É bom ter memória, lembra um amnésico

José Manuel Fernandes quis dizer coisas a seu respeito usando como desculpa Jorge Silva Carvalho. Nada contra, o narcisismo é uma prerrogativa da condição humana, especialmente se calha estarmos convencidos de que nos estão a dar atenção. De caminho, aproveita para continuar a malhar em Sócrates, actividade que o faz sentir vivo (ou um bocadinho menos mortiço), com estas sui generis recordações:

É também bom ter memória no que respeita à Ongoing, uma empresa que agora todos colocam no pelourinho, incluindo muitos dos que a defenderam quando ela participou na vergonhosa tentativa de compra e controlo da TVI.

[…]

Este mesmo jornal publicou, há tempos, uma excelente investigação de Cristina Ferreira sobre a teia de interesses e ligações daquela empresa onde ficava muito claro como ela tinha sido instrumental e servil (até uma zanga no Verão de 2010) relativamente ao anterior poder político. É isto alguma novidade? Não devia ser. Eu próprio denunciei essas ligações e essas práticas durante uma audição na Comissão de Ética da Assembleia no início de 2010. Muitos dos “indignados” de hoje também se indignaram nessa altura, mas comigo. É esta memória que nos permite estar alerta, pois empresas deste tipo não agem por ideologia, actuam antes em função dos seus interesses e do poder do momento. Há mais do género no sector da comunicação social, todos o sabemos. Tal como sabemos que estamos a pagar caro a condescendência com que encarámos as manobras de 2009, como já sublinhou Pedro Lomba neste jornal.

Pois sim, é muito bom ter memória. Podemos começar por recordar que aquando da entrada da Prisa na TVI, em Julho de 2005, Marques Mendes, então presidente do PSD, soltou logo boca fora a inevitável suspeição: vinham aí socialistas espanhóis para comprarem um canal de televisão que, portanto, passaria a estar a mando dos socialistas portugueses. Seria algo inaceitável, pois em Portugal só o laranjal é que podia ter uma TV ao serviço da sua agenda, pelo que a São Caetano ficou em polvorosa. O PSD voltou a soltar os cães em 2007 quando Pina Moura entra na Administração da Media Capital, denunciando que o ex-ministro socialista iria controlar politicamente a TVI para favorecer Sócrates. Sim, estamos a falar do Pina Moura. Pina Moura. Entretanto, Moniz continuava a mandar na barraca e vestígios de cor-de-rosa nem nas cuecas dos jornalistas de Queluz quanto mais no alinhamento editorial. Chegamos a 2008 e Moura Guedes toma conta do Jornal de Sexta, um espaço que viria a tornar-se poucos meses depois num veículo de exploração do caso Freeport com recurso ao mais difamante e calunioso sensacionalismo que esse albergue espanhol de fanáticos foi capaz de bolçar. A Prisa dos socialistas espanhóis detinha agora um dos mais poderosos meios de desgaste dos socialistas portugueses e estava a gostar do resultado, pois o regabofe durou enquanto durou a munição. Aliás, até sem munição continuou a causar estragos, dado que a decisão da sua interrupção foi tomada em cima do período de campanha eleitoral de 2009, tornando-se mais uma arma de arremesso contra o PS depois de um ano inteiro de chungaria e veneno contra Sócrates e família. Mas antes tivemos o bacanal das escutas no caso Face Oculta, cujos conteúdos de imediato apareceram na estratégia do PSD e na imprensa. É com base nelas que se falou, fala e para sempre falará num negócio que nunca existiu, que a existir não se faz a menor ideia a que levaria na linha editorial da TVI, mas que precisamente por estar no campo das supostas intenções de alguém pintado como super-corrupto permitia a diabolização selvagem daqueles cuja privacidade tinha sido violada pela Judiciária a mando de magistrados de Aveiro – os tais que viriam a tentar criminalizar um primeiro-ministro recorrendo a argumentação considerada ilegítima pelo Procurador-Geral da República, pelo Presidente do Supremo e pelo Tribunal Constitucional. Ah, a Ongoing acabou mesmo por comprar a TVI à depauperada Prisa, mas com esta suprema ironia: José Eduardo Moniz foi para vice-presidente do novo patrão. Portanto, e de acordo com as inatacáveis ilações do probo Fernandes, Moniz, alguém que perseguiu Sócrates com ferocidade sanguinolenta, também foi instrumental e servil para esse mesmo Sócrates até ao Verão de 2010. E só deixou de ser por causa de uma misteriosa zanga entre a Ongoing e o Governo de então, revela quem sabe e só conta o que lhe apetece. Genial, seja lá qual for o ponto de vista de análise da chicana.

