E uma democracia de pulhas, queremos ser?

Em Portugal, a tentativa mais séria de subverter o funcionamento da democracia liberal através de um “processo incremental” para controlar todos os poderes que fazem os contrapesos democráticos necessários foi durante os governos de José Sócrates - isto é uma opinião controversa, mas só por si o tema dava um livro. Por tudo isto é que me faz pele de galinha quando oiço políticos a fazerem ataques, no mesmo pacote discursivo, à imprensa, aos jornalistas, ou aos agentes da justiça. Não queremos ser uma “democracia de zombies…”, pois não?

Vítor Matos, 27 de Janeiro de 2020

*_*

Não se trata de engano. O dia corresponde no calendário a 27 de Janeiro de 2020, mais de cinco anos depois de Sócrates ter sido detido e preso, mais de oito anos depois de Sócrates ter saído da governação, quase quinze anos depois de o PS ter obtido a única maioria absoluta, mais de trinta e dois anos após o início plenipotenciário do Cavaquistão. E aqui temos o editor de política do Expresso, num espaço editorial, a enfiar Sócrates e o PS na lista das ameaças mundiais à “democracia liberal”. Justiça lhe seja feita, não está sozinho. No circo mediático profissional e na esfera política à direita, a mesmíssima atoarda aparece regular e sistematicamente. Trata-se, na verdade, da principal fonte energética e motivacional de uma multidão de derrotados, ressabiados e decadentes: Sócrates e a atracção do seu fascínio para um direitola que se limita a ver a caravana passar.

O bigodudo guardião do Ocidente livre de socialistas considera, sapiente, que “o tema dava um livro“. No que estará a ser modesto, pois facilmente se percebe como o tema dá um franchising de bibliotecas, bastando algum maduro começar a recolher os textos e as declarações em que se repetiu a alucinada bacorada – tranquilamente uma das mais estúpidas teorias da conspiração que circulam actualmente. Esse delírio implica usar os neurónios de forma tão misteriosa que se torna possível conceber o desaparecimento da “democracia liberal” entre 2005 e 2011 por nunca antes vistas manigâncias de um fulano, seus três ou quatro comparsas e, claro, de um certo partido. Existir, durante esse mesmo período, uma comunicação social monopolisticamente opositora, deputados da oposição em exercício sem limitações de direitos, um Ministério Público onde o seu sindicato perseguia politicamente o Governo, tribunais em funcionamento sem qualquer perda de autoridade e de novo um corpo sindical opositor e persecutório, polícias em acção tão completamente livre que até espiaram ilegalmente um primeiro-ministro em funções e, last but not least, na chefia do Estado um Presidente da República da direita mais rancorosa, a que ainda se soma a oligarquia nacional furibunda alimentando o golpismo, tal não entra nas versões bolçadas pelos evangelistas da diabolização de Sócrates. É que o alvo tem de ser declarado um monstro se o plano for o de derrubá-lo e castigá-lo recorrendo a monstruosa violência. É simples e arcano.

Este Vítor não está a escrever o tão importante livro contra os zombies, nem o fará. Ele abdica da fama internacional e de uma carreira milionária como paladino da liberdade. Sim, seria canja o nosso bravo jornalista explicar, demonstrar, ilustrar e enfiar em trezentas páginas como se deu esse assustador «“processo incremental” para controlar todos os poderes que fazem os contrapesos democráticos» a partir de um gabinete em S. Bento, posto que estamos perante evidências, verdades e, acima e antes de tudo, factos cristalinos. É perguntar a qualquer taxista ou leitor do esgoto a céu aberto, ou então à RTP. Infelizmente, o Sr. Matos prefere deixar a sua marca no século através destas cirúrgicas e sibilinas declarações que acima cito. A facção para quem discursa sabe de ginjeira do que ele está a falar, fiquemos descansados.

Ter um jornalista, com o cargo de editor de política, e numa instituição decana da imprensa hebdomadária, a encher secretamente o bestunto com este tipo de fantasias sórdidas e degradadas já seria preocupante. Ter o mesmo fulano a dar-lhe privadamente voz no seu círculo de relações pessoais já seria grave. Ver o passarão a usar o órgão profissional que lhe dá poder social e político para difundir a toda a extensão da audiência a sua mirabolante calúnia leva-nos em salto quântico para outro campeonato. Isto é equivalente a tomarmos conhecimento de que o nosso médico de família consulta o Professor Karamba quando tem dúvidas sobre a terapia a aplicar a um paciente. Às tantas, o Professor Karamba até acerta ou pior não fica, mas as consultas com o nosso médico de família não voltariam a ser as mesmas depois de se adquirir essa informação. Donde, só com a anuência do militante nº 1 do PSD e do genial mano Costa é possível manter um taralhouco deste calibre na lista de pagamentos.

