhecimento ao staff do PR. 2 Pergunta: Perguntar a Paulo pereira, responsável pela informação do gabinete do Jardim, em que qualidade o tal Rui Paulo foi convidado para o jantar que Jardim ofereceu no último dia na Quinta de Veiga.

    9- Agora digo eu: quem meteu este tipo na visita e em que comitiva é que ele entrou.

    10- Como já te disse isto tudo pode ser paranóia dos do PR e do Lima, mas, mesmo sendo paranóia, não deixe de ser grave que o PR pense isto e que ande a passar a informação ao PÚBLICO manifestando uma grande vontade de a história vir ao público (estás a ver a bronca). Acho também que se nós conseguirmos que houve um tipo do MAI e do gabinete do PM metido à sucapa na visita do PR já é um inicio da história.

    11- O Lima sugeriu-me que tratasse com ele (Lima) desta história por e-mail porque estão com medo das escutas.

    12- Esta história só é do conhecimento do PR, do Lima, minha, do Zé Manuel Fernandes (que me pediu para não a contar a ninguém por enquento, mas que eu tenho que ta contar para tu te pores em campo com o conhecimento total do que estamos a falar). Peço-te por isso toda a discrição.

    13- O Lima passou-me um dossier completo sobre este Rui Paulo.

    14- Eu estou de folga, vim só ao jornal tratar disto e vou para casa. Estou sem computador em casa (a minha mulher levou-mo para o trabalho). Quando acabares de ler o e-mail pudemos falar por telefone.

    Um abraço e vai-te a eles

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