O Zé Manel não se lembra desta parte da história, a sua memória é altamente selectiva. Ele até recorda, agarrado a outro pretoriano de seu nome Pedro Lomba, que a festança de calúnias e exploração política feita a partir de Junho de 2009 pelo PSD, CDS, BE e PCP não passou de uma condescendência perante algo que, se fosse tratado como devia ser, levaria Sócrates, Vara e Rui Pedro Soares para a merecida degola no Terreiro do Paço. Eis a alta eficácia de umas escutas à maneira, onde qualquer tentativa de defesa das vítimas só agrava a percepção de ilícito criminal ou moral; e talvez também assim se explique por que razão só aparecem socialistas em tais embaraços, jamais a gente séria.

O Zé Manel igualmente não se lembra do seu papel no lançamento de uma manobra de perversão eleitoral nunca antes vista em Portugal, onde a Casa Civil da Presidência da República encomenda uma notícia falsa que gera alarme social e calunia um Governo e um partido com a finalidade de os derrotar nas urnas. Como não se lembra, o nosso agente Público não está em condições de avaliar os seus actos e partilhar com os leitores o que pensa da sua íntegra e exemplar pessoa. Será essa uma daquelas situações em que é bom ter falta de memória, lembrar-se-á quem não for amnésico.

7 thoughts on “É bom ter memória, lembra um amnésico”

  1. entretanto, a jornalista que teve a infelicidade de querer fazer o seu trabalho (mas cruzando-se com a máfia) demitiu-se e o pedido foi aceite na hora (no minuto,, com grande alívio da direcção do jornal). O exemplo e aviso está dado não só aos jornalistas do Público, como aos demais. Não percebo os comentários de gente chocada com o estado da (não) democracia na Madeira. E a Madeira aqui tão perto.

  2. Que esperar de um radical esquerdista, como o zé manel, que tornou um agente da direita reaccionária?
    Talvez seja oportuno começar a analisar se o caso das secretas não se iniciou quando o F.Lima entregou “um dossier” sobre o assessor de José Socrates, Paulo de Figueiredo, implicado como pseudo espião do então Primeiro Ministro. Quem elaborou esse dossier? O que continha ele? Talvez fosse útil perguntar ao zé manel, onde está o dossier e o que continha. Julgo que nunca ninguém questionou o zé manel pelo seu papel no sórdido caso das pseudo escutas.
    Eu não acredito em bruxas, mas que as há , há.
    Toda a campanha contra Socrates, desde 2005, parece feita por profissionais, seja eles travestidos de jornalistas, ou de outra profissão qualquer, por exemplo, assessor da casa civil.

  3. E, caro Val, convém não esquecer aquele deputado do PSD (já não me lembro do nome) que, na comissão parlamentar do cso PT/TVI, perguntou com ar de inocente ao Vasconellos (com dois l) para lhe explicar o que era isso da Ongoing que ele não conhecia…uns meses depois foi para lá “trabalhar”.
    Curiosidades.
    Cumprimentos

  4. A “Prisa dos socialistas espanhóis” é outra imbecilidade do Marques Mendes e da Ferreira Leite. Todos os jornais, canais e rádios espanhóis do grupo Prisa fizeram campanha contra o governo Zapatero, por este não lhes ter dado tratamento de favor na atribuição de canais de TV terrestre. Exactamente como aqui na campanha contra Sócrates do pasquim de Belmiro e Zé Manel Fernandes, por o governo não ter dado o rabinho à Sonaecom na OPA sobre a PT (basicamente, o Belmiro queria empochar os ganhos da venda à espanhola Telefónica da participação da PT na Vivo e, com isso, recuperar boa parte da massa investida na OPA sobre a PT, mas fodeu-se: os ganhos foram para a PT e para o seus accionistas).

  5. Não é má ideia perguntar ao mixordeiro do Zé Manel onde está o dossier que Belém obteve (se não do Silva Carvalho, então de quem?) sobre Rui Paulo Figueiredo e depois passou ao Público. Mas o melhor seria perguntar isso directamente ao Cavaco ou ao Lima.

    Se eu fosse jornalista, apanhava o Cavaco numa dessas cagadas de propaganda em que ele aparece diariamente e perguntava-lhe de chofre:

    QUEM FEZ O DOSSIER SOBRE RUI PAULO FIGUEIREDO QUE ESTAVA EM BELÉM EM 2009 E O ASSESSOR DE IMPRENSA FERNANDO LIMA ENTREGOU AO ZÉ MANEL FERNANDES?

    Eu apostaria que o Silva Carvalho esteve metido na história marada das escutas de Belém. Só não sei é se já trabalhava em ligação com o Relvas nessa época.

  6. Júllio, ora lê lá o meu comento acima: nem todos os jornalistas estão na disposição de ver a sua carreira queimada e passarem à classe de desempregado de longa duração…

  7. Júlio, não sabes “se já trabalhava em ligação com o Relvas nessa época”? Mas então ignoras que o tele-móvel do Relvas recebe do éter (pura alquimia?) mensagens “SMS” do super-espião pelo menos desde que o Jorge Buxo foi apanhar Sol para Acapulco, em 2007? Ora faz lá as continhas…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.