Democracia anedótica

[...] Cavaco Silva não distingue as suas funções entre chefe de um estado e as do simples cidadão que se ofende com as críticas e deixa de falar a quem o destratou. O Cavaco cidadão tem o direito de virar as costas a todos os portugueses que dizem mal dele (que, a avaliar pelas sondagens, já são mais que muitos). O Cavaco Presidente da República tem uma instituição a servir e o Estado a representar. Ao recusar emitir o tradicional comunicado oficial (repetido cada vez que qualquer português ganha um prémio de relevo), Cavaco Silva demonstra que não é um institucionalista, como não foi institucionalista ao faltar ao funeral de Saramago, como não foi institucionalista ao fazer uma comunicação ao país em horário nobre sobre as anedóticas “escutas de Belém”. [...]


Ana Sá Lopes

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Qual é a influência de um jornal? Qual é a influência do i? E qual é a influência da opinião da sua directora? Na ausência de qualquer métrica conhecida a respeito, a resposta tende para o zero neste afunilamento. O que Ana Só Lopes escreve terá um poder de influência residual, seja qual for o critério. Ao mesmo tempo, uma mensagem veiculada num jornal, mesmo que seja o i, e mesmo que seja assinada por Ana Sá Lopes, tem alguma e incontornável importância. Nem que seja tão-só a de ser amostra sociológica.

Ana Sá Lopes é de esquerda. Não faço ideia se o rótulo adequado a essa esquerda é “radical”, “extrema”, “verdadeira”, “pura”, “idealista”, “esquerda da esquerda”, “esquerda que acha que o PS é de direita” ou “esquerda que também odeia o Sócrates”. Provavelmente, terá um outro nome que a minha ignorância mantém à distância. Mas lá que é de esquerda, uma esquerda intelectualmente robusta e opinativa, isso é factual. Ora.

Pois. Então, repare-se como a Inventona de Belém é tratada como um episódio anedótico. A 1 mês de umas eleições legislativas, e a 2 de umas eleições autárquicas, é lançada por um jornal de referência a suspeita de que o Governo de Sócrates espiava o Presidente da República e a Casa Civil. Esta notícia surgia na sequência de uma prolongada e furiosa campanha de difamações, calúnias e assassinato de carácter cujos alvos eram Sócrates e qualquer um que tivesse proximidade política ou familiar com ele. Conferindo-lhe toda a credibilidade, na sequência da publicação das suspeitas não é emitido qualquer desmentido por parte da Presidência da República. Pelo contrário, o silêncio de Cavaco leva a máquina das campanhas negras a explorar quanto e como pode a situação. Até uma amiba percebe o que está a acontecer: o resultado das eleições vai reflectir o alarme público gerado, e mantido, pela Casa Civil em conluio com o Zé Manel.

Ana Sá Lopes, ao reduzir a um devaneio estival inconsequente essa parte da nossa História, a qual se liga directamente com a estratégia que levou esta direita putrefacta para o poder, está a expressar um sentimento de completo desprezo pelo Estado de direito e pela democracia liberal. Mas não está sozinha, longe disso. Qualquer elemento ligado ao PCP e BE repetiria com rigor geométrico a sua posição face ao sucedido. Para estes valentes, ver um Presidente da República conivente, se é que não foi mandante, de um plano para deturpar actos eleitorais é do domínio do risível. Coisas lá deles, da direita, a brincarem uns com os outros enquanto não chega a ditadura do proletariado.

A puta da verdade, porém, continua cristalina: muito deve esta direita a esta esquerda – tanto que sem a cumplicidade de uma a outra não estaria agora a demolir a herança de Abril.

4 thoughts on “Democracia anedótica”

  1. Nem mais. Que esquerda! Mas nem se fale a um comuna ou bloquista que forem eles a levar ao colo esta canalha ao poder absoluto que estão a liquidar Abril. Apesar de todos os seus erros, uma boa parte do PS foi o último reduto a defender a democracia de Abril. O PCP está mais feliz que nunca. Está no seu papel perfeito: protesto pelo protesto, depois de perceber que o comunismo agoniza na China, na Coreia…É dificil classificar o comportamento do PCP para com o país. Dizer que é canalha, é muito pouco. Cumplices activos dos coveiros de Abril, fica-lhe melhor.

  2. Minha querida Maria Abril: que tenhas razões de queixa da esquerda que citas,acho normal. Muitos dos que lá moram, há muitos anos, discordam de opções tomadas em muitos momentos. A democracia tem coisas destas,vence a maioria. E nem sempre a maioria acerta,como sabes,infalível só é o Papa (e o Cavaco,quase sempre). Os erros corrigem-se. Conto contigo nas barricadas onde,sem cedências, levaremos a direita à capitulação. E conto encontrar-te na estrada, onde caminharemos rumo ao socialismo! O dr. Seguro viajará no expresso,tal a ânsia dele em chegar à sociedade sem classes.

  3. A Ana Sá Lopes é uma jornalista com necessidade de
    afirmação, trabalha num jornal pró – direita, por isso
    usa a técnica de “uma no cravo outra na ferradura”!
    Não é novidade que, na comunicação social existem
    muitos profissionais que usam carteira de jornalistas
    mas, actuam por encomenda de quem lhes paga!
    Como está a chegar o fim do Mundial de Futebol hoje,
    aquela espécie de jornal da manha trouxe à colação o
    regresso de Sócrates aos comentários na RTP, até me-
    teu o provedor do espectador um tal Fernandes que,
    apesar de toda a sua insistência, não conseguiu ler o
    contrato estabelecido entre o ex P. Ministro e a RTP!?!
    Claro que, o referido provedor está muito preocupado
    com queixas de várias centenas de milhares de espectadores!
    Já no “DN” lá estava um artigo de opinião do fundador
    do chamado “clube dos pensadores” que, a certa altura
    das suas preocupações com o PS e a luta que lá se passa,
    sugeriu que se devia esquecer José Sócrates e o seu Gover-
    no como património do Partido Socialista ??? Mas, qual é
    o problema??? Eles estão cheios de medo porque será???

  4. A mim o que mais me doi é ver um partido que com tanta heroicidade e martírio lutou contra o fascismo salazarista ser capaz de “objetivamente” (termo de que tanto gostam) se colocar ao lado daqueles contra quem tantos dos seus se sacrificaram.

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