Quando se vê o Parlamento a tremer de medo do chungoso do Chega, convém lembrar que esse artista se limita a praticar o que aprendeu no PSD de Passos Coelho e nessa direita decadente que domina a comunicação social. Na sua miséria moral, tem o mérito de expor os pulhas mal-habituados a não terem concorrência.

5 thoughts on “E uma democracia de pulhas, queremos ser?”

  1. O caso deste escriba é simples de ver, trata-se de mais um dos que ficaram
    contaminados com a teoria da asfixia democrática apregoada pelo grande
    pequeno tribuno do PE conhecido com prof dr Klaustrófobo Rangel para
    os amigos o “pézinhos de garrafão” que, passou pela adega da Marmeleira
    e inspirou os gazes do pensamento do mestre historiador prontos!!!

  2. Confesso que se há coisa que me dá bué de tusa é a adopção por estes sipaios deslumbrados da Tugalândia da designação “democracia liberal”, abundantemente salivada e copy pastada do maravilhoso patuá dos seus heróis do lado de lá do Atlântico. É moda que não afecta, aliás, apenas a criadagem tuga, sempre aos pulinhos e em bicos dos pés, afogada em complexos de inferioridade, esticando pateticamente os pescocinhos para parecer gente. É praga que toda a criadagem europêidica adoptou sôfrega e pateticamente, emulando a fantástica América que toma como modelo. É uma pandemia, tão infecciosa como o coronavírus de Wuhan. Em vias de extinção estão os antiquados e lamentáveis fósseis que teimam em formulações como “democracia parlamentar”, “representativa”, “burguesa” ou outro arcaísmo qualquer. Pobres démodés, que cheiro a ranço, caraças!

    Que importa que essa alegada “América de sucesso” e de gente bem-sucedida que os põe a salivar seja ao mesmo tempo a América de milhões de desgraçados abaixo do nível mínimo de pobreza, de milhões para quem o futuro é uma absoluta incerteza, de multidões para quem a possibilidade do resto de vida debaixo de uma ponte é pesadelo a assombrar noites sem fim? Ou a América da dívida de triliões, das 800 bases militares espalhadas pelo planeta ou da indústria de armamento que fomenta e depende de guerras como o heroinómano do chuto prà veia? E também a América do saudoso deporter-in-chief Bará Kobama, da wannabe psychopath-in-chief Killary Klingon ou do actual e boçal moron-in-chief e inquilino da Casa Preta, face sem máscaras nem maquilhagem de (quase) todos os bem disfarçados heróis e guardiães da “democracia liberal” que o antecederam na palhota? A mesma América que não hesita em partir as pernas a um Bernie Sanders ou uma Tulsi Gabbard e não olha a meios para substituir o moron-in-chief por um corrupto sem vergonha na cara e senil.

    Mas o tesão que me dá, senhoras e senhores, meninas e meninos, cães e gatos, palhaças e palhaços! Receio mesmo entrar em escalada de priapismo crónico, seguida de alva e líquida avalanche que desembocará em inevitável e funesto peido final. Adeus, mundo cruel!

  3. A crise de identidade e de valores da podre Direita nacional é directamente proporcional à sua raiva por ter perdido o controle total do poder (guverno, prezidento, máioria, jornalada e justissa) e, pior ainda, por ter perdido, por muitos e bons, a credibilidade da sua lenga-lenga aldrabona! Isto é o que eles menos perdoam a eles próprios, que se ufanavam de intrujar os “toscos” a seu bel-prazer, e o que mais os poderá induzir a recorrer de novo à VIOLÊNCIA e à BRUTALIDADE para acabarem com a puta da Democracia. Como já acontece no Brasil, na Bolívia, na Hungria e só não aconteceu ainda na Venezuela, no Chile e na Argentina porque os Povos destes Países agora estão alerta.
    Cá pelo burgo, por este andar ainda vamos ver alguns destes “jovens turcos”, daqui por uns dez anos, enforcados pelas patas em alguma praça pública, como aconteceu ao furibundo Mussolini, que também começou por querer “purificar” a Itália.
    Só que, até serem enforcados, esses animais conseguem sempre espalhar miséria e desgraça por todos os lados e fazer sofrer milhares ou milhões de inocentes.
    Por isso, mantenhamos a guarda, sem tréguas, contra esta eterna canalha.

  4. Já ninguém liga peva aos escribas do espesso.

    Escrevem apenas para uma plateia arroxeada de eunucos senis, como o seu patrão.

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